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Seguro e Ventura. Dois estilos opostos para Belém num cenário de estragos e "horror"

Seguro foi visitar as zonas afetadas sem chamar a comunicação social, Ventura optou por agendar campanha para Leiria com jornalistas. Ambos dizem recusar aproveitamento político da situação.

Os estragos na zona litoral centro tiveram a promessa de visita dos dois candidatos presidenciais, mas um acabou por ser bem mais discreto do que o outro. André Ventura foi em campanha, António José Seguro também, mas sozinho e a dizer que não faria “aproveitamento político” da situação. Mas sempre serviu para marcar uma diferença — “não é a única”, diz — face ao adversário e também para continuar a agir como se estivesse dentro de uma antecâmara presidencial. Já Ventura acusou primeiro-ministro de “desaparecimento”, mas foi incapaz de apontar erros aos timings seguidos por Montenegro, até porque fizeram o mesmo percurso, ainda que invertido.

Fato e gravata foi indumentária que António José Seguro dispensou na campanha da primeira volta, mas nesta segunda fase o estilo é outro e o fato sai mais vezes do armário, acompanhado da formal gravata, como quem sinaliza que está prestes a chegar uma solenidade. Foi assim que apareceu esta quinta-feira de manhã, em Almada. Era para um café e uma torrada no Café Central, mas também (e sobretudo) para anunciar aos portugueses que no dia anterior tinha passado sozinho por Leiria e registado o cenário “chocante, devastador, um horror”. Antes de qualquer titular de órgãos de soberania e sem holofotes, para marcar a diferença que quer instituir no cargo de Presidente, se lá chegar.

Não quer fazer “aproveitamento político” da situação, mas este fato serviu à medida para provar que o seu estilo não é o de Marcelo Rebelo de Sousa (que desta vez fez saber que só tenciona visitar as áreas afetadas “passada a fase em curso de intervenção da Proteção Civil”, mas no passado foi sempre o primeiro a aparecer com comunicação social) e muito menos o de André Ventura, que visitou os locais em campanha.

Confrontado com a postura de ambos, recusou entrar em picardias “num momento difícil do país”. Porém, quando questionado sobre se essa é uma diferença que tem face ao adversário nestas presidenciais, Seguro não se conteve: “Não é a única.”

▲ De manhã esteve em Almada, no Cafe Central, com a autarca Inês de Medeiros e o líder do PS-Setúbal, André Pinotes Batista

DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR

Na visita que fez a Leiria, na noite de quarta-feira, o candidato tinha falado antes com o presidente da câmara, Gonçalo Lopes, mas acabou por não se encontrar com o socialista. Havia árvores a cortar vias, acessos impossíveis e estragos por todo o lado, que Seguro foi registando com o telemóvel à passagem do carro que o transportava. Tem intenção de voltar aos locais mais afetados, no mesmo registo, fora da agenda pública.

“Não farei absolutamente nada que interfira com as operações que estão a decorrer para que rapidamente se volte à normalidade”, disse, praticamente à mesma hora que o primeiro-ministro e também o candidato oponente se dirigiam para visitar os estragos da tempestade da madrugada de quarta-feira. Mas sempre a tornear as perguntas diretas sobre se os criticava. O mesmo para a ausência do Presidente da República. Foi questionado sobre se faria igual se já estivesse no cargo: “Já fui e fui sozinho. Não quero interferir com absolutamente nada, mas considero que o meu dever é dar uma palavra de coragem, de incentivo e estar ao lado das pessoas que estão neste momento sem meios, que são principalmente os autarcas a fazer frente a uma tragédia de uma dimensão que no início pouca gente acreditava.”

Também contornou o elogio que o presidente da câmara da Figueira da Foz escreveu nas redes sociais, para criticar os “atuais órgãos de soberania” que, ao contrário de Seguro, não lhe ligaram por estes dias, quando está à frente de um dos municípios mais afetados. Confirmou que falaram, porque ficou “preocupado com as consequências também no concelho dele, designadamente em termos hospitalares, onde o bloco de operações foi devastado com a tragédia. É esse o meu dever, eu cumpro o meu dever, eu faço aquilo que considero que é o meu dever como cidadão e como candidato a Presidente da República”.

O episódio permitiu vincar diferenças, ao mesmo tempo que Seguro vai garantindo que o seu foco é o auxílio às populações “completamente isoladas” e “sobretudo contribuir para que haja uma resposta rápida”. Também aqui evita entrar no tiro ao Governo, com a crítica a voltar a ficar nas entrelinhas — como em tudo o resto. “Neste momento o que é preciso é proteger as pessoas e restabelecer rapidamente a normalidade, quer com fornecimento de energia elétrica, quer com fornecimento de água, e também garantir que os supermercados possam ter condições para vender os produtos às pessoas”, disse o candidato. E continuou a descrição do problema das pessoas “que não têm telecomunicações, não têm água, não têm luz, como é que cozinham? O que é que comem? Portanto, é necessário perceber que esta é uma situação dramática e de urgência”.

