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epa12490879 Aerial photograph of dead bodies in Rio de Janeiro, Brazil, 29 October 2025. The police operation launched on 28 October in Rio de Janeiro, the deadliest in the Brazilian city's history, left more than 100 people dead, including four officers, according to the Public Defender's Office.  EPA/RENATO SPYRRO WARNING EDITORS: EXPLICIT GRAPHIC CONTENT
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RENATO SPYRRO/EPA

RENATO SPYRRO/EPA

Rio de Janeiro. A operação histórica montada para encurralar traficantes na mata, os corpos em fila e as críticas de Brasília

Em poucas horas o número de mortos subiu para 121 na operação que é a mais letal da história do país. Moradores falam em corpos amarrados e com sinais de tortura, polícia acusa familiares de fraude.

Pelas seis da manhã agentes da Polícia Militar do Rio de Janeiro, da unidade de choque e da Polícia Civil começaram a subir as ruas em três pontos diferentes do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, composto por 13 comunidades. Os membros do Comando Vermelho, grupo criminoso que domina a região, fizeram o que estavam acostumados a fazer no caso de operações policiais: fugiram para uma zona de mata que dá acesso a outro complexo, o do Alemão, na rota de fuga tradicional. Mas três horas antes, membros do Batalhão de Operações Especiais, o Bope, já haviam subido a Serra da Misericórdia, e esperavam para concluir a emboscada.

As imagens áreas que circularam pelos jornais e redes sociais ao longo da passada quarta-feira resumem o resultado da operação: mais de sessenta corpos enfileirados, todos homens e a maioria em roupa interior, deitados lado a lado no chão das ruas e na Praça São Lucas, no Complexo da Penha. Foram resgatados pelos próprios familiares e moradores que subiram a Serra da Misericórdia na manhã seguinte àquele que foi o confronto policial mais mortal da história do Brasil, superando o massacre do Carandiru em 1992, que deixou 111 mortos durante uma rebelião na penitenciária em São Paulo. Num intervalo de poucas horas o número de mortos subiu de pouco mais de 60 para 121, e ainda poderá não ser o número definitivo.

Mais de 2500 agentes das polícias Civil e Militar haviam entrado na comunidade 24 horas antes, nas primeiras horas da manhã de terça-feira, dia 28, com o objetivo de cumprir cerca de 100 mandados de prisão e 150 de busca e apreensão. Na mata da Serra da Misericórdia, os tiros foram ouvidos ao longo de todo o dia. Nos arredores, dezenas de vias foram bloqueadas, linhas de autocarro paralisadas e 83 escolas suspenderam as aulas.

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▲ Familiares resgataram mais de 60 corpos da zona de mata na Serra da Misericórdia e levaram-nos à Praça São Lucas

Anadolu via Getty Images

“Tropeçava nos corpos. Foi massacre mesmo”

Raquel Rodrigues Rios foi uma das que usou a luz do próprio telemóvel para, junto de outros familiares, ir em busca do filho, Rafael, de 19 anos, na mata da Serra da Misericórdia, conforme relata a Folha de S. Paulo. Encontrou o corpo do filho decapitado e a cabeça exposta numa árvore — a cena confirmada pelo jornal através de vídeos e imagens. De acordo com José Aparecido Batista, sogro de Raquel, a mulher agora precisa esperar uma ligação da Defensoria Pública para a liberação do corpo. “Como é que uma mãe que passou a noite na mata procurando filho e viveu isso tudo vai para casa esperar telefonema?”, disse José Aparecido. Já uma prima diz que durante as buscas “tropeçava nos corpos. Foi massacre mesmo.”

Taua Brito conta ao mesmo jornal que encontrou o corpo do filho, Wellington, de 21, com os braços amarrados com uma corda. “Dava tempo de socorrer, a corda mostra que ele estava preso, amarrado em algum lugar. Deixaram meu filho morrer”, diz a mulher, que afirma ter ido ao Hospital Getúlio Vargas na noite anterior onde recebeu a informação de que o filho estaria preso. Os moradores ouvidos pelo jornal afirmam que os homens mortos e encontrados na mata na manhã de quarta-feira foram abandonados pelos polícias no local, que teve o acesso restrito durante todo o dia da operação por questões de segurança.

