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Para os ucranianos, é um sim. Depois de dias caóticos de negociações, a Ucrânia deu luz verde à nova versão do plano de paz norte-americano, este com 19 pontos e diferente do original de 28. O Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, concordou com o documento, mas haverá alguns detalhes que ainda terão de ser discutidos com mais profundidade. Os Estados Unidos da América (EUA) também se sentem otimistas e acreditam que vão conseguir terminar o conflito: estão agora a tentar convencer os russos a aceitar a nova proposta.
É uma diferença substancial face ao início do processo negocial, em que os EUA colocaram a Ucrânia entre a espada e parede — ou aceitava o acordo inicial ou o apoio militar e a partilha de informações confidenciais eram suspensos. O tom parece ser mais conciliatório com os ucranianos, o que tranquilizou também as capitais europeias. Apesar disso, as negociações estão longe de estar fechadas e os russos terão uma palavra a dizer.
Em Abu Dhabi, a capital do Emirados Árabes Unidos, uma delegação norte-americana está reunida com os russos desde esta segunda-feira para discutir o novo acordo de paz resultante do encontro com os ucranianos em Genebra, na Suíça. Daniel Driscoll, o secretário do Exército que é amigo do vice-presidente JD Vance, é quem lidera as negociações pelos Estados Unidos. Já a composição da comitiva russa é uma incógnita. Nos Emirados, também estão representantes ucranianos, nomeadamente o chefe das secretas militares, Kyrylo Budanov.
Os russos deverão dar em breve uma resposta: se aceitam ou rejeitam este acordo de paz, ou se apresentam uma nova contraproposta. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergei Lavrov, saudou o acordo de 28 pontos — que o Presidente Vladimir Putin já tinha definido como a “base para um acordo de paz”. No entanto, o chefe da diplomacia ressalvou que, se alguns “entendimentos fundamentais” forem alterados, a “situação será fundamentalmente diferente”. Nestas circunstâncias, Moscovo rejeitará o plano norte-americano.
Com 19 pontos, o plano está em constante mutação. O acordo de 28 pontos já é “algo de passado”, definiu ao jornal Axios o conselheiro de Volodymyr Zelensky, Andriy Yermak. Os Estados Unidos terão sido mais brandos e terão tido em consideração várias reclamações da Ucrânia e da Europa. Mas vai, neste contexto, a Rússia aceitar uma proposta que lhe é menos benéfica do que a anterior?
Rússia não está disposta a fazer cedências e quer explorar vantagem no campo de batalha
Sergei Lavrov assumiu que a Rússia prefere uma “solução diplomática” em vez de prolongar a guerra. Porém, essa solução terá de fazer sentido para o lado russo. Neste momento, no teatro de operações, as tropas de Moscovo estão em vantagem face às ucranianas, avançando lentamente no terreno. O Kremlin deseja explorar essa superioridade, de forma a negociar um acordo que lhe seja mais favorável e em que mantenha as suas propostas maximalistas.
▲ Sergei Lavrov diz que Rússia aceita negociações para acabar com a guerra — mas se fizerem sentido
RUSSIAN FOREIGN MINISTRY PRESS SERVICE HANDOUT/EPA
A Rússia quer também vender a ideia de que se fortalecerá nos próximos tempos. Com a chegada do inverno, o Kremlin deseja transmitir a perceção de que a vantagem no terreno será ainda mais dilatada nos próximos tempos — e a Ucrânia não terá qualquer hipótese em ser bem-sucedida num contra-ataque. Mesmo que isso não corresponda inteiramente à verdade, o que importa é que seja essa a imagem que os norte-americanos tenham.
