Qual será a profissão mais procurada em 2020, informático ou carpinteiro?

18 Julho 20171.729

Toda a gente saberá programar, mas haverá procura de trabalhos tradicionais. Saiba que 8 profissões estarão a dar, ponha todas as actividades extracurriculares no currículo e desenvolva soft skills.

Em 2020, o grupo BMW vai lançar os primeiros automóveis com condução autónoma. Um quarto das necessidades energéticas da população mundial vai ser satisfeita exclusivamente através de energias renováveis, acredita a Agência Internacional da Energia. E o ambicioso Elon Musk promete aterrar uma nave tripulada por humanos em Marte pela primeira vez na História. Enquanto tudo isto estiver a acontecer, cerca de 45 mil jovens portugueses na caso dos 20 anos vão estar em busca de um lugar no mercado de trabalho. Onde é que o vão encontrar num mundo em constante mudança? Perguntas para responder agora que começa mais uma fase de acesso ao Ensino Superior.

A programação e o regresso dos carpinteiros e dos serralheiros

Uma coisa parece certa para Mafalda Vasquez, diretora-geral da MSearch, empresa internacional de recrutamento e gestão de carreiras: não, a digitalização não faz parte do futuro porque já é o presente. O que vai acontecer é que, daqui a três anos, toda a gente — independentemente da profissão que tenha — vai ter de saber programar.

Mas há outra certeza: não são só as profissões dirigidas para o contexto tecnológico que já existem que vão sobreviver e continuar em destaque dentro de três anos. Para Mafalda Vasquez, “funções tradicionais que julgávamos em desuso vão voltar a crescer” porque “as funções técnicas vão entrar em escassez no mercado”. Em 2020, um programador pode ser tão solicitado quanto um serralheiro. E um analista de dados pode ser tão valorizado quanto um carpinteiro.

O motivo está no entusiasmo com que muita gente abandonou as profissões mais técnicas. Desde a década passada que os especialistas em recrutamento e mercado de trabalho falam de um futuro baseado nas novas tecnologias: não é que as máquinas estejam já para substituir os humanos — porque sem nós, os robôs não existiam — mas a tónica era de que só quem soubesse trabalhar com elas é que teria um futuro garantido no mercado de trabalho. Resultado: a juventude que normalmente optava por funções mais tradicionais, como ser pedreiro ou mecânico, correu toda para formações técnicas relacionadas com a evolução tecnológica.

Acontece que todos continuam a precisar de alguém que construa casa, que arranje o carro ou nos desenhe móveis. Passados dez anos, afinal, continua a haver mercado para absorver a oferta de profissionais em áreas tecnológicas, mas há pouca gente que saiba erguer uma casa ou por o motor de um carro a funcionar. Quem sabe vai, portanto, ser mais solicitado. E a urgência que temos de os encontrar é tanta que também vão ser mais bem pagos. Aliás, basta tentar encontrar um canalizador ou um eletricista hoje em dia: não só é difícil, como demora. E são já tão bem pagos quanto um especialista informático.

No futuro todos saberemos programar por exemplo, independentemente de sermos médicos, gestores ou engenheiros. No campo oposto, e contrariando esta tendência, funções tradicionais que julgávamos em desuso vão voltar a crescer – as funções técnicas são um exemplo dada a sua escassez no mercado.
Mafalda Vasquez, diretora-geral da MSearch

A tecnologia vai dominar o mercado de trabalho

Apesar disso, a tecnologia domina. De acordo com um estudo do World Economic Forum, está mesmo em curso uma quarta Revolução Industrial que “vai criar uma tempestade de mudanças em modelos de negócio em todas as indústrias”. Prevê-se que as mudanças demográficas e os avanços tecnológicos vão levar à perda de 7,1 milhões de empregos só em três anos, a maior parte dos quais ligados à administração e aos chamados “empregos de colarinho branco”.

Esta é a opinião dos mais de 350 empregadores em nove indústrias dentro das 15 das maiores economias do mundo entrevistadas pelo World Economic Forum, mas vai ao encontro da previsão de Tiago Santos, diretor-geral da Talent Search People, consultora de recursos humanos e recrutamento: “Nunca é demais destacar que há cursos que, apesar de prepararem muito bem os alunos para exercer uma atividade profissional, acumulam profissionais no desemprego. Todas as licenciaturas relacionadas com o Ensino, Direito, Geografia e Filosofia são cursos com menos saída profissional, sobretudo se pensarmos nas saídas profissionais mais tradicionais”, explicou ao Observador.

