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Ao início da manhã de 28 de março de 2023 as informações saíam a conta-gotas: estava a decorrer um ataque no Centro Ismaili, em Lisboa; um homem com uma faca atingira membros da comunidade e funcionários. De hora a hora chegavam mais detalhes: havia dois mortos e feridos; o atacante era Abdul Bashir, um refugiado do Afeganistão que chegara a Portugal com os filhos menores e era apoiado desde então por uma associação afiliada ao centro. Mas só agora, mais de dois anos depois, tendo um tribunal determinado a condenação de Abdul à pena máxima de 25 anos de prisão, é possível ter uma ideia mais clara sobre o que aconteceu naquele dia.
Chegado a Portugal vindo da Grécia em outubro de 2021, ao abrigo de um programa de recolocação de refugiados, Abdul Bashir e as três crianças — de nove, sete e quatro anos — começaram a ser apoiados pela FOCUS Assistência Humanitária, afiliada da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento. Era a associação que disponibilizava a casa em que viviam e uma mesada para ajudar nas despesas, garantindo também formações na área da empregabilidade e as aulas de Língua Portuguesa e Conversação que o pai dos menores frequentava. Naquela terça-feira estava marcada uma, pelas 10h.
Abdul, que na altura tinha 28 anos (e não 40 como chegou a ser avançado), conhecido por cumprir escrupulosamente o horário — não ficava nem um minuto a mais, nem a menos — deixaria a aula a meio naquele dia. Ao contrário do que foi inicialmente noticiado pela imprensa, a primeira vítima não foi o professor. Na verdade, como ficou provado em tribunal, fez uma última chamada para um sobrinho, às 10h47, e seguiu para a sala 21, onde trabalhava a assistente social Mariana Jadaugy e a coordenadora nacional do projeto de assistência humanitária, Farana Sadrudin, e atacou-as. Só viria a ser imobilizado e detido depois de cinco disparos de dois agentes que trabalhavam ali perto e da chegada de uma equipa de intervenção rápida.
A aula de português interrompida
Quando saiu de casa, na zona de Odivelas, rumo ao centro, na Avenida Lusíada, em Lisboa, Abdul Bashir trazia vestida uma camisa e calças brancas. Às costas, tinha uma mochila e a tiracolo uma bolsa preta, em que escondia, entre o telemóvel, chaves e documentos, a faca de cozinha que transportava para todo o lado, lê-se no acórdão consultado pelo Observador. Começou a fazê-lo no início do ano, sem que ninguém soubesse e porque queria proteger-se, alegou num de muitos emails enviados à princesa Aga Khan, a quem fazia constantes queixas sobre o Centro Ismaili e os funcionários, a partir de diferentes contas que iam sendo sucessivamente bloqueadas.
A aula de português, na sala 29 do edifício, começava pelas 10h e, como habitual, Abdul sentou-se no fundo da sala. Na turma era conhecido pelo comportamento “correto, formal, rigoroso”, mas também “altivo”. Não era costume conviver com os colegas e, assim que o relógio assinalava o fim da lição, saía, mesmo que ainda não tivesse terminado e se prolongasse um pouco para lá da hora.
Naquela manhã foi diferente. O professor falava sobre o cálculo do ordenado líquido e a influência de ter dependentes a cargo e preparava-se para fazer uma pergunta a Abdul quando foi interrompido por outra aluna. Foi nesta altura que o homem saiu da sala, sem nenhuma explicação, levando o telemóvel e a bolsa numa mão. A única intervenção que lhe é recordada durante a aula foi quando perguntou como se dizia ‘boa sorte’ em português.
O ataque na sala 21
A mensagem, em farsi e enviada através do Facebook, caiu às 10h47. “Olá, bom dia! Como estás? Se Deus quiser, espero que tu e as crianças estejam bem. Conseguimos arranjar um quarto, estamos a fazer a mudança das nossas coisas. Já mudámos de sítio.” Era do sobrinho, natural de Cabul, a quem ligou no instante seguinte pela mesma rede social. A chamada, cujo conteúdo se desconhece, durou apenas 38 segundos.
Depois disso, Abdul começou a percorrer o corredor que seguia para a sala 21, onde funcionava o gabinete do Portugal Settlement Programme, promovido pela FOCUS. No interior, a responsável do seu caso, a assistente social Mariana Jadaugy, de 24 anos, trabalhava a uma mesa oval. No gabinete ao fundo, separado apenas por uma porta de vidro, sentava-se a coordenadora nacional do projeto, Farana Sadrudin, de 49, que numa primeira fase acompanhara a sua situação com maior proximidade. Ambas tinham relatado comportamentos desapropriados da parte de Abdul, incluindo aproximações românticas que rejeitaram, resistência persistente em trabalhar e a dependência dos apoios que recebia da associação.
Naquela manhã, ao passar por Mariana, o homem pousou a bolsa em cima da mesa e retirou a faca, que até aquele momento mantivera escondida. Empunhando-a, entrou de rompante no gabinete adjacente e atacou primeiro Farana. A assistente social apressou-se a tentar socorrer a colega, mas foi ela própria atacada. As vítimas, acredita o tribunal, não foram escolhidas ao acaso. “O arguido dirigiu-se concretamente a duas pessoas que o vinham a afrontar ao longo de meses e que aquele considerava responsáveis pelas suas condições pouco favoráveis”, sublinharam as juízas no acórdão consultado pelo Observador.
