É uma das figuras mais reconhecidas do espaço mediático, em especial depois do início do conflito no leste da Europa. Major-general do Exército, nascido a 13 de junho de 1959, em Ribeira de Pena, Vila Real, tem uma carreira militar de mais de quatro décadas, com fortes ligações à NATO, e exerceu funções diplomáticas nos Estados Unido. Nesta entrevista, no entanto, falará exclusivamente sobre política nacional. E do seu desejo de ser candidato à sucessão de Marcelo Rebelo de Sousa.
Em entrevista ao Observador, no programa “Vichyssoise”, Isidro Morais Pereira não afasta a possibilidade de uma candidatura à Presidência da República. Assumidamente crítico de Henrique Gouveia e Melo, reconhece que está a ponderar as condições que tem para ser candidato, garante que tem recebido muitos incentivos para avançar e assegura que tomará uma decisão final depois das eleições autárquicas.
Com um dado extra: tal como o Observador avançou esta quinta-feira, Isidro Morais Pereira tem já uma reunião marcada para o início de julho com destacados dirigentes do Chega para perceber se há margem para fazerem um caminho comum nas próximas presidenciais. E o major-general não esconde que gostaria de contar com o apoio de André Ventura. “Não há razão nenhuma para que não aceitasse esse apoio.”
[Ouça aqui a entrevista a Isidro Morais Pereira]
“Não me revejo nas atitudes de Gouveia e Melo”
Tem dado sinais de estar disponível para entrar na corrida presidencial. Entende ter condições para ser candidato?
Quando apareci no espaço mediático comecei a receber praticamente todos os dias mensagens e telefonemas. Diziam-me: “O senhor general já pensou em candidatar-se à Presidência da República?”. Confesso que nunca pensei em tal possibilidade, não estaria nos meus horizontes. Mas toda a minha vida foi dedicada ao serviço público. O meu falecido pai queria muito que o filho Isidro fosse médico, mas eu queria servir o país. E acabei por servir o país servindo as Forças Armadas, designadamente o exército. Toda a minha vida. Tenho dificuldade em resistir ao apelo das pessoas e é algo que estou disposto a refletir. É uma vida de sacrifício, é novamente uma dedicação 24 horas por dia, sete dias por semana, o ano inteiro, à causa pública. Isso exige de nós muitas coisas, uma dádiva constante, que estejamos em condições físicas e mentais. Tenho que perguntar a mim próprio se ainda tenho frescura física e mental, se ainda sou capaz de voltar a abraçar uma função de tanta responsabilidade.
O que é que falta para decidir ser candidato?
Falta pensar maduramente nisso. Falta ter uma conversa com aqueles que me são mais próximos. E olho para a política portuguesa com muito respeito, um ato eleitoral como aquele que se vizinha, que são as próximas eleições para o poder local, as autárquicas. Acho que não devemos sobrepor camadas. Não tenho direito de interferir e não me estou a ver a tomar uma decisão, seja ela positiva ou negativa, antes dessas eleições. Mas ainda iria muito a tempo. Se, de facto, os portugueses acharem que o general Isidro Pereira, o cidadão Isidro Pereira, reúne condições para ocupar o cargo de tamanha responsabilidade, eles dirão. Temos todo o verão para pensar, refletir, amadurecer ideias. É isso que pretendo fazer, porque o apelo das pessoas sempre me sensibilizou.
É inevitável falarmos de Henrique Gouveia Melo. Acha que existe espaço para haver mais um candidato com um perfil militar?
Neste momento não tenho qualquer limitação. Só não estou inscrito em nenhum partido político porque não o decidi até agora. Mantive o meu apartidarismo, mas sempre fui um homem sensível para as questões políticas. Dizer-se que os militares não são políticos é um erro completo.
Mas há espaço político? Ou acha que Henrique Gouveia Melo é um mau candidato?
Julgo que há espaço. Não me compete a mim ajuizar se Gouveia Melo é mau ou é bom candidato. Os portugueses voltaram a identificar-se com determinado tipo de personalidade, de características que normalmente os militares têm e que muitas vezes outras pessoas não têm, o que não quer dizer que os militares sejam mais honestos ou mais íntegros. Gouveia e Melo tem todo o direito a candidatar-se à Presidência da República. Mas não é o único. Pode haver outros militares. Uma das razões que me pode motivar seriamente a considerar este desafio na minha vida é querer dar aos portugueses outras opções. Se os portugueses querem um militar, se se reveem num perfil de um militar, por que não dar-lhes outras possibilidades? Há militares que têm um outro tipo de pensamento, uma forma diferente de olhar para a causa pública, uma postura diferente, uma personalidade diferente.
Em que medida é que se distingue de Gouveia Melo?
Enquanto militar, sempre tive uma postura que achei que era a postura adequada enquanto militar, oficial do Exército, como oficial-general, como comandante de tropas, inclusive em operações. Sempre olhei para os meus subordinados e sempre exerci toda a minha ação de comando centrado naqueles que comandei. Nunca olhei para o meu interesse. Nunca foi o meu interesse pessoal que esteve à frente das minhas decisões. Sempre comandei a olhar para baixo.
