O Chega viu-se traído pela fasquia elevada e pelo entusiasmo das legislativas. No rescaldo de uma noite eleitoral agridoce, ninguém assume que se tratou de uma derrota e fazem-se contas aos eleitos e à influência que o partido pode passar a ter em muitos municípios, alguns onde, além de PS e PSD, são os únicos com vereadores. Para evitar erros pelo país, Chega prepara task force para apoiar autarcas e tomar decisões sobre acordos ou negociações a nível local.
Quando André Ventura chegou ao Marriott para acompanhar a noite eleitoral, antes de começarem a ser conhecidos os resultados, já anunciava que o partido tinha vencido câmaras municipais e que isso significaria uma “grande vitória” para o Chega. No final da noite, assumiria que o Chega “não venceu” nas autárquicas, que “ficou aquém” e que “esta não era a vitória, nem a amplitude de vitória” com que sonhou. Separadas por poucas horas, as duas declarações refletiam o que se passou durante a noite: Ventura entrou confiante de que a abertura das urnas — que tantas vezes surpreenderam positivamente o Chega — trouxesse mais autarquias do que as projeções apontavam, mas a realidade estragou os planos.
Ao longo da noite instalou-se a surpresa e a desilusão em vários dirigentes e municípios que chegaram a ser dados como certos acabaram por nunca chegar. No quartel-general do Chega, foi-se acreditando que uma ou outra câmara podiam mesmo cair para o partido — algumas estiveram taco a taco até ao final — para ajudar a compor o quadro de presidentes de câmara eleitos. Porém, o número acabou por se fixar nas três câmaras. E se o número de autarcas próximo dos dois mil era motivo de festa, as câmaras deixavam muitíssimo a desejar. Mais ainda quando CDU e CDS ficaram à frente do Chega e quando o bipartidarismo autárquico segue de vento em pompa.
A falta do “tsunami” a que o Chega se habituou
“Não foi o tsunami e onda que estávamos à espera”, assume um alto dirigente do Chega, crente de que, ainda assim, está em causa um “resultado de expansão e de implementação” que conta com vereadores por todo o país e que isso não é de somenos. No partido, assume-se que o “entusiasmo” das eleições legislativas, em que o Chega ficou como segunda força política no Parlamento, ajudou a que se “subisse a fasquia” e houvesse uma esperança acrescida.
André Ventura chegou mesmo a dizer que um bom resultado seria o Chega conquistar metade dos municípios em que venceu nas legislativas, apontando para um número próximo das 30 câmaras municipais. Foram três. “Pusemos a fasquia muito alta. O resultado das legislativas induziu-nos em erro, permitiu-nos acreditar que seria um resultado melhor”, reconhece um deputado do partido, com outro a apontar que até os mais pessimistas apontavam para cenários à volta das 10 autarquias, desde logo porque Ventura andou de terra em terra a espalhar esperança, principalmente em locais do Algarve e Alentejo onde havia mais probabilidades de haver um resultado melhor. Albufeira foi o único motivo de vitória no Sul do país, com Rui Cristina a tornar-se presidente da Câmara.
“Não ganhámos tantas câmaras municipais e juntas de freguesia como desejávamos”, escreveu André Ventura na rede social X, acrescentando que, ainda assim, o Chega foi “o partido que mais cresceu nas autárquicas”. A comparação com o ponto de partida do Chega (quase 400 autarcas eleitos em 2021) é usada como escudo: “Contabilizando o que tínhamos antes e o que temos agora, sendo que somos um partido com seis anos, há que notar que ficámos implantados pelo país inteiro”, comenta um dirigente. E a ideia é replicada por vários elementos do núcleo duro de Ventura, com todos a reconhecerem que as câmaras em que o partido perdeu por pouco podiam ter ajudado Ventura a ter mais razões para reclamar um bom resultado.
Seja como for, num desabafo de quem não entende que se apelide a noite eleitoral como uma “meia-derrota”, resume-se o óbvio: “Não se pode ter 308 Andrés Venturas pelo país.” E a verdade é que as segundas linhas do partido foram levadas a votos e, apesar de em alguns sítios os resultados terem sido próximos aos das legislativas, não foram capazes de vencer autarquias. Exceção feita para Albufeira, com Rui Cristina.
