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Arquivo T&Q/ Global Notícias

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Vera Lagoa, a provocadora da esquerda e da direita /premium

Passou de primeira locutora da RTP a arqui-inimiga dos revolucionários de Abril. Escreveu muito, sofreu ataques à bomba e nunca perdoou os inimigos. Morreu há 24 anos. Ensaio de Nuno Gonçalo Poças.

Em 1992, numa das emissões do programa Raios e Coriscos, que juntou Vasco Pulido Valente, Herman José, Zita Seabra, Paulo Portas, Adolfo Luxúria Canibal e Vera Lagoa a Manuela Moura Guedes, o vocalista dos Mão Morta, na altura advogado estagiário, dizia que aguardava o cartão da Ordem dos Advogados depois de feita a sua agregação, e Vera Lagoa perguntava-lhe se continuaria a ser provocador depois de ter o tal cartão, afirmando-se ela própria uma “provocadora reformada”. Vera Lagoa não viveria muitos mais anos – morreu em 19 de Agosto de 1996 – e, reformada ou não, a verdade é que daquele programa até ao fim da sua vida não teve muito mais tempo para provocar. Mas o seu passado falava por si. Vera Lagoa podia estar reformada da provocação em 1992, mas estava numa reforma merecida. E que o País não deve esquecer.

Uma mulher com excesso de personalidade

Maria Armanda Falcão nasceu em Moçambique, no dia de Natal de 1917, filha do major Pires Falcão, um dos militares envolvidos na revolta da Madeira de 1931, naquela ilha deportado (e posteriormente exilado em Cabo Verde). Pires Falcão tinha ajudado a implantar a República, conheceu o exílio depois do 28 de Maio de 1926, e Maria Armanda Falcão, quando já assinava sob o nome Vera Lagoa, escreve no livro “A Cambada”: “Com meu pai e minha mãe conheci, desde menina e moça, os caminhos da deportação. Com honra e orgulho comemos o pão que o diabo amassou”.

Já antes do jornalismo Maria Armanda se tinha tornado uma figura incontornável dos salões lisboetas, levada pela mão de Natália Correia. Mas é a partir de 1956, com as primeiras emissões da RTP, onde foi a primeira locutora feminina, e, depois, com o concurso da Miss Portugal, que se torna uma figura conhecida do público português. Com a sua saída da RTP, de onde foi dispensada por excesso de personalidade, inicia, já tarde, em 1966, uma carreira pioneira e de sucesso na crónica social através do Diário Popular, onde ganhou fama a zurzir os filhos das elites do regime (com especial dedicação à filha de Américo Tomás), tendo também passado pelo Diário Ilustrado, numa redacção que contava com Miguel Urbano Rodrigues, Dinis Machado e José Manuel Tengarrinha (fundador do futuro MDP/CDE, com quem Maria Armanda casou e de quem se divorciou). Era esse o tempo da Vera Lagoa das “Bisbilhotices”.

É, pois, nos jornais que Maria Armanda dá lugar a Vera Lagoa – Vera pelo desejo de ser verdadeira, Lagoa por causa da marca de vinho que bebia quando foi criado o pseudónimo. Foram os anos do jornalismo de Vera no Estado Novo, que a mesma descreveu assim: “A democracia, a justiça social, o combate à corrupção e à mediocridade foram, sempre, os meus lemas. Diariamente sentia o lápis azul da censura”. Acabaria por deixar o Diário Popular já depois do 25 de Abril de 1974, como contou à revista Eva, numa edição do Natal de 1977, quando quiseram que abandonasse o seu pseudónimo e voltasse a ser Maria Armanda Falcão. Vera conta a história, e provoca: “Aconteceu, simplesmente, isto: um grupo de colegas do Diário Popular – revolucionários de última hora – entendeu que Vera Lagoa era um pseudónimo fascista e resolveu jogar com o meu nome, lembrando-se, provavelmente, do meu passado. Sou filha de um deportado político, fui secretária do Humberto Delgado, e acharam conveniente e oportuno aproveitar o meu verdadeiro nome. E embora continuasse a assinar Vera Lagoa, o que aparecia no jornal era Maria Armanda Falcão. Mas fizeram mais. Sempre que nas minhas crónicas pretendia explicar ao público os motivos da alteração, o esclarecimento não saía. Foi isso, além de outras coisas semelhantes, que me levou a deixar o Diário Popular, sem qualquer explicação. [Com um sorriso] Naturalmente, como não me despedi, ainda continuo a pertencer aos quadros do jornal…”.

Vera Lagoa começou em 1966 uma carreira pioneira e de sucesso na crónica social através do Diário Popular, onde ganhou fama a zurzir os filhos das elites do regime (com especial dedicação à filha de Américo Tomás), tendo também passado pelo Diário Ilustrado, numa redacção que contava com José Manuel Tengarrinha (fundador do futuro MDP/CDE, com quem Maria Armanda casou e de quem se divorciou). Era esse o tempo das "Bisbilhotices".

