O som dos tiros disparados pela polícia para reprimir os manifestantes é ouvido entre os convidados para a cerimónia da tomada de posse do Presidente Daniel Chapo. A elite política, empresarial, diplomática e os representantes de outros países disfarçam, mas inquietam-se, questionam-se sobre o que estará a acontecer do lado de fora.
Do outro lado desta batalha sonora, estão colocados altifalantes ao longo da Avenida 25 de Setembro, a uns 400 metros da Praça da Independência, para fazer ecoar o discurso do novo Presidente oficial, Daniel Chapo, junto de quem não tem convite para ir à cerimónia. Quase ninguém quer ouvir. E, mesmo que quisesse, dificilmente as palavras não terão sido abafadas pelos protestos de um pequeno grupo de manifestantes e pela brutalidade da reação policial que os tenta domar, levando a que sejam disparados dezenas de tiros para o ar, de forma completamente desnecessária, intimidatória e imprudente.
[Reportagem em vídeo dos confrontos da polícia e manifestantes a escassos metros da tomada de posse de Daniel Chapo]
Desnecessária porque os manifestantes não estão armados, nem sequer são em maior número do que os polícias.
Intimidatória porque é mesmo esse o objetivo, não só para fazer dispersar os opositores do regime, mas também para ficar o aviso para todos os outros que tentem furar as barreiras policiais colocadas estrategicamente no caminho entre os bairros da periferia e o centro.
Imprudente porque há demasiados polícias e militares descontrolados, em vários locais e momentos à volta da Praça da Independência, a causar o pânico de armas na mão — e a deixar provas em vídeo do que pode ser uma das piores faces do regime da Frelimo ao fim de 50 anos, precisamente quando procura virar uma nova página com o início do mandato do seu quinto Presidente.
▲ Momento em que a polícia dispara contra os manifestantes para os dispersar
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Podia ter sido ainda pior. O ponto de partida era um protesto convocado por Venâncio Mondlane, candidato derrotado oficialmente mas que se autoproclamou ‘Presidente do povo’, e que apelou mesmo a que os manifestantes erguessem cartazes com a cara do seu Presidente preferido. Este apelo fracassou.
O cerco dos manifestantes a um apoiante de Chapo para destruírem a camisola
Seja por cansaço, por medo ou por ter sido travado no caminho entre os bairros da periferia e o centro da cidade, não aparece uma multidão de milhões, nem de milhares de pessoas junto da Praça da Independência. Não são mais do que duas centenas de apoiantes de Venâncio Mondlane.
Não trazem o líder. Não trazem os cartazes. Não trazem sequer um plano. Mas vêm com muita coragem até ao centro de Maputo, após longas caminhadas a pé, a atravessar uma cidade paralisada e sem transportes.
▲ A escassos centenas de metros da cerimónia de tomada de posse foram disparados tiros e pessoas detidas
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Alguns, ousados e cheios de lata, querem mesmo entrar na cerimónia, mas esbarram na falta de convite. Agrupam-se então numa esquina da Avenida 25 de Setembro (o nome homenageia a data de início da luta armada de libertação, em 1964), junto ao local onde estão as barreiras de ferro que filtram quem pode passar para a Praça da Independência.
Animados pela presença de jornalistas e de muitos telemóveis a transmitirem diretos para as redes sociais, começam a saltar, eufóricos, ao som das palavras de ordem que eles próprios cantam: “O Chapo está na merda, o Chapo está na merda, doa a quem doer” ou “o Venâncio a presidente, o Venâncio a Presidente, doa a quem doer”. Não serão mais de quatro dezenas de jovens ali, a desafiar a Frelimo e a deixar claro que o seu presidente era Venâncio Mondlane.
▲ Os jovens ali presentes cantam palavras de ordem que eles próprios inventam: “o Chapo está na merda, o Chapo está na merda, doa a quem doer”
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Claro que não são uns anjinhos, repletos de razoabilidade, serenidade e sensatez. Um apoiante da Frelimo tem o azar de passar pelo meio do grupo e é perseguido por alguns dos manifestantes. Parecem dispostos a linchá-lo, mas na verdade querem apenas retirar-lhe a mochila. Como ele resiste, quatro ou cinco insistem, arrancam a mochila à força, retiram lá de dentro uma camisola de apoio ao novo Presidente, Daniel Chapo, e desfazem-na em pedaços arrancados com euforia, como se estivessem a amarrotar o próprio Chapo numa derradeira tentativa de anular a tomada de posse.
