Armen Sarkisian, o homem que terá sido o alvo da explosão desta segunda-feira num condomínio de luxo a noroeste de Moscovo, está na lista da Interpol pelo menos desde 2014 e há muito era procurado pelas autoridades ucranianas – país de onde era natural, da zona de Donetsk. É descrito, aliás, como um líder importante no mundo do crime organizado daquela região que atuou como uma espécie de “homem de mão” de Viktor Yanukovych, o quarto Presidente da Ucrânia (apoiado pelo Kremlin). Nessa altura ficou conhecido por instigar violência em manifestações pró-europeias – e mais recentemente estava a formar um batalhão de combatentes para concorrer com o grupo Wagner.

Sarkisian, que morreu com 45 anos, tinha nascido na Arménia mas era muito pequeno quando a sua família se mudou para Gorlovka, uma cidade no norte da região de Donetsk – região ucraniana que atualmente é controlada pela Rússia. Foi por crescer em Gorlovka que também era conhecido por Armen “Gorlovsky”, um homem há muito procurado pelas autoridades de Kiev por suspeita de envolvimento em vários assassinatos, entre inúmeros outros crimes.

Em 2013-2014, o alvo da explosão desta segunda-feira terá organizado grupos de provocadores que se infiltravam em comícios de protesto contra o então Presidente ucraniano e incitavam confrontos, com o objetivo de perturbar os protestos e levar a polícia a prender manifestantes. Esses provocadores eram conhecidos por “titushky” (o que se pode traduzir por “marginais”), normalmente jovens em boa forma física, alguns praticantes de boxe e artes marciais.

Conhecidos por andarem sempre vestidos com roupa desportiva, estiveram especialmente ativos nos protestos “euromaidan“, na Ucrânia, entre 2013 e 2014 – e o “marionetista” deste movimento seria Armen Sarkisian.

Uma investigação posterior comprovou que Sarkisian tinha relações muito próximas com o executivo de Yanujovych. Em fevereiro de 2014, por “encomenda” do antigo ministro da Administração Interna, Sarkisian terá ordenado a uma figura importante do submundo do crime organizado local, Yurii Krysin, que encontrasse entre 200 e 300 pessoas para ajudarem a “proteger a ordem pública” nos bairros próximos da sede do governo de Yanujovych. Foi nessa altura que foi assassinado o jornalista Viacheslav Veremii, alegadamente baleado por membros dos titushky.

O próprio Krysin, um mafioso local que está a cumprir pena de prisão numa cadeia da Ucrânia, disse em tribunal que tinha recebido dinheiro de Armen Sarkisian “para proteger o bairro do governo”. Mais tarde, no verão de 2019, Yurii Krysin tentou alterar o seu testemunho e retirar a referência a Armen Sarkisian, alegando que só tinha referido o seu nome por vingança após este o ter caluniado por causa de conflito financeiro anterior entre os dois.

Braço-direito de Ramzan Kadyrov terá sido ferido na Ucrânia. Kadyrov pediu informações aos serviços secretos ucranianos

Em 2018, as autoridades ucranianas anunciaram que Sarkisian tinha sido detido em França, mas depois percebeu-se que era a pessoa errada – desde logo porque a detenção foi desmentida pelo próprio suspeito, que afirmou estar na Rússia – país onde passava boa parte do seu tempo nos últimos anos. Recentemente, aliás, tinha sido fotografado ao lado de Adam Delimkhanov, o braço direito do líder checheno Ramzan Kadyrov, que é membro há décadas da Duma (a câmara baixa do Parlamento russo) e também foi alvo de um ataque à bomba em Primorsk, no sul da Ucrânia.

Sarkisian fundou batalhão paramilitar concorrente do Wagner

Pouco depois da invasão russa da Ucrânia, Sarkisian fundou o chamado “Batalhão Especial de Guardas Separados Arbat, uma unidade paramilitar (com um funcionamento semelhante ao da conhecida Wagner, embora muito mais pequena) que já esteve em combates contra soldados ucranianos – compatriotas de Sarkisian. Este é um grupo sobretudo composto por arménios étnicos, muitos dos quais com antecedentes criminais.