Seria Vera Lagoa, a mulher com excesso de personalidade, uma figura de proa do feminismo português? Como nota Maria Manuela Paiva Fernandes Tavares, na sua tese de doutoramento em Estudos sobre as Mulheres, Especialidade em Histórias das Mulheres e do Género, pela Universidade Aberta, existiu um contínuo crescimento das mulheres nas redacções dos jornais portugueses a partir de 1972, mas sobretudo a partir de 1974. Neste ano da revolução, havia 10 mulheres jornalistas nas redacções, num total de 26 na imprensa diária. Maria Armanda Falcão era uma delas. Como refere a autora da tese, a imprensa escrita reservava um escasso espaço aos artigos elaborados por mulheres. Mas Vera Lagoa dirigia jornais. Era uma mulher perseguida pelo novo poder instituído, já tinha sido uma mulher indesejada pelo poder destituído, foi vítima de atentados bombistas, de centenas de processos judiciais, mas era – e isto parece-me indiscutível – uma mulher de uma determinação e de uma coragem inigualáveis. Hoje, Vera Lagoa seria um exemplo de feminismo. Em 1977, na já referida entrevista à revista Eva, Vera explicava: “Não [sou feminista]. Acho absolutamente ridículo ser feminista, porque me considero uma mulher realizada. Trabalho desde muito nova e sempre tive direitos e deveres iguais aos dos homens. O feminismo, em minha opinião, é uma luta de mulheres frustradas que pretendem uma igualdade que nunca atingiram… (…) Aliás, a atitude da mulher portuguesa, de uma maneira geral, deve ser interpretada como heróica. Como directora de um jornal, ganho bem a minha vida, mas conheço as situações de mulheres cujo dinheiro não lhes chega para viver… As mulheres – da pequena empregada à dona de casa – têm uma existência dificílima, o mesmo acontecendo com os homens, cujas vidas não são melhores… (…) Os problemas que se deparam a todos nós, são de subsistência, como de subsistência é o problema deste país”.

Vera Lagoa era, acima de tudo, patriota e preocupada com o destino do país e dos portugueses comuns. Liderou manifestações patrióticas que mobilizaram dezenas de milhar de pessoas, como fez nas marchas do 1.º de Dezembro, numa altura em que só os revolucionários saíam à rua. Aos olhos da linguagem moderna, sim, Vera Lagoa foi feminista – emancipada, independente, livre, auto-suficiente, poderosa. Nos anos 70, talvez essa discussão não fizesse realmente sentido numa cabeça como a de Vera Lagoa, a mulher com excesso de personalidade que o feminismo actual não tem feito por recordar.

O Gomes de Chaves e o início de uma carreira no banco dos réus

Vera Lagoa tinha, à data da Revolução de Abril, um passado de resistência ao Estado Novo: tinha sido secretária do general Humberto Delgado na campanha eleitoral de 1958, fez parte da comissão feminina da sua candidatura (com Natália Correia, Maria Barroso e outras), acolheu em sua casa muitos presos políticos libertados, organizou inúmeras recolhas de fundos para ajudar comunistas na clandestinidade, defendeu a democracia. E pôde até usar esse passado como trunfo em 1976, numa altura em que já se encontrava profundamente desiludida com o rumo que o país tinha tomado no PREC, depois de ter visto o 25 de Abril como um dos sonhos da sua vida, quando Proença de Carvalho, seu advogado, fez as suas alegações (publicadas na edição de 2 de Julho de 1976 do semanário O País) num processo judicial que lhe havia sido intentado pelo então Presidente da República, o general Costa Gomes: “A cidadã Maria Armanda Falcão não pactuara com o fascismo; não exercera qualquer cargo público; não pertencera à PIDE ou à Legião, nem fora condecorada ou distinguida por essas instituições. O cidadão Francisco da Costa Gomes, ao invés, fora membro do Governo de Salazar; desempenhara o cargo de Chefe do Estado Maior das forças coloniais que se batiam em Angola; era o Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas quando Tomás exercia o cargo de Presidente da República e Marcelo Caetano o de primeiro-ministro. Recebera o crachá de oiro da PIDE; elogiara publicamente, em discursos publicados, as tropas da DGS e o director desta sinistra organização em Angola. Não se pode dizer que o seu passado fosse propriamente o de um antifascista”.

Este processo, com origem na publicação de uma crónica que Vera Lagoa terminava com uma provocação que tinha tanto de pueril como de cruel, foi amplamente noticiado na época e envolveu inúmeras figuras do novo regime democrático. Maria Armanda tinha, então, escrito: “O senhor não tem vergonha de ter mantido quase dois anos os “pides” sem julgamento, na cadeia, depois de ter recebido ‘pelos serviços prestados’ um crachá de ouro da PIDE? O senhor não tem vergonha de, tendo pertencido à Legião, ter consentido que fossem presos e afastados dos seus lugares homens cujo crime foi o de terem há longos anos pertencido à mesma organização? O senhor não se recorda daquela arma que lhe foi oferecida numa cerimónia, arma que, dizia o discurso de quem lha ofereceu, ‘tinha abatido muitos terroristas’? (…) Para terminar, venho dizer-lhe que não se admire de não lhe chamar Presidente da República. Não o chamo, porque não o considero como tal. O senhor não foi eleito pelo povo, que tem desprezado e à custa de quem se tem rido (lembro o sorriso de Belém). O senhor está nesse cargo devido a um golpe de Estado. O senhor chama-se apenas Costa Gomes, tem demitido e mandado prender os seus amigos, tem-nos achincalhado no mundo inteiro, consentiu que o gonçalvismo destruísse Portugal e, acima de tudo, tem um defeito muito grande, que não lhe perdoo. Sabe o que é? O senhor é muito feio”.