“O Povo Unido Jamais Será Vencido”. E o primeiro tiro para o ar
Por baixo do varandim de um prédio, os jovens chegam a cantar “O Povo Unido Jamais Será Vencido”.
Ao fim de uns 20 minutos de festa e saltos para as redes sociais, a polícia avança: uma dezena de elementos armados e mascarados a segurar cães pela trela começa a ocupar a esquina onde estão os manifestantes. Perante a ameaça de lhes soltarem os agentes caninos — alguns esfomeados e escanzelados, mas ainda assim ameaçadores — atravessam a Avenida 25 de Setembro para uma esquina do outro lado da estrada. Mas mantêm a atitude de protesto e os cânticos de desafio contra Daniel Chapo.
▲ O cerco policial aos manifestantes foi feito a primeira vez com um tiro para o ar e a foram utilizados cães
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Também não duram muito tempo neste novo palco. Os polícias, agora talvez umas duas dezenas, avançam para os dispersar, e desta vez é disparado o primeiro tiro para o ar, o que intimida, de facto: os jovens recuam mais uns metros, cada vez mais revoltados.
A mulher que não quer recuar — e é esbofeteada e agredida à bastonada pela polícia
Aqui verifica-se uma das cenas mais icónicas do dia, mas que se terá tornado mais viral do que todos os excertos do discurso do novo Presidente partilhados pela sua máquina de propaganda. É a dois quarteirões da tomada de posse, na Avenida Samora Machel (nome do mítico primeiro Presidente de Moçambique), debaixo de uma árvore, entre carros estacionados e ao lado de uma placa que apela: “Conduz com segurança”.
Enquanto os manifestantes se reagrupam noutro local, uma mulher resiste. Simplesmente não quer recuar. Dois polícias ficam atarantados. Sentem-se desafiados. Também não recuam, nem aceitam ser desautorizados assim. Um comandante mais graduado surge por trás da mulher, pergunta nervosamente “o que se passa aqui?”, mas na verdade não espera por resposta nenhuma: esbofeteia-a com toda a ira na testa. A agressão serve como um sinal imediato para os outros dois polícias, como se estivessem a ser demasiado complacentes, e um deles não espera nem dois segundos até a agredir à bastonada, ainda com mais ira do que a canalizada pelo colega esbofeteador. Puxa o bastão bem até acima antes de a agredir no peito. Repete o gesto e a segunda bastonada acerta-lhe na barriga.
???? Polícias flagrados agredindo uma mulher, perto de onde o novo presidente tomava posse. Daniel Chapo prometeu servir aos moçambicanos e acabar com todo mal contra o povo. Que estas barbaridades da polícia tenham terminado. Que um novo chefe da polícia seja nomeado. Basta! pic.twitter.com/jE2PtG17OK
— Alexandre Nhampossa (@AllexandreMZ) January 15, 2025
As agressões não a fazem mover-se. Ainda há um agente menos descontrolado a tentar convencê-la com conversa, mas a mulher mantém-se exatamente no mesmo sítio. Já tinha apanhado. Já não tem muito a perder. E ganha moral para descarregar em palavras dirigidas aos agressores a revolta que sente pela humilhação a que a queriam submeter: “Você vai-me pagar bem. Eu não sou tua filha. Eu não fiz nada. Eu te fiz o quê? Eu não sou teu cão. Eu estou aqui parada, porque eu não quero. Venha de lá de novo”.
A vítima que assim resiste à agressão acaba o dia a ser promovida a heroína nacional e espalham-se pelas redes sociais formas de a apoiar. O polícia que a esbofeteia em público acaba o mesmo dia a ser identificado, ostracizado e humilhado nas mesmas redes sociais.
“Nós somos irmãos, não nos matem” vs “Não vos quero balear”
Depois deste momento, prossegue o cerco dos polícias aos jovens manifestantes mais combativos, que agora não arredam pé de uma esquina da Avenida Samora Machel, ainda um bocadinho mais afastada do palco da tomada de posse. É um novo braço de ferro, com os polícias alinhados a aguardar pretexto para nova investida e os jovens a gritarem-lhes a revolta na cara — ou melhor, nas máscaras que tapam os rostos dos polícias: “Nós somos irmãos, não nos matem”.