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▲ Moradores manifestam-se contra a ação da polícia e do governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro

Getty Images

Euleci Santana denuncia em declarações à TV Brasil que o filho terá sido executado pela polícia. “A gente tem a mensagem do meu filho. O meu filho se entregou. Saiu, mandou a mensagem com a localização: ‘Estou-me entregando’. Saiu algemado e mataram. Arrancaram o braço dele no lugar da algema”, diz a mulher.

Ao Estadão, uma familiar de um dos mortos disse que os corpos tinham “sinais de tortura”, como cortes. “Tinha corpos sem cabeça, com marcas de faca”, disse a moradora. O jornal também confirmou a existência de um corpo decapitado. “Não tinha necessidade de fazerem isso. Muita gente morreu. Eles só vêm para matar”, criticou a mulher. “Fizeram um necrotério lá dentro da favela: abriram os corpos como se fossem médicos”, afirmou Tamara Ferreira, que foi ao IML reconhecer um dos mortos na operação. Aos jornalistas presentes na comunidade, uma moradora identificada como Jessica criticou a atuação da polícia e as declarações do governador do Rio de Janeiro. “Você não aguentaria um dia do que o favelado vive. Aqui tem trabalhador, aqui tem guerreiro. Tem bandido, tem? Mas tem bandido melhor do que os de terno e gravata. Vocês matam com a caneta”, disse, em meio aos aplausos dos vizinhos e gritos de “toda vida importa”.

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Polícia Civil diz que mortos surgiram na praça “como se tivessem atravessado um portal e trocado de roupa”

Os mais de 60 corpos encontrados pelos familiares na zona de mata na passada quarta-feira (a polícia confirma 63, os moradores dizem ter resgatado mais de 70) todos de homens, ficaram alinhados lado a lado no chão, à vista dos vizinhos, a maioria em roupa interior ou cobertos por lençóis. A Polícia Civil informou que vai investigar quem participou da remoção dos corpos na área de mata — para o secretário da Polícia Civil, Felipe Curi, o facto dos corpos terem aparecido na praça despidos configura fraude processual. “Vale lembrar, para desmistificar certas narrativas, que parece ter ocorrido uma espécie de ‘milagre’ com os corpos que estão aparecendo hoje. Esses indivíduos estavam na mata, equipados com roupas camufladas, coletes e armamentos. Agora, muitos deles surgem apenas de cueca ou short, sem qualquer equipamento — como se tivessem atravessado um portal e trocado de roupa. Temos imagens que mostram pessoas retirando esses criminosos da mata e os colocando em vias públicas, despindo-os”.

Também o governador Cláudio Castro denunciou através das redes sociais a atuação dos familiares e amigos dos mortos. “É revoltante ver até onde o crime é capaz de ir para tentar enganar a população. Circulam vídeos mostrando claramente a manipulação de corpos depois dos confrontos: pessoas cortando roupas camufladas, tentando mudar a cena para culpar a polícia”, escreveu, ao partilhar um vídeo do momento descrito.

Técnicos do Ministério Público do Rio de Janeiro também estão a realizar perícias independentes nos corpos, diante das denúncias de execuções e torturas apresentadas pelos familiares dos mortos. Mais da metade dos 117 corpos de suspeitos já foi identificada, mas os nomes ainda não foram divulgados. Os quatro polícias mortos são Cleiton Serafim Gonçalves, de 40 anos, e Heber Carvalho da Fonseca, de 39, dois sargentos do Bope, e Marcus Vinicius Cardoso, de 51 anos, e Rodrigo Cabral, de 34, polícias civis.

O procurador-geral de Justiça do Estado, Antônio José Campos Moreira, afirmou durante uma conferência de imprensa, que as imagens das bodycams são essenciais para apurar as circunstância das mortes. Contudo, o secretário da Polícia Militar, Marcelo de Menezes, diz que o mais provável é não existirem registos da totalidade da operação. “As baterias das câmaras duram cerca de 12 horas. Começamos a reunir às 3h de terça-feira. As tropas começaram a movimentar-se às 5h. Em algum momento, há a substituição dessas baterias. Dado o cenário em que ali estavam empregadas as câmaras, aquelas baterias não foram recarregadas e em algum momento essas imagens podem ter sido perdidas“, diz o secretário.

