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Quase duas semanas após o apagão que deixou sem luz toda a Península Ibérica , ainda não se conhece a causa, ou causas. O levantamento preliminar divulgado pela ENTSO-E (associação de operadores de rede europeus que está a investigar o incidente) revela que se verificaram duas oscilações na sincronia da rede europeia antes do evento maior. Mas foram controladas. No momento do apagão não se registavam oscilações e a rede estava a operar dentro das bandas normais, quando caiu uma parte da produção de energia em Espanha que desequilibrou de forma incontrolável o sistema ibérico. Aconteceu tudo em menos de 30 segundos.
A reconstituição desses segundos e do que se passou antes e depois pode demorar, avisou o primeiro-ministro espanhol. Pedro Sánchez justificou a demora com a necessidade de investigar 756 milhões de dados recolhidos junto dos operadores do sistema espanhol — o que pode exigir pelo menos três meses — e prometeu toda a transparência.
Há especialistas que qualificam o evento como um “cisne negro”, ou seja, o resultado de uma acumulação de fatores ou de uma combinação de variáveis que ninguém previu e que por isso não poderia ser evitado. Mas, ao mesmo tempo, surgem evidências de falhas recentes na rede elétrica espanhola que terão sido desvalorizadas. E emergem relatórios com alertas para riscos e para a necessidade de investir mais que ficaram em gavetas. O epicentro está em Espanha, mas Portugal não pode fugir à crise de confiança que se abateu sobre o sistema elétrico porque está, para o bem e para o mal, muito integrado com a rede espanhola.
A independência energética e a segurança do abastecimento têm sido sinalizadas com a separação comercial das duas redes após o apagão. A decisão também foi política (a REN assumiu a coordenação com o Governo) em tempo de campanha eleitoral, contudo tem custos porque a energia made in Portugal é mais cara. Há o anúncio de um regresso limitado às trocas comerciais, mas o gestor português da rede exige mais informação sobre o que aconteceu do outro lado da fronteira.
Nem a REN nem a Rede Elétrica de Espanha (REE) divulgaram até agora qualquer avaliação ou averiguação sobre o que aconteceu no dia 28 de abril. Já o operador da rede francesa, a RTE (um ator menor nesta crise), publicou um exaustivo explicador de 20 perguntas.
O presidente da APE (Associação Portuguesa de Energia) reconhece que na maioria dos apagões a causa inicial tende a ser simples, como seja a queda de uma linha por uma árvore ou deslizamento de terras. Neste caso, as linhas estão intactas e levará algum tempo a determinar as razões pelas quais “os mecanismos de proteção e controlo não responderam como deviam”. Mas é preciso perceber, realça António Coutinho, que o sistema que temos hoje é muito diferente face ao que tínhamos há 25 anos quando ocorreu o famoso incidente da cegonha. E há um interesse muito grande (no mundo da energia) em saber o que aconteceu.
Para além das causas, o presidente da APE defende que é importante tirar lições que não são apenas para o setor elétrico. “Não se pode dispensar uma boa crise para melhorar o sistema e aumentar a resiliência”.
Onde começou o colapso da rede
Sabe-se com quase 100% de certeza que a origem do problema esteve em Espanha e na rede elétrica de transporte, mas ainda não sabemos com precisão onde começou. Por exemplo, foi dito (pelas autoridades espanholas) que as centrais que se desligaram automaticamente estariam localizadas no sudoeste de Espanha — Extremadura e Castela —, mas não se sabe onde, nem que centrais caíram. Ainda que se assuma que parte importante destas centrais seria de produção solar, uma vez que era esta a tecnologia que claramente estava a dominar o mix energético.
No relatório preliminar divulgado esta sexta-feira, a ENTSO-E volta a referir o sul de Espanha como a localização das centrais que se desconetaram.
Há informação de que as centrais nucleares que estavam ligadas foram automaticamente desativadas (por proteção), mas não é claro qual foi o seu papel.
O que fez cair as redes elétricas
Também se sabe que a queda da rede de transporte resultou de uma queda abrupta de injeção da produção de energia. Segundo a associação de operadores europeus, desapareceram da rede 2.200 megawatts (um valor acima dos 1.500 MW que divulgados inicialmente) que estavam a ser injetados em Espanha. Não houve falhas na produção em Portugal e Espanha. Em resultado deste evento a frequência baixou e a voltagem subiu nas redes de Espanha e Portugal.
Quando a frequência atingiu os 48 hertz, a sincronia na rede elétrica exige 50 hertz, isso fez ativar automaticamente os planos de proteções dos sistemas espanhol e português, desligando tudo e sem dar margem para isolar o problema e suster o contágio até Portugal.
