1230,6kWh poupados 1230,6 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

GettyImages-869487406
i

▲Trump desistiu (mesmo) de despedir o líder da Fed?

Getty Images

▲Trump desistiu (mesmo) de despedir o líder da Fed?

Getty Images

Reserva Federal volta a não baixar juros, para desespero de Trump. Terá o Presidente, mesmo, desistido da ideia de despedir Jay Powell?

Presidente do banco central dos EUA, Jay Powell, garante que pressão de Donald Trump "não afeta, de modo algum", a forma como a Fed "faz o seu trabalho". Banco central voltou a não mexer nos juros.

“Isso não afeta, de modo algum, a forma como fazemos o nosso trabalho”. Pressionado pública e (quase) diariamente por Donald Trump, o presidente da Reserva Federal dos EUA, o banco central mais poderoso do mundo, garantiu nesta quarta-feira que os comentários e insultos feitos pelo Presidente norte-americano não irão influenciar a política monetária nos EUA. Nem mesmo quando Trump o ameaça de demissão, algo que seria inédito na história dos EUA e foi ponderado na Casa Branca – embora Trump tenha, nos últimos dias, garantido que esse cenário não está em cima da mesa.

Os comentários de Jerome (“Jay”) Powell surgiram na habitual conferência de imprensa em que o líder da Reserva Federal (Fed) explica as decisões de política monetária que o banco central toma. Mais uma vez, para desespero de Trump, a Fed decidiu manter as taxas de juro inalteradas e, desafiando ainda mais o Presidente dos EUA, alertou que as tarifas anunciadas por Donald Trump aumentaram “ainda mais” a incerteza económica. E aumentaram, também, o risco de inflação mais elevada e de um menor vigor no mercado de trabalho.

Questionado sobre os comentários de Trump, Powell garantiu que o conselho que lidera é imune a pressões – mesmo sendo elas provenientes do Presidente dos EUA. “Vamos sempre fazer a mesma coisa: vamos usar as nossas ferramentas para fomentar o máximo emprego e a estabilidade dos preços, para o benefício do povo americano”, atirou Powell, na conferência de imprensa, recorrendo mais uma vez ao poder de síntese com que tem respondido a esta polémica nos últimos meses.

EUA. Reserva Federal volta a manter taxas de juro inalteradas apesar de Trump pedir descidas

O Presidente dos EUA tem criticado o líder da Fed por não estar a baixar as taxas de juro – ainda não o fez este ano, ao passo que o BCE, por exemplo, já cortou os juros três vezes só em 2025. A incerteza gerada pela “guerra comercial” lançada por Donald Trump é uma grande parte da explicação para a manutenção dos juros num nível ainda “restritivo” da atividade económica, como reconhece o próprio presidente da Fed.

Antes de Trump regressar à Casa Branca, os mercados financeiros antecipavam que a Fed iria cortar os juros várias vezes ao longo deste ano de 2025, pelo menos quatro ou cinco – o que não está a acontecer. Powell reiterou nesta quarta-feira que a Fed precisa de “mais tempo” para perceber exatamente o que vai ser aplicado, no que a tarifas diz respeito, quanto tempo vão durar e que impactos irão ter na economia. Powell não exclui vir a baixar juros nos próximos meses, mas diz que precisa, primeiro, de perceber o impacto que as tarifas vão ter na economia.

O presidente da Fed fez exatamente aquilo que previu Ricardo Reis, professor da London School of Economics, em comentários partilhados no início desta semana com o Observador. Perante as críticas de Trump, que terá tentado encontrar alguma forma de demitir o presidente da Reserva Federal –, Ricardo Reis defendeu que Powell deve responder “mantendo a sua independência até ao fim e não cedendo a pressões“.

“Vai ser difícil porque Powell, provavelmente, vai ter de tomar decisões que são difíceis, sabendo que se for na direção que Trump insiste, vai ser visto como tendo cedido, mesmo se não for esse o caso”, acrescenta Ricardo Reis.

Reserva Federal. Jay Powell é um “completo medricas” mas Trump reitera que não irá tentar demiti-lo

Em entrevista recente à NBC News, Trump descartou a possibilidade de vir a demitir Powell, quase dando a entender que isso nunca lhe passou pela cabeça: “Não, não, não, porque é que faria uma coisa dessas? Eu vou poder substituir essa pessoa dentro de um curto espaço de tempo”, explicou o Presidente dos EUA, aproveitando para, mais uma vez, insultar Jay Powell, chamando-lhe “um completo medricas“.

