Site da IURD garante cura para a depressão em 3 minutos. Psiquiatras dizem que pode aumentar risco de suicídio /premium

Rejeita medicamentos e trata a doença como manifestação do diabo. Ainda assim, a IURD, proprietária do site, diz que respeita a medicina. Psiquiatras falam em risco de suicídio. ERS está a averiguar.

O endereço é simples, não faz qualquer menção ao proprietário e está registado em Portugal: “www.saindodadepressão.pt”. Assim que se entra no site, em tons de vermelho e preto, com uma fotografia fragmentada de um homem à beira de um ataque de nervos (mãos a tapar os olhos, cabeça atirada para trás, boca aberta em uivo), surge uma janela com ligação direta ao Messenger, como que a garantir que nenhum doente que a ele recorra vai ficar sem assistência: “Olá, podemos ajudar?”.

Achamos melhor não aceitar: para isso seria necessário expor uma conta de Facebook e a ideia é perceber, de forma anónima, como funciona a pretensa cura. Preenchemos o formulário também disponível, deixamos um email criado para o efeito e um número de contacto e, enquanto esperamos, vamos explorando a página.

Para além de umas quantas “notícias” escritas a partir de fontes duvidosas — “Depressão e bipolaridade causadas por ar que respiramos?”; “Ator de ‘Casa de Papel’ e ‘Elite’ afasta-se por causa da depressão”; “Maioria dos homens ‘sofre em silêncio’” —, há uma série de dados sobre a doença psiquiátrica que afeta uma em cada cinco pessoas em todo o mundo e pode, em casos extremos, levar à morte através do suicídio.

O site Saindo da Depressão não tem referências à Igreja Universal do Reino de Deus

À primeira vista, apesar de simplista, a informação é confiável: a depressão não é uma “doença da moda”; pode ser potenciada por situações de bullying, divórcio, traumas e perdas; as pessoas que sofrem da doença não são “fracas”.

Depois continuamos o scroll e surge a primeira referência a antidepressivos, com um vídeo em tom de alerta que garante: “Um terço da população portuguesa depende de antipsicóticos para levar uma vida normal”. Percebemos que chegámos ao momento de revelação do método de cura quando surge a adversativa: “O refúgio de uma pessoa depressiva costuma ser antidepressivos, mas estas pessoas encontraram uma saída”.

A partir daí são apresentados uma série de casos reais, com fotografia, de alguns dos “milhares de pessoas que já encontraram não só a terapêutica adequada, como a verdadeira cura para o seu caso depressivo” — Rosa Martins esteve internada dois meses em psiquiatria, Olga Quitanda tinha “pesadelos, choro e tristeza profunda”, Vânia Sentieiro era “depressiva e viciada”. As três dizem estar estão curadas, leves e felizes. Tudo graças ao “tratamento”, 100% eficaz e relâmpago, feito em apenas 3 minutos, sem medicamentos, sem exames e sem internamento. Mais: completamente gratuito — “No Centro de Ajuda, você não terá qualquer tipo de despesa associado ao tratamento da sua depressão, por isso, não tenha medo e procure-nos hoje mesmo!”, afiança a página.

"Em casos de depressão grave, o recurso a este tipo de práticas pode, ao atrasar a procura de ajuda médica adequada, constituir um fator de mau prognóstico e aumentar o risco de suicídio.”
Maria João Heitor, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental

Meio dia depois, como a resposta ao nosso pedido de ajuda via email não chegasse (nunca chegaria, em duas semanas), ligámos para o número de telefone publicado na página. Se não soubéssemos já que o site pertencia à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), informação revelada apenas na “Política de Privacidade”, acessível através de uma hiperligação de rodapé em que poucos doentes com depressão desesperados por tratamento clicarão, seria nesse momento que iríamos ficar a saber.

Apesar de o site publicitar um “acompanhamento personalizado” e uma abordagem “única” e que “difere de caso para caso”, não foi bem isso que encontrámos do lado de lá da linha, que nem sequer é exclusiva para atender doentes depressivos, mas serve para todos os pedidos de ajuda endereçados à igreja.

Estivemos ao telefone durante 22 minutos e 47 segundos. Não tocámos no assunto dinheiro, mas em menos de nada já estávamos a ser elucidados sobre o dízimo. Só no final da conversa e de muita explicação sobre o “método terapêutico”, que, em vez de medicamentos, recorre a orações, envolve a expulsão de espíritos e do diabo, e afinal tanto pode servir para curar a depressão como um cancro ou uma dor de estômago, é que nos perguntaram o nome — e, sim, apresentámo-nos como alguém doente com depressão e a precisar de ajuda.