Gouveia e Melo não?
Não sei. Ver no espaço televisivo o senhor almirante Gouveia e Melo a repreender publicamente os seus militares, na Madeira, foi algo que me desgostou. Não é a forma correta de resolver esse tipo de situações. Não sei se isso corresponde a uma maneira de estar, mas não é certamente a minha. Era incapaz de fazer uma coisa dessas. Os elogios são feitos de forma pública, como aprendemos na nossa vida militar. Quando se quer punir alguém ou puxar as orelhas, deve-se fazer no recato, de uma forma não pública. Se de facto havia matéria criminal, não lhe competia julgar; competia às instâncias próprias, que era a Polícia Judiciária Militar e depois os tribunais. Julgo que esse tipo de atitudes… Não me revejo nelas. Não é a minha forma de estar na vida.
Mas considera que os portugueses estão enganados relativamente a Gouveia e Melo?
O almirante Gouveia Melo vai ser confrontado com muitas questões, com muitas perguntas e vai ter oportunidade de responder. E os portugueses ajuizarão. Agora, as práticas falam por si. Referi apenas essa, não me compete a mim estar a investigar a vida do almirante de Gouveia e Melo e seria incapaz de o fazer. Vai haver tempo para as pessoas se aperceberem de quem é, de facto, o almirante de Gouveia e Melo — e, eventualmente, de quem é o general Isidro Pereira se ele decidir candidatar-se.
“Chega não tem de ser olhado como sendo diferente dos outros”
Não é fácil entrar numa campanha desta natureza sem o apoio de uma estrutura partidária. Recebeu algum contacto do Chega a propósito de uma possível candidatura?
Não fui contactado por nenhum responsável do Chega. Até à data, nenhum partido político me contactou no sentido de saber se eu estava disposto a ser apoiado por uma estrutura. [Isidro Morais Pereira vai reunir-se com Diogo Pacheco Amorim, do Chega, a 2 de julho]. Mas uma campanha eleitoral é sempre muito mais fácil sendo apoiada por uma estrutura partidária que está preparada e oleada para tudo isto.
Mas veria com bons olhos um apoio do Chega?
Sinceramente, se a minha decisão for no sentido de me candidatar, não enjeito o apoio dos partidos. Os partidos fazem parte da democracia portuguesa. Todo e qualquer partido que merece um apoio significativo dos portugueses, como foi o caso do Chega, que teve mais de um milhão de votantes… não há razão nenhuma para que não aceitasse esse apoio. Isto não quer dizer que concorde com todas as bandeiras do Chega.
Como disse, o Chega teve mais de 1 milhão e 400 votos nas últimas eleições. Esse apoio seria fundamental para avançar para uma candidatura?
Haveria uma elevada probabilidade de contar com uma parcela significativa dos eleitores do Chega que irão às urnas. Portanto, é sempre um conforto. O Presidente da República é o responsável pelo regular funcionamento das instituições. Se as instituições dão indícios de que não estão a funcionar como devem, de acordo com aquilo que está preconizado na Constituição da República e na legislação portuguesa, o Presidente terá que intervir, de uma forma moderada, tentando construir pontes, encontrar soluções. Agora, o Presidente da República não é responsável pela condução de política. Isto para dizer que o facto de alguém ser apoiado por um partido não o vincula diretamente às políticas desse partido. Todos aqueles que estão disponíveis para exercer o cargo do Presidente devem ambicionar ser o Presidente de todos. Mas de todos mesmo. Têm de olhar por todos os portugueses e de forma igualitária. Não há portugueses de primeira, nem portugueses de segunda. Há portugueses.
Gouveia e Melo tem-se afastado desses possíveis apoios partidários, incluindo o Chega.
Isso é um problema do almirante Gouveia e Melo. Não olho para o problema da maneira que ele olha. É uma grande diferença entre nós.
Mas afastar o Chega é um erro?
Completo.
Pelo número de eleitores?
Não é pelo número. Por que é que aqueles que votam no Chega são diferentes daqueles que votam no Partido Comunista ou daqueles que votam no Bloco de Esquerda? Não são. São pessoas que têm um projeto diferente para o nosso país. E é um projeto que se enquadra dentro da democracia, é sufragado. O Chega só tem o número de deputados que tem na Assembleia da República porque os portugueses assim o quiseram. Não tem que ser olhado como um partido diferente dos outros. É um partido como os outros, que tem algumas ideias que considero corretas, outras não. Esses 1 milhão e 400 mil eleitores são pessoas, são seres humanos, são homens e mulheres. E são portugueses — a sua opinião conta tanto como a dos outros. É por isso que acho que não deve ser enjeitado o apoio de uma parcela tão significativa de pessoas.
“Mendes e Seguro? Os portugueses querem alguém corajoso”
Sobre outros candidatos que já estão apresentados. Luís Marques Mendes e António José Seguro, acha que nenhum dos dois oferece garantias de ser um bom Presidente da República?