É um jogo do gato e do rato, que acaba de novo com os cães dos polícias a avançarem e os jovens a defenderem-se procurando novo poiso. Outro grupo de jovens apoiantes de Venâncio Mondlane tenta concentrar-se de novo na Avenida 25 de Setembro, mais perto da cerimónia, mas a polícia vai-os empurrando dali para fora. Um agente chega a dizer: “Não vos quero balear”.
As autoridades vão conseguindo encostar os manifestantes à esquina com a Avenida Karl Marx, onde se junta, entretanto, o primeiro grupo de jovens que tinha fugido das bastonadas na Avenida Samora Machel. Ficam ali na esquina a tentar retomar os cânticos de apoio a Venâncio e repúdio a Chapo, mas a imagem torna-se demasiado insuportável para os nervosos guardiães do regime. Vários agentes desatam aos tiros, ali mesmo, perante centenas de testemunhas na rua e às janelas. Os jovens fogem Avenida Karl Marx acima. Um dos manifestantes tenta resistir na esquina e é esbofeteado, para se deixar de resistências, se não for suficiente a intimidação de uma dúzia de tiros disparados por vários agentes e a fuga assustada dos seus companheiros de protesto.
▲ Com muito poucos cartaz no ar com a cara de Venâncio Mondlane, os manifestantes foram obrigados a recuar pela polícia
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Polícias a repreender polícias que dispararam à vista de toda a avenida
Em plena avenida, comandantes mais graduados aceleram o passo para se aproximarem da esquina, a dizerem aos agentes nervosos, desorientados e descontrolados, que não é preciso disparar. Uma enorme barafunda hierárquica à vista de todos, a juntar ao escândalo do excesso de repressão policial e da desproporcionalidade da resposta face à ameaça apresentada pelos jovens desarmados. Mas não acaba aqui.
Falta ainda um último palco de intimidação, a meio da Avenida Karl Marx, mais próximo da praça da Independência e da cerimónia, que está prestes a terminar, com o Presidente prestes a sair e os polícias prestes a perder novamente a cabeça, desta vez com o apoio de militares de rosto destapado.
Do lado direito da avenida estão estacionados autocarros com alguns dos participantes na cerimónia, entre militares e bandas filarmónicas, tudo afeto ao regime. Um desses autocarros está identificado como pertencendo ao “Comando das Unidades Cerimoniais” — e uma manifestante ataca a viatura com um pau.
Para afastar os manifestantes de um ponto tão sensível, os polícias chegam numa carrinha, saltam para a estrada de arma em punho e fazem novos disparos para o ar. É aqui que se juntam alguns militares a fazer o mesmo com as suas armas. Alguns dos disparos são feitos a três metros da equipa do Observador em Maputo.
Há várias pessoas a passar na rua, algumas a sair da cerimónia, que são apanhadas desprevenidas a meio desta cena de faroeste em plena capital, e tentam abrigar-se entre os carros estacionados nos passeios, para atenuarem a hipótese de apanharem com balas perdidas, disparadas por agentes de um regime que parece de cabeça perdia.
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Ouvem-se duas dezenas de tiros ao longo de uns dois longos minutos. Os manifestantes desaparecem rua acima, mas a polícia ainda estaciona frente a um beco e retira de lá dois homens. O primeiro é obrigado a entrar na parte de trás da carrinha por um polícia que o agride na cabeça. O segundo homem a sair do beco é também forçado a sentar-se debaixo do banco dos polícias, perante o gáudio de alguns apoiantes da Frelimo que assistem e incentivam as detenções, enquanto exigem que quem está a filmar toda a cena pare de gravar.
E assim acaba a cerimónia da tomada de posse, marcada mais pelas cenas de confrontos e abusos de autoridade cá fora do que por qualquer ideia política vertida nos discursos lá dentro.