Olá… uma amiga mostrou-me o vosso site, estava a ligar para saber como funciona…
Então, nós fazemos parte da Igreja Universal, não é? E nós temos todos os dias reuniões por uma área específica da vida. Por exemplo: à segunda-feira é pela vida financeira; à terças pela saúde; quarta é geral; quinta pela vida sentimental; sexta é uma reunião de libertação, para se livrar de todos os espíritos malignos; ao sábado temos o jejum dos impossíveis; e ao domingo é pela família. O bispo ou o pastor que faz a reunião sempre dá a mensagem, lê a Bíblia, a oração pela família, tem a água da cura, então pega um pouquinho de cada. Aí depende muito do local que fica mais próximo de si…

Apesar de não haver profissionais de saúde envolvidos, o site oferece um tratamento e a consequente cura

Mas eu estava a ligar por causa da depressão…
Então, a depressão… os pastores e os bispos falam muito sobre isso aos domingos, mas a reunião da saúde é às terças-feiras. Pode aparecer às terças, às sextas, mas digamos assim, você não tem nenhum horário específico em que consiga ir (está a trabalhar ou assim), em qualquer dia que for nós temos obreiros, o pastor, até a esposa do pastor — com quem se sentir melhor — para tirar todas as suas dúvidas, para receber uma oração… Então, mesmo que não consiga ir naquele horário em que vai ter a reunião, tem sempre alguém que vai poder atender, explicar melhor, entende? É grátis, não precisa pagar nada…

Ok… Não é preciso pagar. Mas… é só ir à reunião normal?
Sim, exatamente. E nunca precisa pagar nada. Em todas as reuniões, o bispo ou o pastor pede o dízimo, mas aí é totalmente de acordo com a pessoa, caso ela queira, nada, nada, nada na igreja é obrigatório, nunca. Então tudo o que receber é de graça.

Eu pensava que era uma coisa mais individual, mais direcionado para a pessoa…
Sim! Então, à reunião vão todas as pessoas, é coletiva, recebem mensagens, mas há sempre obreiros ou até mesmo o pastor para cuidarem das pessoas. Digamos que você vai à igreja e pede para falar com o pastor. Explica toda essa situação e ele vai acompanhá-la de mais perto, independentemente de assistir a uma reunião coletiva.

"Ultimamente nós temos falado muito sobre depressão, porque é algo por que muita gente passa e muita gente tem e todos os médicos dizem que só através de medicamentos é que pode ser curada e tudo o mais. Só que temos vários testemunhos, de várias pessoas, que comprovam o contrário. Tudo o que nós dizemos, tudo o que os pastores e os bispos pregam e aconselham, é baseado na Bíblia, que é a palavra de Deus."
Obreira da IURD em aconselhamento telefónico

No site diz que a cura é feita sem medicamentos. 
Sim, exatamente.

Mas sabe dizer-me como é que podem ajudar-me a lidar com este problema?
Sim, então, como é que funciona: ultimamente nós temos falado muito sobre depressão, porque é algo por que muita gente passa e muita gente tem e todos os médicos dizem que só através de medicamentos é que pode ser curada e tudo o mais. Só que temos vários testemunhos, de várias pessoas, que comprovam o contrário. Tudo o que nós dizemos, tudo o que os pastores e os bispos pregam e aconselham, é baseado na Bíblia, que é a palavra de Deus. Então, tudo é feito de acordo com a fé da pessoa. Nós trabalhamos com uma fé inteligente. Por exemplo: se Deus curou o seu filho de todas as dores, de todas as doenças e enfermidades da cruz, não há motivo para a pessoa ter aquela doença, não tem lógica. Então nós vamos fazer tudo baseado na palavra de Deus, nós temos — não sei já leu algum testemunho ou alguma vez viu algum programa na televisão…

Já…
Então, é assim que funciona. Todas as sextas-feiras, a pessoa vai à igreja, está a passar por um problema e tem um espírito dentro dela. A pessoa passa mal e depois o pastor arranca, tira o espírito, dá o sai, não é? Às vezes esse espírito também causa coisas na pessoa. Então, muitas das vezes, aliás, sempre, a culpa de ter aquilo não é da pessoa. Não é uma coisa natural, há um espírito ou alguma coisa que lhe está a fazer mal. Então, se receber a oração e seguir a palavra de Deus exatamente como ela é ensinada, tudo vai acontecer, todos os resultados vão aparecer. Por isso é que aqui ninguém toma medicamentos para se curar. Tem tudo a ver com fé. Entende? Fé é a certeza de um facto que eu não vejo, mas espero e sei que vai acontecer. Sei que Deus está aqui, sei que Jesus pode fazer, portanto eu espero e vai acontecer. Entende? É assim que todas as pessoas que deram o testemunho foram curadas. Tanto de depressão como de outras doenças. Estou a explicar assim por cima, mas, em relação à sua situação específica, talvez fosse bom conversar com alguma pessoa…

Mas é tudo uma questão de fé?
Sim, exatamente, por isso é que não é pago, não tem medicamentos, não tem nada disso.