Nesta quarta-feira, perante os jornalistas, o líder da Fed não quis alimentar a polémica e confirmou que ainda não teve uma única reunião com o Presidente dos EUA desde que Trump foi reeleito – o convite, explicou, teria de vir da Casa Branca, e não o contrário.

[Que segredos esconde a eleição de um novo Papa? No podcast “A História do Dia“, só precisa de 15 minutos para ficar bem informado. Conversamos com os jornalistas da redação do Observador e com especialistas para lhe explicar tudo sobre a história mais importante do dia. E ainda lhe damos um resumo rápido das notícias que tem mesmo de saber. Pode ouvir aqui, na Apple Podcasts, no Spotify ou no Youtube Music]

Uma convivência que rapidamente se tornou azeda

Trump nomeou Powell em novembro de 2017 e este advogado, que fez carreira em Wall Street e no banco central dos EUA, assumiu a presidência da Reserva Federal em fevereiro do ano seguinte, depois da confirmação no Congresso. Não demorou mais do que alguns meses, porém, para a convivência com a Casa Branca se degradar.

Jay Powell e o conselho de governadores que passou a liderar sentiram necessidade de subir as taxas de juro um par de vezes, logo nos primeiros meses. E, por causa disso, no verão de 2018 Donald Trump já tinha apanhado de ponta o homem que descreveu como “forte, comprometido e inteligente” quando, pouco tempo antes, tinha nomeado para a Fed.

Nesse verão, Trump foi cabeça de cartaz de uma festa de angariação de fundos nos Hamptons – local de veraneio dos ricos e famosos de Nova Iorque. E a agência Bloomberg noticiou que, em conversa com vários financiadores do partido republicano, o Presidente não teve pejo em mostrar quão exasperado estava a ficar com o novo líder da Fed por este não estar a seguir a política de taxas de juro baixas que Trump pretendia.

Essa não foi, aliás, a primeira vez que o desconforto foi tornado público. Algumas semanas antes, Trump já tinha colocado em questão uma das subidas de juros que Powell fez pouco depois de chegar ao cargo. A crítica foi feita no Twitter, quando a rede social ainda se chamava assim (Elon Musk ainda não a tinha comprado e mudado o nome para X) e Donald Trump ainda não tinha criado a sua rede Truth Social, que é aquela que hoje em dia mais usa.

A economia estava a dar sinais de “sobreaquecimento” e o líder da Fed decidiu, pela segunda vez, subir as taxas de juro. “Os EUA não deviam ser penalizados por estarem numa situação tão boa, apertar [a política monetária, subindo os juros] prejudica tudo aquilo pelo qual trabalhámos”, escreveu Trump, dizendo que estava a chegar a hora de os EUA renovarem grandes quantidades de dívida e a Fed estava a subir os juros: “A sério?”, perguntou Trump, de forma retórica.

Seguiram-se, nos tempos seguintes, dezenas de outros tweets a demonizar Jay Powell. No verão de 2019, Trump questionava: “Só pergunto quem é o maior inimigo dos EUA: Jay Powell ou o Presidente Xi?”.

Com o partido democrata novamente na Casa Branca, a partir do início de 2021, Joe Biden ponderou outras hipóteses mas decidiu, em 2022, reconduzir Powell para novo mandato. Estava em curso a recuperação pós-pandémica, pelo que Biden preferiu manter o mesmo protagonista na Fed para não correr o risco de perturbar o complexo processo de desmame dos estímulos monetários.

Trump, nesse período um prospetivo candidato a regressar à Casa Branca pelo partido republicano, continuou a comentar, com frequência, as políticas do banco central. Aí, porém, o cenário tinha-se invertido: Powell estava, dizia Trump, a manter as taxas de juro demasiado baixas (para favorecer os democratas).

Donald Trump já tinha, no passado, criticado outro líder da Fed – Janet Yellen, antecessora de Powell, mais associada ao partido democrata. Nos meses que antecederam a primeira eleição de Trump, o magnata dizia que Yellen estava, na sua apreciação, a favorecer “de forma vergonhosa” a então candidatura presidencial de Hillary Clinton, definindo taxas de juro demasiado baixas. Yellen viria a tornar-se, anos mais tarde, secretária do Tesouro (de Joe Biden).

