O último debate antes das eleições europeias do próximo domingo, dia 9, foi o das rádios. Aos microfones da Rádio Observador, Antena 1, Rádio Renascença e TSF, os oito cabeças de lista dos partidos com assento parlamentar quiseram deixar bem claros os seus pontos de vista não só sobre temas europeus, mas também de política nacional.
Sebastião Bugalho (AD), Marta Temido (PS), Tânger-Corrêa (Chega), Cotrim de Figueiredo (IL), Catarina Martins (BE), João Oliveira (CDU), Francisco Paupério (Livre) e Pedro Fidalgo Marques (PAN) falaram das novas regras para a imigração a poucas horas de o Governo as apresentar — e obviamente houve posições bem diferentes, onde a do cabeça de lista do Chega se destacou; e também dos limites à imigração, tema que dominou a primeira parte do debate — e neste ponto enquanto Tânger Corrêa viu Catarina Martins e Cotrim de Figueiredo falarem-lhe de “mentiras” e “laivos de xenofobia”, Marta Temido e Sebastião Bugalho trocaram críticas sobre a construção de muros nas fronteiras; depois veio o inevitável assunto do alargamento da UE, também com abordagens diferenciadas; o mesmo acontecendo em relação à questão dos fundos e dos impostos europeus.
Mas, curiosamente, o tema que aqueceu o debate foi o ambiente. João Oliveira e Fidalgo Marques travaram-se de razões sobre ecologia — “Chegou atrasado 40 anos”, atirou o comunista contra o representante do PAN —, enquanto Marta Temido provocava Sebastião Bugalho e classificava a AD como “pré-histórica na proteção do clima”. Ainda se haveria de falar de mais assuntos, o mais sensível o das leituras nacionais destas eleições europeias.
Quem esteve melhor? Ao longo destas últimas semanas, um painel de avaliadores do Observador deu notas de 1 a 10 a cada um dos candidatos, explicando porquê, quer nos debates televisivos a quatro, quer nos únicos frente-a-frente destas eleições, os da Rádio Observador, e nos dois debates entre todos (o último, o desta segunda, nas rádios). A soma final, com a classificação geral, está no gráfico inicial e mostra que o vencedor foi: João Cotrim de Figueiredo.
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Quem ganhou o debate final nas rádios: Marta Temido, Sebastião Bugalho, Cotrim de Figueiredo, Francisco Paupério, Catarina Martins, Pedro Fidalgo Marques, Tânger-Corrêa ou João Oliveira?
Ana Sanlez — Quem diria que seriam as alterações climáticas a provocar o aquecimento global do último debate. Mérito seja dado a Tânger Corrêa e aos seus devaneios, que acabam muitas vezes por unir os restantes candidatos num uníssono contra o representante do Chega. Aconteceu o mesmo no tema das migrações, quando Tânger Corrêa falou das “senhoras” do centro comercial de Vila Nova de Mil Fontes, que levou a reações bastante vocais e, no mesmo sentido, de Catarina Martins e de Cotrim de Figueiredo, uma união para lá de improvável. No seu todo, o debate a oito nas rádios deixou claros os mesmos pontos fortes e fragilidades dos candidatos que já tinham surgido em confrontos anteriores. A troca de nomes de que Pedro Fidalgo Marques é vítima não é por acaso, e não foi neste debate que a personalidade do candidato do PAN se revelou. Francisco Paupério deixou claro que a sua boa preparação se revela melhor em debates a dois. No confronto mais ideológico, Cotrim de Figueiredo e João Oliveira foram competentes na discussão do financiamento, cada um com a sua, não convenceram eleitores novos mas também não perderam os seus. Faltou uma boa picardia entre Sebastião Bugalho e Marta Temido.
