Uma hora depois de terem sido abertas as portas do número 49 da Rua do Alto do Duque, em Lisboa, é que apareceram os primeiros civis. Ambos procuraram a Embaixada do Irão no primeiro dia dedicado a assinaturas do livro de condolências pela morte do ayatollah Ali Khamenei, mas sem a intenção de o assinar. Chegaram à embaixada, falaram, ainda na rua, com um funcionário e acabaram por regressar por onde vieram sem terem entrado.
Ao Observador, mostraram alguma surpresa quando foram informados sobre o livro de condolências. Vieram por outro motivo: têm a família no Irão e não conseguem falar com eles. Mas também não obtiveram ajuda. Depois de terem falado ao Observador, decidem voltar atrás e insistir. Finalmente, conseguem entrar na Embaixada e, pouco depois, quando saíram pela segunda vez, mantêm o ar apreensivo e repetem: ainda não conseguiram falar com a família. E garantem que não assinaram o livro.
Até à chegada destas duas pessoas, só tinham entrado na Embaixada do Irão, cuja bandeira esvoaça a meia-haste, os membros de diferentes corpos diplomáticos. Quando as portas se abriram, também o embaixador Majid Tafreshi vestia de luto ao mostrar o caderno de argolas fechado, sobre a mesa e ainda em branco aos jornalistas.
Antes de a Embaixada fechar ao público às 17 horas, um funcionário mostrou o caderno ao Observador. Nele estavam inscritas “cerca de 15” mensagens, espalhadas por quase uma dezena de páginas e em vários idiomas. Tanto nas primeiras páginas — escritas da esquerda para a direita — como as últimas — escritas em sentido inverso — figuravam as mensagens do Embaixador da Rússia, do corpo diplomático da China e de pelo menos outras três embaixadas.
No meio de uma rua, e de uma zona onde abundam as representações diplomáticas, o movimento de carros com matrícula branca e letras vermelhas com a inscrição “CD”, que denuncia os corpos diplomáticos, foi constante. Alguns param em frente à casa branca com a identificação em persa para prestar uma homenagem ao Supremo Líder iraniano morto durante um ataque dos EUA e de Israel.
Todas as pessoas que quisessem assinar o livro de condolências poderiam dirigir-se esta quinta-feira, ou na sexta-feira, à embaixada. Mas apesar de a entrada ser livre, praticamente só se viram embaixadores e diplomatas a subir os degraus. Lá fora, onde um funcionário abria a porta aos carros escuros dos corpos diplomáticos, esteve sempre um carro da PSP, com pelo menos um agente a garantir a segurança.
A homenagem possível ao líder espiritual e maior autoridade do Irão aconteceu cinco dias depois de este ter morrido. O funeral de três dias que estava programado para ter começado na quarta-feira, em Teerão, não foi possível devido aos constantes ataques no país do Médio Oriente.
Que corpos diplomáticos estiveram presentes na homenagem ao “líder mártir”?
Ao princípio da manhã, o embaixador Majid Tafreshi abriu a embaixada colada ao Parque Florestal de Monsanto para uma visita muito curta dos jornalistas, que puderam ver o salão onde estava, sobre uma mesa, o livro de condolências, ainda vazio. O caderno estava enquadrado numa mesa com duas velas escuras, entretanto acesas, um ramo de flores brancas e uma pequena fotografia de Ali Khamenei.
Atrás da mesa, imponente, um roll-up mostra a imagem do ayatollah com a sua data de nascimento e morte. 1939-2026. Ao lado da figura do antigo Líder Supremo do Irão, um epitáfio tão curto quanto expressivo: “líder mártir”. O espaço para tirar fotografias e gravar diretos foi rápido e apressado pelo próprio embaixador, que não queria deixar à espera o homólogo pontual que chegou ao local poucos minutos depois da abertura de portas, às 10h. Era Mikhail Kamynin, embaixador russo em Portugal, que aproveitou a espera para ver os livros sobre o Irão colocados em cima de uma mesa no hall.
Lá fora, a hora de ponta para a entrada na embaixada foi mesmo no período de manhã, até às 12h. Mesmo assim, era residual. Depois do embaixador da Rússia, passaram por ali três diplomatas chineses e o corpo diplomático de outros três países asiáticos: Paquistão, Iraque e Bangladesh, confirmou ao Observador fonte da embaixada iraniana. Além do casal que insistiu para entrar, mas não assinou o livro, só outro civil, homem, entrou na embaixada.
De tarde, o movimento foi ainda menor. Junto ao passeio, manteve-se sempre estacionado o carro patrulha, com vários agentes a serem substituídos quase a cada hora e meia. À porta, mantinha-se sempre um PSP de colete à prova de balas, uma arma e, ocasionalmente, um boné que serviu para tapar do sol ou abrigar da chuva que caiu durante a tarde.
ANTÓNIO COTRIM/LUSA
Polícia está atenta às embaixadas em Portugal. Dia calmo dos agentes foi interrompido ao final da tarde
A calma que reinou durante todo o dia na rua foi interrompida quando já eram 17h e a embaixada se preparava para encerrar. Nesse instante, vários carros da polícia somaram-se na rua ao veículo que ficou todo o dia estacionado em frente ao edifício do corpo diplomático iraniano. Rápidos a chegar, e em peso, vários agentes seguiram um homem que tinha saído, de mochila, do Parque Florestal de Monsanto. Fonte da PSP ouvida pelo Observador enquadra esta ação como uma “abordagem preventiva” na sequência do maior policiamento perto das embaixadas — o suspeito, contudo, não foi detido.
