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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Raia, sopa de peixe, pão de ló e um aplauso combinado. E Marcelo (outra vez). Dentro do restaurante onde o primeiro-ministro almoçou /premium

Costa foi almoçar fora para dar tiro de partida. Era para ter ido com PR, mas tudo mudou. Foi Ferro quem pôs as presidenciais no menu do dia. As amêijoas estavam prontas, mas Costa preferiu raia.

“Confirma aí se vieram as amêijoas”. Hilário Castro, “o senhor Hilário”, para os amigos, passou a última hora e meia a garantir que está tudo a postos. Mesas postas, distanciamento garantido, uma embalagem de álcool em cada mesa, dispensadores de álcool-gel em cada corredor, máscaras, luvas para todos. E, mais importante do que tudo, funcionários treinados. O plano de contingência do restaurante Alfaia, no Bairro Alto, tem 20 páginas (feitas pelo próprio, em função das orientações da DGS), mas Hilário sabe que é difícil todos os trabalhadores o lerem e o memorizarem. “Vai lá com a prática, e nós próprios vamos vendo o que resulta melhor”, diz ao Observador. Mas esta segunda-feira é bom que a máquina já esteja bem oleada: não é só o dia da reabertura do restaurante aos clientes, depois de dois meses a funcionar apenas em regime de “take away”, como é também o dia em que o primeiro-ministro vai lá almoçar, acompanhado do Presidente da Assembleia da República.

“Ficamos muito felizes porque o restaurante vai abrir, e também é um dia muito especial porque vamos receber o nosso Presidente”, comenta ao Observador uma das cozinheiras, Helena, que trabalha naquela casa há sete anos. Estava de volta das pataniscas e da feijoada e nem se apercebeu do lapso: não é o Presidente da República que está prestes a entrar, embora tivesse estado previsto que assim fosse. A verdade é que, segundo apurou o Observador, quando o gabinete do primeiro-ministro contactou o restaurante Alfaia para combinar este evento, há cerca de uma semana, a ideia era ser um almoço entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa. Depois do telefonema inicial, seguiram-se visitas preparatórias ao espaço e, de um dia para o outro, o plano mudou. Já não seria o Presidente da República mas sim o Presidente da Assembleia da República.

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Se a mudança de planos se deu na passada quarta-feira, na sequência da ida dos dois à fábrica da Autoeuropa, em Palmela, não sabemos. Mas tudo indica que sim. Foi aí que o primeiro-ministro, para surpresa de todos, incluindo do próprio Presidente da República, estendeu o tapete da recandidatura de Marcelo à Presidência da República e, consequentemente, estendeu o tapete do apoio socialista (mais ou menos formal) a essa recandidatura. Foi também aí que Marcelo tirou o tapete a Mário Centeno, e a política nacional levou um abanão, ameaçando fazer rebentar uma crise política em cima de uma crise pandémica e de uma crise económica. Assim sendo, era melhor reajustar. António Costa iria almoçar com outro convidado, para “diversificar”, e para marcar o dia da reabertura dos restaurantes, enquanto Marcelo Rebelo de Sousa iria visitar a Torre de Belém, para marcar este que é também o dia da reabertura dos museus e monumentos nacionais. Na quarta-feira, o Presidente da República irá, sozinho, almoçar e jantar fora para contribuir, ele próprio, para a vaga de confiança que se quer injetar na sociedade portuguesa para animar a economia local. E no final da semana, os dois voltam a reunir-se para uma “iniciativa diferente”.

Tudo para evitar “complôs políticos”. “Segunda-feira irei visitar museus, depois irei almoçar fora ou jantar fora a restaurantes diferentes, tascas. O primeiro-ministro vai almoçar com o presidente da Assembleia da República. Decidimos assim, se não às tantas diziam que eram coisas a mais com o primeiro-ministro, começavam a encontrar logo complôs políticos”, chegou a dizer o Presidente da República aos jornalistas este domingo, na Ericeira. Mas se a ideia era tirar as presidenciais (e o apoio do PS à recandidatura de Marcelo) do menu do almoço, nem por isso a missão foi bem sucedida.

