“Dizem que acontece aos idosos, não sei por que motivo me acontece.” Em janeiro de 2022, depois de ter passado 10 dias no hospital, o Papa Francisco brincava com as suas habituais dores de joelho que, naquela altura, o obrigaram a falhar o passeio no final da sua audiência geral semanal. Num outro momento, também falando sobre o joelho, respondeu a um grupo de padres mexicanos que aquilo de que a sua perna precisava era de “um pouco de tequila”. Era assim, com humor, que Francisco lidava com as várias doenças que o atingiam, quase todas próprias de quem tem uma idade avançada. Jorge Mario Bergoglio morreu esta segunda-feira, em Roma, aos 88 anos.

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A mais recente complicação de saúde — uma bronquite, que entretanto evoluíra para uma pneumonia bilateral — levou o Papa a ser internado no Hospital Gemelli, em Roma, no dia 14 de fevereiro. No segundo dia de internamento, os exames revelavam que se Francisco enfrentava uma infeção polimicrobiana, com ação conjunta de vírus e bactérias — o que tornava mais delicado o quadro clínico. O Vaticano explicava depois que a infeção surgira no contexto da bronquite asmática que afetava Francisco e que o “quadro clínico complexo” que se verificava obrigara à alteração do tratamento, com a administração de antibioticoterapia com cortisona.

E se o cenário já era preocupante, pior ficou a 18 de fevereiro, quando um nove exame revelara que a infeção tinha alastrado e já afetava os dois pulmões (pneumonia bilateral). Uma condição grave, ainda mais no caso de Francisco, que retirara parte de um dos pulmões aos 21 anos, devido a uma pleurisia (uma inflamação que afeta a membrana que envolve os pulmões). Alguns dias depois, Francisco desenvolveu também um quadro de insuficiência renal, ainda que ligeira.

O seu quadro clínico acabaria por se tornar, gradualmente, menos complexo, até Francisco receber alta médica, a 23 de março, 38 dias depois de ter dado entrada no Hospital Gemelli. A equipa médica que o seguiu durante o internamento recomendou-lhe repouso durante pelo menos dois meses, mas Francisco depressa retomou a agenda — com algumas receções a líderes mundiais (como o Rei de Inglaterra, Carlos III, ou o vice-Presidente dos EUA, JD Vance) e aparições na Praça de São Pedro (a última das quais este domingo, para as celebrações da Páscoa). Menos de um mês depois de ter saído do seu mais longo internamento hospitalar, acabaria por morrer, vítima de um AVC, segundo informação avançada pelo jornal Corriere dela Sera.

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Os primeiros problemas de saúde (que se conhecem) registaram-se quando Bergoglio era ainda um jovem de 21 anos. Um dia depois de se ter tornado Papa, o porta-voz do Vaticano confirmava que uma parte de um dos pulmões de Francisco tinha sido retirada.

O relato desses dias seria feito pela jornalista Francesca Ambrogetti no seu livro O Jesuíta. “Jorge Mario Bergoglio teve três dias terríveis, ficou entre a vida e a morte quando tinha 21 anos. Tinha muita febre, ficava abraçado à mãe e dizia: ‘O que é que me está a acontecer?’ Os médicos estavam desconcertados e não sabiam o que responder.” O diagnóstico era de uma pneumonia grave e o jovem argentino tinha três quistos no pulmão. “A doença foi controlada e, depois de um tempo, Bergoglio foi submetido a uma cirurgia para remover a parte superior do pulmão direito”, escreve a jornalista no seu livro.

À data da operação, em 1957, o uso de antibióticos não estava generalizado, como agora.

A depressão, o pé chato e a infiltração no joelho

No livro A Saúde dos Papas é Austen Ivereigh que revela alguns dos problemas que Francisco enfrentou. Nos anos 1970, quando a Argentina vivia em ditadura militar, Francisco procurou a ajuda de uma psicóloga para o ajudar a lidar com crises de ansiedade. Mais recentemente, segundo o biógrafo, lidava com o stress ouvindo Bach e bebendo mate, a típica bebida argentina.

Outro problema que sempre o acompanhou foi o pé chato, aquele que o faz andar como uma galinha choca, como o próprio chegou a dizer.

Outra revelação feita pelo mesmo escritor foi a de que Francisco recorreu a um acupuntor para alívio das dores nas costas — um problema crónico que o acompanhou até aos últimos dias — quando era arcebispo de Buenos Aires.

Ainda antes de ser eleito Papa, a 13 de março de 2013, Bergoglio teve outros problemas de saúde. No final dos anos 1970 teve uma infeção da vesícula biliar, que foi quase fatal. No fígado, também foi tendo problemas. Tal como o seu pai, foi diagnosticado com esteatose hepática (gordura no fígado), problema que pode ser resolvido com uma dieta específica que foi cumprindo ao longo dos anos.

Em 2004, o estreitamento de uma artéria causou problemas cardíacos a Francisco, mas que ficaram resolvidos. Além disso, o Papa revelou ter um problema no espaço intervertebral entre a quarta e a quinta vértebras lombares, e entre esta e o sacro.

Em contrapartida, em 2015, o Vaticano rejeitou os rumores que corriam de que o Papa tinha um tumor cerebral, como chegou a ser noticiado pela imprensa italiana.

A primeira ausência por motivos de saúde

Em dezembro de 2021, no mês em que fez 84 anos, o Papa cancelou, pela primeira vez, a sua agenda devido a problemas de saúde. A causa das suas dores era uma nova crise ciática a afetar a perna direita, problema que se foi agravando com o passar dos anos. Nessa altura, entre outras celebrações, falhou a missa de 1 de janeiro de 2022.

Embora esse tenha sido o primeiro problema que o levou a alterar planos, em 2019 foi operado às cataratas sob sigilo absoluto. Um ano antes, Francisco tinha deixado o aviso: “Na minha idade, por exemplo, chegam as cataratas e deixamos de ver realmente bem. No próximo ano terei de ser operado.”

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Dois anos mais tarde, em julho de 2021, uma inflamação grave no cólon obrigou o Papa a ser operado, e a remover 33 centímetros do intestino grosso. Ficou internado 10 dias — terá sido na sequência dessa operação que surgiu a hérnia que teve de tratar, por lhe causar obstrução parcial do intestino. No ano seguinte, voltou a sofrer de diverticulite, uma inflamação na parede interna do intestino.

Ainda em 2022, os seus problemas de mobilidade tornaram-se cada vez mais evidentes. Em maio, poucos dias depois de dar uma entrevista ao Il Corriere della Sera, foi internado por causa da osteoartrite no joelho. “Tenho um ligamento rompido, farei algumas infiltrações e vamos ver. Estou assim há algum tempo, não posso caminhar”, disse nessa altura, com 85 anos.

Pouco depois do procedimento médico, que o obrigou a descansar durante 10 dias, apareceu em público, pela primeira vez, em cadeira de rodas. Menos de um ano depois, a 30 de março de 2023, o Papa foi diagnosticado com uma bronquite infecciosa. Ficou internado três dias e melhorou com antibióticos.

Uma infeção na zona abdominal levou-o de novo a um internamento no final da primavera de 2023. No dia 7 de junho, Francisco foi operado no Hospital Gemelli, em Roma. Ficou internado durante nove dias, tendo recuperado a tempo de participar na Jornada Mundial da Juventude — que se viria a realizar em Portugal em agosto do mesmo ano.

Nota: Este texto foi originalmente publicado a 8 de junho de 2023, foi atualizado e é agora republicado, por ocasião da morte do Papa Francisco