No verão de 2023, este batalhão Arbat assinou um contrato com o Ministério da Defesa russo, e o seu comandante era Hayk Gasparyan, que anteriormente tinha sido membro do Wagner. “O batalhão arménio já existia antes, sob a forma de um destacamento. Mas entendemos que não devíamos permanecer isolados”, afirmou outro comandante da brigada, Akhra Avidzba, salientando que “o batalhão arménio deve ter influência” no decurso da guerra lançada por Vladimir Putin.

Em setembro de 2024, uma comissão de investigação na Arménia declarou que cidadãos do país – onde Sarkisian tinha nascido – foram, de facto, recrutados para aquela unidade, com o objetivo de preparar uma tomada do poder na Arménia. O batalhão desmentiu completamente essas conclusões, considerando-as propaganda anti-Rússia.

Na Ucrânia, Sarkisian fundou vários clubes de boxe – era, aliás, presidente honorário da Federação de Boxe de Donetsk – e era dono de vários cafés e restaurantes, tendo alegadamente saqueado e usurpado vários negócios nos territórios ocupados da Ucrânia.

Numa visita recente a uma escola de boxe, dirigiu-se às crianças lançando-lhes um repto. “O boxe é um desporto muito corajoso. Continuem a treinar. Esta não é a minha última visita, é apenas o início”, afirmou.

Sarkisian visitava frequentemente escolas de boxe, como presidente honorário da Federação de Boxe de Donetsk. IMAGEM: Captura de ecrã Instagram

No entanto, acreditam os serviços de informação ucranianos, o périplo de Sarkisian por várias cidades de Donestsk, visitando as escolas de boxe locais, não é algo feito apenas no cumprimento de presidente honorário da federação.

Em 2023, Sarkisian foi nomeado “supervisor” das prisões em todos os territórios ocupados pela Rússia na Ucrânia – e Kiev acredita que o seu objetivo seria criar uma nova empresa militar privada para acabar com o monopólio do grupo Wagner, que chegou a protagonizar uma tentativa de golpe de Estado falhado na Rússia (pouco depois, o seu líder, Yevgeny Prigozhin, morreu).

Prigozhin era um “homem talentoso” que cometeu “erros graves”. Putin comenta morte de líder do grupo Wagner e antigo aliado

“Espera-se que dentro de algum tempo, a nova estrutura irá recrutar um número significativo de ‘recrutas'”, inspirando-se no percurso feito pelo grupo Wagner, disseram os serviços de informação da Ucrânia em 2023, acrescentando que o novo projeto iria “reforçar o contingente envolvido na ocupação e criar competição interna entre as empresas militares privadas russas”.

Filha, acompanhada por seguranças, envolveu-se em tiroteio no centro de Moscovo

No ano passado, à hora de jantar do Dia dos Namorados, a filha de Armen terá estado na origem de um tiroteio que começou com um “desentendimento de trânsito” em pleno centro de Moscovo. O confronto deu-se entre um lutador de MMA checheno, Rasul Ochaev, e os seguranças que acompanham Emiliia Sarkisian, a filha do “gangster” de Donetsk.

Depois de uma pequena colisão entre os dois carros, a filha de Sarkisian terá telefonado ao pai para a ajudar a resolver o conflito. O pai apareceu rapidamente, acompanhado por vários seguranças privados armados.

O lutador de MMA terá sido o primeiro a puxar de uma arma e disparar, mas acabou por ser baleado numa perna. E foi levado para o hospital, tal como outros dois feridos, dois seguranças de Emiliia e do pai, Armen, –3 que, na altura, não foi atingido mas foi esmurrado.

Nesta segunda-feira, acabou por não resistir aos ferimentos de um ataque com bomba quando entrava – como sempre, acompanhado por seguranças – num condomínio de apartamentos de luxo numa zona rica no noroeste de Moscovo. Um dos seguranças morreu, vários outros ficaram feridos e também o porteiro do edifício foi atingido pela explosão.

Nas últimas horas foram surgindo informações contraditórias sobre o estado de saúde deste homem, bem conhecido das autoridades ucranianas. Inicialmente foi noticiado pelo Kommersant que teria morrido mas, um pouco mais tarde, a agência estatal russa RIA garantiu que estava vivo, embora gravemente ferido no hospital (onde já teria tido uma perna amputada). Armen “Gorlovsky” acabou, mesmo, por morrer.

A Ucrânia não fez, para já, qualquer comentário sobre o incidente.