Qual é a morada de Cristiano Ronaldo? Kathryn Mayorga está há sete meses a tentar notificá-lo /premium

05 Junho 2019248

É público que Ronaldo vive em Itália, mas os advogados da mulher que o acusa de violação andam há meses a tentar descobrir a morada. A notificação formal é obrigatória para o processo avançar.

São raros os dias em que Cristiano Ronaldo, a namorada ou a mãe não publicam nas redes sociais pormenores sobre a sua vida familiar em Turim, Itália, para onde foi viver depois de ser contratado pela Juventus. E já por algumas vezes tanto o jogador como os seus advogados fizeram comentários à acusação por violação lançada por uma professora que o futebolista conheceu em 2009, em Las Vegas. No entanto, desde novembro que os advogados de Kathryn Mayorga tentam encontrar a sua morada — para o notificarem do pedido de indemnização por danos morais — e não conseguem. Ou seja, perante a justiça norte-americana, o jogador português desconhece que este processo foi aberto em setembro de 2018, logo não pode responder e a ação que está agora num tribunal federal americano não pode avançar.

As dificuldades do advogado norte-americano Leslie Mark Stovall estão reportadas num documento assinado a 28 de fevereiro, a que o Observador teve acesso, que foi entregue ao Tribunal Federal do Nevada. Foi para este tribunal que, em finais de janeiro deste ano de 2019, a defesa da professora recorreu, dadas as dificuldades das autoridades em encontrar a sua morada e notificá-lo. Foi para este tribunal que os advogados então se viraram, na tentativa de conseguirem que Ronaldo fosse avisado do processo por edital publicado num jornal nos Estados Unidos e noutro em Itália. Além da publicação em jornais, os advogados pediam também ao juiz que notificasse por e-mail e para as moradas físicas todos os advogados conhecidos do jogador — Carlos Osório de Castro, em Portugal, e Christian Schertzcom, com escritório na Alemanha e nos Estados Unidos. Pediam ainda que fosse notificado o agente de Ronaldo, Jorge Mendes, as empresas Gestifute e Polaris Sports e a própria Juventus.

No entanto, já em abril, o tribunal decidiu de outra forma. Uma vez que, um mês antes, os próprios advogados de Kathryn Mayorga tinham, por intermédio de um mediador, entregue o processo às autoridades italianas, no âmbito da Convenção de Haia, não valia a pena, para já, avançar com o edital. A decisão do magistrado que assinou o despacho consultado pelo Observador foi, então, a de dar mais 180 dias para que Ronaldo seja notificado do processo, no qual é pedida a revogação do acordo extrajudicial que terá feito com Kathryn em 2009, — e que a impedia de voltar a falar sobre o que aconteceu entre ambos na penthouse de um hotel de Las Vegas — assim como uma indemnização por todos os danos morais que a alegada vítima sofreu e que ainda hoje sofre.

A missão para notificar Ronaldo nesses seis meses adicionais pode, contudo, não ser tarefa fácil. Até agora, os advogados foram confrontados com várias dificuldades — da incerteza sobre o local de residência ao medo que alguns solicitadores diziam ter dos seguranças do condomínio em Turim.

Primeiro andaram a procurar Ronaldo nos Estados Unidos

Os esforços para localizar Ronaldo e garantir que fosse notificado do processo começaram ainda em outubro de 2018, dias depois de o pedido ter entrado num tribunal estadual do Nevada — o Tribunal Distrital de Clark County.

Por causa das dificuldades em conseguir localizar e notificar Cristiano Ronaldo, a defesa de Kathryn Mayorga optou por retirar a queixa que tinha apresentado no Tribunal Distrital de Clark County e entregar o processo a um tribunal superior, com competências federais no estado do Nevada.

Os advogados de Mayorga recorreram a uma empresa privada — que funciona como uma espécie de solicitadora — para descobrir o verdadeiro domicílio de Ronaldo, para, assim, lhe poderem entregar o pedido de indemnização pessoalmente (a lei do Nevada obriga a que o notificado preencha um documento que prova que recebeu e leu o conteúdo do processo). Caso a morada fosse no estrangeiro, esta empresa ficou ainda com a tarefa de tratar do processo de acordo com a Convenção de Haia — que define como é que os documentos públicos e judiciais podem circular entre países de forma certificada.