Para a Talent Search People, o futuro faz-se acima de tudo de nanotecnologia, ecologia e profissões relacionadas com os cuidados pessoais e de assistência. O World Economic Forum vai mais longe e indica em oito pontos as oito profissões que vão ser mais solicitadas em 2020. E são as seguintes:

Mais respostas encontram-se olhando à lupa para o mercado de trabalho atual e vendo quais são as profissões que as empresas têm procurado cada vez mais, mas para as quais encontram poucas pessoas capacitadas. Segundo Pedro Borges Caroço, senior manager da Michael Page, empresa britânica de recrutamento especializado, há uma tendência que se tem observado nas engenharias de forma transversal, mas com mais ênfase nas áreas da informática, bioquímica e biomédica.

Isso faz crer que essas vão ser as profissões mais procuradas, e consequentemente melhor remuneradas, dentro de pouco tempo. E faz prever um efeito no mercado de trabalho que existia há vinte, trinta ou quarenta anos: para estas profissões, o canudo pode valer mais do que as competências interpessoais, que têm ganho mais peso na hora de escolher um colaborador para uma empresa.

O curso é assim tão importante?

A MSearch diz que as provas de aptidão que avaliam o Quociente de Inteligência (QI) vão ser cada vez mais preteridas às provas de Quociente Emocional, que avaliam a inteligência emocional.

A inteligência emocional descreve a capacidade de reconhecer e avaliar os próprios sentimentos e os dos outros, bem como a capacidade de saber lidar com eles. É testada através de exercícios de simulação e de pequenos teatros, por exemplo.

É fundamental para testar competências-chave nas organizações como liderança, planeamento, capacidade de decisão, capacidade analítica e trabalho de equipa.

Vamos por partes. Na hora de escolher um funcionário para uma determinada empresa, o empregador tem em conta dois fatores: as chamadas hard skills e as soft skills. As hard skills representam os conhecimentos e habilidades indispensáveis para desenrolar uma determinada função — por exemplo, saber programar, ter noções de contabilidade ou saber mandarim. As soft skills são as capacidades comportamentais e sociais, estão muito relacionadas com a inteligência emocional e espelham as capacidades inatas de uma pessoa — por exemplo, a capacidade de resolver problemas muito rapidamente, saber comunicar de forma eficaz com terceiros ou manter princípios de ética no exercício da função.

Há alguns anos, as hard skills era mais valorizadas do que as soft skills, recorda Michael Page: nem toda a gente podia entrar na universidade, por isso quem se apresentasse a uma empresa com uma licenciatura nas mãos podia abrir mais portas. Hoje as coisas mudaram: “As pessoas têm muita informação, toda a gente tem licenciaturas, muitos já têm doutoramentos. Do ponto de vista académico, há pessoas muito robustas desde muito cedo, coisa que no passado não acontecia”. Então, os novos trabalhadores tiveram de encontrar modos diferentes de se destacarem de pessoas exatamente com as mesmas qualificações que elas. Como? Através das soft skills, porque há coisas que não nos ensinam na escola e que dependem em grande parte da nossa própria personalidade.

A falta de candidatos faz com que "uma pessoa que não seja brilhante do ponto de vista comportamental, mas que cumpra o que é tecnicamente pedido" seja mais facilmente contratada do que aquela que têm uma vertente de soft skills -- normalmente as mais apreciadas pelos empregadores -- mais vincada. 

Acontece que esta dinâmica do mercado de trabalho não se aplica às profissões que se esperam ser as mais solicitadas em 2020. Pedro Borges Caroço explica que a falta de candidatos faz com que “uma pessoa que não seja brilhante do ponto de vista comportamental, mas que cumpra o que é tecnicamente pedido” seja mais facilmente contratada do que aquela que têm uma vertente de soft skills mais vincada. E o motivo é simples: a falta de tempo, a urgência. “Imagine que tenho uma pessoa muito forte em termos de soft skills e que tem capacidade para aprender qualquer tarefa. E tenho outra pessoa que pode não ser tão flexível, tão paciente ou comunicativa, mas que não precisa de aprender a executar uma tarefa porque já a sabe fazer à partida. Se não houver tempo para desenvolver a primeira pessoa porque a empresa precisa urgentemente de alguém, a segunda pessoa é a que vai ser escolhida. Pode não ser a que melhor se encaixe na realidade, mas tendo em conta a exigência e a falta de oferta, ela será a escolhida”, explica ao Observador o senior manager da Michael Page.