“De acordo com a avaliação do risco e da ameaça efetuada, reforçámos, em Território Nacional, os interesses de alguns Países, que não detalharemos por questões de segurança”. Além desta proximidade às embaixadas, a polícia procura, neste momento, garantir um contacto próximo com responsáveis diplomáticos, e já aumentou tanto a capacidade de pesquisa e tratamento de informação, como o nível de capacidade de resposta a incidentes.
A preocupação da PSP, porém, não se esgota na embaixada iraniana e segue um exemplo de polícias de todo o mundo, que estão mais atentas a possíveis ataques em embaixadas, como, aliás, aconteceu tragicamente em Portugal no longínquo ano de 1983. Atenta ao escalar da tensão mundial, a polícia portuguesa decidiu reforçar a segurança junto a embaixadas, mas não só; também nos aeroportos há, neste momento, maior vigilância, confirmou fonte policial ao Observador.
▲ No último sábado, dezenas de manifestantes reuniram-se no Porto para defender o ataque dos EUA no Irão
Alvo de vários protestos nos últimos tempos, Majid Tafreshi manteve-se sempre dentro da embaixada, ao contrário dos funcionários que se dirigiam à rua para abrir a porta do carro e levar para dentro os homólogos de outros corpos diplomáticos. A onda de protestos da diáspora iraniana em Portugal terá levado a uma atenção redobrada da PSP no local, mas esta quinta-feira não houve manifestações em frente à embaixada.
Se não são os protestos mais expressivos, as manifestações de iranianos em Portugal destacam-se pela recorrência: acontecem, com cerca de 100 pessoas, quase todas as semanas, não só em Lisboa, mas também no Porto — onde no sábado algumas dezenas de pessoas se concentraram para agradecer a Donald Trump pelo ataque ao ayatollah, que vitimou também a sua mulher, filha e neta. A embaixada em Lisboa não se preocupa. Os protestos costumam ser frequentados por cerca de uma centena de manifestantes, o que representa pouco mais de 3% da comunidade iraniana de 3 mil pessoas em Portugal, segundo os números da AIMA.
Mas o perigo nas embaixadas é real e foi intensificado depois de uma troca de ameaças entre Israel e Irão. Na quarta-feira, meios de comunicação sauditas avançaram que as Forças de Defesa de Israel tinham realizado um ataque aéreo noturno que tinha como alvo um diplomata iraniano — o ataque teria como alvo o hotel onde este iraniano e a mulher libanesa estavam a dormir, tendo provocado a morte da mulher.
A resposta não tardou: um porta-voz das forças armadas iranianas, citado pelo jornal Times of Israel, ameaçou atacar embaixadas israelitas em todo o mundo caso Israel ataque a embaixada em Beirute. A quase dez quilómetros da embaixada iraniana em Portugal, também a embaixada israelita em Portugal tem, por estes dias, atenção redobrada da polícia.
▲ Iranianos estiveram em protesto em Lisboa no último sábado
VASCO COELHO/OBSERVADOR
Base das Lajes, nos “bonitos” Açores, não levará a ataques do Irão, acredita embaixador
A posição periférica de Portugal não afasta, por si só, o País de problemas. Portugal, e sobretudo o arquipélago dos Açores, assumem alguma importância na geopolítica mundial graças à Base das Lajes. Nos últimos dias, a base norte-americana dominou a discussão política em Portugal e o ministro dos Negócios Estrangeiros viu-se obrigado a deixar uma garantia. “Não houve nenhum envolvimento a partir da Base das Lajes no espoletar deste conflito”, disse Paulo Rangel aos microfones do Observador.
O próprio embaixador do Irão em Portugal “não crê” que a intensificação dos movimentos norte-americanos nos Açores (ou a eventual autorização do Governo para os EUA utilizarem a base para os aviões destinados ao ataque) se traduzam num conflito direto entre Irão e Portugal. “O Irão e Portugal têm uma relação muito boa e, até agora, o Governo português não disse que apoia o ataque dos americanos ao Irão”, afirmou em declarações à Antena 1.
Majid Tafreshi acrescentou mesmo, em declarações à estação de rádio pública, que os Açores “serão ainda mais bonitos” quando se tornarem “numa plataforma para negociações, não para guerras”.
Em Teerão, apesar de as cerimónias oficiais terem sido adiadas por causa dos ataques dos EUA e de Israel, as manifestações de pesar fizeram-se sentir logo após a confirmação da morte do ayatollah que, ao que tudo indica, será substituído no poder pelo próprio filho.
A NBC descreve multidões de pessoas na Enghelab Square com homens abraçados e a chorar e mulheres a gritar enquanto erguiam bem alto nas mãos fotografias de Khamenei. Ao contrário do que aconteceu em janeiro, quando ondas humanas invadiram as ruas iranianas para protestar contra o regime, no último domingo as estradas eram preenchidas, maioritariamente, pelos apoiantes do ayatollah; mas também se verificaram festejos.
Esta sexta-feira, depois de um dia de pouca afluência, a embaixada iraniana continuará aberta nos próximos dias. Fonte diplomática assume ao Observador a possibilidade de prolongar a abertura ao público, para reunir mais assinaturas civis no livro de condolências.
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