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Uma banca de fruta no Mercado municipal de Viseu, em Viseu, 24 de setembro de 2022. PAULO NOVAIS/LUSA
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PAULO NOVAIS/LUSA

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Pêssegos ao dobro do preço e limão "como nunca se viu". O que se passa com o preço da fruta?

Em julho, o preço da fruta puxou pela inflação, com uma subida de 10% em relação ao ano passado. Há frutos que duplicaram de preço, garantem vendedores. A causa não é só uma.

A manhã ainda não vai a meio mas o movimento no mercado de Alvalade denuncia o mês de agosto. Os clientes são escassos até para as poucas bancas que não estão fechadas para férias. Nas que restam, os pêssegos e as nectarinas da época alinham-se junto às mangas e abacaxis vindos de longe. A impressão de Delfina Silva, vendedora de frutas e hortaliças, condiz com os números que o Instituto Nacional de Estatística (INE) publicou esta semana: “está tudo mais caro. Muitas coisas ao dobro do preço”. É o caso, precisamente, dos pêssegos e nectarinas, exemplifica. Mas também dos kiwis ou dos alperces. Afinal, porque é que o preço da fruta está a aumentar?

“Não preciso de tirar um curso para saber o que se passa com o preço da fruta. Já viu como está o mundo?”, atira Delfina Silva. A pergunta é retórica mas resume de forma simplificada a subida de 10,05% do preço da fruta registada em julho face ao mesmo mês do ano passado. “Não há uma razão única, há várias. E ainda há motivos que nós desconhecemos”, começa por descortinar Domingos Santos, presidente da Associação Nacional das Organizações de Produtores de Frutas e Hortícolas (FNOP).

“Após a invasão da Ucrânia, tivemos um aumento da inflação brutal de todos os produtos alimentares. Num ano, os fatores de produção aumentaram à volta de 34% e os preços no produtor só aumentaram 11%. Houve aqui 23 pontos que foram absorvidos pelos produtores. Claro que alguns entraram no vermelho e, a pouco e pouco, os preços têm vindo a equilibrar-se”, explica o também presidente da Frutoeste.

Além disso, continua, pesa também o facto de estarmos num ano de contra-safra para algumas culturas. “Há anos em que se produz mais, outros em que se produz menos”. É o caso do limão, como é possível verificar nas bancas do mercado de Alvalade. “Deu um salto… não me lembro de ver o limão tão caro. Vendem-nos a nós a 2,30 euros o quilo, nós estamos a vender a 2,97. Deu um pulo… como nunca se viu”, conta ao Observador o comerciante Sadik Mohamed.

A razão está nas árvores. “No ano passado houve uma super produção de limão no hemisfério norte. Em Portugal, Espanha, Itália… Este ano as árvores tiveram muito menos produção. Estamos a importar limão. Da África do Sul, da Argentina. Claro que é sempre mais caro”, aponta o presidente da ANOP.

A importação de muitos produtos é outro dos fatores apontados por produtores, distribuidores e comerciantes para o aumento dos preços. “Hoje o consumidor quer a mesma fruta todo o ano, quase não há fruta de época. Há melão o ano inteiro, uvas, morangos… E esses movimentos acabam por ter efeito nos preços também”, diz Domingos Santos.

"No ano passado houve uma super produção de limão no hemisfério norte. Em Portugal, Espanha, Itália... Este ano as árvores tiveram muito menos produção. Estamos a importar limão". 
Domingos Santos, presidente da FNOP

“Os consumidores habituaram-se a comer frutas que há 15 ou 20 anos não eram tão habituais nas nossas dietas e hoje fazem parte. Muitas vezes, quando peço fruta nacional nos restaurantes, dizem-me que há abacaxi e manga. Faz parte dos hábitos dos consumidores, temos de respeitar porque também gostamos de exportar”, corrobora Gonçalo Santos Andrade, presidente da Portugal Fresh, a Associação para a Promoção das Frutas, Legumes e Flores de Portugal.

Os dados mais recentes da associação, revelados esta quarta-feira e relativos ao primeiro semestre, mostram que Portugal ainda tem um défice na balança comercial das frutas, legumes e flores. Foram vendidos 1.288 milhões de euros entre janeiro e junho, mas comprados 1.486 milhões, mais 128 milhões de euros face ao período homólogo. Em volume, as importações cresceram 11,2% para 1,38 milhões de toneladas.

Chuva trouxe melão e melancia mais tarde

No mercado de Alvalade, um quilo de nectarinas tanto pode custar 2,5 euros como 4,9 euros. Os pêssegos rondam os 3,20 euros por quilo e os kiwis chegam tanto aos quatro como aos sete, se vierem da Nova Zelândia. São alguns exemplos de frutos cujo preço, segundo os vendedores, praticamente duplicou face ao verão do ano passado. Entre a fruta da época que “manteve mais ou menos” o mesmo preço consta o melão, a melancia e a meloa, afirmam, de forma unânime, os vendedores com quem o Observador falou.

Watermelon

▲ Melancia chegou mais tarde devido à chuva tardia na primavera.

dpa/picture alliance via Getty I

Mas na família das cucurbitáceas, em que se inserem estes frutos, 2025 também não está a ser um ano comum. Por causa da chuva que “veio mais tarde que o normal e entrou pela primavera dentro”, as plantações ficaram atrasadas, relata Gonçalo Santos Andrade. “Começámos a produzir mais tarde que o normal”. E isso pode ter impacto no preço, explica, “porque havendo menos oferta, o preço aumenta“. Ou seja, “se estivermos a comparar períodos homólogos, e tendo a produção começado mais tarde em 2025 do que em 2024, poderá haver aí uma diferença de valor”.