6 coisas que vão mudar no mercado de trabalho daqui a três anos

Nas profissões que não se incluam nas tendências para 2020, mesmo naquelas que são promissoras, o mercado está muito diferente daquele que era há 18 anos, quando os jovens que agora entram para a universidade estavam a nascer. A primeira grande mudança foi a informatização, recorda a diretora-geral da MSearch: “Hoje todos usamos computadores, tablets ou smartphones, o que nos permite trabalhar em qualquer altura e em qualquer lugar, o que trouxe uma certa flexibilização do trabalho“.

Primeiro ponto: agora, temos de estar mais disponíveis. Além disso, se antigamente as pessoas podiam fazer uma carreira inteira em apenas uma empresa, subindo hierarquicamente dentro dela, hoje o tempo de estadia num determinado local é menor: “Já não se abraça um emprego, mas sim um projeto. Os jovens já não têm receio de arriscar em novos projetos até porque saem de casa dos pais mais cedo”, o que funciona como âncora.

Segundo ponto: há que ser mais proativo.

A Michael Page identificou ainda mais mudanças: o que um colaborador exige de um empregador. Antes, a tónica de uma relação entre um trabalhador e a sua empresa era o conforto: as pessoas queriam um ordenado fixo, de preferência um carro da companhia e um computador ou telemóvel pelo qual não tivessem de pagar. Agora as coisas estão diferentes: podem não querer um carro porque assim arranjam formas de escapar ao trânsito e preferem ter uma bolsa de viagens ou um valor extra mensal para gastarem no que quiserem do que terem a certeza de um aumento ao fim de um determinado número de anos. E isso traz desafios para as empresas, que têm de perceber que “a forma de remunerar tem de estar alinhada com as expetativa das pessoas que querem conquistar”.

Terceiro ponto: o mercado de trabalho vai ter de ser mais personalizado. É que agora “o candidato comanda a candidatura e seleciona as empresas-alvo. Nas faixas etárias mais jovens existe muitas vezes abertura para procurar constantemente novos desafios. O candidato comanda a sua continuidade no processo”, descreve a MSearch.

As empresas já perceberam isso. Aliás, dada a celeridade com que o mercado de trabalho tem avançado, elas não tiveram outro remédio, diz Pedro Borges Caroço ao Observador. Se antes as pessoas queriam um projeto duradouro e pretendiam crescer dentro da mesma estrutura, hoje elas querem ser constantemente desafiadas. Um jovem em 2020 não vai pedir um aumento ou um telemóvel de uma determinada marca, mas vai querer estar num lugar onde o desenvolvimento e a inovação são constantes — algo que é muito difícil de alcançar pelas empresas.

E isso leva-nos ao quarto ponto: os colaboradores vão ser mais impacientes. Tão mais impacientes que as empresas têm de aprender rapidamente o que move as pessoas que trabalham para elas sob pena de investirem nelas e darem-lhe valências que, se não forem aproveitas, podem ir para o serviço da concorrência em seis meses a um ano.

Quinto ponto: o mercado de trabalho vai ser mais rápido.

Mas isso traz o reverso da medalha para os jovens trabalhadores em 2020, que vão ter de aprender a ter calma. E a investir neles próprios. De acordo com o senior manager da Michael Page, o facto de haver mais oferta de pessoas do que oferta de emprego na maior parte das profissões obriga a que as pessoas se diferenciem: “As pessoas têm de ter consciência de que talvez não estejam a ganhar conforme as expetativas que tinham, mas que podem estar a ganhar algo que não é mensurável”, explicou ao Observador. Há que aceitar estágios, fazer sacrifícios e olhar para eles como investimentos em formação, experiência, currículo e oportunidades de criar momentos de impacto na carreira. “Se uma pessoa quiser ser purista e pensar: ‘Eu ganho 400 euros numa bolsa de estágio e estou a ser explorado porque as minhas tarefas têm impacto na organização’, provavelmente não está no sítio certo”, afirma Pedro Borges Caroço. O correto era dizer: “Eu invisto juntamente com a empresa, que me está a dar oportunidade de ter estas tarefas, conhecer estas pessoas, de perceber o que é uma hierarquia, perceber o que é lidar com datas e com pressões, que me está a preparar para o futuro. E ainda me permite ter uma bolsa de estágio que me deixa vir trabalhar sem trabalhar”.