Segundo a cronologia divulgada pela ENTSO-E, os 2200 MW de energia — uma grande parte do consumo de Espanha naquele momento — caíram em 20 segundos. Ao fim de seis segundos — entre as 12:33:18 e as 12:33:24 (hora de Espanha), o sistema elétrico colapsou totalmente na Península Ibérica e a interligação com França foi interrrompida.
▲ A rede elétrica espanhola não resistiu à queda massiva da injeção de energia
VWPics/Universal Images Group vi
Qual foi a influência das exportações/importações
Outra informação consolidada é a de que Espanha estava com um forte saldo exportador na altura do apagão, fornecendo eletricidade a França, Portugal e Marrocos porque havia muito solar a entrar na rede a preços baixos. Segundo a ENTSO-E, Portugal era o país que estava a receber mais energia — 2.000 MW. Para a França estavam a ir 1.000 MW e para Marrocos 800 MW.
Ao contrário do que aconteceu em Portugal, os sistemas de proteção da rede francesa funcionaram. Houve uma paragem automática de centrais no sudoeste de França (incluindo um reator nuclear) e o operador ativou cortes no fornecimento de grandes consumidores industriais e alguns domésticos para reduzir a procura. Esses cortes duraram menos de meia hora. França conseguiu conter o dano antes do mesmo contaminar a sua rede e o resto da rede europeia. Uma parte substancial deste sucesso resultou da interligação relativamente reduzida entre os dois países, o que limita a quantidade de energia que França pode comprar a Espanha face à dimensão do mercado.
Em Portugal, a interligação com Espanha chega a abastecer mais de 20% do consumo nacional total e à hora do apagão Portugal estava a comprar quase um terço das necessidades. Com as portas todas abertas, a rede portuguesa foi apanhada numa cadeia de desconexões automáticas dos sistemas — desde as centrais produção até subestações — que durou segundos. Não terá havido qualquer margem para um deslastre que permitisse salvar ilhas na rede, nem sequer tempo para qualquer intervenção do gestor.
Interligações. Uma segurança e um risco
Apesar da maioria dos especialistas defender que Portugal estaria sempre mais vulnerável mesmo que não estivesse a importar, a REN suspendeu as importações nos 10 dias a seguir ao apagão, em nome da segurança do abastecimento e à espera de mais respostas da congénere espanhola. A interligação está operacional, mas só a partir de quinta-feira é que as portas começaram a abrir.
Mas se a interligação deixou a porta escancarada para o tsunami que estava a chegar, também ajudou a repor o serviço. Apesar de Portugal ter recorrido às duas centrais que permitem o arranque autónomo do sistema a partir do zero — Castelo de Bode, no centro, começou a fornecer a rede às 16h11 e a Tapada do Outeiro, a norte, arrancou às 17h26 — o restabelecimento da energia contou ao final do dia com a ajuda preciosa das interligações com Espanha a partir de Trás-os-Montes e do Algarve que começaram a ser retomadas a partir das 18h36.
▲ Castelo de Bode viu a função de arranque autónomo ser prolongada até 2030 por causa do apagão
PAULO CUNHA/LUSA
Em Espanha, onde o arranque autónomo de centrais não terá funcionado, a interligação com França e Marrocos foi fundamental para repor o abastecimento de energia à rede no final do dia do apagão. O relatório da ENTSO-E confirma que a reenergização do sistema espanhol iniciou-se logo a partir das 12h44 com a retoma de uma parte da interconexão com França e 20 minutos depois com Marrocos.
As “interligações permitem aumentar a eficiência económica e resiliência do sistema”, mas ao mesmo tempo “quando estou interligado estou exposto” e isso significa tanto que “tenho apoio” se tiver problemas, como fico vulnerável aos problemas do vizinho, sublinha António Coutinho. Portugal demonstrou que tem capacidade para funcionar sem a interligação, mas “não estamos mais resilientes, nem mais eficientes” (do ponto de vista económico estamos a pagar mais), conclui o presidente da APE.
As falhas que antecederam o apagão
Outro dado já identificado é a existência de um número invulgar de perturbações na estabilidade da rede elétrica espanhola, que terão resultado de oscilações no nível de frequência antes do apagão. Segundo a imprensa espanhola, no dia 22 de abril registaram-se quase 20 desconexões em cascata de linhas e centrais fotovoltaicas num minuto apenas. Esta sucessão de incidentes levou a quedas localizadas no abastecimento que afetaram uma refinaria em Cartagena e a rede de comboios de alta velocidade em Madrid.