Vera Lagoa foi recordista de julgamentos, sempre denunciada pelo poder vigente no PREC, quase sempre absolvida pelos tribunais. Num desses processos teve oportunidade de prestar declarações no final do julgamento, que O País publicou em Julho de 1976: “Tenho de me dirigir ao senhor delegado do Ministério Público que acaba de afirmar: ‘Que faz correr Vera Lagoa? Não é a política. É a sátira’. Pois o senhor delegado não sabe o que me faz correr. O que me faz correr é a justiça. (…) Os responsáveis de todos esses crimes, dos crimes da descolonização, dos roubos de armas, das prisões em massa andam todos à solta. Eu sei que posso estar a prejudicar a minha causa neste tribunal. Mas não estou aqui para me defender. Estou para acusar. Exijo a presença neste banco de réus do senhor Diniz de Almeida, mais conhecido pelo ‘Fittipaldi dos Chaimites’, do senhor Otelo Saraiva de Carvalho, essa ridícula figura, do denunciante, sim porque me denunciou junto dos tribunais, Rosa Coutinho entre outros, e inclusivamente do senhor general Costa Gomes. Poderei ir para a cadeia. Mas vou de cabeça levantada”.

Vera Lagoa foi levada a tribunal pelo Presidente da República, Costa Gomes, por causa de uma crónica que terminava com uma provocação que tinha tanto de pueril como de cruel: "Acima de tudo, tem um defeito muito grande, que não lhe perdoo. Sabe o que é? O senhor é muito feio".

Num outro, anterior, Maria Armanda Falcão/Vera Lagoa acabou absolvida pelo “exemplar magistrado”, como descreve a Vida Mundial, dirigida por Natália Correia, na edição de 27 de Maio de 1976, “que não só absolveu Vera Lagoa como a exortou, em considerações finais, a continuar a pôr a sua pena ao serviço da liberdade e da independência do País”. Mesmo Manuel Alegre, que foi inúmeras vezes criticado por Vera Lagoa, a defendeu em tribunal, reforçando a liberdade de imprensa e a ameaça de uma nova ditadura que pairava em Portugal.

Vera Lagoa, democrata, vive a revolução com entusiasmo, mas depressa se apercebe dos esforços políticos por uma nova forma de totalitarismo e acompanha, com a fundação em Fevereiro de 1976 do semanário O Diabo, o esforço jornalístico da direita, que já tinha lançado O Tempo, O Dia e O País. O Diabo durou pouco tempo: a publicação do artigo “O Senhor Gomes de Chaves” valeu-lhe a suspensão do jornal pelo Conselho da Revolução. Vera Lagoa abre, então, o Sol, que acabou silenciado à bomba, num ataque que lhe valeu complicações graves de saúde e que nunca foi sequer investigado, nem deu origem a qualquer inquérito. “Uma hora da tarde. Sentada na minha mesa de trabalho, escrevo um artigo: ‘Moçambique, meu amor’. Estremece o gabinete, bocados de madeira atingem-me, o barulho é tremendo. Uma explosão? Penso imediatamente que sim. Mas explosão de uma bomba? Não. Não me passou pela ideia. Então onde está a brandura dos nossos costumes? É evidente que sabia, desde a célebre (e ‘honrosa’) reunião do Conselho da Revolução, que alguns, ou mais precisamente um conselheiro, tinha declarado: ‘Vamos lá rebentar com aquilo tudo’. (…) Pois, ‘aquilo tudo foi quase rebentado’. Ou antes, foi rebentado. Mas nós não morremos. Eu não morri. E se era para me calar, a bomba não servia de nada (…) Depois do 25 de Abril, tenho pago a minha coragem com bombas”.

Vera acabaria por ganhar o tal processo judicial movido pelo então Presidente da República e O Diabo voltaria às bancas, com imensa popularidade junto dos leitores (atingindo os 120 mil exemplares semanais) já em Janeiro de 1977, a partir do Porto, o “baluarte da liberdade”: “Ali, pensava eu e penso, as suspensões seriam mais difíceis, as bombas também (embora as ameaças tenham fervido), o clima mais propício à luta pela liberdade de Portugal aprisionado pelos oportunistas. No Porto, foi mais fácil sobreviver. O carinho que desde a primeira hora nos rodeou, a oferta de instalações (coisa impossível em Lisboa), a colaboração desinteressada de todos, os amigos que se criaram, a liberdade, a independência do Norte”.

Ao seu lado estiveram muitas vezes nomes como os de Maria de Jesus Barroso ou Vitorino Nemésio, que chegou a afirmar em tribunal que "a acusada, ao escrever neste estilo, tem contribuído, no momento presente, para a clarificação da conjuntura política e social, exercendo por esse facto uma função social muito útil”

Enquanto O Diabo esteve censurado e o Sol bombardeado, Vera Lagoa abrigou-se n’O País, dirigindo-o com José Vacondeus durante oito meses. É ali que Vera se vai defendendo, expondo as fragilidades do processo revolucionário, criticando os próprios revolucionários, perdendo amigos, ganhando inimizades várias e admiração em superior número junto dos leitores. Vera Lagoa foi levada a tribunal mais de 200 vezes por crimes relacionados com a liberdade de imprensa — “Ou é por dizer que o Melo Antunes se parece com o Cabrita Neto (!) ou é por dizer que o Alegre não tem profissão. Ou é por isto ou por aquilo…”. Foi até julgada na mesma sala de audiências onde, antes do 25 de Abril, foram julgados inúmeros opositores ao Estado Novo, mas nunca desistiu de exercer os seus direitos e liberdades, não se deixou intimidar e demonstrou até uma coragem física e moral que ainda hoje impressionam. Ao seu lado estiveram muitas vezes nomes como os de Maria de Jesus Barroso ou Vitorino Nemésio, que chegou a afirmar em tribunal que “a acusada, ao escrever neste estilo, tem contribuído, no momento presente, para a clarificação da conjuntura política e social, exercendo por esse facto uma função social muito útil”.