Mais a mais, depois da contagem final, há até quem considere que “ter menos câmaras”, para já, até pode ser “mais seguro” para que o Chega consiga fazer um bom trabalho e dar nas vistas pela positiva, desde logo com um apoio mais constante aos autarcas, evitando os problemas com vereadores que marcaram os últimos quatro anos.
LUSA
Chega prepara task force para evitar erros
É nesse seguimento que o partido está a trabalhar numa “task force para acompanhar os autarcas eleitos e os presidentes das câmaras municipais e junta de freguesia”. Com o crescimento de 400 para quase dois mil autarcas — e tendo em conta que muitos “não têm a mais pequena experiência” do que é a política local — o partido quer uma espécie de “linha direta” de apoio constante para que falhe o mínimo possível.
Aliás, nas últimas semanas de campanha o líder do Chega foi enviando recados internos com pedidos de integridade e responsabilidade, a começar pelo combate à corrupção, a quem fosse eleito pelo Chega. E quando subiu ao púlpito, na noite eleitoral, como já tinha acontecido na campanha, atrás e à frente de Ventura destacava-se o slogan “Autarquias sem corrupção” — para que ninguém se esqueça.
Um dirigente do Chega explica que, desta vez, não há como ignorar a quantidade de autarcas pelo país e o impacto que podem ter, de forma positiva e negativa. “A maior parte dos autarcas não tem a mais pequena experiência em poder local”, realçou, frisando que precisam de orientação e que esse é o principal intuito do “organismo” que “centraliza o apoio”, haver uma “linha direta” entre eleitor, políticos mais experientes e técnicos preparados para o efeito.
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Um dos grandes dilemas estará na postura que os autarcas do Chega vão ter por todo o país. Há quatro anos, o partido chegou a retirar a confiança política a autarcas que aprovaram orçamentos municipais da CDU e até aceitaram pelouros, pelo que ficou estabelecida a regra de que não era permitidos acordos com o PS e os partidos à esquerda dos socialistas. Desta vez, ainda que o Chega possa ser uma peça-chave em várias autarquias pelo país, não há ninguém que antecipe a queda dessa regra.
No Explicador, do Observador, Pedro Pinto reiterou que “o Chega não está disponível para colaborar com o Partido Socialista”. “Nunca esteve desde a sua existência, nunca estará no futuro. As conversas com o PSD poderão existir ou não, depende bem daquilo que fez. Agora, há uma coisa que nós vamos meter sempre em primeiro lugar, é o interesse das populações, o interesse dos portugueses”, argumentou.
Em entrevista no Carpool do Observador, Rita Matias já tinha dado a entender o mesmo, realçando que “naturalmente” o partido não está disponível para dialogar com todos e apontando o socialismo como uma linha vermelha. Mais do que isso, a deputada que não venceu a Câmara de Sintra tinha referido que uma vitórias do Chega poderiam “servir de alavanca para outro tipo de acordos com partidos que queiram estar à mesa com partidos que queiram estar à mesa”. “Refiro-me naturalmente ao PSD e não vamos ceder por tuta e meia nem deixar esta questão fechada ao nível local, quando podemos fazer disto uma alavanca para mais reformas nacionais”, justificou a deputada.
Se assim for e os acordos com partidos à esquerda forem para esquecer, no dia a dia o Chega aplicará a regra da Assembleia da República: votar proposta a proposta, independentemente da cor da bancada que a apresenta.
A tal task force criada pelo Chega terá a missão de apoiar e encaminhar os autarcas para que não estejam expostos a tantos erros e, segundo um dirigente do Chega, já começaram a surgir conversas para possíveis apoios em diversos locais do país, pelo que haverá pressa em tomar decisões e não fazer o partido passar vergonhas. “Não podemos estar a retirar confiança porque votaram orçamentos, temos que antecipar e evitar esse tipo de erros”, explica um outro dirigente.
No final de mais uma noite eleitoral, o otimismo tramou o Chega e a fasquia, assume-se, foi colocada demasiado alta. Para a história ficam as três câmaras municipais conquistadas, as centenas de autarcas e a ambição desmedida que nunca se concretizou.