Ok… e serve para uma depressão como para outra doença qualquer, como para um cancro?
Exatamente. Para qualquer tipo de doença.

"O bispo faz a oração, às vezes a pessoa sente-se mal, e aí arranca aquele espírito — quando eu digo “arranca”, a pessoa está a sentir-se mal, o bispo coloca a mão na cabeça e diz “sai!”. Não é nada estranho, é algo normal, é como uma oração mesmo. Porque é que dizem três minutos? É porque quando o espírito sai, automaticamente a pessoa fica bem."
Obreira da IURD em aconselhamento telefónico

É igual?
É, os procedimentos são iguais. Claro que na depressão a pessoa tem sintomas diferentes de um cancro, mas a forma como vai ser curada é igual. Depois há pessoas que se ungem com óleo, que usam sal, depende do propósito com que estão a ser feitos, entende? Todos eles vão dar certo, todas as orientações que receber vão dar certo, mas, ao final de tudo, é uma coisa só: a sua fé. Se é a palavra de Deus e está prometido então ele vai cumprir.

Então quando dizem que vou ficar curada em três minutos, é o tempo da oração?
É o tempo da oração. O bispo faz a oração, às vezes a pessoa sente-se mal, e aí arranca aquele espírito — quando eu digo “arranca”, a pessoa está a sentir-se mal, o bispo coloca a mão na cabeça e diz “sai!”. Não é nada estranho, é algo normal, é como uma oração mesmo. Porque é que dizem três minutos? É porque quando o espírito sai, automaticamente a pessoa fica bem. Entende?

Site perigoso ou alternativa inofensiva?

De acordo com o mais recente relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), 4,4% da população vive com depressão. São aproximadamente 322 milhões de pessoas em todo o mundo — e 400 mil só em Portugal. Segundo a EUTIMIA (Aliança Europeia contra a Depressão em Portugal), não existe, em todo o continente, outro país com uma prevalência maior da doença, mais prevalente em mulheres, sobretudo entre os 55 e os 74 anos, mas que também tem alguma expressão entre crianças e adolescentes abaixo dos 15 anos, informa o último relatório da Direção-Geral de Saúde (DGS) sobre o assunto.

"Vivemos uma época em que os medicamentos têm salvo a vida de milhões de pessoas e cortar com qualquer medicação psiquiátrica repentinamente pode causar graves perturbações. São religiões, claro que eles não obrigam ninguém a ir lá, agora, a IURD anunciar que cura a depressão em 3 minutos é no mínimo abusivo."
Celeste Carvalho, psicóloga

Os números só tornam o site Saindo da Depressão ainda mais preocupante, na perspetiva de especialistas ouvidos pelo Observador. “Anunciarem num site que curam a depressão num dia ou em dois pode ser bastante aliciante, é uma doença moderna, uma perturbação comum, sobretudo no mundo ocidental, muita gente poderia beneficiar disso. Agora, quando a pessoa tem uma depressão tem de procurar uma ajuda técnica e responsável”, diz a psicóloga clínica Celeste Carvalho.

“Há vários tipos de depressão e se as reativas podem ser curadas apenas com psicoterapia, numa depressão major a pessoa precisa de uma intervenção psiquiátrica. Estamos a falar de doenças mentais. No limite, a depressão pode conduzir a uma tentativa de suicídio e à morte da pessoa. Vivemos uma época em que os medicamentos têm salvo a vida de milhões de pessoas e cortar com qualquer medicação psiquiátrica repentinamente pode causar graves perturbações. São religiões, claro que eles não obrigam ninguém a ir lá, agora, a IURD anunciar que cura a depressão em 3 minutos é, no mínimo, abusivo. Acho bem que as pessoas tenham uma vida espiritual, mas os milagres são raros — e curar a depressão em 3 minutos só pode ser um milagre”, acrescenta a especialista.

A depressão é atualmente uma das bandeiras da IURD

Igreja Universal do Reino de Deus

Maria João Heitor, médica psiquiátrica, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, vai ainda mais longe: “O risco maior para a maioria dos que sofrem de depressão e recorrem a estes ‘centros de ajuda’ é o de atrasar o tratamento apropriado e a recuperação. Em casos de depressão grave, o recurso a este tipo de práticas pode, ao atrasar a procura de ajuda médica adequada, constituir um fator de mau prognóstico e aumentar o risco de suicídio.”. “Diria que sites deste tipo são perigosos e contêm riscos. A depressão é uma doença bem definida e muito prevalente. É uma perturbação mental que, frequentemente, tem sintomas físicos associados. Como tal, deve ser diagnosticada e tratada por profissionais de saúde”, avisa.