Assim, o lado russo pode exigir mais da Ucrânia. Para a Rússia, será fundamental manter o Donbass e que a comunidade internacional aceite reconhecer de jure que aquela porção de território que alega que lhe pertence, juntamente com a Crimeia. Além disso, o Kremlin pretende que Kiev nunca venha a aderir à NATO, assim como pretende enfraquecer as Forças Armadas do país que invadiu. E há ainda um desejo que Vladimir Putin nunca escondeu que deseja ver concretizado: que o seu homólogo ucraniano saia do poder, seja à força, seja através de eleições.
É preciso, num chavão que os dirigentes russos têm usado nos últimos anos, “solucionar as causas profundas” da invasão. Por outras palavras, a Rússia deseja ver uma Ucrânia mais fraca militarmente, menos soberana e, no melhor dos cenários, que se transforme num país idêntico à Bielorrússia — que recentemente se converteu num Estado satélite do Kremlin sem qualquer autonomia estratégica.
▲ Vladimir Putin ao lado do chefe das Forças Armadas russas, Valery Gerasimov
ALEXANDER KAZAKOV / SPUTNIK / KREMLIN POOL/EPA
Ora, qualquer negociação de paz que coloque em questão estes princípios será rejeitada pela Rússia, salvo alguma mudança inesperada. Se bem que até tente suavizar a linguagem para não incomodar os norte-americanos, Vladimir Putin não deverá aceitar um acordo que não tenha em consideração estas ambições. Para consumo interno, o Presidente russo também tem de apresentar esta guerra como um conflito pelo qual valeu a pena lutar — e não quer ser visto como um chefe de Estado que foi derrotado por um país que vê claramente como inferior.
Ao Washington Post, um antigo dirigente do Kremlin destacou que o plano de 28 pontos (antes de ser negociado com a Ucrânia) era apenas um “ponto de partida” e que havia alguns elementos nesse primeiro documento que eram inaceitáveis para a Rússia. “Putin não quer continuar a guerra, mas é um oportunista. Ele tem de receber alguma coisa de significativo em troca desta guerra”, esclareceu, acrescentando que o documento inicial é claramente “pró-russo”. “Mas a Rússia está numa posição mais forte, logo, qualquer plano teria de ser pró-russo porque é mais realista.”
Até membros da administração Trump reconhecem isso. À Fox News, o embaixador dos Estados Unidos na NATO, Matthew Whitaker, admitiu que existe um “fundo de verdade” no facto de, durante as negociações, a Rússia ainda não ter feito concessões. No entanto, o responsável frisou que não há uma “solução perfeita” para acabar com a guerra. “Nenhum dos lados vai ter o que quer”, continuou, sublinhando que os russos “têm uma forte posição no campo de batalha” — ao fazer “avanços lentos, mas consistentes”. E é preciso negociar através desta “realidade”.
Rússia teme sanções dos EUA — e aceita negociar
Contrariamente aos europeus — que agora a Rússia vê como principais inimigos —, Sergei Lavrov disse esta terça-feira que o governo russo valoriza os esforços de paz norte-americanos. Isto mostra que, mesmo que rejeite o acordo de paz, Vladimir Putin terá de mostrar alguma flexibilidade nestas negociações. O Presidente russo pretende não queimar todas as pontes e evitar o pacote de sanções que o Congresso norte-americano tem estado a preparar — e que colocaria vários problemas à economia da Rússia.
Em meados de outubro, depois de muita hesitação, Donald Trump decidiu aplicar sanções a duas petrolíferas russas — a Lukoil e a Rosneft. O Kremlin apressou-se a desvalorizá-las, garantindo que não iam ter qualquer impacto na economia russa. No entanto, a verdade está bem longe de ser essa; segundo cálculos da Reuters, estas políticas vão fazer com que os lucros na venda de petróleo e gás natural em novembro de 2025 caiam 35% face ao período homólogo. Será uma diminuição de 520 mil milhões de rublos (cerca de 5,7 mil milhões de euros).