Os revolucionários que Vera conheceu — os ajustes de contas

Na edição de 30 de Julho de 1976 d’O País é anunciado, na primeira página, o início de uma série de crónicas de Vera Lagoa, que viriam a ser compiladas em livro, sobre os revolucionários que conheceu. Segundo o anúncio, não se trataria “de uma série caracterizada pela denúncia”: “Não é propósito da autora do trabalho fazer ataques pessoais com objectivos destrutivos. Muito pelo contrário, a intenção primária que orientou aquilo que, há já vários meses, foi anunciado como tratando-se de uma compilação de uma experiência vivida durante vários anos de actividade antifascista de Vera Lagoa, de convívio directo e diário com muitos dos verdadeiros elementos que lutaram no passado contra um sistema político de opressão, essa intenção é apenas a de desmistificar certas figuras que, apressadamente, se preocuparam em pretender mostrar que o seu ‘revolucionarismo’ é uma posição de sempre, que as suas atitudes ‘progressivas’ de hoje as foram de toda a vida. O fim a atingir, por isso, é amplamente construtivo. Ficará, desta forma, separado o trigo do joio. Saber-se-á quem são aqueles que hoje proclamam, com o mais escandaloso sentido de oportunidade, as suas ideias ditas democráticas mas que ontem não deixaram de se aproveitar e de tirar partido de uma situação que lhes proporcionou muitas vantagens e enormes comodidades. Aquelas ‘benesses’ que outros, os verdadeiros e autênticos progressistas, nunca disfrutaram. E a quem, por esse motivo, presta Vera Lagoa a sua homenagem”.

Na edição de 25 de Junho de 1976, o jornal lançara as crónicas e atirou a matar: “E como não sofremos de complexos de esquerda, nem no nosso passado consta algo que nos possa ser apontado de subserviência ou até de conivência com o regime anterior, estamos perfeitamente à vontade para, quando algum energúmeno tiver o desplante de nos pretender atingir com a sua venenosa calúnia, ir ‘abrindo’ o saco das surpresas, ir dando conta – e provando – os antecedentes dos que pretendam acusar de falta de espírito de democracia ou de outra coisa pior”. Como se verá, e explicará a própria Vera Lagoa na sua crónica sobre Sttau Monteiro, o que a indignava era a famosa superioridade moral dos comunistas, sobretudo dos recém-autoproclamados revolucionários que, afinal, segundo a própria, tinham, como todos temos, as suas contradições, os seus exageros, as suas falhas. Vera Lagoa não perdoava esses “revolucionários”: “Os revolucionários que tive a oportunidade de conhecer durante a chamada ‘longa noite fascista’. ‘Noite fascista’ que não me beneficiou, mas beneficiou – e muito – os ‘revolucionários’ a que me refiro. Não me move o simples desejo de coscuvilhar a vida de cada um destes homens, mas sim a vontade firme de ajudar a revolução mostrando esses ‘revolucionários’ de pacotilha na sua verdadeira dimensão”.

Na verdade, Vera Lagoa sempre disse o que pensava e, tanto quanto é possível verificar, muitas vezes fiel aos factos. Por exemplo, quando se indignou com a candidatura presidencial de Otelo Saraiva de Carvalho, que Vera Lagoa tratava como “o ex-chefe da nova PIDE, o ex-legionário, o ex-censor, o ex-empregado de empresas capitalistas”, relembrando, por exemplo, que o “Che Guevara da Europa” tinha sido, apenas uns anos antes, instrutor da Legião Portuguesa, e que naqueles anos era tratado como um herói da revolução; que, enquanto Vera Lagoa acolhia presos políticos em sua casa, Otelo dava instrução aos legionários – e Vera era agora tratada como fascista pela nova nomenclatura e Otelo, enfim, era o herói da revolução, promovido a brigadeiro. Esta série dedicada aos revolucionários é, na verdade, um grito de revolta por esta nova condição de segregada — um ajuste de contas.

As crónicas foram transformadas num: "Os revolucionários que tive a oportunidade de conhecer durante a chamada 'longa noite fascista'. 'Noite fascista' que não me beneficiou, mas beneficiou – e muito – os 'revolucionários' a que me refiro. Não me move o simples desejo de coscuvilhar a vida de cada um destes homens, mas sim a vontade firme de ajudar a revolução mostrando esses 'revolucionários' de pacotilha na sua verdadeira dimensão".

Urbano Tavares Rodrigues. É nessa mesma edição de 25 de Junho que, enaltecendo o escritor Urbano Tavares Rodrigues, tratando-o como “camarada que sempre prezámos como profissional”, as páginas d’O País começam. Urbano Tavares Rodrigues tinha escrito n’O Jornal que O País era uma publicação fascista ou fascizante. Foi na edição de 4 de Junho de O Jornal que Urbano escreveu: “Em vão buscaríamos a cor política exacta de jornais como O Dia, O País ou O Tempo. São CDS? São PPD? São essencialmente fascistas ou fascizantes. Reconhece-se no Expresso a linha do PPD. Mas seria já mais difícil determinar a ideologia de certos jornais de escândalo como O Diabo ou O Sol, ambos já falecidos, O Templário, etc. Acham-se, fora de dúvida, em estado permanente de epilepsia anticomunista. Os seus alvos preferidos – reportamo-nos à generalidade dessas folhas de direita – são agora a reforma agrária, o controlo operário, as nacionalizações, isto é, as grandes conquistas da Revolução (…)”.

