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MICHAEL REYNOLDS/EPA

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Segundo mandato, nova ameaça. Trump estuda meio de despedir "falcão" da Fed

Trump 2.0 usa os mesmos ataques a Powell de Trump 1.0. O presidente da Fed tem mandato até maio de 2026, mas Trump estará a ver de que forma o pode demitir.

“É meu prazer e honra a nomeação de Jerome Powell para ser o próximo presidente da Reserva Federal”. A 2 de novembro de 2017, no primeiro mandato de Donald Trump que tinha chegado à Casa Branca a 20 de janeiro desse ano, o Presidente dos Estados Unidos anunciava a sua escolha para liderar a Reserva Federal.

Depois de relatar o que dizia ser um “tremendo progresso económico”, explicou a escolha: “a nossa economia precisa de política monetária sólida e prudente supervisão do nosso sistema bancário. É por isso que precisamos de liderança forte, sólida, e firme na Fed”. Declarava, então, que nomeava Powell “porque ele vai garantir exatamente esse tipo de liderança, ele é forte, comprometido e inteligente”.

Jerome Powell seria confirmado pelo Congresso e assumiu funções a 3 de fevereiro de 2018. Um mês depois já estava a aprovar uma subida de juros, para 1,75%. Na sua primeira reunião como presidente da Fed, Jerome Powell concretizava a sexta subida desde que em dezembro de 2015 tinha começado o movimento ascendente, depois de um período de taxas perto do zero na sequência da crise financeira.

Janet Yellen saía e a Fed mudava a visão da política monetária. À “pomba” Yellen sucedia o “falcão” Powell. O mesmo é dizer que Yellen privilegia a atuação do banco central centrada na economia e no mandato de baixo desemprego, e por isso, aponta mais a descida de taxas, uma política mais acomodatícia; enquanto Powell olha mais para o outro mandato da Reserva Federal: controlo de preços, e, como tal, aponta mais à subida de juros.

Trump escolheu o falcão. E não demorou, mesmo nesse primeiro mandato, a criticar as opções da Fed, até chegar ao ponto, em 2020, semelhante ao atual: a ameaçar publicamente despedir o presidente da Reserva Federal, em plena crise da Covid-19. A 14 de março de 2020, Trump anunciava as primeiras medidas para tentar combater o coronavírus e deixava o aviso: “Espero que a Fed entre a bordo e faça o que tem de fazer. Devem ser mais proativos. Outros conselhos de outros países estão a tomar ações mais agressivas e queremos a Fed mais proativa. É importante”. E mais à frente declarou: “Tenho o direito de o demitir. Tomou uma série de más decisões. Estou descontente com a Fed porque estamos a ser seguidores e devíamos estar a liderar”.

Dois dias antes o BCE tinha lançado um pacote de estímulos para combater a crise pandémica e nesse mês ainda lançaria a bazuca de 750 mil milhões.

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Se a crise da Covid-19 reforçou o tom das críticas de Trump a Powell, já antes, segundo o New York Times, o Presidente dos Estados Unidos tinha criticado, em privado, as decisões da Fed quando, logo em dezembro de 2018, os juros federais continuaram a subir. E em 2019 declarou: “A minha única questão é quem é o nosso maior inimigo: Jay Powell ou o Presidente Xi?”, questionou na sua conta (ainda ativa) na rede X (então ainda se designava de Twitter). A crítica nessa altura também derivaram de declarações de Powell sobre a política comercial já então decidida por Trump (no seu primeiro mandato, Trump reforçou as tarifas alfandegárias à China).

“Enquanto a política monetária é uma ferramenta poderosa que funciona para apoiar o consumo privado, o investimento empresarial e a confiança, não dá, no entanto, um conjunto de regras para o comércio internacional”, declarou Powell, então.

Já então se falava de uma tentativa de acabar com a independência do banco central norte-americano, e em 2020 admitiu-se que uma demissão de Powell iria desestabilizar ainda mais. “O mercado confia em Jerome Powell para fazer o que a política monetária pode fazer. Jerome Powell percebe isso”, declarava ao News York Times Ernie Tedeschi, economista na Evercore ISI.

