A oportunidade que André Ventura tanto pediu não chegou. A vitória que reclamou não foi alcançada, nem sequer a intenção de ficar à frente da AD. Mesmo assim, a noite eleitoral saiu de feição ao Chega: conseguiu um resultado histórico, colou-se ao PS (o que valeu a demissão de Pedro Nuno Santos) e tem nas mãos a possibilidade de dar suporte a um futuro governo de Luís Montenegro. Ventura foi amplamente questionado sobre o tema, atirou para mais tarde, mas não trancou portas.
Para o sonho ser perfeito tinha terminado por volta das dez da noite, quando o Chega se mantinha acima dos socialistas em número de votos e mandatos. Quando na sede se começava a pintar bandeiras e cachecóis e a festejar cada pequena batalha contra o PS. Aos poucos, a distância foi-se dissipando e terminou invertida. Porém, na reta final, nunca um empate foi tão valioso. Até porque a esperança é a última a morrer e o Chega ainda sonha (e pode bem) ultrapassar o PS em número de deputados com os círculos da emigração, onde há um ano conseguiu eleger dois deputados e os socialistas apenas um.
Há um ano, André Ventura dava conta do “fim do bipartidarismo” em Portugal. Apesar de ter ficado distante dos adversários PS e PSD, entrava diretamente na piscina dos grandes e estava mais perto dos que estavam acima do que dos partidos pequenos. Isso serviu de impulso, mesmo quando se considerou que os casos e casinhos que assolaram o Chega podiam prejudicar o partido. As ruas alimentaram a esperança e, perante o resultado desta noite, foi mais longe: “Podemos declarar oficialmente, perante o país todo e com segurança, que acabou o bipartidarismo em Portugal.”
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
A liderança da oposição e a ambição de superar PS
Com pelo menos 58 deputados no Parlamento, e com boas “indicações” do círculo da emigração, André Ventura considerou seguro deixar uma garantia ao país: “Acho que podemos assegurar ao país algo que não acontecia desde 25 de Abril de 1974. O Chega tornou-se o segundo maior partido da nossa democracia.” Da plateia elétrica soltou-se um “já passámos”, que ecoou diversas vezes durante a campanha, e uma resposta ao “não passarão” tantas vezes cantado à esquerda.
E apesar da “grande noite” do Chega — Ventura ainda se descaiu como sendo uma “enorme vitória” —, o presidente do partido não se esqueceu que correu o país a pedir a tal oportunidade para ser primeiro-ministro e que esta não lhe foi dada: “O Chega não venceu esta eleição legislativa, fizemos o que nunca nenhum tinha feito, mas ainda não vencemos.” Foi num equilíbrio entre o ter feito “história” e a falta da vitória, argumentando que o partido “acabou com tudo o que aconteceu neste país nos últimos anos do ponto de vista partidário”. “Nada ficará como dantes em Portugal a partir da noite de hoje.”
Perante isto, Ventura — que tinha antecipado um terramoto político — recordou o dia em que foi eleito deputado único, em 2019, e que, passados seis anos, o Chega é “um dos maiores partidos em Portugal” e o “líder da oposição em Portugal”. Não o deu como certo, esperançoso de que “daqui a uns dias se confirmará essa mesma liderança com os votos do círculo da emigração”. Isso significará, sublinhou, “uma mudança gigantesca no nosso sistema político”.
Quanto à contribuição para a governabilidade, André Ventura preferiu deixar esses episódios para uma nova temporada, a estrear em breve. Contudo, há duas notas a retirar das palavras do líder do Chega. Não só disse que “o Governo de Portugal depende do Chega e só do Chega” — depois de ter ouvido Pedro Nuno Santos “a dizer que não apoiará, nem sustentará, nem terá nenhuma margem deste Governo” — como disse que Luís Montenegro tem de retirar “responsabilidades” do facto de ter tentado “tirar eleitorado” ao Chega em matéria de imigração e de, mesmo assim, Ventura ter conquistado 58 deputados.
Reiterou que o Chega “sempre foi e lutou por ser um garante de estabilidade”, que se “tornou um partido de governo e poder” e prometeu “honrar essa tradição”. Ventura salientou também que falou com o Presidente da República e ficaram de falar após as eleições e que ligou a Luís Montenegro. As perguntas sobre um possível entendimento valeram assobios e apupos da plateia aos jornalistas e Ventura voltou a chutar para canto: “É o dia de assinalar uma vitória histórica, teremos tempo para falar sobre governo e cenários.” Mas também não reiterou a tese de “nunca é nunca” a um acordo se fosse Montenegro o primeiro-ministro.
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“Chega superou partido de Mário Soares e varreu Bloco do mapa”
Além de um lugar histórico, o Chega festejou também a hecatombe da esquerda. Não só se gozou com Pedro Nuno Santos (com rimas que mandava ao líder do PS “chorar”), como Ventura celebrou o que se passou nesse espetro político: “O Chega superou o partido de Mário Soares. O Chega superou o partido de António Guterres. O Chega matou o partido de Álvaro Cunhal. O Chega varreu do mapa o Bloco de Esquerda com uma pinta que nunca se tinha visto em Portugal.”
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA
André Ventura aproveitou ainda o discurso no quartel-general recheado para se atirar às sondagens, para alertar que precisam de ser tiradas responsabilidades e consequências e sugerir que “alguns falharam porque erraram, outros falharam porque quiseram propositadamente mandar abaixo um partido político”. O líder do Chega considera que há uma tentativa de “condicionar a opinião pública”. Tentou amenizar, dizer que não o diz “contra ninguém”, mas porque alertou para “a injustiça que estava a ser cometida contra mais de um milhão de eleitores” e que, mesmo assim, “condicionaram a democracia e tentaram fazê-lo”.
No mesmo tópico, não poupou quem diz que agiu contra o Chega, com “ataques e mentiras”, até “desvalorizando a saúde e o sofrimento” devido ao problema que teve durante a campanha, e atirou: “Sei que hoje, nas televisões, nos jornais e em muito do lobby deste país há uma azia muito, muito grande.” “Fomos atacados, ofendidos, excluídos, propositadamente humilhados e com pactos secretos, com tentativas de nos esconderem e de nos diminuírem”, rematou, jurando a pés juntos que esta é uma “vitória do povo português”. Não só sua, não só do Chega, mas do povo.
E pelo povo, disse, até os conselhos de Deus ignora: “Há momentos na vida em que Deus nos diz para pararmos um pouco. Eu costumo ouvir sempre os conselhos de Deus. Desta vez não vou ouvir e não vou parar até ser primeiro-ministro de Portugal.”