Trump pode despedir (ou, mesmo, despromover) Powell? O que diz a lei

Assim que Donald Trump foi reeleito, em novembro de 2024, não era difícil adivinhar que Powell iria ter os dias contados como líder da Fed. E esses dias não só estariam contados como seriam dias, muitos deles, passados a ouvir críticas – e, até, insultos – vindos da Casa Branca. Depois de lhe chamar “Sr. Tarde Demais”, Trump referiu-se a Jay Powell como “um completo medricas” numa entrevista que deu no último fim de semana.

Logo a 7 de novembro, ainda a tinta nos boletins de voto que reelegeram Trump estava fresca, Jay Powell foi questionado pelos jornalistas sobre se estaria disponível para sair caso o Presidente lhe pedisse para deixar o cargo pelo próprio pé. Powell respondeu de forma fria e sucinta: “Não”.

Mais tarde, Jay Powell foi igualmente sucinto quando lhe perguntaram, noutra conferência de imprensa, se a Fed já tinha analisado se era juridicamente possível um Presidente dos EUA despedir um líder da Fed. “Não é permitido pela lei“, atirou o presidente do banco central, jurista de formação.

A legislação que criou a Reserva Federal, em 1913, estipula que os membros do seu conselho de governadores só podem ser exonerados se houver “causa” que o justifique – o que sempre foi interpretado como algum tipo de conduta imprópria, negligência ou ineficiência (não apenas divergências de opinião sobre o que deve ser feito na política monetária).

Sempre foi assim, mas não é garantido que sempre assim vá ser, diz o think tank Brookings Institute, admitindo que esta polémica vá acabar nos tribunais: “Powell pode ter a iniciativa de abrir um processo jurídico para procurar ter maior clareza estatutária sobre a sua situação – e, a confirmar-se, seria um caso [judicial] muito importante”, diz o think tank, salientando que o líder da Fed teria de pagar do próprio bolso os custos deste processo em tribunal.

“As diferenças políticas provavelmente não são justificação suficiente” para determinar que existe “causa”, mas se o conflito chegar ao Supremo Tribunal este “pode, em última análise, decidir sobre esta questão de forma diferente“.

Trump sabe que tem uma maioria (6-3) de juízes nomeados pelos republicanos, mas ainda assim o Brookings Institute não acredita que o tribunal possa considerar divergências sobre política monetária como “causa” para despedir Jay Powell, sobretudo quando não é o único membro do conselho da Fed que tem votado para não baixar os juros. Se o Supremo Tribunal assumisse essa posição, “isso representaria uma das maiores mudanças na lei administrativa dos EUA em 80 anos, portanto achamos que não devemos contar com isso“, confia o think tank.

Um Presidente a pressionar um líder da Fed? Powell não é o primeiro

↓ Mostrar ↑ Esconder

Esta não é a primeira vez que há notícias de uma influência presidencial sobre a Reserva Federal. O caso mais famoso é o de Richard Nixon, Presidente que pressionou intensamente Arthur Burns para que este tivesse uma política monetária acomodatícia – ou seja, juros baixos que não só ajudam o Estado federal a financiar-se mais barato (sobrando mais orçamento para outras despesas) como contribuem para reduzir os custos de financiamento de empresas e famílias.

O resultado foi que Arthur Burns, líder da Fed entre 1970 e 1978, ficou na história como o homem que deixou a inflação nos EUA entrar em descontrolo e cuja política ainda hoje é estudada e dada como exemplo para explicar porque é que os bancos centrais têm de ser independentes – algo que, como revelaram as “Nixon Tapes”, Burns não conseguiu ser.

Os membros do conselho são escolhidos para fazer mandatos de 14 anos, mas o presidente é nomeado para mandatos de quatro anos – e a legislação, exigindo “causa” para despedir um membro do conselho, não é tão explícita sobre se o mesmo se aplica ao elemento que, em cada momento, ocupa o lugar de presidente. Por outras palavras, é mais ou menos claro aquilo que é necessário para exonerar um membro do conselho, mas não é assim tão claro sobre o que é preciso para retirar um presidente do cargo (mesmo que ele, depois, mantenha o lugar no conselho).

“Os estatutos não dizem nada sobre se o Presidente pode demitir o presidente do conselho [da Fed], no fundo despromovendo-o e levando-o a tornar-se apenas um dos membros do conselho de governadores”, salienta o think tank Brookings Institute. “Outros Presidentes concluíram que não tinham essa autoridade, e há boas razões para pensar que tinham razão. Mas simplesmente não sabemos com certeza: é, juridicamente, algo que é incerto“, acrescenta.