Trump 2.0 segue, agora, em relação à Fed o caminho de Trump 1.0. Mas em 2020, Trump perderia as eleições de novembro e deixaria a Presidência em janeiro de 2021. Jerome Powell manteve-se no cargo, com mandato renovado pelo democrata Biden em 2022.

Trump e a nova ameaça ao banco central

No dia 4 de fevereiro, Jerome Powell soprou 72 velas. Em 2018 assumiu a presidência da Fed, terminando o seu mandato em maio de 2026. Falta um ano e Trump volta a colocar o banqueiro central na sua mira.

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No dia em que o BCE desceu as suas taxas de juro pela sétima vez consecutiva, Trump notou isso mesmo: Powell — que apelidou do “muito atrasado Powell” [too late Jerome Powell] está sempre “demasiado tarde e errado”. Isto depois do presidente da Reserva Federal ter feito declarações a alertar sobre a política comercial dos Estados Unidos, admitindo impacto nos preços e até no desempenho económico. Trump não gostou e voltou a falar do seu atual radar, dizendo que até os ovos estão mais baratos (voltou a falar do preço dos ovos esta sexta-feira). “Os Estados Unidos estão a ficar ricos com as tarifas”. A Fed, disse ainda, devia ter descido as taxas, como o BCE, há muito tempo, “mas deve seguramente baixá-las agora”.

E desferia o toque final: “Nunca mais chega” o fim do mandato de Jerome Powell (mais conhecido por Jay Powell).

O tom continuou o mesmo depois em declarações na Casa Branca: “Acho que não está a fazer o seu trabalho. Está muito atrasado. Sempre muito atrasado. Não estou contente com ele. Farei com que saiba isso. E se eu quiser que ele saia, ele sairá de lá muito rapidamente, acreditem”.

Acusou, então, Powell de jogar à política e deve aos americanos a descida de taxas. A Fed não comentou estas declarações.

E embora a maior parte dos especialistas considere que Trump não pode despedir o presidente da Fed por diferença de políticas, Trump tem mostrado, neste segundo mandato, que consegue contornar regras para chegar onde quer. Muitas das suas decisões, por exemplo, têm passado ao lado do Congresso, uma vez que invoca uma situação de emergência.

Powell tem um mandato inamovível. Mas também outras agências supervisoras. E Trump despediu dois democratas da Federal Trade Commission, uma agência independente, sob o argumento de que o serviço deles na FTC era inconsistente com as prioridades da Administração Trump, segundo o Wall Street Journal. E também despediu dois democratas de um conselho de três elementos do National Credit Union Administration, um regulador dos seguros.

Depois de Trump atiar o fogo, o seu secretário de Estado do Tesouro, Scott Bessent, pôs água na fervura. “A Fed tem duas missões, e eu acredito que a política monetária é uma caixa de joias que tem de ser preservada. E depois têm as políticas regulatórias. Eu considero que deve haver discussão, porque a Fed é um de três reguladores da banca”, declarou, indicando que no verão iriam começar o processo de recrutamento para substituir Powell na Fed em maio de 2026 (havendo várias notícias a apontar já como possível sucessor Kevin Warsh). O Politico diz ainda que Bessent tem avisado na Casa Branca que qualquer tentativa contra Powell tem o risco de desestabilizar os já instáveis mercados. Em janeiro, nas audições antes de assumir funções, Bessent reconheceu a necessidade de independência da Fed.

Segundo a Reuters, e contrariamente à ideia de Trump de que se pedisse Powell para sair este deixaria o cargo, o presidente da Fed não terá qualquer intenção de sair da função antes do fim do mandato.

A Reuters acrescenta que um site de apostas está a dar uma probabilidade em quatro de Powell sair até ao final do ano, duplicando as probabilidades em um mês.

Certo é que o conselheiro económico de Trump, Kevin Hassett, declarou, esta sexta-feira que a Casa Branca está mesmo a analisar como pode demitir o presidente da Fed (inscrito como republicano), ultrapassando as barreiras legais.

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