Isto tudo sem nunca responder diretamente se, nesta situação concreta, já teria chamado o primeiro-ministro. Refugiou-se no facto de não saber o que “foi feito” e em “não querer ser injusto”, para logo depois acrescentar que é “preciso acudir às pessoas que estão numa situação de aflição. Todos os meios do país devem ser concentrados para reforçar aquilo que a Proteção Civil em cada concelho está a fazer”.

▲ Na FCT, Seguro esteve sobretudo com alunos, almoço na cantina e cedeu um empate nos matraquilhos, contra o adversário que se chamava Costa.

DIOGO FARIA REIS/OBSERVADOR

Durante o dia, nas visitas que foi fazendo pela margem Sul do Tejo, António José Seguro acabou por ser menos comedido com o mesmo Governo, mas noutras matérias. Em dois momentos, na visita à Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa, o candidato deixou antever algumas desconfianças face a planos concretos deste Governo, em duas matérias diferentes, ambas relativas ao Ensino Superior. A primeira surgiu quando falava com elementos da direção da faculdade e foi questionado sobre novas regras para atribuição de verbas europeias para a investigação. O candidato respondeu que a reforma do Estado que está a ser levada a cabo pelo Governo “tem de ser muito bem avaliada” e que é preciso “avaliar o custo benefício” dos ajustes que forem feitos.

Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador na campanha de António José Seguro 

Falou mesmo como se Belém fosse destino seguro, ao dizer que “quando chegar” não sabe se “existirão muitos decretos do Governo” sobre essa reforma, mas prometeu que avaliará “o custo benefício que representa para o país, sobretudo na área da investigação que é muito sensível”. Pouco depois, numa entrevista a alunos, mostrou-se desfavorável, “por princípio”, ao descongelamento das propinas — coisa que o Governo propôs no último Orçamento e foi chumbada pela esquerda mais o Chega, no Parlamento.

A segurança de ser o próximo vai aparecendo no discurso do candidato e também em algumas abordagens que lhe fazem. Na cantina da faculdade, um jovem estudante chamou-lhe “presidente” para pedir uma selfie. O candidato acedeu ao pedido, mas não sem antes lhe dizer que só aceita essa referência a partir de 8 de fevereiro. Até lá, o excesso de confiança pode atrapalhar a mobilização, bem como a intempérie. E aqui já não há meias palavras, para o candidato: “Faça sol ou faça chuva, é preciso que levem os vizinhos, amigos, os colegas de trabalho” a votar.

[Esta é a história de como dezenas de portuguesas se juntaram a mulheres de vários outros países e se tornaram seguidoras de uma seita controlada por um guru manipulador. Recrutadas numa escola de yoga em Lisboa, muitas acabaram em casas de massagens eróticas ou a serem filmadas em cenas de sexo e orgias. “Os segredos da seita do yoga” é o novo Podcast Plus, do Observador. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Daniela Ruah, com banda sonora original de Benjamim. Ouça o primeiro episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music.]

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Ventura teve pedidos para sair da cidade e acusações de aproveitamento

“Se vocês saírem daqui, nos arredores, nas freguesias, esqueçam. Para mim, Leiria está normal.” Mal sai do carro, Ventura é rodeado por três empresários agrícolas que o colocam a par do cenário de destruição trazido à região pela tempestade Kristin. No caminho entre Coimbra, onde esteve de manhã, e Leiria, o rasto de devastação é imenso. Vê-se nas estradas, nas árvores caídas, nas telhas arrancadas, nos outdoors dobrados e não poucas vezes irreconhecíveis. Não há um centímetro limpo de estragos.

Ventura ouve atentamente, acena com a cabeça, explica que é por isso que ali está. Com vozes embargadas e histórias de quem perdeu muito e está prestes a perder mais, os agricultores contam que não é possível chegar aos animais para os alimentar. “Não comem desde ontem, não tenho geradores nem nada”, desabafa um deles. “Podiam pôr o exército a abrir caminho”, acrescenta outro. Ventura concorda e, de manhã, até tinha sugerido que se usassem as Forças Armadas para dar apoio às populações.

Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador na campanha de André Ventura

Ao lado do deputado e vereador de Leiria Luís Paulo Fernandes, que vai apontando os estragos visíveis, Ventura ouve a “impotência” de quem viveu os problemas na pele e as queixas apontadas a prioridades do avesso. Mesmo no centro da cidade, por onde circula, o deputado explica que os agricultores “desabafam que o jardim [de Leiria] está a ter prioridade sobre abrir caminho para os camiões poderem chegar aos animais” e estes assumem que, perante “o nível de devastação muito grande”, só desejavam “os mínimos” — não deixar os animais morrer à fome.