"Os estatutos não dizem nada sobre se o Presidente pode demitir o Presidente do Conselho, no fundo despromovendo-o e levando-o a tornar-se apenas mais um membro do conselho de governadores. Outros Presidentes concluíram que não tinham essa autoridade, e há boas razões para pensar que tinham razão. Mas simplesmente não sabemos: é, juridicamente, algo incerto."
Brookings Institute

O tema é complexo porque nunca um Presidente norte-americano tentou substituir um líder da Reserva Federal. O mais próximo disso que alguma vez aconteceu foi quando o Presidente Franklin D. Roosevelt exonerou, em 1935, o então presidente da Federal Trade Commission (FTC) – que, não sendo um organismo exatamente idêntico à Reserva Federal, também é um organismo público independente (cujo líder é, apesar dessa independência, nomeado pela Casa Branca).

O Supremo Tribunal norte-americano viria a deliberar, nesse caso, que o Presidente não tinha legitimidade para fazer aquela exoneração. O visado, William Humphrey, morreu enquanto o processo decorria no tribunal, mas o caso acabou, mesmo, por ter uma decisão – e essa deliberação é frequentemente apontada como um precedente válido no caso do líder da Reserva Federal.

Existem outros processos em curso nos tribunais, incluindo no Supremo Tribunal, que também são relativos a despedimentos feitos por Trump (no primeiro mandato) e que, uma vez concluídos, podem ter alguma aplicação parcial na Reserva Federal. Jerome Powell já afirmou, porém, que, na sua leitura, esses casos (cuja decisão ainda está pendente) não se aplicam ao banco central dos EUA.

“Se eu quiser que ele saia, ele vai sair de lá bem rapidinho, acreditem em mim”

O The Wall Street Journal noticiou que Trump ponderou mesmo esse cenário de retirar Jay Powell do cargo de presidente, mantendo-o como membro do conselho até esse mandato terminar (o mandato de presidente termina em 2026 mas o de membro do conselho só acaba em 2028). Na cabeça do Presidente dos EUA estaria a ideia de substituir Powell por Kevin Warsh, que já foi membro da Reserva Federal entre 2006 e 2011 (e é visto como um republicano próximo de George W. Bush).

Segundo mandato, nova ameaça. Trump estuda meio de despedir “falcão” da Fed

Warsh foi um nome avançado pelos jornais como uma escolha possível por parte de Trump, antes de este optar por Powell (em 2017). Mas, perante a polémica atual, depois de consultado por Trump, o próprio Kevin Warsh aconselhou o Presidente a não avançar com o plano de tentar exonerar Powell, recomendando-lhe que deixasse o atual presidente da Fed cumprir o mandato até ao fim.

Quem é Kevin Warsh, o banqueiro que Trump queria na Reserva Federal?

↓ Mostrar ↑ Esconder

Warsh tornou-se, quando tinha 35 anos, o membro mais jovem de sempre do conselho de governadores da Reserva Federal. Em 2020, quando já tinha azedado a relação entre Trump e Powell, o Presidente aproveitou uma cerimónia pública em que estava com Warsh para o elogiar (e, em simultâneo, criticar Powell implicitamente): “Teria ficado muito feliz por o ter escolhido. Porque é que não lutaste mais pelo cargo, se o querias?”, perguntou o Presidente dos EUA.

Mais recentemente, o nome voltou a ser falado para a Secretaria do Tesouro – Warsh podia ser uma alternativa a Scott Bessent e Howard Lutnick que, a dada altura, entraram em conflito na luta pelo lugar (acabaria por ficar para Bessent, com Lutnick a ficar como secretário do Comércio).

Kevin Warsh é um nome forte nos corredores republicanos e Trump mostra tê-lo em boa conta. Isto apesar de, na verdade, Warsh ter sido sempre alguém visto como mais hawkish do que o próprio Powell, ou seja, alguém muito preocupado com a inflação. Warsh fez vários alertas públicos à era de juros baixos e estímulos monetários que, disse o economista, fizeram engordar o balanço da Fed para níveis insustentáveis e misturaram política monetária com política orçamental.