São personalidades diferentes, mas nunca foram confrontados com as competências que o cargo de Presidente da República encerra. Luís Marques Mendes ou António José Seguro, que foram responsáveis pela liderança dos respetivos partidos, tinham uma ideia sobre aquilo que devia ser o futuro dos portugueses, mas uma ideia que tinha a ver com a execução da política.
Acha que não têm perfil para o cargo da Presidência.
Certamente consideram que têm e haverá quem os apoie. Mas o que está a acontecer é que os portugueses começam a olhar para a figura do Presidente da República como uma pessoa com outro tipo de características. Mais equidistante, que seja capaz de estar mais desligado do arco partidário, de exercer a sua ação de forma completamente independente. Que é isso que os portugueses julgo que querem neste momento. Por isso é que Gouveia Melo continua a ser o preferido nas sondagens. Olha-se para um militar, para um perfil de equidistância relativamente aos partidos, para alguém que pode ser corajoso nas situações difíceis. Os portugueses querem alguém corajoso, suficientemente próximo das pessoas, mas que não seja demasiado próximo, que não banalize a instituição Presidência da República.
Todos os candidatos até agora conhecidos têm tido cuidado de se posicionarem rigorosamente ao centro. Onde é que se situa politicamente?
O que é que representa o centro, o arco da governação, o PS, a AD? Sou um amante da liberdade, da tolerância e da democracia. Bato-me fundamentalmente por essas ideias.
Não se define como homem de esquerda ou direita?
Não. Acho que não é obrigatório fazer isso, até porque o perfil do cargo não o exige. O Presidente da República não é para fazer política comum, uma gestão corrente da vida pública. É um homem que é responsável por garantir que as instituições funcionam. É o homem que tem que sobressair nos momentos difíceis e tem que olhar para todos os partidos, para todas as instituições e ser capaz de encontrar soluções. Mas ão me identifico com extremismo.
Nem extremismos de esquerda, nem de direita?
Não. O rótulo não é algo que me preocupe. Na altura própria, em concreto, perguntado sobre o que é que acho de determinado assunto, naturalmente terei uma opinião.
Uma das discussões que se tem colocado nas últimas semanas e meses é a necessidade de aumentar o investimento em defesa. O país deve fazê-lo mesmo que isso implique sacrificar algum investimento no estado Social?
A condução da política deve ter sempre em conta a realidade que se vive. Sem Defesa e sem Segurança não há progresso e bem-estar. Portugal tem que estar na linha da frente da construção dessa capacidade defensiva. De que adianta investir em tudo, em todas as outras áreas, se não houver um ambiente suficientemente seguro para que haja um desenvolvimento harmonioso de todas as outras políticas? Este investimento em defesa, tal como está a ser pensado, não implica obrigatoriamente que tenha que se desinvestir no estado Social ou no modelo social. Se fizermos um investimento inteligente, através de formas diretas e indiretas, através da criação de emprego, conseguimos não se torne um fardo.
“Marcelo banalizou a Presidência m determinados momentos”
O que pensa sobre o ainda Presidente da República. Está a terminar um ciclo, um ciclo de 10 anos. Considera que Marcelo Rebelo de Sousa foi um bom Presidente da República?
Julgo que Marcelo Rebelo de Sousa, no seu primeiro mandato, foi um Presidente com o qual até me identifique. Neste segundo mandato, foi mais Marcelo e menos o Presidente. A grande maioria dos portugueses não se revê com esse tipo de postura. Tantas dissoluções do Parlamento seriam necessárias? Não. O Presidente tem que ser capaz de fazer pontes, fazer com que as instituições funcionem, sem utilizar as bombas atómicas. Dissolver o Parlamento é a última ratio regis.
Sugeriu que um Presidente da República não deve banalizar a instituição da Presidência da República.
Não, não deve.
Marcelo fê-lo?
Em determinados momentos. Quem quer desempenhar este tipo de funções tem que ter para si que a partir do momento em que é empossado Presidente da República tem que ser mais o Presidente e menos a pessoa. Isto é inevitável. É exatamente aquilo que acontece quando o militar veste uma farda.
Exige mais recato?
Julgo que sim. Não quer dizer que não se seja próximo das pessoas. Não quer dizer que os problemas das pessoas não o toquem. Mas deve ser um homem com algum recato, porque a função assim o exige. Ser Presidente é ser o representante de todos os portugueses. Deve-se ter uma postura exemplar.
“Emprestar o meu Porsche a Mortágua? Preferia Ventura”
Vamos avançar para a segunda parte do nosso programa, o bloco Carne ou Peixe, em que só pode escolher uma de duas opções. A quem ofereceria uma boa garrafa do whisky: a Luís Montenegro ou a José Luís Carneiro?
Luís Montenegro.
Com quem preferia fumar um charuto: Luís Marques Mendes ou António José Seguro?
António José Seguro.
A quem é que emprestava o seu Porsche: a André Ventura ou a Mariana Mortágua?
André Ventura.
Preferia passar uma tarde a falar sobre História com Rui Tavares ou a conversar em alemão com Rui Rio?
Preferia falar sobre História com Rui Tavares.
Major-general Isidro Morais Pereira pondera candidatura a Belém e pisca o olho ao Chega