Segundo os e-mails que constam no processo a que o Observador teve acesso, foi Norma McMahan (elemento dessa empresa que presta serviços de justiça civil) quem tratou de tudo a partir do dia 1 de outubro de 2018. E o que começou ela por fazer? Segundo a própria, num documento entregue ao tribunal, tentou por todos os meios localizar uma morada do jogador português no estado do Nevada e, depois, em todo o país, nos Estados Unidos. Um mês depois, quando já era público que o jogador se deslocava ocasionalmente aos EUA, deu como certo que o português não tinha qualquer morada ali.

Só em novembro se virou para Itália, para onde o jogador acabara de se mudar, depois de ter sido contratado pela Juventus e de ter abandonado o Real Madrid.

Num dos e-mails enviados por Norma McMahan para Ronald Harper, do escritório de advogados de Stovall (que representa Kathryn Mayorga), a funcionária dá conta de que à data, a 14 de novembro, ainda não conseguira a confirmação da morada — essencial para fazer seguir o processo, como reforça aos longo dos vários e-mails enviados a dar conta do que fazia.

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Turim ????????

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Advogados querem vídeo da entrega, mas em Itália têm medo dos seguranças

Nesse dia, ainda a 14 de novembro de 2018, a responsável — que será o equivalente a uma solicitadora em Portugal — explica que, mesmo sem a morada certa de Ronaldo em Turim, contactou uma pessoa italiana para entregar o processo em mãos a Ronaldo, sem sucesso. Porquê? A pessoa recusou por causa da “reputação dos seguranças privados”.

Assim, os advogados de Mayorga fazem-lhe um pedido claro: querem não uma, mas duas pessoas em Itália que possam fazer o serviço. Alguém que entregue o dossier a Cristiano Ronaldo em mãos — ou aos seguranças que guardem o local onde morar o jogador português — e outro que filme e fotografe a entrega, para terem provas de que foi notificado, como a lei exige.

A 15 de novembro de 2018, porém, McMahan dá conta de que uma das pessoas que contactou para o fazer não se mostrou muito “entusiasmada” com a ideia. No dia seguinte, no entanto, uma boa notícia para a defesa de Kathryn Mayorga: conseguiu contratar duas pessoas para o tal serviço, pelo valor de 1500 euros (ao qual, alerta, se deve somar o valor do envio registado do documento).

Havendo já quem fizesse a entrega, surgiu um outro problema: num novo e-mail a dar conta das sucessivas tentativas para chegar à casa de Ronaldo e da sua família, um mês depois, a 13 de dezembro, a empresa contratada informava que, para cumprir a Convenção de Haia, os documentos tinham que ser traduzidos para italiano. Além disso, a questão de fundo mantinha-se: continuavam sem ter uma morada da residência de Ronaldo, para lhe fazer chegar esse documento já traduzido.

Enquanto Cristiano Ronaldo, a namorada e a mãe publicavam imagens da sua rotina, das suas viagens, da sua vida, esta empresa contratada continuava a tentar perceber onde morava.  A 14 dezembro de 2018, McMahan sugere, então, que se enviem os documentos para a sede da Juventus, uma possibilidade que, ao longo do processo, se percebe não ser a preferida dos advogados. Sugere ainda recorrer a um advogado em Itália para fazer esse pedido de notificação através das autoridades italianas, mas lembra que todo o processo pode levar mais de quatro meses. O recurso a um jurista italiano poderia poupar pouco mais de um mês na espera, mas teria um custo provavelmente superior a 3 mil dólares.

O advogado Leslie Mark Stovall, que representa Kathryn Mayorga, diz que ela ainda está afetada psicologicamente pelo que aconteceu

Há casa, mas não há como entrar lá

As informações que a defesa de Mayorga juntou ao processo cível — que agora se encontra no Tribunal Federal do Nevada — e que estão assinaladas como elementos de prova, mostram também um e-mail enviado a 3 de janeiro de 2019, três meses depois de o pedido de indemnização original ter chegado à justiça.

