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ILUSTRAÇÃO INÊS CORREIA / OBSERVADOR

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Porque é que as melhores ideias surgem quando não estamos à procura delas?

As nossas melhores ideias raramente surgem sob pressão. A ciência explica porque é que tantas vezes aparecem quando deixamos de tentar e vamos fazer outra coisa.

Há uma estranha regularidade no momento em que as boas ideias decidem aparecer. Quando estamos sentados à secretária, a olhar fixamente para um problema, determinados a resolvê-lo, sentimo-nos muitas vezes bloqueados, pouco criativos, sem saída. Depois, precisamente no instante em que desistimos — quando vamos tomar banho, dobrar a roupa ou dar uma caminhada — a solução surge. Clara, inesperada, quase óbvia. E fica sempre a mesma pergunta no ar: porque é que as melhores ideias aparecem justamente quando deixamos de as procurar?

Uma parte da explicação está na ausência de pressão desses momentos. “A pressão para produzir uma ideia nova, original e diferente pode criar um certo bloqueio cognitivo”, diz Leonor Almeida, professora da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa, onde coordena a pós-graduação em Comunicação e Psicologia Positiva. “Quando relaxamos e pensamos noutra coisa, essa tensão liberta-se e a ideia acaba por fluir.”

Mas a investigadora, que estuda criatividade e liderança, sublinha que o caráter quase mágico desse momento em que surge a ideia — geralmente chamado insight — resulta menos da ausência de pressão e mais do facto de ser a parte mais visível de um processo muito mais longo — e é por ignorarmos o resto que a ideia nos parece surgir de forma súbita.

Antes do insight, há pelo menos duas fases fundamentais. A primeira é a preparação. “Não somos criativos no vazio, somos criativos numa área em que somos especialistas. A fase de preparação é aquela em que estudamos o tema, conhecemos o problema, recolhemos informação.” A criatividade, ao contrário do que o mito sugere, constrói-se sobre conhecimento acumulado. “Como se costuma dizer, é ‘90% de transpiração e 10% de inspiração’.”

Segue-se a fase da incubação — um período frustrante em que pensamos, tentamos, insistimos, mas nada parece resultar. “É aquela fase em que nos esforçamos, mas não nos ocorre nada”, descreve a investigadora. No entanto, o cérebro continua a trabalhar no problema em segundo plano, a ligar informação, a testar hipóteses, sem que nos apercebamos disso. É por isso que, mais tarde, quando estamos distraídos ou ocupados com outra coisa, a solução pode aparecer de forma súbita.

A criatividade pode ser treinada. “Pode passar por pensar propositadamente em coisas estranhas e impossíveis; associar ideias sem ligação aparente; fazer coisas que fazemos sempre da mesma forma de maneira diferente ou escrever todos os dias cerca de três páginas com tudo o que nos vier à cabeça, sem preocupação com sentido, ortografia ou julgamento”, diz a investigadora Leonor Almeida. Deste treino e esforço intencional, provavelmente vão surgir ideias. Mas não surgem do nada: surgem porque o trabalho que as torna possíveis já foi feito.

Alguns autores acrescentam ainda uma última etapa: a verificação, em que se testa se a ideia é realmente boa. Porque criatividade não é apenas originalidade: é também valor, utilidade e impacto.

A ideia de que a criatividade acontece apenas neste momento de iluminação súbita alimentou muitos mitos. Um deles é o da criatividade como dom inato, reservado a génios. “É frequente vermos isso nos filmes e nas séries, [por exemplo] Mozart a lembrar-se de melodias enquanto passeia de carruagem.”

A ciência conta uma história mais matizada. “A literatura distingue dois tipos de criatividade: a pequena criatividade e a grande criatividade”, explica Leonor Almeida. A grande criatividade — aquela que muda o mundo, como grandes invenções científicas ou obras artísticas revolucionárias — está, de facto, associada a características pessoais raras e não seguem uma distribuição normal. Há poucas pessoas extremamente criativas nesse sentido.

Já a pequena criatividade, a do quotidiano, distribui-se como a inteligência: a maioria das pessoas situa-se num nível intermédio. Está ligada sobretudo ao pensamento divergente, a capacidade de gerar múltiplas respostas para a mesma pergunta. “O mercado de trabalho pede pessoas criativas, flexíveis, capazes de gerar ideias. Mas não é nesse sentido que somos educados. O sistema educativo é muito virado para o pensamento convergente, focado em encontrar a resposta certa. O pensamento divergente foi pouco estimulado em nós.”

É verdade que, ainda assim, algumas pessoas têm mais facilidade em ser criativas no dia a dia, em parte por traços de personalidade. São aquelas que tendem a ter mais autoconfiança, algum inconformismo e, sobretudo, menos medo do ridículo. “O receio de parecer anormal — no sentido de fora da norma — é uma das coisas que mais arrasa a criatividade. As pessoas que não temem o ridículo e que toleram a ambiguidade e a incerteza de não haver uma ‘resposta certa’ permitem-se pensar de forma mais divergente e, por isso, tendem a ser mais criativas.”

Mesmo aqueles que não têm estas características podem treinar a criatividade intencionalmente. “Isso pode passar por pensar propositadamente em coisas estranhas e impossíveis; associar ideias sem ligação aparente; fazer coisas que fazemos sempre da mesma forma de maneira diferente ou escrever todos os dias cerca de três páginas com tudo o que nos vier à cabeça, sem preocupação com sentido, ortografia ou julgamento.”

Deste treino e esforço intencional, provavelmente vão surgir ideias. Mas não surgem do nada: surgem porque o trabalho que as torna possíveis já foi feito.

Mental é uma secção do Observador dedicada exclusivamente a temas relacionados com a Saúde Mental. Resulta de uma parceria com o Hospital da Luz e com a Johnson & Johnson Innovative Medicine e tem a colaboração do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e da Ordem dos Psicólogos Portugueses. É um conteúdo editorial completamente independente.

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