Sexto ponto: ser positivo em relação ao futuro.

O que fazer para ser o trabalhador ideal em 2020

Isso pode ser tarefa árdua em temos de incertezas e receios. Para Mafalda Vasquez, diretora-geral da MSearch, as crises económicas dos últimos anos transformaram tanto o contexto social, económico e até demográfico que é difícil prever o que vai acontecer dentro de três anos. Mas em 2020, como agora, “a incerteza dos jovens começa por saber se têm emprego e depois por saber se têm o emprego que querem”. Quando chegarem onde querem chegar, vão ser mais exigentes, vão questionar mais as chefias e impor mais o seu ponto de vista nos temas mais decisivos para as organizações. E as empresas, por sua vez, vão ter de lidar com a hipótese de, ao contratarem, estarem a fazer um investimento sem retorno porque os jovens licenciados vão ficar menos de um ano na mesma empresa, para a qual olham como “um projeto temporário que tem logo à partida para o jovem profissional uma data de início, meio e fim”. Os trabalhadores de 2020 que saírem nessa altura da universidade vão ser mais competitivas, insatisfeitas por natureza e menos abertas à aprendizagem.

Neste panorama de incertezas e receios, como será o funcionário perfeito no futuro aos olhos das entidades empregadoras?

  1. Será aquele que equilibre melhor as hard skills e as soft skills. Em relação ao primeiro aspeto, diz-nos a Michael Page que o ideal será “ter uma formação transversal” que depois pode ser complementada através de pós-graduações para que o trabalho se possa ir especializando à medida que nos desafios profissionais vão aparecendo pelo caminho: “Isso é melhor do que fazer uma carreira académica completamente fechada aos 30 anos.
  2. É melhor fazer uma formação inicial com experiência efetiva. Chegar aos 30 sem qualquer experiência profissional, mesmo com todos os doutoramentos, é não ter noção do que é trabalhar numa organização. Isso faz-se aos 20, não aos 30. É melhor dar passos mal dados mais cedo”, explica Pedro Borges Caroço. Em termos de soft skills, o trabalhador perfeito vai ser inovador e criativo, vai ter sentido crítico, capacidade de gestão do tempo e ser muito adaptável, descreve Mafalda Vasquez da MSearch. Vai, em tempos em que toda a gente anda de smartphones nas mãos, saber olhar de frente para a liderança e olhar os problemas sem medos.
É melhor fazer uma formação inicial com experiência efetiva. Chegar aos 30 sem qualquer experiência profissional, mesmo com todos os doutoramentos, é não ter noção do que é trabalhar numa organização. Isso faz-se aos 20, não aos 30. É melhor dar passos mal dados mais cedo.
Pedro Borges Caroço, senior manager da Michael Page

Ora, uma entrevista de meia hora não chega para filtrar todas essas competências num potencial colaborador. A Michael Page explica que a estratégia mais correta para revelar todas essas competências é também a menos adotada pelos candidatos: ter no currículo as atividades extracurriculares em que já participou.

Vale tudo, desde ter feito desporto na adolescência, saber tocar um instrumento musical ou ter trabalhado num pequeno restaurante de aldeia. Tudo porque “a probabilidade de essa pessoa ser regrada, consciente das datas e organizada é muito maior do que aquela que não passou por nada disso. Até pode ter essas capacidades quem nunca praticou nada disto, mas ela não terá forma de o demonstrar”. Não tenha medo de falar dos voluntariados, dos trabalhos de verão, “das coisas mais básicas”, aconselha Pedro Borges Caroço. Pode ser o seu passaporte para o mercado de trabalho em 2020.

O futuro adivinha-se tranquilo para a maior parte dos portugueses. Sete em cada dez portugueses — 66,2% dos trabalhadores — acredita que terão uma melhor situação profissional nos próximos 12 meses, de acordo com o Índice de Confiança Laboral da Michael Page, um estudo com 1.196 pessoas em Portugal acerca do mercado de trabalho no país. Apenas 2,4% dos entrevistados acham que a sua situação profissional dentro de um ano vai ser pior do que a atual. Ainda assim, a avaliação que os mesmos profissionais fazem ao mercado de trabalho português está muito abaixo da média: quando questionados acerca da qualidade do mercado de trabalho, Portugal deu 47 valores à sua realidade. A média dos 38 países sondados pela Michael Page é de 61 valores.

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