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Ferro Rodrigues foi logo o primeiro a levar o tema para cima da mesa. Falando aos jornalistas à entrada do restaurante, no Bairro Alto, não hesitou em reafirmar o mesmo que já tinha dito há ano e meio: “Se as eleições fossem amanhã, não hesitaria em votar em Marcelo Rebelo de Sousa”. “Não mudou uma vírgula”, sublinhou, dizendo ainda que via “como normal que algumas pessoas tentem marcar terreno, marcar posição”, referindo-se à eventual candidatura de Ana Gomes, que é, precisamente da área política do PS. Antes, já António Costa tinha dado a sua colherada, em entrevista à TSF, onde não quis responder se votaria no candidato Marcelo mas deixou claro que não tinha dúvidas de que Marcelo continua a ser o preferido dos portugueses para aquele lugar. “Não é preciso ser vidente ou uma grande figura de política para antecipar que daqui a um ano se ele se candidatar, será o Presidente da República”, disse.

“Pessoal, pessoal, cinco minutos! Ele está a chegar. Equipa da sala, lá para dentro. Tirem as luvas. Depois de acabarem aqui as palmas, começam vocês lá dentro, ok?”. Hilário Castro está prestes a abrir a porta para receber os dois clientes mais aguardados do dia. Tudo pronto, o primeiro-ministro pode entrar.

“Essa ementa é para quê?”

O aplauso é sonoro, como previsto. Eduardo Ferro Rodrigues tinha entrado na frente, mas foi só quando o primeiro-ministro chegou à sala que as palmas se fizeram sentir. “Muito obrigado pelo trabalho que têm feito”, disse António Costa, percorrendo depois as restantes mesas com o olhar e desejando “bom apetite”. Além de duas mesas reservadas ao “staff” do primeiro-ministro e do seu convidado — sim, era Costa quem convidada, portanto, era Costa quem pagaria a conta, anunciou Ferro à entrada –, havia ainda uma mesa reservada à direção da Santa Casa da Misericórdia, que iria almoçar com a presidente da junta de freguesia da Misericórdia, e o resto eram mesas ocupadas por clientes habituais. No total, cabiam 36 pessoas naquelas duas salas, metade das habituais 70 pessoas que o espaço comportava.

Todos notam as diferenças no espaço, incluindo o primeiro-ministro, que viveu toda a sua infância no Bairro Alto e que, enquanto presidente da câmara de Lisboa, foi cliente assíduo de Hilário Castro, que gere aquela casa centenária há 21 anos. No passado mês de abril, o Alfaia faria 140 anos e é com pena que Hilário conta que não foi possível fazer a festa de celebração que tinham pensado. “Fica para os 150, que ainda é uma data mais redonda”, comenta com o Observador. Em todo o caso, o Alfaia já passou por muito: duas grandes guerras, recessões, crises económicas e até pela gripe espanhola. E sobreviveu sempre. O objetivo é esse, e para isso é preciso superar mais esta crise.

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Criatividade não lhe falta. Na parede do restaurante, junto a cada mesa, está colada uma versão da ementa da casa, para os clientes poderem escolher o prato sem a ementa ter de passar de mão em mão. É logo a primeira coisa que António Costa nota quando se senta à mesa e se põe a ler os pratos, para Ferro Rodrigues ver o que mais lhe agrada: “Filetes de peixe galo com arroz de grelos, pataniscas de bacalhau com arroz de feijão, lula grande com feijão verde, raia escalfada em azeite e alcaparras, bochechas de porco no tacho, vitela fatiada com batatinha e esparregado… estes são os pratos do dia”. Antes não era assim. Havia mais proximidade e eram os empregados quem dava as sugestões do chefe.

Os próprios funcionários da casa ainda se estão a acostumar à ideia. “Essa ementa é para quê?“, pergunta Hilário Castro a um dos seus funcionários que se preparava para ir atender uma mesa com o livrinho em riste. “É para ir sugerir os pratos”, responde, a medo. Mas não é isso que mandam as novas regras. “Agora não é assim, tens de sugerir em função da ementa que eles têm à frente”, recorda o chefe.  As regras são tantas que é difícil memorizar tudo. Hilário Castro sabe disso e confidencia ao Observador que o plano de contingência, de 20 páginas, que elaborou de acordo com as orientações da DGS, de pouco servirá em termos práticos. A aprendizagem tem de ser feita no local, e as regras têm de ser interiorizadas com a prática.

