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KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Quem atacou quem? Como Miguel e Luís se uniram para tramar Rui /premium

Para eles já é janeiro e no primeiro debate a três, Rio ficou à defesa contra Pinto Luz e Montenegro. Maçonaria, prestações eleitorais e acordos (ou não) com o PS marcaram a disputa

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Ainda se lembra do Rui Rio bonacheirão e simpático que surpreendeu o país como quem come tremoços à medida que lança umas bocas aos adversários de debate? Esqueça. Esse candidato ficou na campanha das legislativas e não apareceu na noite desta quarta-feira nos estúdios da RTP. Em vez disso apareceu um Rio mais tenso, de armadura vestida e escudo em riste, já a adivinhar os ataques que choveriam de todos os lados. E choveram mesmo. A primeira parte do debate entre os três candidatos à liderança do PSD foi um verdadeiro dois contra um, com Montenegro e Pinto Luz unidos numa frente anti-Rio que só deslaçou a meio quando a conversa passou para as críticas ao governo de António Costa.

Mas até lá, a contabilização de ataques mostra que neste campeonato há um incumbente, Rui Rio, atacado um total de 29 vezes; há um challenger, Luís Montenegro, que sozinho atacou 18 vezes o atual líder e recebeu 10 ataques dos adversários; e há um outsider, Miguel Pinto Luz, que não foi atacado mais do que quatro vezes… e meia.

O atual presidente do partido ouviu de tudo, incluindo a acusação de que não concorda com Sá Carneiro, o derradeiro insulto para qualquer líder laranja que se preze. Mas houve mais: que a estratégia falhou, que os resultados foram “muito maus”, que atua “pela calada”, que não soube unir, que “falta ao respeito às pessoas do PSD”, que não tem argumentos políticos mas abusa de “insinuações”, que não esteve ao lado de Passos Coelho, que atenuou o “ímpeto reformista” do partido e em vez disso criou instabilidade.

Houve surpresa ou novidade nestas críticas? Nem por isso, mas foram muitas e disparadas de rajada de ambos os flancos o que obrigou Rio a adotar uma postura muito mais defensiva do que atacante na primeira metade do debate. Ainda assim, quando pôde foi disparando algumas setas com veneno na ponta. A maçonaria continua a ser uma das munições preferidas de Rio, chegando mesmo a conseguir que Pinto Luz admitisse que por lá passou. Mas também disparou com a falta de “autoridade moral”, a “hipocrisia completa” de quem o atacou durante o mandato, e provocou “instabilidade”. E até a juventude (em comparação) de Montenegro e Pinto Luz serviu para sublinhar que do outro lado há falta de memória e de experiência de vida. Rio conseguiu ainda fazer ricochete quando devolveu aos adversários o desprezo pelos “resultados eleitorais brilhantes” que qualquer um dos dois trazia no currículo (um tema que levou os dois a disparar de volta).

A única verdadeira surpresa foi a agressividade de Pinto Luz, o underdog que tem tentado passar estes dias de pré-campanha sem pisar a lama. Desta vez, trouxe as galochas e, mesmo tentando não perder a pose de gentleman, entrou nas trincheiras e foi à guerra com a mira apontada a Rio mas com alguns cartuchos para Montenegro. Colou-o ao projeto “das direitas” de Miguel Morgado, criticou-lhe a participação na campanha das legislativas “para picar o ponto” e a “atitude do bota abaixo” na questão do orçamento. Mesmo que tenha sido basicamente fogo amigo, foram ataques cirúrgicos o suficiente para marcar as diferenças e mostrar que, até janeiro, esta é mesmo uma corrida a três.

