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MARTIM ANDRADE/OBSERVADOR

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"Que mãe é capaz de uma coisa destas?" Como Marine passou de "calma e reservada" à protagonista de uma história "terrível" na sua cidade

Habitantes de Colmar, a cidade onde vivia Marine com os três filhos, conhecem a história. O Observador falou com os vizinhos da mãe de B. e Z., que descreveram como uma mulher "discreta".

É um dos típicos percursos na rota turística de Colmar, mas está particularmente vazio este domingo. Onde normalmente se ouvem diferentes idiomas e o som de máquinas fotográficas a disparar, existe um silêncio humano que é ocupado apenas pelo chilrear dos pássaros. Nesta manhã de calor, os habitantes desta cidade alsaciana deslocam-se, na sua maioria, na mesma direção. Na véspera da Segunda-Feira de Pentecostes, os colmariens dirigem-se à missa. É o caso de Odette*, uma jornalista francesa reformada, que admitiu ao Observador que, apesar de não os conhecer, dirigia-se à Igreja de São Martinho — a maior da cidade — para rezar por B. e por Z., as duas crianças francesas que foram abandonadas em Portugal na passada terça-feira.

“É uma situação horrível, que mãe é capaz de fazer uma coisa destas aos próprios filhos?”, lamentou Odette a caminho da missa. Na praça diante do Tribunal de Colmar, Jean-Baptiste* diz que também não conhecia a mãe ou os meninos de três e cinco anos, mas que a situação o chocou quando a leu nos jornais. Passou a semana a acompanhar cada evolução do caso. Marine Rousseau, a mãe das crianças, vivia a poucas centenas de metros daquele local, na Petite Rue des Bles, no canto de um pátio de acesso exclusivamente pedonal, mas por onde passa muito pouca gente.

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O edifício número oito é composto por três habitações distintas. Apesar de não estarem identificadas, é óbvio qual é a caixa de correio pertencente à sexóloga de 41 anos. Apenas um dos compartimentos instalados na porta de entrada está a abarrotar com correspondência por abrir, os outros estão vazios. Os dois agregados que vivem nos pisos inferiores ao de Marine, que ocupava a casa no último andar do prédio com os três filhos — para além das duas crianças, um rapaz de 16 anos, fruto de um relacionamento prévio — recusam-se a prestar declarações aos jornalistas (portugueses e franceses). Mas nem toda a vizinhança partilha da mesma aversão à exposição que o rapto e, depois, o abandono dos dois menores trouxe à localidade.

“Só a via de manhã, com os filhos, quando os ia levar à escola. Nunca falámos, mas parecia-me uma pessoa calma, reservada”, partilhou o dono de um dos restaurantes que fica no final da rua. Ainda assim, o homem, que também preferiu manter o anonimato, confessa ter ficado “surpreendido” com as notícias que leu sobre a vizinha. Uma ideia partilhada pelos moradores na extremidade da zona mais turística de Colmar. Todos os contactados pelo Observador que admitiam conhecer Marine referiam que apenas a conheciam de vista e que não tinham qualquer impressão da terapeuta.

Para a maioria dos funcionários dos restaurantes, cafés e estabelecimentos comerciais em redor da sua residência, Marine passou de uma cara anónima para o rosto de um acontecimento “horrível”. Algumas das pessoas que vivem nos prédios que bordejam as ruas paralelas à casa da mãe das duas crianças abandonadas na zona de Alcácer do Sal não imaginavam que “uma vizinha” fosse capaz de “fazer algo assim”. Muitos também não sabiam que Marine vivia a tão pouca distância das suas próprias casas.

  • A casa de Marine Rousseau, onde vivia com os três filhos, fica a poucos metros de uma das ruas mais movimentadas da cidade
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  • A caixa de correio de Marine Rousseau mostra que a sexóloga de 41 anos não vai a casa desde o início de maio
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Comportamentos nunca levantaram alarmes nos “poucos meses” em Colmar. Autarca descreve pessoa “discreta”

Marine não estava em Colmar há muito tempo. Existem poucas informações sobre os motivos que a levaram a escolher a cidade próxima da fronteira alemã, mas o Observador sabe que a sexóloga terá trocado as ruas de Troyes, onde passou a última década, pela Alsácia há “poucos meses”. Nas ruas fala-se em “poucos meses” e, de facto, ainda nem fez um ano desde que Marine, B., Z. e o seu filho mais velho — que também terá sido abandonado antes de a mulher de 41 anos ter saído do país abruptamente rumo a Portugal — se mudaram para aquela cidade no verão de 2025.

A casa de Marine fica numa zona “com muitos portugueses”, afirmou ao Observador um jovem lusodescendente que trabalhava num restaurante perto daquela rua. Apesar de não falar português — ou conhecer o caso —, não estranhou as possíveis ligações a Portugal. “Inicialmente, até pensei que a mãe pudesse ter origens portuguesas, porque existe uma grande comunidade portuguesa em Colmar. Mas não, não há qualquer ligação”, afirmou também o autarca da cidade, numa conferência de imprensa na passada sexta-feira à frente do tribunal.

Éric Strauman, citado pela imprensa local, diz que não tinha qualquer registo que justificasse um alarme relativamente ao perfil de Marine Rousseau, que descreve como “algo discreta” e de um “bom nível intelectual”. As crianças não nasceram em Colmar, mas estavam inscritas em escolas públicas locais. É uma caminhada de sete minutos até à escola pré-primária onde andava B. Marine percorria aquele caminho todos os dias da semana, até há cerca de 15 dias, relataram vizinhos atentos ao Observador.

