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Reportagem dos enviados especiais do Observador ao Líbano
“A aldeia de onde sou foi toda bombardeada.” Gaelle nasceu há 20 anos em Tyre, no sul do Líbano, uma cidade de origens antigas ligada aos fenícios e aos cruzados, que é Património Mundial da UNESCO. No final do ano passado, Tyre foi alvo de ataques aéreos por Israel, durante o pico do confronto com o Hezbollah, o grupo terrorista que tem raízes profundas no sul do Líbano. Um ano depois, a situação está mais calma, fruto do cessar-fogo assinado entre as duas partes; mas os ataques esporádicos continuam a acontecer, como quando um drone atingiu um carro, há cerca de duas semanas, matando dois comandantes do grupo xiita.
Foi com a nuvem negra de um possível reacender do conflito a pairar sobre a sua cabeça que Gaelle chegou a Beirute nesta segunda-feira. Mas quando entrou no santuário do Patriarcado Maronita de Antioquia, em Bkerke, os seus olhos verdes estavam bem arregalados de espanto. À sua frente tinha um grupo de cerca de 15 mil jovens católicos, que aqui se juntaram para um encontro com o Papa. Leão XIV está de visita ao Líbano, naquela que é a sua primeira viagem internacional, que incluiu uma passagem pela Turquia e termina aqui, no país do Médio Oriente com mais cristãos.
▲ Gaelle e Marianne
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Em tempos foram a maioria, mas os católicos correspondem hoje a cerca de 30% da população no Líbano e têm a sua influência política limitada. O sistema político confessionalista dá a presidência do país aos cristãos e distribui católicos, xiitas, sunitas e outras minorias pelo Parlamento. Mas o sectarismo vai grassando e o Líbano continua a viver paralisado pela falta de entendimento entre comunidades, a que se somam as ações violentas do Hezbollah. A ala política do grupo tem assento no Parlamento (é a terceira maior força política), mas “O Partido de Deus” não abdica do seu braço armado.
Vinda do Papa é “um sinal de esperança e de paz”. “Mesmo com as bombas a caírem”
Os cristãos continuam vivos no Líbano, mas vão minguando. Mesmo ao lado da terra de Gaelle fica Canaã — “o sítio onde Cristo fez o seu primeiro milagre”, apressa-se a sublinhar ao Observador Marianne, a amiga que está sentada ao seu lado. Em Canaã, os cristãos correspondem hoje a apenas 10% da população.
Gaelle diz-se feliz por estar ali, sobretudo depois de ter perdido a oportunidade de ver o Papa Leão no Jubileu, apesar de ter estado no Vaticano na altura. A amiga Marianne está mais do que feliz — está em êxtase. “Quando eu era mais nova o Papa Bento XVI veio ao Líbano e eu vi-o, mas não me lembro bem, era pequena”, conta, num ritmo acelerado, tão desorientada que nem consegue lembrar-se que idade tinha (feitas as contas, descobrimos que tinha oito anos). “Agora tenho só 21 anos e vou poder ver outro!”, exclama.
As duas amigas não contêm o entusiasmo. Entregam autocolantes com a cara de Leão XIV e bandeiras do Vaticano, vão tirando selfies, juntam-se aos cânticos em árabe e inglês que prometem “Enquanto respirar, irei louvar o Senhor”. “Fico muito feliz por o Papa ter dito que vinha mesmo tendo ouvido coisas más do Líbano. Só o facto de ele ter dito ‘Vou à mesma’ é muito importante”, diz Marianne, referindo-se ao encontro recente de Leão com a rainha Rania da Jordânia, em que esta lhe perguntou se seria “seguro” o Papa ir ao Líbano. “Vou à mesma”, respondeu. “É um sinal de esperança e de paz. Mesmo com as bombas a caírem”, nota Gaelle.