Rui Rio, à defesa contra todos os ataques

Total de ataques sofridos: 29
Ataques feitos a Montenegro: 7
Ataques feitos a Pinto Luz: 4

Rui Rio jogou sobretudo à defesa, já que foi o alvo preferido dos seus adversários, mas o presidente do PSD levava dois ataques fortes na manga: 1) a ligação de Montenegro e Pinto Luz à maçonaria e, 2) as derrotas eleitorais que os seus adversários levam no currículo em matéria de autárquicas. Aí, Rui Rio obrigou Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz a explicar-se, mas como não foram ataques surpreendentes, as respostas estavam treinadas. Em todo o caso, foram mais as vezes em que Rui Rio teve de ir atrás, do que as que assumiu a dianteira, chegando até a incorrer numa gaffe quando disse à moderadora que não tinha “reparado” que António Costa tinha prometido uma “agradável surpresa” no orçamento para a saúde, apesar de essa promessa ter sido feita no último debate quinzenal, debate em que Rui Rio estava.

Primeiro, a maçonaria. Foi o tema quente do debate e levou os adversários de Rio a assumir as suas ligações passadas àquela sociedade secreta. “Os meus adversários são conhecidos como sendo da maçonaria”, começou por dizer Rui Rio à cabeça, criticando o facto de, nos dias de hoje, depois do 25 de Abril, haver “sociedades obscuras e secretas”. O ataque, contudo, levou Montenegro a admitir que participou num jantar da maçonaria, rejeitando quaisquer outras ligações para além disso, e levou Pinto Luz a admitir a ligação. “Fui membro da maçonaria e isso nunca me condicionou. Saí há 10 anos com a mesma liberdade com que entrei. Desde que tenho cargos públicos, não pertenço à maçonaria”, disse.

Depois, a falta de sucesso em eleições dos opositores. Rio até disse que nem queria ir por ali, mas foi: Luís Montenegro “foi duas vezes candidato a Espinho e não consegui ganhar”, foi uma vez candidato à “distrital e não conseguiu ganhar”. “É esta a performance do dr. Luís Montenegro”. Já Pinto Luz, quando era presidente da distrital de Lisboa, “o PSD teve 22% em Lisboa, em Sintra teve 14%, em Loures teve 16% e foi terceira força, em Vila Franca teve 13% e foi terceira força”. “É esta a performance do engenheiro Pinto Luz”. O ataque, contudo, faria ricochete e Rio teve sobretudo de se defender pelos 27,7% nas últimas legislativas. Mas quanto a isso, a resposta já vem sendo ensaiada desde outubro: “Há derrotas e derrotas”, é tudo uma questão de perspetiva.

Onde há disputa pela liderança do PSD há referências a Sá Carneiro (e este era o dia 39º aniversário da morte do histórico líder do partido) e Montenegro, munido de um livro, puxou para si o legado. O tema era os acordos com o PS e Rui Rio teve de se defender, atacando: Antes de formar a aliança democrática com o CDS, Sá Carneiro tentou primeiro uma “convergência democrática com o PS”.

Montenegro, o atirador furtivo em campo aberto

Total de ataques sofridos: 10
Ataques a Rio: 18
Ataques a Pinto Luz: meio ataque 

Luís Montenegro foi com tudo para cima de Rui Rio logo no primeiro minuto. Num estilo combativo, não dispensou os apartes, como se estivesse no hemiciclo parlamentar. E trazia a lição bem estudada: para cada tema, um ataque a Rui Rio. Para cada ataque, uma anti-aérea preparada. Logo a abrir, Luís Montenegro começou a tentar explorar o ponto fraco de Rio, enaltecendo os resultados nas últimas legislativas (e europeias). E, numa espécie de ‘sei o que disseste há dois invernos’, lembrou: “Disse que Santana Lopes não tinha as mesmas condições porque tinha tido 28%, agora teve 27“. E pôs Rio a justificar-se: “Vinte e oito“. Na verdade, Rio teve 27,76 e Santana 28,77.

Rui Rio também trazia nas suas cábulas ataques a Montenegro e um dele foi lembrar o passado de derrotas. Duas em autárquicas como candidato à câmara de Espinho outra para a liderança da distrital (perdida para António Topa, apoiante de Rio). Mas Montenegro fez das derrotas em Espinho uma medalha de um soldado que deu o corpo às balas (em campo aberto, pelo partido) e ainda lembrou dois derrotados nas autárquicas que tiveram um futuro auspicioso mais tarde: “Passos Coelho perdeu na Amadora em autárquicas e ganhou duas vezes as legislativas e Marcelo Rebelo de Sousa perdeu em Lisboa e é Presidente da República“.