Até porque, apesar de ser uma doença tratável, nem sempre a depressão pode ser curada de vez: “Há casos onde a depressão é curável e não volta a repetir-se. No entanto, com frequência estamos perante depressões que se tornaram crónicas ou que têm um elevado risco de recorrência, consequentemente com necessidade de uma continuidade de cuidados. Também por isto, é fundamental não cair nas redes da publicidade enganosa. Um primeiro episódio, tratado de forma desadequada, pode levar a um episódio subsequente com consequências trágicas”.

Para a especialista, que é também diretora do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental e do Serviço de Psiquiatria do Hospital Beatriz Ângelo, em Loures, o caso é grave e deve ser analisado e investigado a vários níveis. A saber: “A primeira questão é saber quem são os profissionais que praticam os tratamentos que este suposto centro de tratamento anuncia e se estão legalmente habilitados para tratarem ou até curarem, como o site propõe, a depressão em Portugal. A segunda questão, também relevante, é saber se os métodos que o site refere estão de acordo com o conhecimento científico e enquadrados dentro das práticas autorizadas. Lembro que, mesmo que não haja psiquiatras ou psicólogos envolvidos no tratamento dos doentes que procurem os serviços deste centro, a prática de terapêuticas não convencionais está regulada e pressupõe registo e autorização pelas entidades competentes. Em terceiro lugar, interessa que as autoridades averiguem se o site, sendo publicitário, cumpre as regras aplicáveis a publicidade de cuidados de saúde”.

"O trabalho da Igreja não pretende diminuir ou substituir a nobreza da medicina e dos seus resultados. Contudo, a IURD recebe muitas pessoas para quem parece já não haver esperança, seja pelo estado avançado da doença, seja pela falta de forças da própria pessoa para continuar a lutar por uma solução."
Fonte oficial da IURD

Contactada pelo Observador, a Ordem dos Médicos garantiu não ter recebido qualquer denúncia sobre o site e encaminhou o assunto para a Entidade Reguladora da Saúde (ERS), que é o organismo responsável pela fiscalização do cumprimento das regras em matéria de publicidade em saúde. Já a ERS limitou-se a dizer que está a “averiguar” a situação e recusou prestar qualquer declaração adicional sobre o assunto.

Apesar de fonte oficial da Igreja Universal do Reino de Deus ter garantido ao Observador que o site não recorre aos serviços de qualquer profissional de saúde, o Saindo da Depressão apregoa a “cura” para “uma doença que não olha a idade, género ou estatuto social” através de ““tratamentos” e “terapêuticas”, o que poderá resultar numa violação dos pontos 1 e 2 do artigo 3 do decreto-lei que regula a publicidade em saúde.

De acordo com a legislação, “as práticas de publicidade em saúde devem identificar de forma verdadeira, completa e inteligível o interveniente a favor de quem a prática de publicidade em saúde é efetuada, de modo a não suscitar dúvidas sobre a natureza e idoneidade do mesmo”, sendo considerada ilícita toda a publicidade em que “o interveniente a favor de quem a prática de publicidade em saúde é efetuada assume a qualidade de prestador de cuidados de saúde, sem efetivamente o ser, ou, sendo prestador de cuidados de saúde, não cumpra os requisitos de atividade e funcionamento, designadamente não se encontre devidamente registado na Entidade Reguladora da Saúde e não seja detentor da respetiva licença de funcionamento”.

"É preciso não confundir e não colocar dentro do mesmo saco o que são medicamentos com efeito antidepressivo e os ditos ‘calmantes’ que são maioritariamente benzodiazepinas e que devem ser usados de forma criteriosa e por períodos mais curtos, a avaliar caso a caso."
Maria João Heitor, presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental

No site português da Igreja Universal do Reino de Deus existe um diretório com outros oito sites, pertença da igreja. Estão lá o site do movimento Godllywood, para mulheres “que queiram fazer a vontade de Deus acima de tudo”, o do Projeto Intellimen, que se propõe a “formar homens inteligentes e melhores em tudo”, e até o site do Love School, que todos os sábados junta reality tv e aconselhamento conjugal na rede Record. Mas não aparece o Saindo da Depressão, que também não está devidamente identificado como propriedade da igreja, e onde se utilizam termos médicos e oferecidos serviços compatíveis com a prática da medicina — tradicional ou alternativa.

