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Pneumococo: um nome pequeno, um grande desafio

Tem um diminutivo – pneumococo – mas os desafios que esta bactéria traz aos sistemas de saúde são grandes. A doença pneumocócica esteve no centro de um Fórum que decorreu recentemente em Lisboa.

Ana está numa reunião de trabalho quando toca o telefone. É da creche, aquela chamada que nunca se deixa de atender. “Olá, mãe. Não se preocupe que não é nada de grave, mas achámos a Maria ‘chochinha’. Fomos ver e está com uma pontinha de febre. Venha buscá-la assim que puder, sim?” Ana apressa a reunião e vai buscar a filha mais cedo. Felizmente, tem uma boa rede familiar e, sendo quinta-feira, opta por telefonar logo à sogra, para que fique com a menina na sexta-feira, para ficar mais protegida.

Maria ainda não fala muito, mas aprova sempre o plano de um dia nos avós, onde beijinhos, abraços e outros mimos fazem parte do menu. Dias depois, a avó Lina começa a ficar doente, com alguma tosse e febre persistentes que a levam ao médico. Diagnóstico: pneumonia. Culpada: bactéria Streptococcus pneumoniae, também conhecida como pneumococo e que representa um grande desafio nas doenças respiratórias para os sistemas de saúde. Esta situação é ilustrativa, mas representa a realidade diária em muitas casas e serviços de saúde, especialmente durante inverno.

A doença pneumocócica esteve precisamente no centro do debate, no dia 12 de novembro, Dia Mundial da Pneumonia, no “Fórum de Inovação Para a Doença Pneumocócica”, com a MSD Portugal a juntar em Lisboa vários líderes científicos, representantes de associações de pessoas com doença, autoridades de saúde, entre outros intervenientes da gestão desta importante patologia.

O evento representou uma oportunidade de excelência para apresentar o retrato nacional e internacional desta doença em termos de impacto nas pessoas e nos sistemas de saúde, com o foco na partilha de boas práticas que permitam apostar em medidas preventivas. Aliás, dados e prevenção foram as palavras mais repetidas pelos presentes como dois elementos-chave para conseguirmos responder melhor aos desafios.

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Não há outra forma de o dizer: o pneumococo é traiçoeiro e reinventa-se. Já soma mais de 100 serotipos diferentes, isto é, diferentes variantes da doença. E, como explicou o pneumologista Filipe Froes durante o evento, esta bactéria tem a particularidade de ter uma cápsula diferente, uma espécie de “casaco”, que torna mais difícil a sua penetração, de modo a travar a sua multiplicação no nosso organismo.

Além disso, a chamada reatividade cruzada é muito limitada, o que quer dizer que se formos infetados por um serotipo não ficamos imunes aos restantes. Mais, mesmo quando estamos protegidos, como acontece na esmagadora maioria das crianças, a nossa nasofaringe continua a ser um reservatório de Streptococcus que transportamos mesmo quando não estamos doentes e que transmitimos aos outros, como aconteceu com a Maria e a avó Lina, que felizmente recuperou, por estarmos perante uma forma menos invasiva da doença.

A prevenção mais abrangente é, por isso, o melhor caminho, como defenderam os especialistas presentes no encontro. Francisco George, Presidente da Sociedade Portuguesa de Saúde Pública, reforçou que “o impacto da doença pneumocócica é imenso, em particular no que se refere à mortalidade nos idosos”, considerando fundamental que Portugal entre numa nova era de prevenção de infeções respiratórias, o que passa pelo combate à “hesitação vacinal”.

Nas formas menos graves da doença pneumocócica, encontramos doenças como otites e sinusites, que afetam sobretudo o ouvido e os seios nasais e também algumas pneumonias. Já nas formas mais graves, o diagnóstico pode levar-nos à pneumonia bacteriémica, ao empiema pleural (infeção no espaço pleural), à meningite (que afeta o cérebro e a medula espinhal) ou mesmo à septicémia (infeção generalizada no sangue), que podem ser fatais.

Filipe Froes apresentou alguns números neste fórum que permitem perceber a dimensão do desafio. A doença pneumocócica é uma das principais causas de mortalidade evitável, afetando especialmente crianças menores de cinco anos e idosos com mais de 65 anos. Em Portugal, a pneumonia causada pelo pneumococo é a primeira causa de morte por doenças respiratórias, com exceção do cancro do pulmão.