Mas, no início do mês de maio, após sucessivas tentativas sem sucesso de contactar a responsável pelas duas crianças, os serviços sociais decidiram contactar o pai dos menores, que não vive nesta região. O ex-marido de Marine perdeu a guarda total dos filhos após o divórcio com a sexóloga pouco tempo depois do nascimento do segundo filho. Tinha autorização para visitar as crianças de forma “limitada e sempre com supervisão” das autoridades. Mas foi após este contacto dos serviços sociais municipais — e, também, de uma denúncia que partiu da família de Marine —, que o pai teve conhecimento do desaparecimento dos dois filhos menores.

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Mas aquela não foi a única instituição em Colmar a denunciar uma ausência misteriosa. “Em maio, o Hospital Civil de Colmar participou o desaparecimento preocupante de uma funcionária junto das autoridades competentes”, disse a direção daquela unidade de saúde ao jornal regional L’Alsace. Marine Rousseau, apesar de nunca se ter identificado publicamente como uma funcionária daquele hospital, desempenhou o cargo de psicomotricista em diferentes hospitais pelo país, pelo que a referência daquela unidade de saúde poderia referir-se, precisamente, à sexóloga que desenvolvia ali atividade como profissional independente. O hospital não confirmou, até à data de publicação deste artigo, que o desaparecimento reportado era o de Marine, e não respondeu às questões enviadas pelo Observador sobre o caso.

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“Vão ter de reconstruir as suas vidas.” Pai das crianças fala pela primeira vez sobre o caso

As notícias relacionadas com o abandono de B. e Z. são as mais lidas nos sites da imprensa local e, através de conversas com os colmariens, percebe-se que a grande maioria está a par do que aconteceu a quase 2 mil km de distância. A responsável por uma livraria dedicada exclusivamente a obras cristãs, que fica a menos de 100 metros da casa da sexóloga de 41 anos, não é exceção. “Uma pessoa que faz uma coisa destas não poderia ser cristã, o que explicaria eu nunca a ter visto aqui na loja”, comentou ao Observador.

Os trabalhadores mais jovens dos espaços comerciais nas proximidades da casa número oito da Petite Rue des Bles também conhecem bem os contornos da história. E sabem onde morava a mulher que decidiu abandonar os dois filhos de três e cinco anos numa mata entre Alcácer do Sal e a Comporta. “A senhora vivia ali em cima”, apontou um dos jovens, que admitiu não ter qualquer recordação de ter visto a cara de Marine Rousseau antes dos eventos que a colocaram sob os holofotes mediáticos. Vários vizinhos partilham que a primeira vez que viram a sexóloga foi quando apareceu na capa dos jornais e a abrir os noticiários televisivos.

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E mesmo apesar desta recém-adquirida fama regional, não passa mesmo de um reconhecimento localizado. Colmar recebe milhões de turistas todos os anos, que se dirigem à Alsácia para ver a arquitetura que transporta os visitantes internacionais até à Idade Média. Os turistas fazem filas para tirar fotografias nas pontes por onde passa o rio Lauch. Um dos pontos mais reconhecíveis nas milhares de imagens que são partilhadas nas redes sociais é uma espécie de reencarnação da cidade de Veneza, em Itália. É, de forma assumida, aqui que permanece a atenção do turista comum. Questionados sobre se tinham conhecimento do caso, pessoas de vários pontos do mundo revelam que não estavam a par de qualquer situação — muito menos que pudesse ter começado a pouco mais de 100 metros dali.

  • MARTIM ANDRADE/OBSERVADOR
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Mas, em França, o acontecimento continua a ser acompanhado com alguma relevância. Especialmente nas duas regiões francesas onde as duas crianças já viveram no seu curto tempo de vida. Na imprensa local de Troyes, surge um testemunho anónimo que recorda Marine Rousseau, uma antiga colega de trabalho, como alguém com uma “personalidade particular” que “não se dava muito bem” com as pessoas no hospital onde desempenhava as funções de psicomotricista. “[Marine] fez uma formação de sexologia e depois estabeleceu-se por conta própria. Não a voltei a ver muito depois disso, mas lembro-me de uma mulher que se vitimizava muito”, acrescentou a testemunha, citada pelo L’Est éclair.

O dia de domingo ficou também marcado pelas primeiras declarações do pai das duas crianças. Numa declaração escrita enviada ao canal Ici Alsace TV poucas horas após o anúncio das medidas de coação da ex-mulher e do atual companheiro, Marc Ballabriga, que ficaram em prisão preventiva, o pai de B. e Z., que optou por manter o anonimato, indica que continua em território francês à espera de receber a “luz verde” das autoridades para se dirigir a Portugal e estar com os filhos.

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“É só uma questão de tempo até tê-los de volta. Penso neles todos os segundos desde que as autoridades de Colmar me contactaram a dizer que tinham desaparecido”, confessa o pai das crianças. “As minhas crianças vão ter de reconstruir as suas vidas, tal como eu fiz, e não têm de ser relembradas desta tragédia. Não estou a tentar defender ou minimizar o que aconteceu. Os factos continuam a ser sérios e profundamente chocantes. Recuso-me a contribuir para o discurso de ódio, os insultos ou rótulos desenhados para desumanizar alguém, mesmo aqueles que sejam considerados culpados”, acrescentou.

*Os nomes assinalados são fictícios, a pedido dos entrevistados

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