Ainda assim, ao Observador, fonte oficial da igreja garante que “não há qualquer tentativa de ocultar seja de que forma for a identidade da Igreja neste seu site”. “A Igreja assume de forma inequívoca toda a sua doutrina que é fundamentada nas escrituras da Bíblia”, pode ler-se no texto enviado em resposta às questões colocadas pelo Observador, onde se assegura também que “a IURD respeita e enaltece o trabalho feito por todos os profissionais da medicina”.

“O trabalho da Igreja não pretende diminuir ou substituir a nobreza da medicina e dos seus resultados. Contudo, a IURD recebe muitas pessoas para quem parece já não haver esperança, seja pelo estado avançado da doença, seja pela falta de forças da própria pessoa para continuar a lutar por uma solução. É do senso comum que existem fenómenos depressivos que são passageiros e naturais em que a pessoa precisa e procura o auxílio da família, dos amigos, do Pastor ou da Igreja”, continua o texto, de página e meia, enviado ao Observador.

“Não faz qualquer sentido aconselhar ou incentivar alguém a abandonar a medicação. Tal aconselhamento não faz parte da postura da Igreja, nem nos parece respeitar os preceitos básicos da medicina e de quem a pratica.”
Fonte oficial da IURD

Mais abaixo, os responsáveis em Portugal pela igreja neopentecostal fundada há 42 anos no Rio de Janeiro por Edir Macedo, garantem que, apesar de toda a argumentação anti-medicamentos no site, nunca algum doente com depressão, em qualquer um dos 140 locais de culto espalhados pelo país, foi aconselhado a deixar de tomar remédios: “Não faz qualquer sentido aconselhar ou incentivar alguém a abandonar a medicação. Tal aconselhamento não faz parte da postura da Igreja, nem nos parece respeitar os preceitos básicos da medicina e de quem a pratica”.

Garante a psiquiatra Maria João Heitor, é muito importante que assim seja: “O tratamento da depressão passa, na maioria dos casos, por uma abordagem mista, com medicamentos, psicoterapia e pela rede de apoio psicossocial e familiar para uma recuperação e reintegração mais plena. Os antidepressivos, que são fármacos de primeira linha no tratamento da depressão unipolar, ajudam a reduzir os sintomas e atuam corrigindo desequilíbrios químicos no cérebro, desequilíbrios esses que causam alterações no comportamento e humor dos doentes”.

Mais do que isso, explica a médica e presidente da Sociedade Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental, a diabolização dos fármacos anti-depressão não faz sequer qualquer sentido: “Frequentemente, é apontado o aumento do consumo de psicofármacos em Portugal como algo nefasto. É preciso não confundir e não colocar dentro do mesmo saco o que são medicamentos com efeito antidepressivo e os ditos ‘calmantes’ que são maioritariamente benzodiazepinas e que devem ser usados de forma criteriosa e por períodos mais curtos, a avaliar caso a caso. Além disso, os antidepressivos, que, além do mais, têm propriedades neuroprotetoras, são usados para tratar quer a depressão quer muitos casos de ansiedade mais marcada, entre outras situações clínicas. Os antidepressivos, em geral, não são fármacos de abuso ou dependência, ao contrário das benzodiazepinas”.

Edir Macedo, o brasileiro fundador da IURD, diz que a depressão é "um tipo de possessão demoníaca"

Apesar de o site Saindo da Depressão propor exatamente o contrário — uma cura alternativa à medicina, sem medicamentos, internamentos ou exames —, a cúpula da IURD em Portugal admite ao Observador que os “milhares de pessoas que já procuraram a Igreja Universal e recuperaram a alegria de viver e prosseguiram a sua vida” possam ter sido curados da depressão por um misto de fé e comprimidos. “A Igreja queria igualmente deixar bem claro, uma vez mais, que não se pretende substituir à medicina, mas acredita que a Fé proporciona a cura. Podemos concluir claramente que, a união do tratamento médico (parte física) com o tratamento da fé (parte espiritual), ajudará na recuperação do paciente”, pode ler-se na conclusão do texto enviado ao Observador.

Através da linha de apoio da IURD, a informação que nos foi prestada também não foi essa, bem pelo contrário. Ao telefone, a obreira que nos atendeu não quis saber da medicina e explicou que a depressão é apenas uma das muitas formas que o diabo (ou os espíritos malignos, não percebemos bem a diferença) assume quando está dentro de alguém: “A pessoa não sente que o tem dentro de si, mas o mal que ele faz é a doença que a pessoa tem, então quando ele sai, a doença sai, e a pessoa fica bem. Não sente nada estranho, é uma coisa completamente natural, porque é o mundo espiritual, não é o mundo físico, por isso não vamos sentir uma dor no momento. O espírito sai e leva com ele a doença”.