Helena Matos — Como correu o debate? A Aximage dá a melhor definição: “Europeias. PS é favorito, mas vantagem sobre a AD é cada vez mais curta. Chega, Iniciativa Liberal e Livre devem estrear-se no Parlamento Europeu. BE perde um dos seus deputados. CDU em risco de passar de dois para zero eleitos. O PS de Marta Temido leva vantagem na corrida ao Parlamento Europeu, mas está em perda (30,6%), enquanto a AD de Sebastião Bugalho está a crescer (26,6%), de acordo com uma sondagem da Aximage para o DN, JN e TSF. O Chega mantém o terceiro lugar, mas também perde gás (15,5%). Seguem-se IL (7,5%), BE (6,3%), Livre (5,2%), CDU (3,5%) e PAN (1,6%).” Em resumo os candidatos portaram-se em conformidade com estes números à excepção de Tânger Correia que durante boa parte do debate deve ter ido ali fora tomar um café e voltou quando o avisaram que estavam a chamar por ele. Com tudo isto a frase do debate e de Tânger Correia quando respondeu a Francisco Paupério que lhe perguntava pela família política do Chega: “Isso agora já não é da sua conta, desculpe!” Aliás esse é o tom geral do candidato do Chega que responde como se achasse um cansaço e um enfadamento ter de estar a participar nestes debates. Tânger de facto não só não capitalizou o unanimismo dos outros candidatos contra ele nem o tom sobranceiro que os jornalistas usaram frequentemente quando se lhe dirigiam e que francamente já cansa.
Quanto ao vencedor do debate foi Cotrim de Figueiredo na medida em que foi eficaz ao que se propunha e ao que é o seu maior desafio desde o início desta campanha: não deixar que o eleitorado da IL caia na tentação do voto útil na AD. Já Sebastião Bugalho entrou naquele estúdio com a firme determinação de não lhe arrancarem um único soundbyte. Fez questão de declarar a sua concordância com determinadas matérias uma vez com Catarina Martins e duas com João Oliveira. Guardou o confronto, pouco muito pouco, para Cotrim e Temido. Marta Temido estava muito mais desenvolta e foi ganhando convicção. Foi poupada à pergunta: porque não se tem visto nesta campanha o nº 2 da lista do PS, Francisco Assis? Percebeu-se obviamente porque o PS impediu que Marta Temido tivesse participado nos frente a frente da Rádio Observador: Marta Temido aguenta-se nas declarações e proclamações de intenções. Falha ao tentar explicar o que defende. João Oliveira tem um lema: perguntem-me o que quiserem que eu não respondo a nada. Esta tática funcionou com anteriores candidatos comunistas mas para azar de João Oliveira a invasão da Ucrânia corrói essa táctica. João Oliveira não vem para os debates para debater mas sim para resistir. (Ah e não menos importante quando o PCP vende algo como são entradas na Festa do Avante chama-lhes contributo solidário.)
Francisco Paupério foi razoavelmente eficaz a defender o” marxismo versão algodão doce” que caracteriza o Livre e foi sobretudo muito veemente a encurralar Rui Tavares. Se Francisco Paupério for eleito Rui Tavares vai ter muito provavelmente um problema com Paupério similar àquele que o BE teve com ele mesmo, Rui Tavares. Se o BE não eleger um eurodeputado não se pode queixar de Catarina Martins. A antiga líder do BE tem uma cassette mas é eficaz a pô-la a tocar. Nos debates e na rua tem um capital simpatia que alarga o BE.
Por fim, o vírus da megalomania que existe no PAN atacou hoje Pedro Fidalgo Marques. O candidato do PAN pretende que tudo aquilo que agora se discute em matéria de ambiente é por causa do PAN. Enfim, um despropósito vindo de quem chegou de automóvel a um debate em que fez questão de lembrar aos demais que hoje se assinala o Dia Mundial de Bicicleta.
E, pronto, acabou. Os debates foram porreiros, pá.
Judite França — Foram 40 minutos a falar de imigração e apesar disso o debate não trouxe nada de novo nesta matéria. Um terço dos 120 minutos e espremido percebemos que têm mais parecenças do que querem crer. Nomeadamente a esquerda que quer afastar-se dos partidos de direita e para isso encostam a direita à extrema-direita para vincar diferenças. Nem assim. Nem assim ouvimos algo de novo. Mas os debates não podem sempre trazer novidades. Servem para mostrar as ideias dos candidatos. E só isso é o valor em si do debate. Os jornalistas tentam encontrar novas ideias, alterações no discurso, nuances ténues em relação aos ditos passados. Nem sempre acontece. Desta vez, mesmo à lupa, e com toda a atenção, não encontrei nada de novo. E isso não tem mal nenhum.