O telefonema para o 112
Depois do ataque às duas mulheres, durante o qual acabou por se cortar a ele próprio, na zona do pescoço e da barriga, fugiu pelo corredor na direção das outras salas. Tendo ouvido gritos, S. foi a primeira a acorrer à sala 21, onde encontrou Mariana, que apesar de ferida tentou dizer-lhe o nome do atacante, e Farana, já inconsciente. Sem perder tempo, agarrou no telemóvel da assistente social, esquecido em cima da mesa, e ligou para o 112. Eram 10h51.
Por essa altura, e apercebendo-se do tumulto, o professor de português e vários alunos saíram das salas para ver o que se passava. Seguindo à frente, o professor foi o primeiro a deparar-se com Abdul, na esquina do corredor. “Abdul, não! Abdul, não!”, gritou-lhe, levantando os braços para se proteger e tentar agarrar os braços do atacante.
Ao cruzar a esquina momentos depois, e vendo o professor ferido e caído, um aluno gritou também a Abdul que parasse. Dessa vez o homem não partiu para o ataque, mas ordenou-lhe que se afastasse e ameaçou que se mataria caso este não obedecesse, avançando na sua direção de faca apontada ao próprio pescoço.
O aluno que, acredita o tribunal, só não foi atacado porque o homem nada tinha contra ele, tendo os dois chegado mesmo a Portugal juntos, conseguiu fugir pelo corredor em direção às escadas que dão acesso ao exterior. Aproveitando a distração momentânea, o professor escapou rapidamente na direção contrária juntamente com outro aluno.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 5.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui e o quarto aqui]
Uma porta trancada
Sem nunca largar a faca, Abdul seguiu novamente pelo corredor em direção à sala 21, no encalço de um aluno do centro que acabou por conseguir fugir para o piso térreo. Tendo escapado, voltou a sua atenção novamente para a sala e vendo Mariana ainda consciente voltou a atacá-la, descreve o acórdão do tribunal.
Assustada, S., que ainda falava ao telefone com o INEM, correu para o gabinete adjacente, trancou a porta de vidro e escondeu-se junto à secretária. A mulher ainda tentou abrir a porta para que a assistente social, que tentava aproximar-se, se refugiasse no interior, mas Abdul atacou-a uma terceira vez.
Pouco depois um segurança do Centro Ismaili chegava ao local, a tempo de ver Abdul ainda de faca na mão. Gritou-lhe que parasse, mas este lançou-se na sua direção, apontando a arma diretamente ao seu peito. Num movimento rápido, o segurança conseguiu trancar a porta com a chave mestra, fechando o atacante no interior.
Os primeiros polícias em cena
Em busca de ajuda, um voluntário do Centro Ismaili correu até à Loja do Cidadão das Laranjeiras, mesmo ao lado, que estava a ser vigiada por dois agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP). Os polícias seguiram o homem até ao andar superior do edifício, enquanto comunicavam com a esquadra para relatar o ataque e pedir reforços.
Por essa altura, trancado na sala 21, Abdul tinha-se apercebido da presença de S., que tinha tentado, sem sucesso, escapar-se pela abertura da janela. Ao vê-la, o homem tentou forçar a porta de vidro, que não cedeu às suas tentativas, interrompidas pela chegada da polícia.
Assim que o segurança destrancou a sala 21, os agentes da PSP gritaram a Abdul que saísse e largasse a arma, pontapeando a porta para a abrir. O atacante, porém, empurrou-a com o corpo várias vezes para garantir que os polícias não conseguiam entrar, empunhando a faca na sua direção sempre que conseguia vislumbrá-los pela abertura.
Os cinco disparos que não detiveram Abdul
Numa última investida, um dos agentes colocou o pé na porta para tentar forçá-la, momento em que Abdul a abriu, avançando para tentar golpear os polícias. A faca que empunhava terá ficado a cerca de um metro do pescoço do mais próximo, relataria o próprio. Recuando alguns passos, os polícias ficaram encurralados no corredor, entre a parede e o atacante, e um deles disparou um primeiro tiro com uma Glock 19.
Atingido na perna, Abdul caiu de joelhos, mas nem assim cessou as investidas contra os PSP, que dispararam mais quatro vezes. Já sem se conseguir levantar, o homem arrastou-se na sua direção, continuando a bramir a faca para os golpear. Enquanto um dos agentes continuava a apontar-lhe a pistola, o outro retirou o bastão extensível e atingiu na mão para o forçar a largar a arma, mas este manteve-a “bem firme.”
Só quando, pouco depois, chegou uma equipa de intervenção rápida da PSP, que insistiu em português e inglês para que o homem largasse a faca, é que Abdul abriu mão da arma.
Mariana e Farana morreram devido aos ferimentos provocados por Abdul. O professor, que conseguiu fugir após o ataque, foi transportado para o Hospital de Santa Maria e teve alta no próprio dia.
Num primeiro momento, Abdul foi levado para o Hospital de São José, onde foi operado, sendo depois mais tarde transferido para o Curry Cabral. Passou os últimos dois anos internado num hospital prisional. No início do mês, foi condenado pelo Tribunal Central Criminal de Lisboa a 25 anos de prisão, tendo as juízas sublinhado que no momento dos factos o cidadão afegão “não estava condicionado por doença mental grave.” Uma pena muito diferente da pedida pelo Ministério Público, que tinha requerido que Abdul fosse declarado inimputável e que fosse internado por um mínimo de três anos, a ser revisto anualmente ao fim desse período. A defesa do afegão já adiantou que vai avançar para um recurso.