E de onde é que isto vem? Porquê? Porquê a mim?
Então… é uma questão assim… qualquer pessoa está sujeita ao diabo tentar trabalhar na vida dela. Porquê? Já deve ter ouvido falar de Adão e Eva, de como tudo aconteceu, como tudo começou. Então, não era suposto existir morte, não era suposto haver doença, mas o homem pecou e começou aquilo tudo. Então Jesus veio e levou todas as dores — tudo aquilo por que Jesus passou foi por cada um de nós. Mas a pessoa que não está perto de Deus, pode… Há vários pontos, pode ser por uma… como é que se diz?… de geração em geração, a avó tem, a mãe tem…

Hereditário.
Hereditário, exatamente. Pode ser uma maldição hereditária, pode ser por inveja de alguém, pode ser um trabalho de bruxaria que foi feito, pode ser por um monte de coisas, entende? E sempre, sempre, não vai ser culpa da pessoa, foi por algo que aconteceu. Todas as pessoas que chegam à igreja têm alguma coisa de mal. Algumas é a vida sentimental, outras a vida financeira, outras a saúde. Cada pessoa tem um ponto que o diabo vai querer atacar. Porque ele observa-nos todos os dias. Ele vê qual é o ponto fraco de cada pessoa e se não consegue agir numa área, vai tentar agir na outra. Ele nunca fica parado e vai fazer de tudo para conseguir acabar com essas vidas. Todas as pessoas que foram curadas um dia também já tiveram isso. Mas elas não tinham nada de especial ou de diferente para terem ficado bem, entende? Todas as pessoas podem ficar curadas, por isso é que eu falo em relação à fé. A partir do momento em que o espírito sai, você fica bem, entende como tudo funciona e começa a ficar alerta e não dá espaço para ele entrar outra vez. Por isso é que ele não volta depois. Eu sei que agora é muita informação…

Sim… mas como é que se dá espaço esse espaço para o diabo entrar?
Como é que se dá espaço… exato! Então, se eu vivo de acordo com o que está escrito na Bíblia, de acordo com a palavra de Deus, eu tenho a presença de Deus na minha vida, entende? Andar de acordo é fazer tudo para agradar a Deus. Por exemplo, se Deus não quer que eu minta — às vezes são coisas pequenas —, eu vou começar a prestar atenção em mim para não mentir, vou começar a fazer a coisa da forma como Deus quer que eu faça. Porque ele é uma pessoa real, não é alguém que está morto, que foi crucificado e morreu. Não, ele ressuscitou, portanto apesar de nós não o vermos, ele existe, ele vê. É ele que nos dá a cura, é ele que nos dá a vida, é ele que nos abençoa. Claro, ninguém é perfeito, nós erramos, cometemos falhas, mas se começarmos a vigiar… “O que é que eu posso fazer para estar mais próxima de Deus, o que é que eu posso fazer para agradá-lo?”

"Pode ser uma maldição hereditária, pode ser por inveja de alguém, pode ser um trabalho de bruxaria que foi feito, pode ser por um monte de coisas, entende? E sempre, sempre, não vai ser culpa da pessoa, foi por algo que aconteceu. Todas as pessoas que chegam à igreja têm alguma coisa de mal."
Obreira da IURD em aconselhamento telefónico

E como é que eu posso saber o que ele quer que eu faça?
Então, é através de ler a Bíblia, de entender… às vezes a Bíblia tem uma linguagem um pouquinho difícil de entender, então aqui nas reuniões o nosso foco é justamente esse. O pastor ou o bispo vão dar uma passagem, vão ler um versículo, um capítulo, e vão explicando. E nós vamos entendendo, não é uma coisa que vem da cabeça do pastor, é uma coisa que Deus está a dizer a partir da palavra dele. Se vier sempre à igreja, Deus vai começar a dar-lhe o entendimento da palavra dele. E se eu entendo o que ele quer de mim, eu consigo agradá-lo e fazer o que ele quer, entende? Você pode fazer isso. Tem uma Bíblia em casa?

Sim…
Quando tiver oportunidade, abra num versículo qualquer, pode ser aleatório, e, sendo sincera, fale com Deus. A oração que Deus ouve não é a que tem palavras bonitas, é a que é sincera. Então abra a Bíblia e explique: “Meu Deus, eu não sei como é que isto funciona mas eu quero que o senhor fale comigo de alguma forma, que me ajude a entender o que eu vou ler”. Depois faça o teste e leia. Aquilo que vier à sua mente, o que der para entender, é aquilo que Deus quer que você faça naquele momento. O que eu entendo é o que Deus quer que eu faça hoje, agora. Está a entender?

A cura não em 3 minutos, mas no espaço de uma semana

Apesar de o Observador ter solicitado à IURD entrevistas com ex-doentes com depressão, que tivessem sido curados pelo método da igreja, a resposta foi negativa: “Sobre a possibilidade de entrevista, caberá a cada um dos beneficiados decidir. A Igreja não interfere na comunicação destes com terceiros. Apesar de existirem milhares de testemunhos públicos”.

