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O bom tempo que se começa a sentir no Algarve atrai turistas para as praias do sotavento, Praia Verde,  Castro Marim, 27 de maio de 2025. LUÍS FORRA/LUSA
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▲Primeiro caso aconteceu na Nazaré, onde mais de 100 pessoas apresentaram sintomas de infeção por E. coli. No Algarve, não há vítimas da contaminação

LUÍS FORRA/LUSA

▲Primeiro caso aconteceu na Nazaré, onde mais de 100 pessoas apresentaram sintomas de infeção por E. coli. No Algarve, não há vítimas da contaminação

LUÍS FORRA/LUSA

Primeiro a Nazaré, depois o Algarve. Como fica contaminada a água do mar e quais os efeitos para a saúde? 5 perguntas e respostas

É agosto, o país está a banhos e o mar em quatro praias, entre o sul e centro, foi interdito devido a bactérias que provocam infeções. Afinal o que se passou na Nazaré e no Algarve e que riscos há?

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Agosto é sinónimo de calor, de praia e muitos banhos de água salgada. E foi no arranque do mês que, no espaço de menos de uma semana, dois focos diferentes de contaminação — um na Nazaré e outro no Algarve — fizeram com que o mar ficasse interdito aos banhistas.

A sul não houve até agora pessoas com sintomas registados de uma eventual contaminação pela bactéria detetada na água em três praias diferentes, a Enterococcus. Os banhos voltaram a ser autorizados pouco mais de 24 horas depois de decretada a interdição na Praia Verde, na praia de Alagoa-Altura e na praia do Verde Lago, a terceira fazendo parte do complexo turístico e imobiliário situado entre as outras duas localizações.

Já da contaminação na praia da zona centro detetada na sexta-feira passada, na Nazaré, resultaram mais de 100 pessoas hospitalizadas a registar sintomas compatíveis com a infeção pela bactéria E. coli. Só no domingo foi levantada a bandeira vermelha imposta dois dias antes devido à falta de qualidade da água do mar para a prática balnear.

Mas como chegam estas bactérias à água do mar e como são detetadas? E o que fazer se houver desconfiança de infeção depois de nadar no mar? Respondemos a cinco questões sobre a contaminação da água da praia.

Que praias foram interditas a banhos e como ficou contaminada a água do mar?

De sexta-feira a domingo, a Praia da Nazaré esteve interdita a banhos após uma falha técnica que originou uma descarga nos esgotos pluviais e maus cheiros. Pela suspeita de contaminação da água pela bactéria E. coli, 116 pessoas foram hospitalizadas e identificadas com sintomas de infeção gastrointestinal — a maioria crianças e adolescentes — depois de terem nadado no mar contaminado.

Esta segunda-feira, a Câmara Municipal da Nazaré veio esclarecer, através de uma nota publicada no seu site, que “os quadros clínicos apresentados pelas pessoas afetadas permitem concluir que se tratou de uma infeção bacteriana e não viral”, desmentindo assim, como noticiado por alguns meios, que teria existido transmissão interpessoal do agente patogénico em causa.

“Embora se admita a possibilidade de ter estado em causa a bactéria Escherichia coli, a natureza exata da bactéria não pôde ser confirmada devido à realização tardia das análises laboratoriais”, informou ainda a autarquia. A certeza no caso é a de que a presença de bactérias na água se deve aos resíduos provenientes de esgotos.

ETAR de Lagos cuja remodelação foi hoje inaugurada pela ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, Lagos, 5 de junho de 2024. Com um investimento da ordem dos 17 milhões de euros e com financiamento pelo POSEUR  no montante aproximado de 10 milhões, a ETAR tem uma capacidade para servir 138 mil pessoas. LUÍS FORRA/LUSA

▲ Falhas técnicas nas ETAR podem causar descargas indevidas de águas residuais na água do mar

LUIS FORRA/LUSA

Já em relação às três praias que estiveram interditadas a banhos no Algarve, sabe-se que foram identificados níveis muito acima daqueles que são regulares da bactéria Enterococcus na água do mar testada. Ao Observador, José Pimenta Machado, presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), informa que “sempre que são detetados valores fora do comum nas águas do mar” procura-se “aumentar a regularidade dos testes para perceber se estamos perante um fenómeno pontual ou se é estrutural”.