Tortura, controlo armado de moradores e expansão territorial

A Operação Contenção foi autorizada por uma decisão da 42ª Vara Criminal da cidade do Rio de Janeiro, a pedido da Polícia Civil e do Ministério Público do Estado, que no documento descreve uma estrutura hierárquica e armada do Comando Vermelho no Complexo da Penha e nas comunidades próximas, com o uso sistemático de tortura, o controlo armado de moradores e a expansão territorial para áreas dominadas por milícias, de acordo com informações publicadas pela Folha de S. Paulo. A decisão ainda decreta a prisão preventiva de mais de 60 suspeitos, incluindo Doca, que é considerado o líder do grupo criminoso.

epa12487894 Rio de Janeiro Police officers guard a group of people during an operation in Rio de Janeiro, Brazil, 28 October 2025. At least twenty people were killed and fifty were arrested during a major police operation against Comando Vermelho, one of the most powerful organized crime gangs in Rio de Janeiro.  EPA/ANTONIO LACERDA

▲ Durante a operação 113 pessoas foram detidas e foram apreendidos 91 fuzis, 26 pistolas, 1 revólver e toneladas de droga

ANTONIO LACERDA/EPA

A decisão penal baseia-se numa investigação da Delegacia de Repressão a Entorpecentes, a DRE, que foi iniciada em 2024, na sequência de uma denúncia anónima sobre uma reunião de chefes do Comando Vermelho na Penha para planear a expansão territorial. Através de trocas de mensagens e vídeos foi possível perceber o funcionamento interno e a hierarquia da organização, que inclui líderes, gerentes do tráfico, operadores financeiros e soldados armados. Há ainda relatos de plantões armados, monitoramento de viaturas policiais e ordens de punição a moradores considerados desobedientes.

A análise das chamadas telefónicas gravadas permitiu detetar Doca como o responsável por determinar “a dinâmica do tráfico de drogas no Complexo da Penha e comunidades adjacentes, inclusive sobre venda e guarda de drogas, armas de fogo de grosso calibre e contabilidade da facção criminosa”. “Os elementos de convicção deixam revelar indícios suficientes de autoria e prova da materialidade dos crimes de tortura e associação para o tráfico de drogas, praticados com emprego de arma de fogo e envolvendo adolescentes”, escreve o juiz Leonardo Rodrigues da Silva Picanço no documento.

A investigação apresenta também vídeos para provar os episódios de tortura perpetrados pelo grupo criminoso. De acordo com o G1, os membros do Comando Vermelho tinham táticas específicas para punir os que desobedecessem às suas regras. Por exemplo, mulheres que participassem em discussões e lutas em bailes funk na comunidade eram colocadas em galões de gelo. Num vídeo, vê-se um morador a ser arrastado durante sete minutos pelas ruas, algemado e amordaçado, quando é torturado para delatar nomes do grupo criminoso rival. Noutro vídeo um membro do Comando Vermelho aparece a torturar um homem ensanguentado e a perguntar se “quer morrer logo”. De acordo com o juiz que assina o documento, a vítima “parece aceitar a execução como forma de interromper o sofrimento”.

“Não creio que tivesse alguém passeando na mata em dia de conflito”

O confronto entre a polícia e os criminosos, que resultou em 121 mortes, aconteceu na Serra da Misericórdia, numa zona de mata entre as comunidades do Complexo do Alemão e da Penha. Durante uma conferência de imprensa na passada quarta-feira, 29 de outubro, quando a cúpula da Segurança Pública do Rio de Janeiro detalhou os resultados da ação, o secretário da Polícia Militar, Marcelo de Menezes, explicou que a polícia usou uma tática chamada “muro do Bope”.

▲ A Serra da Misericórdia, onde aconteceu o confronto entre a polícia e os suspeitos, fica entre os Complexos do Alemão e da Penha

Os polícias começaram a operação na madrugada de terça-feira, pelas 3h, a entrar através do Complexo do Alemão. Pelo lado do Complexo da Penha a estratégia foi “empurrar” os traficantes por uma trilha de mata até o ponto mais alto da Serra da Misericórdia. A Polícia Militar, o Batalhão de Choque e a Polícia Civil entraram em três pontos distintos com este objetivo. Quando chegaram ao topo da serra, os criminosos depararam-se com os polícias do Batalhão de Operações Especiais, o BOPE, posicionados numa espécie de “muro” para cercar os suspeitos. De acordo com Menezes, o objetivo era “proteger a população e garantir a integridade física dos moradores”. A polícia afirma que a maioria dos confrontos, entre as 6h e as 21h, decorreu nesta área de mata.