Vânia Sentieiro é uma das pessoas que dá a cara no site. Com o Observador, só aceitou falar por escrito.

Através do Facebook foi fácil encontrar e chegar à fala com uma das três mulheres que dão a cara na primeira linha do site anti-depressão. Vânia Sentieiro, 34 anos, proprietária de uma empresa de limpezas em Matosinhos, aceitou responder ao Observador, mas apenas por escrito — e depois de um interregno de largos minutos, durante os quais confirmou se seria ou não possível dar a entrevista.

Tal como os responsáveis da IURD no país, em vez de responder às questões enviadas, preferiu escrever um texto sobre a sua experiência. No site, Vânia Sentieiro explica que antes de chegar à IURD estava deprimida há 13 anos, tinha dívidas, ataques de pânico, problemas de coluna, rinite alérgica, problemas no casamento, era viciada em tabaco e drogas e não tinha trabalho. Em resposta ao Observador, foi mais parca em detalhes: “Cheguei à igreja através de um convite da minha sogra, que sabia que eu tinha depressão. Era católica praticante, escuteira, participava em grupos de jovens da igreja. Mas tanta religiosidade não mudou a minha vida. Além da depressão, tinha ataques de pânico e era usuária de drogas e viciada em tabaco. Sofria de depressão há mais de 13 anos, estava medicada e era seguida pelo hospital psiquiátrico Magalhães Lemos, em Matosinhos. Passei ao longo dos anos por vários psicólogos e psiquiatras, mas todos diziam o mesmo: não tinha cura. Foi aí que decidi procurar ajuda espiritual na igreja, ao fim de uma semana já não tinha os sintomas da depressão”.

3 perguntas a Maria João Heitor sobre depressão

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Quais são as causas da depressão?
Não podemos isolar uma causa. Há muitos fatores envolvidos e é da combinação desses fatores que pode resultar o aparecimento desta doença. Há uma predisposição genética, ou seja, numa família com história de depressão, é maior a probabilidade de uma criança que nasça vir a sofrer de depressão em qualquer altura da vida. Há, portanto, diferentes determinantes para a depressão: genéticos, biológicos (alterações a nível da regulação de neurotransmissores cerebrais, sobretudo a noradrenalina e a serotonina; alterações do sistema imunitário e do eixo hipotalâmico-pituitário-adrenérgico; disfunção da atividade glutaminérgica; plasticidade neuronal alterada; degeneração neuronal) e determinantes psicossociais e ambientais, que têm a ver com fatores de stress continuados e intensos, acontecimentos de vida com perdas próximas, stress laboral continuado que pode levar a estados de burnout, entre outros.

Que consequências pode ter, para quem efetivamente sofre da doença, a interrupção de um tratamento em curso ou o atraso na procura de ajuda médica especializada?
Sabe-se que quanto mais precocemente a pessoa em sofrimento tiver acesso a tratamento, mais eficaz este se revela, menos tempo o indivíduo está em sofrimento e menor é o impacte negativo da doença no seu bem-estar, na família e no funcionamento da pessoa doente na comunidade onde está inserida. Os tratamentos dos episódios depressivos são habitualmente prolongados, na medida em que é necessário diminuir a probabilidade de recorrência desses episódios. A interrupção de um tratamento adequado, em curso, pode levar ao prolongamento desnecessário do sofrimento. Além disso, a depressão, por si só, deixa “marcas” no cérebro, há uma neurotoxicidade envolvida.

Estar deprimido não é estar triste, correto?
É verdade, a depressão é mais do que tristeza.  No global, a depressão é um estado de tristeza e de infelicidade associado a uma impotência para funcionar. O doente deprimido tem dificuldade em levantar-se de manhã, em ir trabalhar ou estudar, sente um desinteresse geral por tudo, um vazio, fica menos capaz de se concentrar, está mais indeciso, deixa de sentir prazer, de conseguir rir, por vezes chora mais do que é habitual, pensa na morte, a vida deixa de ter sentido.
O que diferencia os sintomas da depressão de uma tristeza transitória é a intensidade e a duração dos sintomas. Existem critérios objetivos para definir clinicamente a depressão. Por exemplo, para diagnosticar uma depressão major, mais grave, os sintomas têm de estar presentes na maior parte do dia, pelo menos durante duas semanas consecutivas. Uma pessoa que tenha, de uma forma continuada, sentimentos de tristeza, angústia e ansiedade profundas, que sinta dificuldade em funcionar no dia-a-dia, com insónia ou com excesso de sono e com alterações de apetite (comer demais ou de menos) ou pensamentos de morte e de suicídio, tem de procurar ajuda médica quanto antes.