A venda de petróleo e gás natural têm sido o sustento da máquina de guerra da Rússia, sendo que estes prejuízos terão impacto nas contas públicas russas. E paira o fantasma das sanções secundárias, isto é, aquelas que são impostas a países terceiros que continuam a fazer negócios com o país sancionado e que poderiam arruinar a economia russa.
▲ Donald Trump aplicou sanções à petrolífera Lukoil
STEPHANIE LECOCQ/EPA
Apesar da reserva inicial, caso perceba que a Rússia está a criar vários obstáculos à paz, Donald Trump poderia adotar uma postura mais crítica contra o país, aplicando sanções pesadas à Rússia. E é por isso que Moscovo tem, pelo menos, de se mostrar disposto a encetar estas negociações de paz. Mas a guerra apenas termina se o Kremlin vir que ganha alguma coisa de concreto com o fim das hostilidades.
O plano dos EUA com o aval ucraniano: o que contém?
Será composto por 19 pontos, mas está a ser mantido em segredo para evitar problemas durante as negociações. Os detalhes que vão surgindo do plano saem em conta-gotas — e não deverão corresponder a uma versão totalmente final. Numa conferência de imprensa em Genebra, o secretário de Estado, Marco Rubio, já tinha adiantado precisamente isso: de que o documento está sujeito a várias alterações.
Do que se sabe, ainda assim, é que o limite de 600 mil militares nas Forças Armadas ucranianas em tempos de paz será afastado do acordo de paz. Segundo avançou o Financial Times, haverá pelo menos 800 mil homens que se manterão distribuídos na Marinha, Exército e Forças Armadas, mas o número não está totalmente fixo.
▲ Soldados ucranianos
PRESS SERVICE OF THE 65TH MECHANIZED BRIGADE/EPA
Outra questão que parece estar em cima da mesa é o envio de tropas ocidentais para a Ucrânia após um cessar-fogo. Ao longo deste ano, essa hipótese foi muitas vezes discutida pelos aliados europeus de Kiev, mas não estava no acordo de 28 pontos, sendo que a Rússia sempre se manifestou contra esta medida. Esta terça-feira, ainda assim, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, reintroduziu o assunto no espaço mediático.
Após ter falado ao telefone com Volodymyr Zelensky, o chefe do executivo britânico sugeriu que um dos novos pontos do acordo de paz pode ser a colocação no terreno de uma força “multinacional” após um cessar-fogo. Keir Starmer afirmou que discutiu com o Presidente ucraniano a “importância do trabalho de preparação para o envio de uma força multinacional após a cessação das hostilidades”. E o Reino Unido, assegurou o primeiro-ministro, mantém-se disponível para “colocar botas no terreno”.
Não há nenhuma confirmação, ainda assim, de que este ponto estará mesmo no acordo com adaptações ucranianas. Em qualquer caso, Andriy Yermak adiantou que as garantias de segurança norte-americanas para evitar uma nova invasão são agora “muito sólidas”. “Acho que é uma decisão histórica do Presidente Trump e dos Estados Unidos em emitir essas garantias de segurança fortes, que a Ucrânia nunca teve antes”, desvendou. Em concreto, está previsto que um novo ataque à Ucrânia seja interpretado como um novo ataque à toda a “comunidade transatlântica”, mesmo que Kiev não esteja na NATO.
No acordo de 28 pontos havia também uma menção de que a Ucrânia nunca poderia juntar-se à NATO, sendo que a aliança transatlântica teria de se comprometer a isso, assim como os líderes ucranianos. Ora, Andriy Yermak veio revelar que essa exigência terá caído, ainda que tenha ressalvado que a “realidade” é que a Ucrânia “não pertence à NATO”.
Para os dirigentes ucranianos, o tema sensível das questões territoriais terá de ser discutido cara a cara entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky. O acordo de 19 pontos será menos categórico do que o anterior (que estipulava a cedência da Crimeia e do Donbass, assim como o reconhecimento norte-americano dessas regiões como integrantes da Federação Russa), mas não é bem claro o que o atual estabelece para os territórios que foram conquistados pela Rússia desde 2014.