A pessoa contactada em Itália para descobrir a morada do jogador tinha, finalmente, conseguido descobrir a zona onde o jogador morava (e, aparentemente, ainda mora), mas não a indicação da casa específica — percebendo-se que deverá tratar-se de um condomínio com várias habitações. 14 dias depois, de acordo com os registos, chega a informação de que os documentos já estão traduzidos. Mas, não havendo morada, a solicitadora faz uma sugestão: envia-se para a Juventus?

Todos estes contactos e estas tentativas de notificar Ronaldo foram sendo feitos por iniciativa dos advogados, como prevê a lei daquele estado americano. Até que, a 27 de janeiro de 2019, e dadas também as limitações do próprio tribunal para localizar formalmente o jogador português, a defesa de Mayorga optou por recorrer para o Tribunal Federal do Nevada. Desistiu, assim, do pedido original, no Tribunal Distrital de Clark County e ficou apenas com este, no tribunal superior.

As tentativas para encontrar a morada exata do jogador português em Turim acabaram por sair sempre frustradas. As pessoas contratadas em Itália para o fazer terão dito à solicitadora norte-americana que os jogadores da Juventus, ali, são "como a realeza" e que os registos de propriedade ou foram apagados ou não existem.

Essa mesma informação chega à empresa privada, que continua tenta localizar o jogador — enquanto Ronaldo aparece todos os dias nas redes sociais, mas cuja morada parece permanecer em mistério. A 29 de janeiro, McMahan, a solicitadora, envia nova informação aos advogados de Kathryn Mayorga: acredita que encontrou a morada, mas, mais uma vez, há um problema. A casa pode ser ali, mas não há um segurança à porta do condomínio e não é possível entrar para fazer a entrega. O plano inicial dos advogados seria frustrado.

Sugere, então, que se recorra às autoridades italianas — o que implica, como ela própria já tinha explicado, a contratação de um jurista italiano, para poder preparar o pedido. O processo, por seu turno, tem que ser novamente traduzido e instruído, uma vez que mudou de tribunal no Nevada.

Dias depois, a 1 fevereiro deste ano de 2019, chegam as explicações para os três meses passados à procura da morada de uma das pessoas mais conhecidas do mundo. “Os jogadores da Juventus são como a realeza”, conta, citando fontes italianas que sugerem que eles têm uma espécie de proteção especial em Turim. A pessoa contactada em Itália, relata Norma McMahan nesse e-mail para os advogado da alegada vítima do jogador, conseguiu fornecer a morada do condomínio onde vive Cristiano Ronaldo, mas não a da sua residência pessoal, entre as várias que poderão existir lá dentro. Terá dito, além disso, que todas as tentativas para obter o número da porta falharam, que em todas as buscas a morada de Ronaldo aparece em branco e que mesmo os registos de propriedade do condomínio ou foram apagados ou não existem.

Nessa altura, avançam para uma outra estratégia: fazer a pesquisa nos registos oficiais pelo nome da namorada de Ronaldo ou da mãe. De novo, em vão.

Cristiano Ronaldo conheceu Kathryne Mayorga numa discoteca de Las Vegas, em 2009

Plano Z: bater à porta da Juventus ou dos advogados do jogador

Uma outra tentativa é feita junto da própria sede da Juventus. De lá, a resposta não levanta esperanças de que o dossier seja entregue, de facto, nas mãos de Ronaldo. Respondem que, se deixar ali a cópia, garantem que entregam aos representantes de Ronaldo. Mas não é essa a intenção da defesa, que quer garantir que a notificação do processo chega mesmo ao jogador e precisa ter provas disso. E, assim, o homem que ali se deslocou a mando da solicitadora norte-americana acaba por voltar para trás, sem deixar qualquer documento.

Norma McMahan ainda voltou a perguntar aos advogado de Mayorga se deveriam tentar de novo e arriscar deixar a documentação no clube. Mas, para já, não existe no processo qualquer posição sobre isso.

