Os dados do diretor da Polícia Judiciária (PJ), Luís Neves, e do ex-presidente do Instituto da Segurança Social (ISS), Rui Fiolhais, são apenas dois exemplos das informações sobre dezenas de polícias, espiões do Serviço de Informações de Segurança (SIS), agentes da Autoridade Tributária ou magistrados do Ministério Público guardados na pen encontrada num cofre no gabinete de Vítor Escária, antigo chefe de gabinete do ex-primeiro-ministro António Costa, segundo apurou o Observador.
A informação contida no dispositivo informático encontrado nas buscas de novembro de 2023, no âmbito da Operação Influencer, foi revelada esta quarta-feira pela revista Sábado e deu origem a um novo inquérito do Ministério Público (MP), por suspeitas da prática dos crimes de violação do segredo de Estado e do sigilo fiscal. Poderá estar ainda em causa um crime de acesso indevido, pelas declarações fiscais à AT e declarações de contribuições à Segurança Social armazenadas na pen.
A pen drive apreendida estava guardada num saco de plástico transparente, dentro de um cofre no gabinete de Vítor Escária, gabinete onde já tinham sido encontrados também cerca de 75 mil euros em dinheiro, guardados em envelopes e numa caixa de uma garrafa de champanhe.
Contactados pelo Observador, os advogados de António Costa e de Vítor Escária, João Lima Cluny e Tiago Rodrigues Bastos, respetivamente, negaram que os seus clientes tivessem conhecimento do conteúdo do suporte informático apreendido. Asseguraram ainda que o ex-primeiro-ministro e o seu antigo chefe de gabinete não foram confrontados pelo MP sobre esta matéria.
A investigação do MP segue a pista de um antigo funcionário da Segurança Social, Marco Aragão, que foi condenado em novembro de 2023 a uma medida de internamento compulsivo pelas ameaças e tentativa de extorsão ao Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa. Marco Aragão tinha enviado uma carta, na qual exigia um milhão de euros ou então acabaria por matar o chefe de Estado, com uma bala dentro do envelope.
No entanto, já em 2020, Marco Aragão tinha sido condenado por factos semelhantes: tinha retirado dados de inúmeras pessoas da base de dados da Segurança Social e tentou extorquir altas individualidades.
O ex-oficial do Exército, a quem foi diagnosticada uma perturbação esquizoafetiva, tinha sido detido pela PJ em 2019 por suspeitas de ter tentado obter pagamentos de meio milhão de euros de figuras como a Procuradora-Geral da República, Lucília Gago, o Diretor Nacional da PJ, Luís Neves, e elementos dos serviços de informações e respetivas famílias. Então, tinha enviado emails para os visados nas suas ameaças.
Caso não houvesse pagamento, revelaria publicamente dados da Segurança Social a que tinha acedido indevidamente. Acabou também condenado nessa altura a uma pena de internamento, por tentativa de extorsão e acesso indevido a dados pessoais agravado, vindo a reincidir posteriormente.
Os dados que tinha na sua posse na altura, segundo adiantou a revista Sábado, são semelhantes àqueles que foram encontrados em novembro de 2023 na pen drive guardada no gabinete de Vítor Escária. Aliás, foi através dos emails enviados que a Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e Criminalidade Tecnológica (UNC3T) conseguiu encontrar então o rasto de Marco Aragão, primeiro até à Segurança Social e depois à sua residência, onde acabaria por se efetivar a detenção.
Contactado pelo Observador, o advogado Nuno Rodrigues Nunes, que representou Marco Aragão no julgamento realizado em 2023 pelas ameaças ao Presidente da República, assegurou não ter sido contactado pelo MP sobre a matéria relacionada com esta pen drive encontrada no gabinete de Vítor Escária.
Não se sabe porque é que a investigação demorou mais de um ano, desde novembro de 2023, depois da apreensão da pen, que terá sido desde logo considerada relevante pelo seu conteúdo, a fazer perícias e a revelar só agora o novo processo que terá por base o que foi encontrado.