O país está imbuído do mesmo estado de euforia. Ao longo das avenidas de Beirute repetem-se os cartazes com o rosto de Leão XIV e a frase bíblica “bem aventurados os pacificadores”, lema quase oficial da visita. “O país dos cedros recebe Sua Santidade”, lê-se noutra tarja gigante que alguém estendeu à beira de uma estrada perto de Bkerke. As pessoas amontoam-se na esperança de ver um vislumbre do papamóvel; abanam bandeiras do Líbano e do Vaticano, algumas compradas em bancas que foram montadas de improviso; e são por vezes travadas por soldados, quando se aproximam perigosamente do alcatrão onde os carros passam a alta velocidade.
O cenário já tinha sido o mesmo quando Leão aterrara na véspera, com milhares a alinharem-se à beira da estrada que liga o aeroporto ao centro da cidade — entre eles os escuteiros Imam Mahdi, o movimento juvenil do Hezbollah. Foi um ato deliberado por parte do grupo, que quis claramente alinhar-se a favor da visita, emitindo declarações de boas-vindas e participando em todos os atos políticos com o Papa.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
É uma posição cheia de significado numa altura em que o Hezbollah luta pela sua sobrevivência depois de a liderança ter sido decepada por Israel ao longo do último ano. Desde o cessar-fogo que os Estados Unidos se têm empenhado em promover a desmilitarização do grupo, mas Telavive considera que está a avançar de forma demasiado lenta e, por isso, tem voltado a atacar o Líbano. O Governo de Beirute esforça-se para tentar mostrar que está a conter a ameaça armada — ainda esta semana, o Exército promoveu uma visita com jornalistas internacionais a locais tomados pelos militares no sul do Líbano, que o grupo usava até aqui para armazenar armamento.
Gaelle não se pronuncia especificamente sobre o Hezbollah nem sobre Israel, mas admite que o país está em convulsão. “Nós amamos os nossos irmãos muçulmanos e eles amam-nos a nós, a política é que é o problema”, sentencia.
Bruno Mars, Ronaldo e uma pomba branca de origami. O ambiente febril à espera de Leão
Enquanto o Papa não chega a Bkerke, o público vai aquecendo. Há uma pequena orquestra montada do lado esquerdo e do lado direito está o coro El Akhawiyat. Mas, neste momento, o palco vai sendo ocupado por grupos de diversas paróquias que promovem animação, com cânticos que elogiam “Emanuel” e até pedidos como “DJ, play it please”. Na parte de trás, os preparativos de última hora são acertados: um grupo composto por bombeiros, seguranças e socorristas tenta transportar uma gigantesca pomba branca, estilizada com um efeito semelhante a origami. Por momentos parece que a vão deixar cair, mas tudo acaba por correr bem.
A certa altura, toca uma versão instrumental de “24K Magic”, canção de Bruno Mars — e os adolescentes, que estão na maioria em pé em cima das cadeiras de plástico, parecem enlouquecer. Entre eles estão Jeffrey, Adib e Elio, do Colégio Notre Dame de Louaizé, acompanhados pelo catequista Josef. “Vou dizer à minha família que vi o Papa!”, diz Adib, antes de gritar “Siiii” — o grupo afirma-se como fã incondicional de Cristiano Ronaldo e atropela-se para ver quem dispara mais frases para os jornalistas estrangeiros. “Esta é a experiência de uma vida”, declara Jeffrey. “Temos de acender a fé!”, acrescenta Elio.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Josef tenta acalmá-los e passa a explicar de forma mais pausada por que razão esta visita é tão importante. “Nós, cristãos, sabemos o que é ter problemas…”, começa por dizer, antes de ser interrompido por Jeffrey. “O professor é mais velho, lembra-se da guerra”, atira, referindo-se à guerra civil que durou de 1975 até 1990 e que opôs cristãos, sunitas, xiitas e druzes. “Não revele a minha idade”, pede o catequista, rindo-se. “Bem, digamos assim: o Líbano às vezes está mais para cima, outras vezes mais para baixo e agora está a ir para baixo. Esperemos que mude. Com o Papa sentimo-nos mais fortes”, diz, dando como exemplos as anteriores visitas de João Paulo II e Bento XVI, que diz terem ajudado a que o país entrasse em fases mais positivas.