▲ Um grupo de manifestantes corre em direção ao local por onde terá saído o presidente Daniel Chapo
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O bairro onde a polícia terá abatido três jovens — e o jovem régulo que ouviu tudo
A manhã do primeiro dia de Daniel Chapo na presidência tinha começado com uma tragédia no bairro de Machava, a uns 20 km do centro de Maputo. Quando o Observador chegou ao bairro, pelas 8h00 da manhã, encontrou os residentes num estado de enorme revolta, a descrever a forma como os agentes da Unidade de Intervenção Rápida terão eliminado três jovens durante a madrugada, a apontar os locais onde estavam os corpos, a mostrarem a sua revolta contra a polícia e a exibirem as balas encontradas no chão.
Um dos jovens contou que as três vítimas tinham 17, 18 e 19 anos. “Estavam num convívio, veio um carro da Unidade de Intervenção Rápida a alta velocidade, saíram e começaram a disparar. Nós entrámos nos becos para nos refugiarmos. Mas a UIR seguiu-os e acabaram por ser alvejados”.
▲ Agentes da Unidade de Intervenção Rápida terão eliminado três jovens durante a madrugada
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O régulo da mesquita do bairro, um jovem de 23 anos, contou ao Observador que estava acordado e ouviu tiros durante “20 minutos sem parar”. Esperou que o ruído terminasse para sair de casa. “Quando saí vi um corpo estatelado ao lado de casa e mais um corpo lá à frente. Eles não eram criminosos, eram jovens de um grupinho.”
As regras da barricada na estrada: quem passa e quem tem de obedecer
Os moradores decidem ali mesmo, de forma espontânea, erguer uma barricada com pneus e pedras para cortar o trânsito. Estão cerca de sessenta moradores à volta da barricada, dos dois lados da estrada, sem qualquer liderança formal — o chefe de bairro, afeto à Frelimo, desapareceu nos últimos meses, dizem os moradores, que não o querem ver de volta e em tudo aproveitam para manifestar o seu apoio a Venâncio Mondlane e o seu repúdio em relação a Daniel Chapo.
“Quando o nosso Presidente diz que não podemos trabalhar, nós respeitamos. O nosso Presidente é Venâncio, não aquele gigante do Chapo. Vão-se governar entre eles, não vai governar o povo”, garante ao Observador Jorge Benzane, 34 anos, motorista “chapeiro” e um dos moradores que está a controlar a barricada.
“Respeitamos as ambulâncias e os militares, que devem passar. Mas os carros particulares não devem passar. Temos todos de cumprir. O Venâncio disse que não passam carros”, explica. Garante que não aceitam (nem exigem) dinheiro para deixar passar viaturas, ao contrário do que acontece noutros bairros dos arredores de Maputo. E não precisa de explicar como fazem cumprir as regras: “Têm de nos obedecer”. São muitos, demasiados para serem desafiados sem se exaltarem.
O direto de Venâncio a chamar “aluno cabulador” a Chapo. E os seus primeiros cem dias
Venâncio Mondlane, o “Messias” para muitos dos eleitores, não apareceu nos protestos, mas ao fim do dia fez uma das suas famosas lives nas redes sociais, admitindo que sentiu “uma grande pressão” para falar esta quarta-feira.
Agradeceu aos moçambicanos que participaram nos protestos; apontou um tom “fúnebre” na cerimónia da posse; e condenou as agressões policiais aos manifestantes, referindo-se expressamente à mulher esbofeteada pelo polícia na Avenida Samora Machel, tratando-a por “minha mãe”.
▲ Os moradores deste bairro decidem ali mesmo, de forma espontânea, erguer uma barricada com pneus e pedras para cortar o trânsito
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
No fim, gozou com o Presidente Daniel Chapo: “Tenho um grande aluno. Pena ser muito cabulador.” É uma alusão a várias propostas que considera que foram copiadas do seu programa. Anunciou entretanto um novo direto nas redes sociais, na próxima sexta-feira às 15h (13h em Lisboa), onde promete anunciar as medidas do seu mandato (não oficial) para os primeiros cem dias de governação.
“O setor público e o setor privado vão ter de cumprir. O Presidente vai ter de cumprir. E vamos indicar como o povo se vai posicionar. (…) Queria pedir a este candidato que supostamente tomou posse hoje que tem de estar atento”. Fica a dúvida sobre como estas medidas poderão ser implementadas sem poder oficial — e a porta aberta para se prolongar o caos social em Moçambique, muito para lá desta tomada de posse de Daniel Chapo.