Norte-americanos estão “otimistas”. Trump também, mas haverá nova ronda de negociações
Por agora, os norte-americanos estão “otimistas”. Donald Trump declarou esta terça-feira que os Estados Unidos “estão muito próximos” de um acordo. “Penso que estamos a fazer progressos”, prosseguiu. Momentos antes, a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, salientou os “progressos tremendos” das negociações de paz, sinalizando, ainda assim, que ainda há detalhes “delicados, mas não intransponíveis” por tratar.
Over the past week, the United States has made tremendous progress towards a peace deal by bringing both Ukraine and Russia to the table.
There are a few delicate, but not insurmountable, details that must be sorted out and will require further talks between Ukraine, Russia,…
— Karoline Leavitt (@PressSec) November 25, 2025
Os Estados Unidos terão ficado satisfeitos com o facto de Kiev ter concordado com o acordo de 19 pontos, se bem que os dirigentes ucranianos tenham realçado que ainda há trabalho pela frente para limar os “detalhes” que ainda estão pendentes. Ao que tudo indica, o ultimato do Dia de Ação Graças terá caído por terra, já que a Ucrânia se mostrou comprometida com o processo negocial.
Em Abu Dhabi, o clima também é positivo. Jeff Tolbert, porta-voz de Daniel Driscoll, adiantou que as negociações “estão a correr bem” entre as delegações norte-americanas e russas. Os Estados Unidos “mantêm-se otimistas” sobre o futuro do acordo de paz, acrescentou. A Ucrânia estará a ser informado de todos os passos.
De qualquer forma, a guerra não deverá terminar nos próximos dias. Na Truth Social, Donald Trump confirmou que o plano de 28 pontos foi “ajustado” com a colaboração russa e ucraniana. “Há apenas alguns pontos de discórdia”, sinalizou o Presidente norte-americano. Para os resolver, o chefe de Estado decidiu que o enviado especial para as Missões de Paz, Steve Witkoff, se deslocará a Moscovo para conversar com Vladimir Putin, enquanto Daniel Driscoll se vai encontrar com os ucranianos.
▲ Donald Trump diz que apenas "há alguns pontos de discórdia"
YURI GRIPAS / POOL/EPA
Ora, Vladimir Putin está numa visita de estado ao Quirguistão, que terminará apenas na quinta-feira — o que significa que Steve Wiktoff só deverá reunir-se com o Presidente russo na sexta-feira, a não ser que o líder do Kremlin encurte a viagem. Depois de obter informações destas viagens dos seus representantes, Donald Trump será informado, assim como outros membros da sua administração.
Donald Trump também deixou um aviso — e um recado para os ucranianos. À Axios, Andriy Yermak sublinhou que Volodymyr Zelensky queria encontrar-se com o homólogo norte-americano o mais rapidamente possível. O plano seria viajar à mansão de Mar-a-Lago, na Florida, onde o Presidente norte-americano passará os próximos dias para celebrar o feriado do Dia de Ação Graças.
Mas esse plano caiu. Na Truth Social, o chefe de Estado norte-americano foi claro: “Espero em breve encontrar-me com o Presidente Zelensky e o Presidente Putin, mas apenas quando o acordo para terminar esta guerra estiver fechado, ou nas etapas finais”. Ou seja, a viagem de Volodymyr Zelensky ficará suspensa por ordem de Donald Trump.
A diplomacia norte-americana continua determinada em terminar esta guerra, procurando um acordo que possivelmente satisfaça as duas partes. Se depois do susto a Ucrânia já percebeu que terá de ceder, tudo indica que a Rússia não estará disposta a fazer essas concessões. Vladimir Putin sabe que a impressão que os norte-americanos têm é que ele está a ganhar a guerra, mesmo que seja por pouco. E desse trunfo o Presidente russo parece não prescindir.