A REE considerou estas anomalias como habituais, acrescentando que a sua combinação provocou oscilações na tensão que foram resolvidas em poucos minutos. Estas oscilações foram atribuídas a mudanças de fluxo com Portugal, uma queda da produção fotovoltaica e trabalhos de manutenção na interconexão com França. Na resposta dada ao El Mundo, a gestora da rede espanhola diz que estas oscilações de tensão forem resolvidas em 5 minutos.
No dia do apagão, foram identificados três incidentes de instabilidade de frequência que causaram falhas na entrada de energia na rede. A associação dos operadores europeus confirma que a rede elétrica europeia sentiu essas duas perturbações na área de sincronia da Europa continental, mas que recuperou a estabilidade. Um desses incidentes aconteceu 19 segundos antes do evento de grande dimensão — os tais 22 gigawatts que caíram em poucos segundos porque as centrais se desligaram automaticamente para se protegerem das oscilações de banda — que arrastou todas as redes.
Mas não é claro qual foi o papel destas perturbações na queda massiva que veio a acontecer, uma vez que o sistema conseguiu digeri-las. Também não se sabe que evento em concreto precipitou a perda massiva de energia que ocorreu às 12h33 (hora espanhola). Nem foi estabelecida uma relação causa efeito com os incidentes que afetaram a energia em segmentos localizados da rede nos dias anteriores.
Excesso de renováveis?
A informação disponível indica que quando se deu o incidente, o solar era a energia claramente dominante no mix de produção espanhol e representava, em conjunto com a eólica, 70% da oferta. É um nível significativo, mas não é inédito e já se verificou noutros dias em 2024 e 2025. Ou seja, conclui a rede francesa no seu explicador, não basta para atribuir as culpas do apagão.
Todos os especialistas concordam que uma forte exposição do sistema elétrico à produção renovável, em particular solar e eólica, gera menor inércia da rede elétrica, o que por sua vez potencia os fenómenos de dessincronia na rede. Esta é uma consequência da tecnologia, os IBR (geradores não síncronos), que liga a potência renovável à rede sem gerar a inércia que permite absorver oscilações de frequência, ao contrário dos dispositivos de ligação das centrais clássicas que geram essa inércia.
Tal como explica o especialista e consultor António Vidigal numa publicação no LinkedIn, “durante períodos de baixa inércia, um grande desequilíbrio repentino de potência de geração e consumo, devido, por exemplo, à saída repentina da rede de um grande gerador, causa um grande desvio instantâneo de frequência. Em contrapartida em alturas de alta inércia, o mesmo disparo de um gerador provoca um desvio da frequência pequeno”.
Os dados já colocados em cima da mesa apontam para que este fenómeno tenha desempenhado um papel no apagão ibérico. Mas como no passado situações comparáveis foram utrapassadas pelo sistema, ainda não se percebe o que foi diferente desta vez e fez transbordar o copo.
▲ A elevada oferta de solar na rede terá contribuído para as oscilações na rede
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Entre outras teorias avançadas para explicar o que foi diferente no dia 28 de abril está um erro nas previsões de produção que subestimaram a quantidade de energia renovável que ia entrar na rede e uma assimetria regional entre as regiões que estavam a produzir (as províncias do sudoeste de Espanha) e as que estavam a consumir mais. É uma característica do sistema espanhol que eleva a pressão sobre as redes e sobre os equilíbrios de frequência, na medida em que os cabos têm de ser muito extensos para ligar consumo e produção atravessando zonas sem procura. Neste quadro é aconselhável mais controlo do nível de tensão.
Falta de inércia. Um ângulo morto no sistema elétrico?
Mas pode a falta de inércia do sistema constituir um ângulo morto do debate energético? A pergunta é colocada pela RTE. A resposta do operador francês é dada em causa própria, uma vez que o sistema vigente em França é marcado por um forte pendor nuclear.
A empresa francesa remete para um relatório de 2021 onde defende que é mais arriscado, do ponto de vista da viabilidade técnica, um sistema elétrico que depende unicamente ou quase todo de renováveis do que um sistema que conserva um parque nuclear significativo. Uma tese que é secundada por um diretor da RTE no Linkedin.
O problema é conhecido e existem mecanismos que permitem atenuar ou compensar a falta de inércia do sistema, seja ao nível de baterias ou mantendo centrais convencionais ligadas (incluindo a hídrica) à rede mesmo sem produzir. Por cá, depois de desconectada a central a carvão de Sines, foi feito um contrato de serviço de compensação síncrona com o Alqueva, com o objetivo de ajustar de forma contínua a compensação de energia reativa e estabilizar a rede, permitindo o controlo da tensão desta última.