É certo que é o Presidente quem nomeia o líder da Fed, porém, uma vez feita essa nomeação (aprovada pelo Congresso), esse cargo passa a estar protegido estatutariamente, o que neste caso significa que a Casa Branca não tem poder para o demitir. Ainda assim, segundo o The Wall Street Journal, Trump terá dito numa reunião recente em Washington que acredita que conseguiria fazer com que Powell saísse, se quisesse muito fazê-lo: “Se eu quiser que ele saia, ele vai sair de lá bem rapidinho, acreditem em mim”.

Na opinião de alguns, não é totalmente impossível que Trump consiga pela via política despedir o líder da Fed, se voltar a mudar de ideias sobre essa matéria. A independência da Fed não é algo que esteja garantido pela Constituição norte-americana – o que é um dado importante tendo em conta que Trump ainda há poucos dias disse “não saber” se tem de cumprir a Constituição numa área claramente definida como é o processo legal previsto para a entrada de imigrantes no país.

“Se ele conseguisse garantir apoio suficiente no Senado e na Câmara de Representantes, Trump poderia conseguir mudar a lei de forma a possibilitar a dispensa de Powell”, escreveu o economista Kenneth Rogoff em janeiro, salientando que, “pelo menos para já, a Fed está salvaguardada pela certeza de que qualquer tentativa séria de violar a sua independência iria causar o caos nos mercados financeiros”.

Ricardo Reis, ao Observador, avisa que “Trump pode tentar tudo, já o provou, mas não tem poder para o fazer”. Na leitura do professor da London School of Economics, “apenas o Congresso pode destituir Powell, e uma maioria dos congressistas leva muito a sério a independência do Fed”, confia o académico.

É por essa razão, por confiar que Trump não conseguiria reunir suficiente apoio congressional para chutar Jay Powell para fora do organismo que lidera há mais de sete anos, que Ricardo Reis acredita que o Presidente dos EUA terá, mesmo, desistido da ideia de despedir o líder da Fed – ou terá sido levado a desistir dessa ideia, dados os constrangimentos legais.

Trump pode, no entanto, diz Ricardo Reis, fazer outra coisa, tão ou mais perniciosa: “anunciar muito cedo quem será o sucessor de Powell“. E, a partir desse momento, “esse sucessor pode falar publicamente sobre o que fará para reverter o que quer que Powell faça daí em diante”, afirma Ricardo Reis, salientando que isso poderia “limitar em muito o poder das decisões de Powell”.

Mas quem é que Trump escolherá? Warsh? Outra pessoa? “Trump pode nomear quem quiser“, lembra Ricardo Reis. É verdade que o Congresso “tem de confirmar as pessoas, mas ao contrário do que aconteceu no primeiro mandato”, nos últimos tempos o Congresso “tem-se mostrado disponível a confirmar mesmo pessoas com pergaminhos muito suspeitos para os mais altos cargos da administração“.

Leais, alinhados com o trumpismo e as incógnitas Robert F. Kennedy e (sobretudo) Musk. Quem serão os rostos da nova administração Trump?

Kenneth Rogoff avisa que, independentemente do rumo que este conflito tomar nos próximos tempos, uma coisa é clara: “qualquer tentativa por parte de Trump de minar a independência da Fed poderia prejudicar severamente a capacidade do banco central de responder a crises económicas e financeiras”. E “se as expectativas de inflação não estiverem firmemente ancoradas, os decisores políticos terão dificuldade em estimular a economia sem desencadear um crescimento descontrolado dos preços”, acrescentou o economista.

Esses receios já são palpáveis nos mercados financeiros. Uma sondagem feita pela Reuters, divulgada na terça-feira, revelou que entre 83 analistas de mercado cambial consultados pela agência mais de metade (46) dizem ver com preocupação o risco de o dólar norte-americano perder a função de divisa “porto de abrigo” que tem há décadas. Em abril, só 19 em 51 analistas tinham manifestado esse mesmo receio.

A questão é saber até que ponto Trump será capaz de resistir à pressão dos mercados, caso venha a nomear alguém visto como pouco confiável do ponto de vista do controlo da inflação. “Nas últimas semanas, Trump parece ter cedido à pressão dos mercados financeiros em resposta às suas tarifas”, compara Ricardo Reis, notando que “a Reserva Federal é o guardião do valor do dólar” e se parecer que Trump nomeia alguém que não está disposto, ou não é competente, para fazê-lo, espera-se que os investidores (sobretudo os estrangeiros) vendam dólares e dívida pública americana em massa”.

“Espera-se que Trump perceba isto e não provoque uma crise financeira que teria consequências inesperadas no sistema financeiro americano”, avisa Ricardo Reis.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.