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Mortes por pneumonia registadas em Portugal em 2022

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Óbitos diários por pneumonia registados em Portugal em 2022 (3,6% do total de mortes)

Além do impacto direto na saúde dos doentes, a doença pneumocócica representa também uma carga económica substancial, tanto pelo seu peso nas hospitalizações, como no recurso aos serviços de urgência ou mesmo em fármacos e outros tratamentos. No total, 40% dos internamentos hospitalares por pneumonia adquirida na comunidade são atribuídos ao pneumococo, e no caso dos mais idosos os cuidados intensivos são muitas vezes necessários.

“Falta uma visão mais abrangente dos doentes que não chegam a ser internados”, completou, por seu lado, Joana Sousa, Consultora da Moai Consulting, que apresentou alguns dados nacionais e uma comparação da estratégia dos vários países, para percebermos como a aposta na prevenção “é a estratégia mais eficaz na Saúde Pública, ajudando a reduzir hospitalizações, visitas às urgências e consumo de muitos recursos, com impacto em termos económicos”.

“Temos de colocar esta doença no centro da decisão política, até pelo impacto que tem na descompensação de outras doenças crónicas”, salientou Zach Desson, Conselheiro da European Health Management Association e orador no evento. O especialista elencou dados de um estudo que conduziu sobre o impacto da doença pneumocócica em vários países europeus para dizer que, “em todos os contextos de tratamento, seja nos cuidados de saúde primários ou nos hospitais, há um impacto substancial causado diretamente pela doença pneumocócica na forma como os profissionais de saúde são capazes de desempenhar o seu trabalho”. O peso sentido pelos profissionais em Portugal é superior ao identificado nos restantes países. Para Zach Desson é fundamental uma melhoria dos sistemas de vigilância e de recolha de dados em todos os países, bem como a aposta em mais campanhas focadas na prevenção.

Thomas Weinke, especialista em doenças infeciosas e tropicais, corroborou ser fundamental que os países alinhem as suas estratégias de prevenção, enquanto investem numa melhor vigilância epidemiológica que permita, por exemplo, conhecer os serotipos que estão a ser mais prevalentes, para a prevenção poder ser direcionada para essas variantes da bactéria. “Uma vez doentes, os mais velhos ficam, muito frequentemente, numa posição em que já não podem permanecer nas suas casas e têm de ir para um lar ou para uma instituição que cuide deles. É por isso que, se pudermos evitar esta doença, é essencial não só para o indivíduo, mas também para a sociedade como um todo”, explicou o médico, que reforçou que mesmo quem recupera pode ficar com sequelas importantes.

O evento contou também com um momento mais prático, com os participantes a serem divididos em pequenos grupos de trabalho temáticos dinamizados pela Moai Consulting, apresentando no final a todos os presentes as principais prioridades e recomendações na área que debateram.  O grupo que trabalhou a “Vigilância Epidemiológica” sinalizou a importância de existirem dados fiáveis e abrangentes a nível nacional, bem como a necessidade de se investir mais em literacia, salientando-se o papel que os médicos, enfermeiros e farmacêuticos podem ter. A melhoria dos sistemas de codificação, a preparação de respostas que considerem também as novas realidades relacionadas com a migração, e uma aposta maior na prevenção, até pela sua menor pegada ecológica em comparação com os cuidados hospitalares, foram outras das sugestões partilhadas.

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Já o grupo que olhou para a “Carga e Gestão da Doença” sublinhou a importância de se definirem bem todos os stakeholders/parceiros que podem fazer a diferença nesta área, frisando a importância de se envolverem organizações de base comunitária. Para o grupo é essencial que exista mais segurança em termos de dados, para sabermos com exatidão quem foi diagnosticado com doença pneumocócica, com que serotipo, e a evolução que teve. Só dessa forma poderemos conhecer melhor os grupos de risco e não deixar ninguém de fora da estratégia de prevenção.

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Por último, o grupo que trabalhou as “Estratégias de Prevenção” salientou que, perante a evolução da ciência e da medicina, importa atualizar periodicamente as recomendações e ter em consideração a boa implementação de estratégias de prevenção nos indicadores que são medidos nos cuidados de saúde primários. Também aqui foi reiterada a necessidade de contarmos com mais e melhores dados, bem como com mais campanhas de sensibilização focadas em grupos de risco, como os mais velhos, com a sugestão concreta de se fazer uma ação no Dia dos Avós, que se assinala em julho, quem sabe com a participação da avó Lina.

PT-NON-03320 12/2024

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