Em conferência de imprensa, o governador do Rio de Janeiro defendeu que os corpos encontrados esta quarta-feira são de criminosos. “O conflito foi todo na mata, não creio que tivesse alguém passeando na mata em dia de conflito. A gente pode tranquilamente classificar e, se tiver algum erro, ele será irrisório. O critério que falamos com tranquilidade é que são criminosos porque, no planeamento, o conflito estava em áreas para não afetar a população”, afirmou Cláudio Castro. Victor Santos, o secretário de Segurança Pública, classificou o “dano colateral” como “muito pequeno”, afirmando que apenas quatro pessoas inocentes morreram durante a ação, referindo-se aos quatro polícias mortos.  A polícia registou 113 prisões e a apreensão de 91 fuzis, 26 pistolas, 1 revólver e toneladas de drogas, ainda não contabilizadas.

Mais de 112 mil pessoas vivem em comunidades nos dois complexos, que ficam na Zona Norte do Rio de Janeiro, próximos ao Aeroporto Internacional do Galeão, conhecido como Tom Jobim. Além das residências, os bairros têm escolas e postos de saúde. “Eu moro aqui há 58 anos. Nunca vi isso. Vai ser difícil esquecer. Essa cena aqui p’ra mim foi trágica”, disse uma moradora ao G1. “A cidade tá igual tragédia, como quando tem tsunami, terremoto, com corpo espalhado em cima do outro”, descreve outro residente da zona. “O que a Vila Cruzeiro precisa é de educação.”

“É preciso mirar na cabeça, mas não de pessoas”

Na noite da passada quarta-feira, o Presidente brasileiro reagiu através das redes sociais, informando que se reuniu com ministros do Governo e determinou ao ministro da Justiça e ao diretor-geral da Polícia Federal que fossem ao Rio de Janeiro para encontrar o governador do Estado. “Não podemos aceitar que o crime organizado continue destruindo famílias, oprimindo moradores e espalhando drogas e violência pelas cidades. Precisamos de um trabalho coordenado que atinja a espinha dorsal do tráfico sem colocar policiais, crianças e famílias inocentes em risco”, escreveu Lula da Silva, citando como exemplo a operação Carbono Oculto, que resultou prisões em oito estados brasileiros.

“Foi exatamente o que fizemos em agosto na maior operação contra o crime organizado da história do país, que chegou ao coração financeiro de uma grande quadrilha envolvida em venda de drogas, adulteração de combustível e lavagem de dinheiro”, disse o Presidente, que sancionou uma lei que promove mudanças como a classificação de duas novas modalidades de crime relacionadas à obstrução de investigações e ações contra o crime organizado, com penas de reclusão de 4 a 12 anos, além de multa, e amplia a proteção de autoridades envolvidas no combate à criminalidade, para juízes, membros do Ministério Público, polícias e militares, inclusive aposentados, bem como aos seus familiares. Lula termina o texto a citar a proposta de emenda constitucional que já havia sido apresentada em abril. “Com a aprovação da PEC da Segurança, que encaminhamos ao Congresso Nacional, vamos garantir que as diferentes forças policiais atuem de maneira conjunta no enfrentamento às facções criminosas.”

A página do Instagram do Governo Federal publicou um vídeo entitulado: “Explicando a operação policial no Rio de Janeiro com… inteligência”. No vídeo, o Governo diz que o crime organizado é um dos maiores problemas do Brasil e “destrói famílias, oprime moradores e espalha drogas e violências nas cidades”, mas critica a operação da passada terça-feira, afirmando que a ação policial colocou em risco os próprios agentes, famílias e crianças. “Matar 120 pessoas não adianta nada. Mesmo se forem todos bandidos, amanhã tem outros 120 fazendo o trabalho”, diz o vídeo, que continua: “Para combater o crime é preciso mirar na cabeça. Mas não de pessoas“. Na sequência, o vídeo dá como exemplo a mesma operação citada por Lula e a PEC da Segurança. “Se o crime é organizado a resposta também tem que ser”.

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