Não tendo sido para já apontada uma causa direta para os valores irregulares da bactéria nociva à saúde humana na água, o presidente da APA diz que “muitas vezes o foco acaba mesmo por surgir diretamente no mar, com um “um barco a passar próximo da costa que faça uma descarga de resíduos”, por exemplo.

[Um jovem polícia é surpreendido ao terceiro dia de trabalho: a embaixada da Turquia está sob ataque terrorista. E a primeira vítima é ele. “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Um comando paramilitar tomou de assalto uma embaixada em Lisboa e esta execução sumária no Algarve abalou o Médio Oriente. É narrada pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Ouça o terceiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E ouça o primeiro episódio aqui e o segundo aqui]

E. coli e Enterococcus: que bactérias são estas?

No foco de contaminação da Praia da Nazaré não há certezas comprovadas de que a bactéria presente na água tenha sido a E. coli , mas tudo aponta para tal devido a uma falha técnica numa Estação de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) que resultou na descarga de águas residuais não tratadas no mar. Já no Algarve, os testes em laboratório indicaram com precisão a presença da Enterococcus, mas não de E. coli.

Trata-se de dois tipos diferentes de bactérias, ambas encontradas no intestino humano e animal. Como explica ao Observador Joana Moreno, médica de Saúde Pública e vice-presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública, a “grande diferença entre as duas bactérias é que enquanto a E. coli é uma bactéria que pode causar doença de uma forma direta a quem contacte com ela, a Enterococcus é essencialmente uma bactéria que existe no intestino humano e animal, mas cuja presença na água vai indicar a presença de outras bactérias ou vírus”.

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▲ A E. coli é uma bactéria que pode ser encontrada no intestino humano e animal

DPA/AFP via Getty Images

Ou seja, a não ser que estejamos a falar de pessoas muitos suscetíveis, a Enterococcus não causa doença diretamente. A existência desta bactéria vai representar, no entanto, “a existência de outras bactérias que podem, sim, ser as tais causadores de doenças gastrointestinais”, explica a médica de Saúde Pública.

O que pode causar a contaminação da água com as bactérias e como desaparecem do mar?

Foi através da atitude preventiva de avaliar a qualidade das águas balneares, que ocorre com mais regularidade no verão, segundo assinala ao Observador José Pimenta Machado, que foi detetada a contaminação microbiológica pela bactéria Enterococcus no Algarve.

“Sempre que detetamos valores fora do comum procuramos encontrar as causas e aumentar a regularidade dos testes para perceber o que está em causa”, aponta o presidente da APA, referindo dois possíveis focos de contaminação da água nas praias. São estas as avarias mecânicas em estações de tratamento de águas residuais e os picos de precipitação que podem “pressionar o sistema de bombagem de uma estação”.

"Tem de se esperar que o movimento do mar seja suficiente para dissolver a contaminação. Depois é comprovada a qualidade da água para se perceber se os níveis já estão bons"
Joana Moreno, médica de Saúde Pública

Nos dois casos o resultado é o mesmo: resíduos de esgotos não tratados vão parar ao mar indevidamente e, por conterem matéria fecal, existe a probabilidade de disseminarem as bactérias que serão nocivas aos humanos.

“Acontece muitas vezes no verão e em zonas do litoral existirem falhas nas estações [de tratamento de águas], porque há mais pessoas nessa zonas e mais pressão sobre o sistema de saneamento”, acrescenta Pimenta Machado, que refere ainda as descargas indevidas de barcos que passam junto à costa, motivo que conjetura como a causa do foco de poluição que interditou as praias no Algarve esta terça e quarta-feira.

A médica de Saúde Pública Joana Moreno destaca ainda como causas, para lá da descarga de águas residuais no mar, a presença de animais, ou os seus dejetos, na água, ou a deslocação de “águas pluviais que passaram por um terreno contaminado e que chegaram até à água do mar”.

Já em relação às medidas que são tomadas para resolver o problema, a profissional de saúde diz que não existe um tratamento propriamente dito a dar à água. “Na prática é esperar que o movimento do mar seja suficiente para dissolver a contaminação. Depois é comprovada a qualidade da água para se perceber se os níveis já estão bons”, explica.

Tanto a infeção por E. Coli, como por outras bactérias semelhantes, apresentam sintomas que se inserem num "quadro de gastroenterite", como diarreia e vómitos.