Por esta altura, também já tinha falhado a tentativa de notificar Ronaldo através dos seus advogados nos Estados Unidos. Ainda em 2018, no início da saga para encontrar o jogador português, a solicitadora procurou o escritório de David Chesnoff, um conceituado advogado — habituado à defesa de celebridades norte-americanas — que chegou a tomar a defesa do português, pouco depois da apresentação da queixa. Ele próprio tinha contactado a defesa de Mayorga, no início de outubro, quando o caso foi tornado público, assumindo-se como representante legal de Cristiano Ronaldo. Esse contacto, segundo os registos entregues em tribunal, foi uma espécie de aviso: os advogados da alegada vítima preparavam-se para fazer, naquele dia, uma conferência de imprensa sobre o caso e a defesa de Ronaldo quis lembrar-lhes que, pelo código de ética imposto aos advogados do estado do Nevada, estavam proibidos de fazer declarações públicas e extrajudiciais sobre o caso.

Ambos os escritórios de advogados que representaram ou representam Cristiano Ronaldo nos Estados Unidos responderam à defesa de Kathryn Mayorga que não estavam mandatados para receber notificações em nome do jogador português, pelo que, também por aí, não foi possível cumprir esse passo, obrigatório pela lei norte-americana para que o processo de pedido de indemnização possa avançar.

Cerca de um mês depois, porém, contactado pela solicitadora da defesa de Mayorga, o escritório de Chesnoff recusava ser notificado em nome do jogador português, dizendo que não estava mandatado para receber ou tratar qualquer elemento sobre o caso. Assim, Norma MacMahan virar-se-ia para um outro advogado, Peter Christiansen, para fazer a notificação do processo em nome do jogador. Também essa troca de e-mails consta do processo — mas o jurista explica que, apesar de representar o jogador, não tem qualquer autorização ou delegação para receber notificações dele. Esse contacto é feito a 26 de novembro de 2o18 e assinado pelo próprio Peter Christiansen.

Sem grandes alternativas, e já depois da busca pelas moradas em Turim, a solicitadora sugere aos advogados de Kathryn Mayorga que os documentos sejam enviados para a morada geral do condomínio, na esperança de que cheguem a Cristiano Ronaldo. Mesmo que, dessa forma, nunca tenha a garantia da notificação.

A comunicação mais recente de Norma McMahan, que consta do processo, é uma declaração na primeira pessoa dirigida ao tribunal, para fundamentar o pedido que os advogados fizeram — o de notificar o jogador português através de editais publicados num jornal norte-americano e num italiano. A solicitadora, com 15 anos de experiência, avisa que, entretanto, enviou às autoridades centrais de Roma uma cópia traduzida para italiano da notificação daquele tribunal federal, a dar conta do processo e da queixa apresentada por Mayorga, mas que isso pode demorar muito tempo a estar concluído.

O acordo que os advogados de Ronaldo terão feito com a alegada vítima, em troco do seu silêncio, foi tornado público pela revista alemão Der Spiegel

Fundamentado na Convenção de Haia e entregue a 22 de março, o pedido requeria às autoridades italianas que notificassem Cristiano Ronaldo na sua casa em Turim — dando, para isso, uma morada — e na sede da Juventus. Nessa declaração, McMahan refere que, pela sua experiência, estes pedidos podem demorar seis meses, ou seja, até outubro. E é por isto que o Tribunal Federal decide dar 180 dias para que Ronaldo receba o processo nas mãos.

O processo cível em causa, que corre paralelamente ao processo crime reaberto pela polícia de Las Vegas e que investiga o alegado crime de violação, pede a revogação do acordo firmado entre o jogador e a professora para que ela mantivesse o silêncio sobre o que aconteceu em 2009, na penthouse onde Ronaldo estava hospedado. É pedida também uma indemnização por todas as consequências psicológicas causadas pelo crime e pelo acordo que garante ter feito sem estar na posse de todas as suas capacidades psicológicas e emocionais.

Se até se cumprir esta extensão de 180 dias o jogador não tiver recebido formalmente a notificação, o tribunal pode ainda determinar a publicação de um edital nos jornais — tal como pretendia a defesa de Kathryn Mayorga quando recorreu para o tribunal federal.

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