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Mariellyn trabalha há quatro anos naquele restaurante e conta ao Observador como todos os empregados que estão de serviço, divididos por turnos (os restantes ainda estão em lay-off, pelo menos até ao fim do mês), tiveram treinos e explicações para se adaptarem as novas regras. O couvert, por exemplo, que antes era colocado em cima da mesa e cada um se servia do que queria, e o que não queria ia para trás, agora é servido numa bandeja. “Assim os clientes só tiram o que querem de facto”. O vinho, por exemplo, antes era sempre servido pelos empregados de cada vez que vissem o copo do cliente vazio, agora é preciso perceber se os clientes querem esse tipo de contacto, ou se preferem ser eles próprios a servir-se. “Cada caso é um caso, e é preciso respeitar”, acrescenta Hilário Castro. Todos andam de máscara, e as luvas são para ser trocadas a cada serviço.

No seu lugar, a postos, Mariellyn já está ao lado da mesa onde se vai sentar o primeiro-ministro e o Presidente da Assembleia da República. “Estou emocionada”, diz, explicando no entanto que o “treino” que tiveram para reabrir o restaurante não foi especial por causa dos clientes especiais que iriam ter no dia da reabertura. “Todos os clientes são iguais, por isso o treino que tivemos serve para todos”, diz.

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Pataniscas, peixe galo e amêijoas. “Já sei mais ou menos do que é que ele gosta”

Na cozinha, Helena e outras cinco cozinheiras preparam as refeições. A salada é lavada e cortada, o arroz é feito ao lume, as pataniscas já estão a fritar. A casa vai estar cheia ao almoço, e ao jantar “também já estamos compostos”, nota Hilário Castro. Embora a palavra “cheia” agora queira dizer metade do que era antes. O ambiente é quente e a máscara ainda aquece mais o rosto, mas tem de ser.

O menu, conta Hilário Castro, “não foi alterado” e muito menos foi alterado para receber o primeiro-ministro. Questionado sobre se a refeição já está previamente escolhida ou se os convidados daquela manhã vão, como os demais, escolher “à carta”, Hilário Castro garante que é à carta, e o próprio António Costa confirma-o quando chega e, à porta do restaurante, lhe perguntam se já sabe o que vai comer. Teria de ver a carta primeiro, diz. Mas “o senhor Hilário” tem uma ideia do que aquele cliente em particular gosta.

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“Eu já sei mais ou menos. Gosta de pataniscas, de filetes de peixe-galo…”, começa a dizer ao Observador. Nesse instante, interrompe a conversa e lembra-se de perguntar a um dos funcionários: “Confirma aí se vieram as amêijoas”. António Costa também gosta de amêijoas à bulhão pato, um dos pratos que são presença assídua na carta. Vieram, pois. As amêijoas e alguns tipos de peixe têm sido mais difíceis de encontrar no mercado nestes tempos de pandemia, explica o gerente da casa ao Observador, uma vez que não havia quem lhes desse vazão com os restaurantes fechados.

Depois de ler a ementa, contudo, os olhos de António Costa vão para outro lado. “Para mim é carne de porco à alentejana”, diz Ferro Rodrigues. “É? Eu cá vou para a raia”, decide António Costa. Talvez as amêijoas fiquem para outro dia. Para entrada, sabe o Observador, ainda houve direito a uma sopa de peixe, e para sobremesa um pão de ló. Refeição completa. Eram perto das 15h quando o primeiro-ministro e o Presidente da Assembleia da República saíram do restaurante. Desta vez, já sem jornalistas à volta, foram às várias mesas trocar dois dedos de conversa e despedir-se. Além do selo de “Clean & Safe”, o Alfaia tem agora também o carimbo do primeiro-ministro.

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