“O facto de a água do mar se movimentar muito rápido faz com que a interdição das praias não seja nem algo muito frequente nem que perdure muito no tempo”, acrescenta.

O presidente da APA destaca que, por ano, a agência faz “mais de 15 mil análises para garantir a segurança das águas balneares”, bem como aumenta a frequência da testagem de acordo com os episódios identificados. “A deteção faz-se pela análise laboratorial das águas, mas as bactérias também podem ser observadas através de sinais visuais e olfativos”, aponta ainda.

Que sintomas provocam a infeção por E. coli?

Tanto a infeção por E. Coli, como por outras bactérias semelhantes, apresentam sintomatologia que se insere num “quadro de gastroenterite”, afirma Joana Moreno, que destaca a diarreia e vómitos como principais sintomas, os mesmo que levaram as 116 pessoas infetadas na Nazaré ao hospital. Se uma pessoa for infetada pode ainda ter náuseas e febre e, nos casos mais graves, desenvolver bacteremia.

“Em última instância, em pessoas mais suscetíveis — nas quais se incluem crianças mais pequenas, idosos com comorbilidades ou até pessoas adultas mas com alguma fragilidade imunitária — podem desenvolver uma doença grave que na prática é a infeção do sangue por esta bactéria”, explica a vice-presidente da Associação de Médicos de Saúde Pública.

"Se as pessoas tiverem sintomas e tiverem esta ligação com a praia devem recorrer ao serviço de saúde para serem observadas"
Joana Moreno, médica de Saúde Pública

A médica destaca ainda a possibilidade de algumas pessoas contraírem meningite, que é a “infeção do líquido que existe à volta do cérebro e da coluna”. Assim, nos casos mais graves, a contaminação por esta bactéria pode levar ao internamento hospitalar por gerar um quadro de saúde mais agudo e que exige cuidados médicos.

Em casos mais raros, a infeção por E. coli pode causar ainda infeções urinárias, mas, como destaca Joana Moreno, tal não é habitual no contexto de contaminação da água do mar. “A contaminação nestes casos dá-se porque a pessoa ingere alguma água quando está a nadar e é a partir daí que a bactéria entra no corpo, através do sistema digestivo”, explica.

“Pode acontecer que a bactéria entre no corpo através da uretra e provoque uma infeção urinária, mas tinha de haver uma grande quantidade de contaminação na água para isso acontecer”, assegura a médica.

Qual o tratamento para curar a infeção por E. coli e o que fazer se achar que está contaminado?

Na Nazaré, o foco de contaminação pela bactéria que se julga ser a E. coli, tornou-se evidente através da deslocação de dezenas de pessoas a unidades de saúde com “sintomatologia gastrointestinal”. A médica de Saúde Pública Joana Moreno diz que este é o passo a dar perante a suspeita que um banhista possa ter em relação a ter sido exposto a bactérias nocivas na água do mar.

“Se as pessoas tiverem sintomas e tiverem esta ligação com a praia devem recorrer ao serviço de saúde para serem observadas“, aconselha, referindo que o médico irá “perceber se a gravidade da doença torna necessário a toma do antibiótico”.

A especialista diz que uma vez que está em causa uma bactéria, “há sempre a possibilidade de tratamento com antibiótico”. A bactéria pode ser identificada “através de análises às fezes e ao sangue” e a sua determinação é muitas vezes importante para se perceber qual deve ser o antibiótico correspondente a ser receitado ao doente.

Praia dos Ingleses, Foz do Douro, Porto

▲ APA aumenta regularidade da testagem da água do mar durante a época balnear

Site Águas e Energia do Porto

“A maioria dos casos acaba por ser tratado em casa, com recurso a antibiótico, mas alguns casos podem ter de ser tratados com internamento hospitalar”, alerta Joana Moreno, que destaca ainda os casos de mero “tratamento sintomático, sem necessidade de antibiótico, no caso de não haver doença grave”.

Assinala ainda a importância de não se “tomarem antibióticos inadequadamente”. “Em algumas situações faz com que algumas destas bactérias acabem por ganhar alguma resistência e deixem de ser sensíveis a vários antibióticos”, nota.

Num conselho final, alerta para a necessidade de, num quadro de sintomatologia e de mergulhos numa praia com o mar contaminado (ou suspeitas disso), o banhista ser “observado por um profissional de saúde para ser corretamente medicado”.

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