O Observador pediu ao INE uma lista discriminada das frutas consideradas para o apuramento do índice de preços ao consumidor, mas por questões de confidencialidade da amostra não foi possível obtê-la. O INE fez chegar, no entanto, os dados relativos à evolução dos preços, entre janeiro de 2024 e julho de 2025, da “fruta fresca ou frigorificada”, que corresponde a cerca de 90% do total da fruta. É possível concluir que os aumentos homólogos começaram em abril, e que a maior subida de preços, de 10,96%, deu-se mesmo no passado mês de julho. Tal como a maior variação mensal, de 7,49%. Entre o ano passado e maio deste ano, os preços registaram sempre descidas homólogas. Em agosto do ano passado, a variação foi mesmo de -8,43%.

“Calamidade” na pera do Oeste

No caso da produção nacional, este ano há ainda o caso excecional da pera rocha do Oeste, que atravessa uma “calamidade”, conta Domingos Santos da FNOP. Por causa de uma bactéria vegetal que tem vindo a destruir as árvores, a quebra na produção em relação ao potencial produtivo é de 50%, revela. O “fogo bacteriano”, como é chamado por deixar a árvore com o aspeto de ter sido queimada, tem originado falta de produto e, por isso, o aumento dos preços.

No Observatório de Preços Agroalimentar, uma ferramenta pública que monitoriza os preços de vários produtos e dos seus custos ao longo da cadeia de abastecimento, os dados mais recentes remontam ao período que foi de 16 de junho a 13 de julho. Este instrumento permite analisar a evolução dos preços da banana, da laranja, da maçã, da pera e do pêssego. O maior aumento homólogo foi registado nos pêssegos, onde a diferença chega aos 23,48%. Segue-se a laranja para consumo, com um acréscimo de 12,38%, e a banana, com um aumento face ao mesmo período do ano passado de 5,43%. A maçã subiu 2,63% e a pera 1,78%.

O custo crescente dos fatores de produção, como a energia, a água, as embalagens e os fitofármacos, é o motivo mais apontado para a subida dos preços por parte de produtores e distribuidores. Que mencionam ainda o aumento do custo do trabalho, em particular com o salário mínimo nacional. “A agricultura absorve muito essa mão de obra, e isso tem impacto no custo final. Não estou a criticar, mas é importante ter consciência de que se vai refletir nos preços”, salienta o presidente da FNOP.

Já Gonçalo Santos Andrade, da Portugal Fresh, aponta o dedo às regras impostas pela União Europeia aos produtores “por causa da agenda ambiental”, que são “muito difíceis de cumprir”. “É importante que a UE seja líder no combate às alterações climáticas, mas tem de haver um equilíbrio adequado entre a sustentabilidade ambiental, social e económica, senão estamos sempre dependentes de importações de países terceiros, que vêm com outras regras de produção e não têm o controlo a que os nossos produtos são sujeitos”.

Para David Mota, CEO do grupo Luís Vicente, que produz e distribui fruta a partir de Torres Vedras, o aumento recente dos preços não pode ser visto como um fenómeno anual nem de causas isoladas. “Porque é uma área onde há muita volatilidade”. Além dos fatores de produção, o responsável aponta as alterações climáticas como um aspeto relevante na formação dos preços. “O produtor está exposto a mais risco”, sublinha, porque é “mais difícil” controlar a capacidade de ter produções uniformes. Com mais incerteza em relação à produtividade por hectare, “tendencialmente, há menos produtividade, e a que existe tem um custo maior por hectare”, o que causa uma pressão extra e dupla. “O produtor tem de conseguir compensar pelo preço a que vende tanto as potenciais perdas de volume como o aumento dos custos dos fatores de produção”.

▲ Quebra na produção da pera rocha em relação ao potencial produtivo foi de 50% por causa de uma bactéria vegetal.

A mesma lógica aplica-se à fruta importada, à qual acrescem as oscilações cambiais e as “imprevisibilidades logísticas”. “As rotas marítimas estão com uma instabilidade grande e isso provoca falhas no abastecimento, e isso também pode causar desequilíbrio entre a procura e oferta”. Até porque na fruta, a procura é estável, garante. “O que afeta os preços são variações do lado da oferta”.

Há ainda que ter em conta, conclui, que “a cadeia de valor é muito fragmentada, e entre o produtor e o retalhista há muitas entidades. Quantas mais entidades há no meio, mais caro chega o produto ao ponto de venda”.

Para os produtores, não há previsões possíveis em relação aos preços no futuro próximo nem soluções mágicas para evitar aumentos no futuro. Mas há uma certeza: “Para produzirmos mais, temos de gerir bem a água que cai”, constata Domingos Santos, “porque a produção portuguesa é sempre mais barata. Basta ir ao supermercado e olhar para os preços”.

[Um homem desobedece às ordens dos terroristas e da polícia e entra sozinho na embaixada. Momentos depois, ouve-se uma enorme explosão. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto a embaixada turca em Lisboa e uma execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o quarto episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro episódio aqui, o segundo aqui e o terceiro aqui]

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