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FRANCISCO ROMÃO PEREIRA/OBSERVA

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Ventura, sem pressão, à espera de "passo" de Montenegro. Chega exclui "cheques em branco" e faz cálculos eleitorais às opções

Dirigentes do Chega fazem contas no day after, mas concordam que primeiro passo, caso o queira, terá de ser de Montenegro. Seja como for, entrada no governo até poderia prejudicar partido de Ventura.

“Eu queria deixar aqui a garantia de que seremos fator de estabilidade e não de instabilidade.” As palavras são de André Ventura, na entrevista ao Observador, no segundo dia oficial de campanha eleitoral. Muita aconteceu nos 15 dias seguintes, até porque o líder do Chega tinha assegurado que com Luís Montenegro “nunca é nunca” e que a falta de explicações do primeiro-ministro sobre a Spinumviva eram motivo mais do que suficiente para o Chega não se querer sentar à mesa com o social-democrata.

Porém, em plena noite eleitoral, André Ventura preferiu atirar a questões dos acordos para mais tarde — sem fechar a porta a Luís Montenegro. Até porque a responsabilidade dos votos pesa e o presidente do Chega sabe que o país só pode ter novas eleições daqui a um ano, pelo que complicar a vida a Montenegro pode não ser, pelo menos para já, a solução.

Seja como for, e depois de um “não é não” que foi levado ao limite, mesmo quando Ventura fez tudo para que AD e Chega aproveitassem a maioria no Parlamento (chegou a dizer que se humilhou), na cúpula do partido aguarda-se que os sociais-democratas mostrem ao que vêm. E jura-se que não haverá cheques em branco. De tal forma que há cálculos eleitorais à mistura.

Na ressaca da noite em que o Chega se colou ao PS (e ainda podem passar os socialistas em número de deputados devido ao círculo da emigração), diversos dirigentes foram assegurando em televisões e rádios que o partido não vira as costas à responsabilidade — puxando da memória das tentativas de Ventura em 2024 —, mas que isso jamais será uma passadeira vermelha para Montenegro. Além disso, considera-se que o primeiro passo terá sempre de ser do primeiro-ministro.

No programa Explicador, da Rádio Observador, Pedro Pinto garantiu que “o Chega estará à altura das responsabilidades”, mas vincou que “o PSD também tem de se definir e Luís Montenegro tem de perder a arrogância que demonstrou no discurso de vitória e tem de dizer a verdade aos portugueses”. Crente de que Portugal precisa de um “Governo humilde e transparente”, o secretário-geral do Chega realçou o facto de “Luís Montenegro durante a campanha eleitoral já não [ter tocado] no ‘não é não’”. Para Pinto, essa foi uma frase “infeliz” dita em 2024 e antecipa que deverá desaparecer com uma análise dos resultados eleitorais.

“O único governo estável possível é entre o PSD e o Chega”, realçou, já depois de André Ventura ter dito, na noite eleitoral, que “o Governo de Portugal depende do Chega e só do Chega”. Por outro lado, Pedro Pinto também recusa que tenha de ser o Chega a dar o primeiro passo, já que “o interesse é de Luís Montenegro” e que é o PSD que “não tem governo de maioria absoluta”. E acrescenta: “Nós estamos muito tranquilos. Luís Montenegro terá de dar o passo.”

Rita Matias é mais contida, desde logo por considerar que o Chega pode bem tirar proveito de uma situação em que Luís Montenegro tenha de governar sozinho. Não só reiterou que as “eleições não são banhos de ética” e que Montenegro “não está menos ferido”, como sublinhou que não tem visto um líder social-democrata com “mostras de menos arrogância”. Aliás, reiterou mesmo que no passado “a AD não esteve minimamente disponível para dialogar” em matérias fundamentais para o Chega.

Mais do que isso, a deputada do Chega notou que o partido conseguiu um “resultado reforçado depois de ter votado contra uma moção de confiança de Luís Montenegro”, argumentando que esses cidadãos não estão à espera que o partido passe “um cheque em branco” ao Governo de Luís Montenegro ou que haja uma “viabilização de um governo só porque sim”. Desta forma, Rita Matias salienta que “Luís Montenegro terá de vir para a mesa das negociações com mais humildade”.

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Apesar de transmitir que, “acima de tudo”, o Chega pretende ver as suas propostas avançar, Rita Matias explicou que é preciso perceber “se o governo está disponível para negociar ou não” porque, caso não aconteça, não restam “imensas opções”. Mais a mais, há contas a fazer no que ao futuro diz respeito, desde logo tendo em conta o governo minoritário e a possibilidade de haver eleições antecipadas.

