Abdul Bashir, o homem que confessou que matou, a 28 de março de 2023, duas mulheres com uma faca no Centro Ismaili, foi condenado à pena máxima de 25 anos de prisão. O Tribunal Central Criminal de Lisboa considerou que no momento dos factos o cidadão afegão “não estava condicionado por doença mental grave” e declarou-o, por isso, imputável.
Durante as alegações finais, o Ministério Público tinha requerido que Abdul Bashir, de 30 anos, fosse declarado inimputável e que fosse internado por um mínimo de três anos, a ser revisto anualmente ao fim desse período. A defesa do cidadão afegão defendeu igualmente o seu internamento. Já a mandatária das famílias das vítimas tinha alegado que o homem “tinha consciência dos seus atos” e devia ser condenado à pena máxima de 25 anos de prisão.
O tribunal considerou esta segunda-feira que Abdul Bashir “teve consciência dos factos” e que o número de facadas desferidas nas vítimas, no caso de Mariana Jadaugy foram 43, são condizentes com “sentimento de raiva e não defesa” perante uma suposta conspiração de que o arguido disse ter sido alvo.
Na leitura do acórdão, a presidente do coletivo de juízes disse que pesou na decisão a perícia efetuada pelo psicólogo forense Vasco Curato para o Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses (INMLCF). Na análise, o perito referiu que não estava em causa um quadro de esquizofrenia, mas de psicopatia. “Tudo o que ele [Abdul Bashir] fez à data dos factos, fê-lo à luz da personalidade, e de uma psicopatia com componente sádica“, afirmou durante uma sessão de julgamento em fevereiro deste ano.
O tribunal considerou que apenas esta perícia se mostrou “devidamente sustentada pela prova produzida” e próxima dos factos relatados pelas testemunhas. No entanto, houve divergências entre os peritos. O psiquiatra que tem acompanhado o autor do ataque descreveu em tribunal que o crime aconteceu num quadro associado à esquizofrenia. Notou que devia ser considerado inimputável, acrescentando que Abdul Bashir não tem consciência de que precisa de tratamento.
A presidente do coletivo de juízes destacou também esta segunda-feira que o indivíduo mostrou ser “altivo”, “prepotente” e estava convencido de que “era muito importante, mais do que os outros” e que as vítimas tinham de tratar todos os seus assuntos com urgência, algo que estaria patente nas comunicações, incluindo emails, que trocou com Mariana Jadaugy, de 24 anos, e Farana Sadrudin, de 49, que trabalhavam no serviço de apoio aos refugiados do Centro Ismaili. “Teve fundamento para escolher as vítimas em detrimento de outras”, acrescentou.
[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, co-produzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 2.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui.]
O tribunal lembrou também que, durante as sucessivas sessões do julgamento, o homem nunca deixou transparecer angústia ou medo, nunca se emocionou, mas manteve sempre uma postura de “frieza.” No final da sessão, a juíza aconselhou que tivesse acompanhamento.
O homem foi considerado responsável de sete dos 11 crimes de que estava acusado: dois crimes de homicídio agravado, três de homicídio agravado na forma tentada, o crime de posse de arma proibida e ainda o crime de resistência e coação sobre funcionário.
Ministério Público pede internamento do homem que matou duas mulheres no Centro Ismaili
Na primeira sessão do julgamento, a 5 de dezembro de 2024, Abdul Bashir confessou ter matado as duas mulheres, mas afirmou que agiu em legítima defesa depois de uma das vítimas o ter esfaqueado. Na altura disse ainda que várias pessoas do centro Ismaili tinham um plano para o matar. Relatou também que, desde janeiro de 2023, começou a transportar consigo uma faca de cozinha porque sentia que a sua vida e a da família estavam em perigo, acrescentando, no entanto, que já desde 2021 seria alvo de ameaças de morte.
“Fez-se justiça absoluta”, sublinhou Miguel Matias, advogado de uma das assistentes do processo, numa breve declaração aos jornalistas. Também a mãe de Mariana Jadaugy destacou a decisão do tribunal: “Foi feita alguma justiça, ao contrário do que foi dito nas alegações finais, que queriam a inimputabilidade daquele monstro (…) Nada traz a minha filha de volta, mas pelo menos foi feita alguma justiça.”
Já a advogada de defesa mostrou-se surpreendida com a decisão do tribunal e revelou que vai recorrer. “Está a dar uma grande importância a um psicólogo e não a um psiquiatra”, criticou, defendendo que um psicólogo “não tem capacidade para diagnosticar uma esquizofrenia ou dar medicação”.
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