José Vacondeus e Vera Lagoa não gostaram e publicaram uma fotografia de um exemplar de “Santiago de Compostela”, obra de 1949 de Urbano, com uma dedicatória especial: “Ao Sr. Dr. Manuel Múrias ilustre director do Diário da Manhã com muita admiração pela sua cultura e pelas suas brilhantes qualidades literárias”. Manuel Múrias tinha sido, de facto, licenciado em filologia românica pela Universidade de Lisboa e professor efectivo da Escola do Magistério Primário de Lisboa. Mas era também um integralista, antigo membro do Movimento Nacional Sindicalista, líder dos Camisas Azuis, apoiante de Salazar e deputado à Assembleia Nacional do Estado Novo. Urbano, que lhe tinha feito aquela dedicatória, chamou fascista ao jornal de Vera Lagoa. E esta, na edição de 27 de Agosto de 1976, voltou à carga sobre Urbano. “Fui muito amiga de teu pai, que hoje choraria por te ver nesta coluna de falsos revolucionários. Mas não te posso poupar. (…) Para um vulto hoje lutador pela independência dos povos colonizados, um homem tão perseguido pela PIDE, um homem que tanto sofreu com os rigores do antigo regime, deves confessar que o teu entusiasmo pela colonização da Índia te deixa ficar um pouco mal. (…) Só quero mostrar que foste sempre assim. Bem com uns e com outros. Indignado nas reuniões de escritores e afável e ternurento quando encontravas na rua as pessoas a quem os escritores não falavam. Duas caras, Urbano. Violeta roxa… e branca, no mesmo pé. Foste sempre um homem protegido. Colaboraste assiduamente no SNI e, não quero jurar, mas julgo que recebeste mesmo um prémio da dita organização”.

Artur Ramos. Foi o primeiro realizador da RTP, encenador de teatro e fundador de duas companhias teatrais, é reconhecido como um dos maiores divulgadores culturais de Portugal, tendo até sido agraciado com a Ordem do Mérito pelo Presidente Jorge Sampaio. Quando faleceu, em 2006, o PCP lembrou o antigo dirigente do Sector de Artes e Letras do Sector Intelectual da Organização Regional de Lisboa, antigo colaborador da Secção Internacional do PCP e activista de estruturas unitárias de solidariedade internacionalista, sendo, à data, militante no Sector das Artes e Espectáculo da ORL do PCP.

Em 17 de Dezembro de 1976, porém, Vera Lagoa descreveu também Artur Ramos como um dos revolucionários que ela tinha conhecido – ou seja, mais um dos que, achando-se moralmente superiores, educavam agora o povo, escondendo as suas fragilidades. “Como poderiam esses reaccionários empedernidos compreender a grandeza do sacrifício do camarada Ramos, obrigado, durante esse meio século, a frequentar os restaurantes mais caros, mais impudicamente capitalistas, as boîtes mais decadentes, a utilizar-se da força de trabalho do chauffeur que lhe tripulava os seus dois carros? Obrigado a usufruir a sua bela casa do Estoril e, acima de tudo, forçado à pena suprema de ter de conviver e confraternizar com os burgueses reaccionários deste País e altas personalidades da hierarquia fascista do regime derrubado? Sim, um militante comunista ver-se obrigado a viver dessa maneira, praticamente numa clandestinidade ao contrário – uma clandestinidade de luxo – é demasiado sofrimento. (…) Outro período amargo para Artur, eram as férias. Lá ia ele para o Alvor, obrigado a dançar todas as noites no Papagaio, a beber whisky, a conviver com o António Mascarenhas, o Mané Sousa Lobo, etc., etc. Os mesmos que diziam de si próprios, ser ‘a fina flor do reaccionarismo português’. Pois eram e o Artur lá estava, sempre, sempre obrigado pelo Partido a convidá-los para casa, a fazê-los beber whisky à barba longa e a ter, ele próprio, de beber também. Mas, se a presença física de Artur ali estava, o Partido sabia que o seu espírito voava para longe, entrando nos tugúrios do povo mais explorado e miserável. Sempre, sempre, ao lado do Povo, o camarada Ramos. Em espírito. O que deves ter sofrido, Artur! (…) Muitas e mais enlouquecedoras ainda foram as provações de Artur. Aquela de o Partido o ter obrigado a ir ao SNI buscar o prémio que o organismo mais representativo da intelligentsia fascista lhe conferira, foi de arrombar um homem. De causar calafrios ao mais duro clandestino. Pois foi em 1971. O que valia é que a libertação estava próxima e ele iria poder devolver o prémio. O ter de aceitar o galardão fascista e ir ele próprio buscá-lo, era o Partido a pô-lo à prova. Prova que Artur venceu, corajosamente, impolutamente, mais uma vez. O que deves ter sofrido, Artur!”

Miguel Urbano Rodrigues. Irmão de Urbano Tavares Rodrigues, Miguel foi também escritor e jornalista, chefe de redacção do Diário Ilustrado (onde trabalhou com Vera Lagoa), colaborou com o Estado de São Paulo e com a revista Visão enquanto esteve exilado no Brasil e, já regressado a Portugal, foi chefe de redacção do Avante!, director do Diário, professor universitário e deputado à Assembleia da República eleito pelo PCP já nos anos 90 do século passado.