Jeffrey vai sugerindo aos estrangeiros várias iguarias para se provar no Líbano (“o shoarma de frango é o melhor!”), mas Elio mostra-se mais contemplativo. Conta que, com 17 anos, está quase a terminar o liceu e sente-se “nervoso”, mas também “entusiasmado” pela nova fase. Para já, não pensa emigrar, ao contrário de muitos outros da sua idade — uma tendência que se acelerou desde a crise financeira que andou a par e passo com a Covid-19 no país e que se agravou com a explosão no porto de Beirute em 2020. “Precisamos de paz neste país destroçado pela guerra”, remata o adolescente.
Um discurso discreto, mas político, “aos construtores da paz”
É preciso esperar mais uma hora até que o Papa chegue a Bkerke. Ao fim de horas de espera, a multidão assiste em euforia ao percurso de Leão XIV no papamóvel, atravessando o santuário e acenando a todos. A música garante em inglês “Jesus Cristo, és a minha luz, aleluia”. A cerimónia começa com a entrega de vários objetos simbólicos ao Papa: um pedaço de terra para representar a recusa do exílio, sementes de trigo em referência aos silos do porto de Beirute e brotos de cedro, a árvore nacional do Líbano.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Quando Leão faz finalmente o seu discurso, recebe um aplauso estrondoso por se dirigir aos presentes com a saudação árabe “assalamualaikum” (“que a paz esteja convosco”). A sua primeira palavra de agradecimento é para “os jovens da Síria e do Iraque”, que são visíveis na multidão pelas bandeiras que trazem — a bandeira síria que exibem não é a do tempo de Bashar al-Assad, mas a nova, introduzida pelo regime de Ahmed al-Sharaa.
Mas rapidamente o Papa se dirige aos libaneses, num discurso em que sublinha uma e outra vez o impacto da guerra e dos conflitos. “A História do Líbano é entrelaçada com momentos de glória, mas também marcada por feridas profundas que demoram a sarar”, diz, apelando aos libaneses para que sejam “construtores da paz”. “Queridos jovens, podem lamentar terem herdado um mundo despedaçado por guerras e desfigurado pela injustiça social. E, contudo, há esperança e essa esperança está em vós.”
▲ Bandeiras da Síria e do Iraque entre a multidão
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Leão XIV sublinhou que a paz só é autêntica se não for “um produto de interesses partidários” e declarou que “o perdão leva à justiça, que é a fundação da paz”. No primeiro dia da visita, o Papa já tinha deixado uma marca mais politizada ao defender claramente a necessidade de uma solução de dois Estados para o conflito israelo-palestiniano. Nada que destoe do tom que tem adotado desde que foi eleito, referindo-se repetidamente ao conflito em Gaza para pedir “que todos os reféns [israelitas] sejam libertados” e que se acabe com o “massacre desnecessário” de palestinianos.
Desta vez, não houve qualquer referência a Israel nem ao Hezbollah, mas nem por isso o discurso foi menos político. “Estão prontos para serem os construtores da paz num mundo em sofrimento?”, perguntou Leão à multidão, que respondeu com um sonante “sim”. A pomba branca de origami acaba por ter o seu minuto de fama, sendo levada até ao palco.
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Nem todos no Líbano, porém, acham que o discurso pela paz que o Papa tem promovido é suficiente. Alguns, como o padre Fadi de Tyre — a terra da jovem Gaelle — apelaram ao Vaticano para que a viagem do Papa incluísse uma paragem no sul do país, a fim de assumir uma posição mais vincada no palco mundial e apoiar ao mesmo tempo a comunidade mais afetada pelo conflito. O pedido foi rejeitado por razões de segurança.
Nada que estrague o momento feliz para as amigas Marianne e Gaelle. “Esta visita só tem coisas boas. Assim a imprensa estrangeira vem e pode ver que o nosso país não são só bombas”, diz a primeira. Gaelle acena com a cabeça que sim, mas acaba por expressar um receio. “Só estamos todos com medo de quando o Papa for embora. E se as bombas voltam?”
O Observador viaja a convite da Fundação AIS — ACN Portugal