Também não é mau não haver um vencedor evidente. Acontece. E percebemos por estes candidatos que nenhum deles está perdido na sua função. Em duas semanas, podemos encontrar evoluções no modo, como é o caso de Pedro Fidalgo Marques, que encontrou o seu estilo e a forma como se sente confortável.
Francisco Paupério é tão bom como no início, assim como Sebastião Bugalho. A consistência dos mais novos é de valorizar. A dos experientes é, no mínimo, esperada: Catarina Martins, João Oliveira e João Cotrim Figueiredo mantém o nível com que começaram esta campanha. É em Marta Temido em que se nota mais o processo e a curva de aprendizagem. Sem nenhum vencedor evidente, Cotrim Figueiredo esteve ligeiramente acima dos restantes pela forma clara e incisiva com que fala da Europa. Tem um programa, um sentido e uma missão. E nada oscila. Sobre cada questão, tem uma resposta. Sobre cada problema, promete uma solução à luz da cartilha liberal. Ali não há angústias existenciais, como acontece nos partidos que passam a vida a justificar as opções das famílias políticas europeias. Sente-se como peixe na água, mas não se atirou para fora de pé porque na última semana não há lugar para erros.
Sebastião Bugalho, Francisco Paupério e Catarina Martins conseguiram passar a sua mensagem e era o máximo a que se propunha neste derradeiro debate das eleições. Bugalho sente-se preparado e sobre isso não fica grande dúvida. Paupério mantém o nível de confiança no máximo, tal como no primeiro debate. É um político que já nasceu feito. Quanto a Catarina Martins, a eficácia é sempre o objetivo. E sempre alcançado.
Um degrau abaixo, entra Marta Temido e João Oliveira. O candidato da CDU conseguiu um passe de mágica de se lhe tirar o chapéu: questionado sobre o alargamento da União Europeia à Ucrânia conseguiu não dizer nada sobre o tema. E essa ilusão discursiva é de assinalar, apesar de ser completamente inútil.
A candidata do PS tentou aparecer no seu melhor. Mais preparada, sem dúvida. Mas com as dificuldades habituais, nomeadamente aquelas em que o seu partido teve responsabilidade no passado. Sobretudo quando se fala de imigração e da AIMA.
Mais desperto do que o habitual esteve António Tânger-Correa. Respondeu mais, replicou mais, ficou-se menos. Chegou a responder a Francisco Paupério sobre a questão da família política do Chega na Europa com o tom de quem responde à insolência do garoto que desafia a autoridade da idade e do posto. Como o próprio disse no final do debate, na chamada flash-interview aos jornalistas, “mais umas semanas e está um ás”. Não sei se mais tempo, fizessem Tânger-Correa evitar frases como a que disse durante o debate sobre a poluição: “Não vejo ninguém dizer mal das viagens de avião ou de barco?”. Não vê porque está desatento. E, claro, nessa altura todos os candidatos têm de se insurgir perante o disparate.
A verdade é que independentemente de correções que os outros candidatos podem fazer, há sempre o jogo de “todos contra Tânger”, o que para o cabeça de lista lhe importa pouco: a idade e a experiência trazem essa leveza sobre a opinião dos outros. E o candidato do Chega está pouco preocupado com os ataques dos opositores. Não está o candidato, nem os eleitores. Aliás, é nessa luta e nessa vitimização que o partido cresce.
Por fim, Pedro Fidalgo Marques arregaçou às mangas e foi à luta pelo espaço e pelo tempo que julga merecer para apresentar as suas opções políticas e defender as causas do PAN. Também com mais umas semanas, Fidalgo Marques estaria no ponto para abraçar uma candidatura como esta, com debates duros e temas difíceis, num partido como o PAN. Aliás, se a campanha começasse agora, o resultado de dia 9 podia ser diferente. Mas o tempo não volta para trás e agora já só faltam 4 dias de campanha.