Em primeiro lugar, Rita Matias considerou que “não é particularmente benéfico nem para o Chega nem para o país uma solução que passe por ter membros do Chega no Governo, a não ser que esteja muito bem escrito o que compete a cada um”. Por outro lado, a deputada, “com base em partidos da família política do Chega por toda a Europa”, recordou que esses partidos, “participando em governos sociais-democratas acabaram por sair penalizados eleitoralmente”. Aliás, Rita Matias levará mesmo esta leitura à reunião de direção quando André Ventura convocar os órgãos.

Tendo em conta as primeiras reações de dirigentes no day after, é preciso esperar que seja Luís Montenegro a dar o primeiro passo e, mesmo assim, há quem alerte que uma entrada no Governo poderia prejudicar o Chega a médio prazo, pelo que, no limite, Ventura até pode preferir negociar no Parlamento do que arriscar essa opção.

Assim sendo, aos olhos da dirigente, “recai muito mais sobre a AD a decisão de perceber se quer tomar o rumo de França e Alemanha de não negociação com estas forças ou como Itália onde as direitas conversam e conseguiram trazer estabilidade ao país”.

Durante a noite eleitoral, num painel na RTP, Pedro Santos Frazão salientou que o Chega tem “dúvidas e o pé atrás” com Luís Montenegro, justificando que isso acontece pela “arrogância por causa da falta de cumprimento das promessas eleitorais e por falta de humildade política ao não respeitar os resultados eleitorais do ano passado”.

Frazão não tem dúvidas de que é “responsabilidade de quem ganha eleições encontrar pontes de contacto para poder trazer uma solução de governabilidade e estabilidade para o país”, frisando que “o Chega sempre disse que queria” essa estabilidade e que “no ano passado André Ventura esteve “disponível para fazer um acordo de governo” e “nem exigiu pastas, apenas que fosse dito quais eram os nomes”.

“Estamos exatamente no mesmo sítio, mas neste momento, além da exigência que fizemos no ano passado, acresce que Luís Montenegro venha dar explicações ao país sobre os clientes da sua empresa e se não foram beneficiados na sua governação”, reiterou, frisando que se mantém a disponibilidade de “dar uma solução ao país porque é isso que é respeitar os resultados eleitorais”.

Em plena noite eleitoral, André Ventura considerou que Luís Montenegro tem de retirar “responsabilidades” do facto de ter tentado “tirar eleitorado” ao Chega em matéria de imigração e de, mesmo assim, Ventura ter conquistado 58 deputados (número que pode aumentar com os círculos da emigração).

Reiterou que o Chega “sempre foi e lutou por ser um garante de estabilidade”, que se “tornou um partido de governo e poder” e prometeu “honrar essa tradição”. Ventura salientou também que falou com o Presidente da República e ficaram de falar após as eleições e que ligou a Luís Montenegro. As perguntas sobre um possível entendimento valeram assobios e apupos da plateia aos jornalistas e Ventura voltou a chutar para canto: “É o dia de assinalar uma vitória histórica, teremos tempo para falar sobre governo e cenários.” Mas também não reiterou a tese de “nunca é nunca” a um acordo se fosse Montenegro o primeiro-ministro.

Tendo em conta as primeiras reações de dirigentes no day after, é preciso esperar que seja Luís Montenegro a dar o primeiro passo e, mesmo assim, há quem alerte que uma entrada no Governo poderia prejudicar o Chega a médio prazo, pelo que, no limite, Ventura até pode preferir negociar no Parlamento do que arriscar essa opção.

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Também na noite eleitoral, desafiado a dizer se mantém o “não é não” a André Ventura (questão que motivou assobios por parte dos simpatizantes e militantes da AD), Luís Montenegro deixou uma resposta relativamente ambígua. “Tudo faremos para assegurar essa estabilidade. Não me parece que haja outra solução de Governo do que aquela que emane da vontade popular. A todos competirá dar sequência àquela que foi a expressão livre e inequívoca. Já mostrámos que temos palavra e que cumprimos a nossa palavra. Dentro do cumprimento dos compromissos que assumi em nome da AD, tenho a certeza de que vai acabar por imperar o sentido de responsabilidade.” No entanto, ao Observador, elementos do núcleo duro de Montenegro garantem que nada mudou em relação ao Chega: não é mesmo não.

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