Vera Lagoa, na edição de 5 de Novembro de 1976, tratava-o como um traidor capaz de silenciar os outros à bomba – e ela própria, no fim do texto, anunciava ficar à espera da dita bomba. “Trata-se, com efeito, de um personagem que, nos tempos do salazarismo, foi funcionário da Agência Geral do Ultramar, órgão encarregado da propaganda do salazarismo português, e do Secretariado Nacional de Informação, como também chefe de redacção do Diário Ilustrado de Lisboa, cargo que não poderia ter exercido sem o placet da PIDE salazarista. Vindo depois para o Brasil, o citado personagem resolveu fazer-se passar por exilado, embora não o fosse, e, começando suas actividades entre nós como anticomunista, nas colunas de um jornal da colónia portuguesa, logo resolveu compensar os fiéis serviços prestados ao salazarismo com um incontrolável furor revolucionário esquerdista. (…) Depois do 25 de Abril, resolveu voltar para Portugal, mas deixou o Brasil com mais um exemplo de suas oscilações ideológicas: uma semana antes da queda de Marcelo Caetano assinou um manifesto aparecido nas colunas de O Estado de S. Paulo, no qual acusava o general Spínola de ser comunista e cúmplice do assassinato de Amílcar Cabral, apenas uma semana depois, com o general já no poder, assinou um novo manifesto hipotecando-lhe total solidariedade. Seria supérfluo dizer que agora considera novamente Spínola um traidor”.

Teixeira Ribeiro. Professor de Direito na Universidade de Coimbra, Teixeira Ribeiro foi também vice-primeiro-ministro de Vasco Gonçalves no V Governo Provisório durante um mês e uma semana, prefaciou os discursos do seu antigo primeiro-ministro, que Vera Lagoa retratou na edição de 8 de Outubro de 1976 como “uma peça fundamental da antologia do humor negro de que está recheada a história do nosso PREC”. Vera retrata o professor como um socialista moderado feito gato-sapato pelo PCP, antes um fervoroso corporativista, alguém que viu o cargo de ministro fugir-lhe sempre durante o Estado Novo e que o viria a alcançar no pós-revolução. “Comunista ou não, Teixeira Ribeiro é, hoje, um instrumento objectivo do PC, como o foi de Salazar”. E contava uma história de Coimbra: “Quando tomou posse do seu lugar, no V Governo, alguns órfãos da imprensa estrangeira, referindo-se ao facto, chamaram-lhe ‘o novo Salazar’. Que ele o admirava, já está dito e provado. Que ele o citava, a propósito e a despropósito, veremos a seguir. Um dia puniu com falta colectiva por ter chegado à aula muito atrasado (ele, que nunca se atrasava) e já não encontrar ninguém. Quando os alunos lhe explicaram que tinham esperado os dez minutos da praxe, os dez minutos que ele sempre concedera, o mestre respondeu: ‘Os senhores têm a sorte de não serem alunos do professor Salazar, porque esse não dava os dez minutos que eu dou. À hora exacta estava à entrada da porta. Quem não estivesse, não estava’. A isso respondeu-lhe o aluno Homem Ferreira: ‘O senhor doutor sabe o que aconteceu ao professor Salazar por causa disso?’ Teixeira Ribeiro: ‘Não sei, nem me consta nada’. E o outro, rápido: ‘Foi parar à Presidência do Conselho”'”.

João de Freitas Branco. Filho do maestro Luís Freitas Branco, foi musicólogo, professor, director do Teatro Nacional de São Carlos entre 1970 e 1974, director-geral dos Assuntos Culturais em 1974 e Secretário de Estado da Cultura já no PREC, até 1975. Na edição de 1 de Outubro de 1976, Vera Lagoa recorda uma fotografia em que João Freitas Branco recebe, sorridente, uma condecoração das mãos de Américo Tomás, e descreve-o como um neo-revolucionário surgido subitamente com o 25 de Abril — “tão rapidamente que até ele próprio se devia ter admirado”. Vera Lagoa lembra a sua nomeação, durante o Estado Novo, para director do Teatro Nacional de São Carlos, e o tipo de declaração exigida a quem ocupasse cargos semelhantes (de recusa de ideias subversivas e comunistas), relembrando também que Lopes Graça se recusou sempre a desempenhar esse papel, ao contrário de Freitas Branco. Alude também a um alegado almoço que Freitas Branco teve com o almirante Henrique Tenreiro (figura relevante da marinha e das pescas do Estado Novo) na véspera do 25 de Abril para concluir que o novo revolucionário foi apanhado desprevenido pela própria revolução. E acusa o neo-revolucionário de oferecer o lugar de director do São Carlos a um primo: “O que sei é que é seu primo e foi por ele indicado. Então os lugares, quando deixam de ser vitalícios (por promoção do beneficiado) passam a ser hereditários?”.

Luís de Sttau Monteiro. É um dos nomes mais conhecidos das novas gerações, que leram o seu “Felizmente há luar” nos bancos de escola. Vera Lagoa retrata-o na edição de 24 de Setembro de 1976 d’O País como um homem bonito, muito inteligente, muitíssimo mentiroso e mais um amigo com quem tinha de cortar. Vera e Sttau conheceram-se, segundo a crónica da primeira, em 1961, por altura da candidatura de Varela Gomes, e conhecera-o como homem de esquerda, mas não comunista. “Devo explicar que os pêcês só passaram a horrorizar-me muito recentemente. E não todos. Os que sempre o foram sinceramente, os que (como tantos que eu conheci) correram risco de vida por serem comunistas, por esses eu tenho o maior respeito. Perco-o evidentemente se me quiserem anexar à URSS”. Vera Lagoa retrata Sttau Monteiro como alguém que mente acerca de tudo e de nada, desde o seu passado de preso político à sua moral, do seu sofrimento às mãos da censura do Estado Novo até à própria autoria de “Felizmente há luar”. Vejam-se dois excertos exemplificativos.

“Escreveras ‘Felizmente há luar’. Sim. Uma peça de grande sucesso, que o José Tengarrinha já começara a escrever na cadeia, cuja ideia dera uma noite ao Cardoso Pires e que este te contara. Era o momento. O outro estava preso e tu escrevias mais depressa. Assim o fizeste. Tenho em meu poder os originais que o José Manuel me enviava directamente do Aljube, nas cartas que me escrevia. Confessa que para um puro PC, esta é demais. Adiante.”