Mas à medida que mais eólica e mais solar entram na rede e as convencionais saem, o risco aumenta e a gestão da inércia passa a ser uma variável crítica do sistema.
Apesar da muito falada exposição do sistema ibérico ser atribuída a elevadas injeções de renováveis, a verdade é que há países com mais penetração de energias verde que têm conseguido aumentar a resiliência dos seus sistemas. É o caso da Escandinávia, mas aqui a rede intensa de interligações entre mercados dá uma vantagem na comparação com a ilha energética da ibéria, refere António Coutinho. A Irlanda, uma ilha literal, é outro bom exemplo apontado pelo esforço feito na resiliência da rede.
Quem investiga o quê
Este será, provavelmente, o apagão mais investigado da história recente da Europa, sobretudo quando o que está em causa também é o efeito de contágio que as interligações potenciam. No mercado europeu integrado, um apagão local assume uma importância sistémica e por isso haverá uma investigação conduzida pela associação que integra os operadores europeus de rede, a ENTSO-E, conduzida por peritos independentes. Um desses peritos é o português Albino Marques que será o responsável pela organização do grupo regional da Europa continental. Albino Marques foi o responsável máximo pela coordenação do sistema elétrico da REN até 2021. Atualmente é consultor da REN e coordenador da ENTSO-E.
Esta investigação será feita em duas fases. Na primeira fase, o painel irá recolher e analisar todos os dados disponíveis sobre o incidente, reconstruir o evento de 28 de abril e determinar as causas do blackout (apagão) num relatório que será tornado público. A segunda fase prevê a elaboração de recomendações para ajudar a evitar incidentes no futuro.
Espanha e Portugal têm três meses para transmitir todos os dados pedidos e estes peritos têm até seis meses para produzir um relatório. Entidades como a associação de reguladores europeus e a Comissão Europeia também vão avaliar o que aconteceu.
Em paralelo, decorrem investigações internas em Espanha, com a criação de um comité intragovernamental que poderá demorar entre três e seis meses a apurar as causas. Estão ser passados a pente fino mais de 750 milhões de dados fornecidos pelos operadores e registados nos sistemas e nenhuma hipótese está excluída, nem a de ataque informático.
▲ Pedro Sanchez assumiu um grande protagonismo na gestão da crise do apagão em Espanha
AFP via Getty Images
Em Portugal, e depois de um primeiro levantamento preliminar, a REN tem de entregar à ERSE (Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos) um relatório completo sobre o apagão dentro de 20 dias — prazo que pode ser alargado — que responda a várias perguntas: causa das interrupções do fornecimento e sua fundamentação; consequências das interrupções, nomeadamente, o número de clientes afetados, as zonas geográficas afetadas e a energia não fornecida ou não distribuída; ações de reposição de serviço, procedimentos adotados, dificuldades encontradas e estratégia de comunicação.
O Governo pediu também auditorias aos reguladores dos transportes, comunicações e aviação para perceber como responderam estes sistemas críticos.
Os responsáveis. Operadores, reguladores e governos
Uma rede com mais renováveis tem de evoluir tecnologicamente, o que exige mais investimentos. Mas não só. O grau de exigência na gestão dos fluxos é muito maior. Não só porque a potência renovável é intermitente e não previsível, mas também porque é descentralizada por milhares de unidades. A eletrificação dos consumos, sobretudo na indústria, obriga a reforçar e, ao mesmo tempo, dispersar a capacidade para receber e fornecer energia. Para tal, é necessário recorrer mais a serviços de sistema que permitam ativar um escudo da defesa contra a volatilidade das renováveis, o que envolve, por exemplo, ter uma central despachável (hídrica ou térmica pronta para entrar), mesmo que acabe por não produzir se não for necessário. Tudo isso custa dinheiro e pode impactar os preços.
Cabe aos operadores da rede, a REE em Espanha e a REN em Portugal, propor os investimentos que consideram necessários à resiliência da rede. Esses planos passam pelos reguladores porque há impactos tarifários (em Portugal a ERSE faz um parecer), mas a decisão final cabe aos governos. Cabe também aos operadores do sistema alertarem para riscos de segurança de abastecimento e indicarem o que é necessário para minimizar esses riscos.