Para explicar de que forma ultrapassou a depressão, tal como a obreira que nos atendeu ao telefone, Vânia Sentieiro, que tem duas filhas, utilizou expressões como “fé inteligente” e diz que deixou de fazer as coisas à sua maneira para passar a cumprir os preceitos de Deus. Também garantiu que parou de tomar os medicamentos que lhe teriam sido receitados: “Sou fiel dizimista de forma voluntária, mas não fiquei curada porque dou o dízimo. Entenda, eu reconheço que tudo o que tenho vem de Deus, então eu devolvo uma parte que já é Dele, para que haja mantimentos na sua casa (leia na Bíblia Malaquias 3.10), e faço-o com muito amor. Pense comigo, todos somos dizimistas, só que antes de conhecer a Deus eu dava o dízimo na farmácia e para as drogas”.

"Sofria de depressão há mais de 13 anos, estava medicada e era seguida pelo hospital psiquiátrico Magalhães Lemos, em Matosinhos. Passei ao longo dos anos por vários psicólogos e psiquiatras, mas todos diziam o mesmo: não tinha cura. Foi aí que decidi procurar ajuda espiritual na igreja, ao fim de uma semana já não tinha os sintomas da depressão."
Vânia Sentieiro, testemunha usada pelo site e agora obreira da IURD

Hoje obreira da IURD, Vânia é apenas um dos muitos membros da igreja responsáveis por passar para a vida analógica aquilo que o site Saindo da Depressão apregoa. Para além de dar aconselhamento no local de culto que frequenta, em Matosinhos, faz visitas regulares às prisões, acompanhada da família e munida de panfletos que prometem “Fique livre da depressão em 3 minutos”.

Nos últimos meses, o combate à depressão — nas palavras do próprio Edir Macedo “um tipo de possessão demoníaca” que “tem sido a praga destes últimos tempos” — foi assumido como uma das bandeiras da IURD.

No passado dia 29 de junho, em pleno Parque das Nações, um “grupo de evangelização” de cerca de 30 pessoas, com cartazes e uma enorme tarja vermelha — “A DEPRESSÃO TEM CURA” —  tomou de assalto o passeio e a estrada para distribuir folhetos e espalhar a palavra. “Infelizmente, a depressão e as suas consequências têm sido um verdadeiro flagelo para muitos. Ciente disto, a Igreja tem colocado toda a sua força e focado o seu trabalho (em todo o mundo) para levar as pessoas a sair do sofrimento da depressão e a usufruir de uma vida plena, pela Fé. Fruto deste empenho a Igreja tem recebido nas suas reuniões muitas pessoas que sofrem com depressão, inclusive pessoas que chegam pela primeira vez e que percebem uma mudança desde o primeiro dia”, explicou fonte oficial da IURD ao Observador.

No passado dia 29 de junho, um "grupo de evangelização" da IURD distribuiu panfletos na zona do Parque das Nações, em Lisboa

Igreja Universal do Reino de Deus

“Existem estudos científicos que confirmam a importância da oração, seja na prevenção da depressão seja na recuperação das pessoas”, acrescentou a IURD, que para comprovar a afirmação enviou ainda um vídeo de 2 minutos e 46 segundos retirado de um programa da TV Globo onde alguém a quem o apresentador chama doutor Fernando é convidado a explicar “o que é que acontece mais ou menos com o nosso cérebro quando a gente está rezando”. Título: “Neurocirurgião explica os efeitos da oração no cérebro!”.

Por muito que admita que “em contextos adequados e em certos indivíduos” a componente espiritual e religiosa possa “ter uma influência positiva e promover comportamentos saudáveis”, Maria João Heitor responde à cura da depressão via IURD com a palavra placebo. “Se lermos os testemunhos no site, convém relembrar que há múltiplos fatores que condicionam os resultados das abordagens na depressão e noutras doenças, entre eles as expectativas das pessoas. É o princípio do efeito placebo, ou seja, há um número de indivíduos que mesmo sem intervenção, nomeadamente farmacológica ou psicoterapêutica, acabariam por melhorar desde que lhes fosse disponibilizada uma abordagem para a qual as suas expectativas de melhoria fossem elevadas. Pode ser esse o caso nos testemunhos citados, que, de qualquer forma, são casos pontuais que não podem servir de base para uma generalização de resultados”, explica a psiquiatra.

Depois, em tom de conclusão, deixa o aviso a potenciais doentes depressivos que, apesar de todas as evidências científicas, ainda sintam vontade de testar o método da igreja: “Apenas uma minoria das pessoas deprimidas e quase sempre com outras intervenções em simultâneo pode melhorar com ações sobre a componente espiritual”.

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