“Foi assim, meu ‘adorável mentiroso’, que passaste a preso político, que estiveste no Aljube e depois em Caxias, que chegaste magro, com a Maria, e de copo na mão, a tremer, a minha casa, para me contares o teu sofrimento. As tuas aldrabices. A forma como vocês em Caxias ouviam a Rádio Moscovo, a maneira como as presas políticas cosiam a tua roupa (que mentira, Luís!), etc., etc., etc. Mas o pior, o mais feio da tua parte e que me custou mais a perdoar-te, foi o facto de teres saído da prisão, teres ido morar para casa da Maria (que continuava virgem, evidentemente) e não avisares a família. No dia da visita, tua mulher ouviu da boca da PIDE a declaração de que tu já lá não estavas há uns dias. Confessa que foi forte. Mas nós não temos nada com isso. Com o que temos é que um comunista tem de ser forçosamente um homem cheio de moral. Não é?”

Luís Sttau Monteiro, o escritor de “Felizmente há luar”, cuja originalidade Vera Lagoa tinha posto em causa, nega todas as acusações. Sobre o famoso livro, escreve: "A verdade é que nunca falei sobre as ideias do José Manuel Tengarrinha com o Cardoso Pires. A verdade é que não preciso, para nada, das ideias do meu Amigo José Manuel Tengarrinha, que não tem nada a ver com as tuas histórias".

Ary dos Santos. É um dos nomes mais populares desta lista de revolucionários escolhidos por Vera Lagoa, e, com Urbano Tavares Rodrigues e Artur Ramos, também um dos condecorados pelo regime democrático, Ary já a título póstumo. Poeta e letrista genial, o descendente da aristocracia tornou-se militante comunista. É dele a expressão “as portas que Abril abriu”. Vera Lagoa dedicou-lhe uma página na edição de 26 de Agosto de 1976 d’O País, descrevendo-o como “um oportunista com talento”. “Não será filiado, mas age como se o fosse. E, assim, sou forçada a vir contar que em Paris, neste mesmo ano de 1976, Ary dos Santos declarou a pessoas amigas: ‘Nunca ganhei tanto dinheiro como agora. Que querem? Sou um oportunista e não me importo de o dizer’. São estas as convicções políticas de um homem que não precisava de tomar certas atitudes, pois todos o conheciam antes do 25 de Abril (quando se abriram as portas…) e sabiam que ele era um artista irreverente. Um homem que não se acomodava. (…) Tu não precisavas disso, ou é, de facto, apenas por dinheiro? Quanto te pagam? (…) Sempre que o zeloso comunista queria faltar ao trabalho, o que acontecia frequentemente, telefonava para as empresas que o empregavam, dizendo que não podia ir porque lhe estavam ‘a passar busca à casa’. Escusado será dizer que nunca houve buscas a sua casa, porque, se as tivesse havido, muito teriam encontrado. Claro que não me refiro a matéria política. A bon entendeur… (…) Na casa da Rua do Alecrim, por baixo, era e é a Sociedade Portuguesa de Naturologia. À noite, dormia ali uma pobre mulher, encarregada da guarda, que andava louca de desespero com as festas que não a deixavam repousar. Ao protestar, foi ameaçada pelo amigo dos trabalhadores de ‘ser corrida a pontapé pelas escadas abaixo’. Mais: ‘Se quiser vá para uma pensão ou então eu faço queixa à polícia porque isto aqui não é residência’.”

Vera Lagoa atirava-se, assim, a José Carlos Ary dos Santos, acusando-o de desprezar as massas populares, do alto da sua condição burguesa. E continuava: “O pior, para um ‘revolucionário’ dito pêcêpista é aquela tendência que o nosso Ary tinha (não sei se ainda tem) pelos ordenados dos outros”. Isto numa altura em que, segundo Vera Lagoa, Ary dos Santos se encontrava sem dinheiro (“depois das portas se abrirem em Abril, isso não tornou a acontecer”), Ary era acusado de se dedicar ao “gamanço”, uma expressão que a jornalista alegadamente rouba a amigos do próprio Ary. E continua: “Se sou censurada e acusada de reaccionária por trabalhar num concurso de beleza, quando redactora do Diário Popular, será que tu enjeitas o poema que me ofereceste para eu pôr no programa do referido concurso? Eu sou reaccionária, bem sei. Mas tu, um puro ‘revolucionário’ a quem se abriram as portas de Abril? Falarás tu agora ao teu amigo António Carlos Champalimaud? Quando, com gente de alta sociedade, intitulas-te barão de Pina Manique, quando com outros amigos mais ‘populares’ dizes-te ‘cigano’. E a tua passagem pelo direitista Teatro de Câmara António Ferro? Até escreveste uma peça, ‘O azul existe’, para o Festival do SNI em Silves…”

Fernando Luso Soares. Foi magistrado do Ministério Público, dramaturgo, ensaísta e é conhecido por ter defendido como advogado, com Salgado Zenha, alguns perseguidos pela PIDE durante o Estado Novo. Vera Lagoa, na edição d’O País de 13 de Agosto de 1976, retrata este também revolucionário do PREC de outra forma: “Nos princípios da época de 60 foi o defensor de um alto dirigente da Legião Portuguesa quando este foi expulso da referida corporação política, acusado de pertencer à CIA. (…) Esteve presente nas homenagens que o SNI e os ‘ultras’ prestaram a Plínio Salgado e Armando Cortes Rodrigues. Como esteve presente na homenagem a um escritor do Minho, Manuel de Boaventura, conduzindo no seu automóvel Manuel Anselmo, José de Melo e Amândio César. A homenagem não era só literária. Era fundamentalmente política. (…) Foi, também, católico de comunhão diária, como fora monárquico e ultra, colaborador de Tempo Presente, a revista cultural onde se evidenciou, durante dois anos, a intelligentsia fascista.”