Rui Rio sacou da pistola para falar da maçonaria, mas Luís Montenegro (que em tempos disse na televisão que o único avental que veste é um com o símbolo do Futebol Clube do Porto), disse que apenas participou num jantar. Rio sacou de artigos da imprensa e Montenegro fez um novo ataque usando Rio contra Rio: “Critica os julgamentos em jornais e está a fazer julgamentos com base em notícias de jornal?

No dia em que se assinala a morte de Sá Carneiro, Rio até puxou da antiguidade, lembrando que esteve num conselho nacional que Montenegro recordou, quando citava o fundador do partido. Mas Montenegro queria mostrar que Sá Carneiro defendia o oposto de Rio (“crítica exigente” em vez de acordos de regime) e não teve problema de interromper a resposta de Rio que lembrava que o fundador tentou primeiro um acordo com o PS (a “convergência democrática”) antes da Aliança Democrática com o CDS:”Fica-lhe mal, dr. Rui Rio, fica-lhe mal.”

O antigo líder parlamentar do PSD atirou também várias vezes o PS contra Rui Rio. Numa delas voltou a disparar quando Rio disse que precisava de ver o orçamento do governo PS para decidir se aprovava: “Eu não preciso”. Foi aqui que ensaiou um meio ataque (o único que fez) a Miguel Pinto Luz, ao dizer que é preciso seriedade para assumir, desde já, que o PSD nunca viabilizaria Montenegro assumiu-se como general da brigada anti-PS.

“Miguel”, o otimista que também sabe atacar

Total de ataques sofridos: 4 e meio
Ataques feitos a Rui Rio: 11
Ataques feitos a Montenegro: 3

Não quer ser associado à “oposição troglodita” de Montenegro, que está “contra tudo” e que assina de cruz qualquer proposta do PS, mas foi contra Rui Rio que Miguel Pinto Luz se quis assumir. E desta vez, sem paninhos quentes. “Miguel”, como quis ser chamado, assumiu que quer roubar a “Rui”, como lhe chamou, a aura de político que põe o interesse dos “portugueses” acima dos interesses pessoais e do partido (deixando Montenegro ficar colado a essa imagem), e até viu Rio concordar entusiasticamente consigo quando disse que admitia viabilizar orçamentos do Estado se fossem bons para o país. Mas não hesitou em unir-se a Montenegro para criar uma espécie de frente anti-Rio. Basta olhar para o número de ataques disferidos: 11 a Rio, apenas três a Montenegro.

O momento em que os três candidatos assumiram o que faziam perante o Orçamento do Estado do PS foi definidor deste posicionamento. “Eu preciso de ver o documento”, disse Rio. Ao que Montenegro rebateu: “Eu não preciso”. E Pinto Luz acrescentou: “Os portugueses precisam”. Pinto Luz a assumir, entre os três, uma postura de diplomata, a meio caminho entre os dois, que admite um cenário onde viabilizaria um OE do PS desde que fosse bom para o país. Não assina de cruz contra o PS, como Montenegro, nem se senta à mesa para negociar com o PS, como Rui Rio. Até porque, disse, não há acordo possível com o PS nas áreas onde Rio tentou (e quer tentar) negociar reformas com os socialistas.

Apesar de, ao longo da corrida, Pinto Luz se ter assumido mais como o conciliador, desta vez o autarca de Cascais mostrou que está no jogo para atacar o poder instalado, e não poupou Rio de nenhum golpe. Quando Montenegro acusou Rio de ser submisso do PS, e Rio questionou, ironicamente, se estava a querer dizer que ia “perguntar ao PS como votar”, Pinto Luz foi direto: “Foi isso que o senhor fez”. O ataque fez Rui Rio pedir uma elevação do nível do debate. Identificando-se como “otimista”, Pinto Luz também deixou umas alfinetadas a Montenegro, dizendo que não quer, como Montenegro quer, “uma coligação de todas as siglas da direita”, mas quer que o PSD volte ao poder com “uma agenda reformista e mobilizadora”.

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