A responsabilidade do operador de rede neste tipo de eventos desdobra-se em dois eixos. O primeiro é operacional e implica perceber se a REE e a REN fizeram a gestão adequada da situação, se processaram toda a informação disponível, se valorizaram os riscos e se fizeram tudo para os ultrapassar.
Os relatos que já apareceram na imprensa espanhola parecem indiciar que houve sinais que foram ignorados ou não acautelados pela REE, como as já referidas perturbações de oscilação que afetaram o nível de frequência dias antes.
▲ Luís Montenegro passou pelo centro de despachos da REN no dia 28, mas não ficou muito tempo
JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA
Depois há um eixo mais estrutural que envolve, num primeiro plano, a REE e a REN, mas também as entidades com responsabilidades de planeamento e regulação no setor. E, claro, o Governo, que no mercado espanhol tem mais peso que em Portugal. A administração da rede elétrica é escolhida pelo Estado que tem 20% da empresa. A atual presidente, Beatriz Corredor, que tem sido alvo de muitas críticas, veio do Governo de Sánchez. No dia do apagão, o primeiro-ministro espanhol chamou a si o papel principal e esteve pessoalmente no centro de despacho da REE durante as operações de retoma do sistema.
Já Luís Montenegro passou pelo centro de despacho da REN, mas quem estava a coordenar (e mais tarde explicou) como se estava a restabelecer o sistema foi o administrador da gestora da rede, João Conceição, que deu a cara em vez do presidente, Rodrigo Costa, que estava ausente do país no dia do apagão.
Quais os desafios e as lições
Os desafios da transição energética nas redes de transporte e distribuição são um tema muito discutido em Portugal e Espanha e existem orientações europeias para aumentar a resiliência, mas o apagão trouxe à superfície outras preocupações que nem sempre foram vistas como prioritárias. Até porque tudo isto custa dinheiro e estes investimentos são remunerados pelas tarifas elétricas, o que significa preços mais caros para os consumidores. Esta é uma consequência que Governo e reguladores procuram evitar com o discurso de que as renováveis permitem baixar os preços. O que é verdade na parte na produção, mas não na parte das redes.
No rescaldo do apagão, a imprensa espanhola fez eco de um relatório da REE que foi entregue em janeiro à Direção-Geral de Energia que reconhece existirem zonas na infraestrutura que poderiam tornar-se críticas com uma maior integração de renováveis e uma menor produção convencional (hídrica e térmica). Esta evolução obrigava a reforçar os sistemas de proteção da rede, uma vez que estes poderiam não detetar falhas e responder para as resolver. Em declarações ao El Mundo, o ministério que tutela a energia justificou que os investimentos identificados faziam parte de um plano para cinco anos e que a REE não sinalizou urgência na sua execução.
Por cá, o relatório de monitorização da segurança de abastecimento, elaborado com base em informação fornecida pela REN, indica que Portugal já estabelece requisitos técnicos mínimos para a ligação de centros produtores de uma certa dimensão, de forma a assegurar o correto funcionamento do sistema face a uma realidade marcada por “um número crescente de horas de operação com limitada capacidade de controlo de frequências e de tensão, bem como de muita reduzida inércia”.
▲ A circulação e os transportes foram dos setores mais afetados no apagão
FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVADOR
Para o presidente da Associação Portuguesa de Energia, o apagão veio demonstrar a necessidade de investir mais em sistemas de regulação de frequência. “Não posso querer ter a energia renovável e depois não adaptar todo o sistema elétrico”, sublinha António Coutinho. Veio também mostrar como estamos dependentes da energia para as coisas mais básicas. E essa dependência vai só crescer porque a eletrificação tem sido a principal via para descarbonizar a economia. A falha de energia mostrou também vulnerabilidades nos sistemas críticos e em serviços essenciais e não só.
António Coutinho aponta para o exemplo dos semáforos que, não sendo um serviço essencial, quando falham em pontos nevrálgicos podem perturbar muito o funcionamento da sociedade. Outro exemplo são as estações de serviço que fornecem o combustível para os geradores que permitem manter a luz acesa quando o sistema elétrico falha, e que param também quando não há eletricidade. Há ainda o caso das antenas das operadoras móveis que têm baterias para aguentar apenas duas horas, o que se revelou manifestamente insuficiente.
Um aspeto que deve ser valorizado é que é cada vez mais barato instalar a capacidade de produzir e armazenar energia distribuída e que até os carros elétricos podem desempenhar esse papel (se estiverem carregados). O especialista conclui: “temos de olhar para o uso de energia de forma a que assegure o funcionamento da sociedade e isso implica ter mais redundâncias”.