Fábio, com dois hectares de estufas a poucos quilómetros do centro da capital de distrito, já assistiu a três situações de intempérie, mas nada com dimensões semelhantes. “As minhas estufas foram reconstruídas depois da tempestade Leslie, é a terceira tempestade que me limpa a exploração toda e não sei como é que vai ser a minha vida, a minha atividade e a daqueles que trabalham comigo”, confidencia. Ventura vai sugerindo que “se não formos rápidos a agir vamos deixar pessoas para trás” e promete dar o seu “melhor”. “Foi por isso que quis ver com os meus olhos”, reitera, enquanto o alertam novamente: “Mas saia da cidade e veja essas aldeias aqui à nossa volta.”

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ao longo da ação de campanha, que se transformou numa ida ao terreno para ver o impacto da tempestade, sem bombos, bandeiras, gritos ou exageros de apoiantes, Ventura segue de semblante muito mais pesado do que o habitual. Está ali por acreditar que os políticos têm de “estar no terreno, ao lado das pessoas”, “dar a cara” e não estarem “desaparecidos em gabinetes”.

Na parte da manhã, em Coimbra, numa empresa de fruta, Ventura havia sugerido que houve “um certo desaparecimento” do primeiro-ministro e do Presidente da República — sendo que ambos estiveram, logo na quarta-feira, na sede da Autoridade Nacional da Proteção Civil e Luís Montenegro até falou. À hora a que o candidato presidencial chegou à visita já se sabia que o chefe de Governo ia estar em Leiria e Coimbra para visitar zonas afetadas. Novamente relembrado desses factos, o candidato presidencial apoiado pelo Chega foi incapaz de apontar erros aos timings seguidos por Luís Montenegro e preferiu antes criticar “uma prevenção que não aconteceu”.

“Devemos ter capacidade de dizer às pessoas onde é que falhámos e o que é que vamos fazer diferente. E isso tem que acontecer já, não devemos estar sempre a falhar, crise após crise, momento após momento, e a dizer que está tudo bem. Não está, falhámos, o país falhou outra vez a estas pessoas e não devemos amenizar isso. E um político deve estar onde é exigível, que é ao lado das pessoas, mesmo quando estas pessoas estão a fazer críticas, quando estão descontentes. É assim que um político deve fazer, não se deve esconder”, argumenta, mais uma vez sem conseguir apontar o dedo ao comportamento de Montenegro, ao contrário do que aconteceu na época dos incêndios.

A verdade é que, perante uma intempérie que assolou o país, Ventura tem dificuldade em despir o fato de líder da oposição, Ventura foca-se no que podia ter sido feito e aponta ao Governo, já que o primeiro-ministro, desta vez, correu numa pista bastante idêntica à sua — fizeram até o mesmo percurso (Leiria-Coimbra), mas ao contrário. Não atinge António José Seguro de nenhuma forma. O presidente do Chega centra-se na prevenção que podia ter sido feita. Não compreende que, “ao fim de tantos anos e ao fim de tantas catástrofes”, o “SIRESP não funcione” quando é necessário e que não haja geradores de emergência para que as pessoas não vivam sem eletricidade. As pessoas por quem ia passando aprovam a ideia, desde o casal que veio do Alentejo para buscar a filha que estuda na faculdade de Leiria e estava há dois dias incontactável, aos agricultores que não têm como chamar ajuda, até à dona do café que tem de ir ao centro da cidade à procura do mínimo de notícias.

Mais do que a solução das Forças Armadas no terreno (que também já foi confirmada pelo ministro da Defesa, Nuno Melo), Ventura vai alertando para a questão da rapidez. Considera que, neste momento, tem de se executar “com a rapidez que é preciso, com a urgência que é preciso e com a firmeza que é preciso, garantir que os apoios agora chegam” e pediu que haja envolvimento de “todos”. Pelo meio, ainda um pouco de campanha, mais ao estilo de legislativas, para fazer uma divisão entre o povo que não tem ajuda, mas paga sempre: “As portagens têm geradores, mas o que é preciso e as estruturas que é preciso, quando é para apoiar, quando é para ajudar, não há gerador.”

Ainda que tenha fugido às perguntas sobre o alegado aproveitamento político com o momento, já que, ao contrário de António José Seguro foi ao terreno com a comunicação social, Ventura ouviu de vários cidadãos críticas. Primeiro, em frente à estação rodoviária, uma mulher gritou: “Agora, vem tarde”. Ao que o líder do Chega respondeu que “era difícil vir mais cedo”; depois, durante as declarações aos jornalistas, foi interrompido para lhe perguntarem se “trouxe comida no carro”. Ventura não ignorou, garantiu que já falava com a cidadã e, no final, antes de entrar no carro, ainda perguntou por ela, mas sem sucesso.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

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