Luiz-Francisco Rebello. Advogado, foi também escritor, presidente durante 30 anos (de 1973 a 2003) da Sociedade Portuguesa de Autores, fundou a Frente Nacional para a Defesa da Cultura com José Saramago, Manuel da Fonseca e Urbano Tavares Rodrigues. Foi um dos primeiros contemplados por Vera Lagoa, na edição de 6 de Agosto de 1976 d’O País.

“Apenas Luís, apenas Rebelo. Nas mesmas revistas da Mocidade Portuguesa, onde largamente colaborou, mudou de nome. Passou a ser Luiz-Francisco Rebello. Sim. Mudou para z. Acrescentou o -. Pôs mais um l. E ei-lo lançado. (…) Já disse que Rebello tinha sido director do Teatro Universitário da Mocidade Portuguesa? Já disse que escreveu, além das suas colaborações no jornal da mesma organização, mais duas peças de teatro editadas pela mesma MP? (…) E depois do 25 de Abril, na Sociedade de Autores, Luiz-Francisco rasgou, durante três dias, cópias da correspondência por ele dirigida a vários membros dos governos anteriores, incluindo Marcello Caetano. (…) Chegada a Revolução, tinha de tomar uma atitude. E tomou, inscreveu-se no PS. (…) Na altura dos saneamentos da Sociedade de Autores, pôs-se o problema de o sanearem a ele, Rebello, devido às suas actividades na Mocidade Portuguesa, mas Luiz-Francisco resolveu as coisas à sua maneira. Brilhantemente, como se viu. Deu imediatamente o seu aval aos outros saneamentos e permaneceu no seu lugar. Continuou assim a poder mandar a filha para o Liceu Francês no carro da Sociedade. Continuou assim a usar, como seu escritório de advogado, as instalações da Sociedade de Autores, não pagando renda, claro. (…) Quando se levantou o problema da nacionalização do teatro, Luiz-Francisco adere à nacionalização. E diz ‘O que se perde com isso? Se isto vem a cair nas mãos dos comunistas, temos nacionalização. Se não vem a cair, a nacionalização não tem importância’. Todos estão lembrados do que se passou com Natália Correia quando dessa questão, quando Natália censurou a tomada de posição de Luiz-Francisco e ele respondeu no Diário de Notícias (naquela altura, onde havia de ser?…) que ‘Natália tinha medo da liberdade’. (…) Sabe-se que na sessão da Sociedade de Autores, Natália é esbofeteada com o beneplácito de Luiz-Francisco. (…) Provoca um plenário de braço no ar. Opta, então, pelo PC que é o único que o pode ajudar. Compromete-se a sair do PS com uma carta miserável para ser apoiado no tal plenário. (…) Essencial que permite a pergunta: ‘Dada a vitória do PS, manter-se-á Rebelusito no PC?'”

Vera Lagoa acusou, além de todos os já referidos, nomes como os de (alguns seus amigos) Carlos do Carmo, Baptista Bastos, Francisco Sousa Tavares, Paulo de Carvalho, Ramalho Eanes, Mário Soares, Freitas do Amaral, Diniz de Almeida, Fabião, Otelo (na foto), Costa Gomes, Rosa Coutinho, Vasco Gonçalves, Vasco Lourenço

Todos contra Vera. Será justo relembrar, porém, que, depois dos textos de Vera Lagoa foi publicado o livro “Vera Lagoa meteu a pata na poça”, em que, “pela pena de José Vilhena respondem às acusações de Vera Lagoa” Luso Soares, Ary dos Santos, Luiz-Francisco Rebello, Urbano Tavares Rodrigues, Teixeira Ribeiro, Luís de Sttau Monteiro, João de Freitas Branco, Miguel Urbano Rodrigues, Artur Ramos, Mário Castrim e Artur Portela. Sttau Monteiro havia também respondido directamente a Vera Lagoa, através de uma carta que a própria fez questão de publicar n’O País – e à qual não deixou de responder. O escritor de “Felizmente há luar”, cuja originalidade Vera Lagoa tinha posto em causa, nega todas as acusações. Sobre o famoso livro, por exemplo, escreve Sttau: “A verdade, porém, é que nunca falei sobre as ideias do José Manuel Tengarrinha com o Cardoso Pires. A verdade, porém, é que não preciso, para nada, das ideias do meu Amigo José Manuel Tengarrinha, que não tem nada a ver com as tuas histórias. A verdade, porém, é que nunca suspeitei de que o José Manuel Tengarrinha quisesse escrever uma peça ou tivesse interesse pelo teatro. As únicas peças em que o vi metido eram domésticas, e, nelas, quem efectivamente revelava ter talento histriónico não era ele – eras tu. Constato que, desde então, até o refinaste”. Vera responde-lhe, numa breve nota, não deixando de provocar: escreve, então, que lhe é muito grato publicar no seu jornal um original de Sttau Monteiro.

A carta de Sttau, rebatendo muitos outros temas, que chegam a envolver um colar oferecido pela maçonaria ao escritor, tem dois pontos de curiosidade. Primeiro, a questão da virgindade de Maria, nova companheira de Sttau, tratada e retratada num jornal: “Dizes, em tom de gozo, que a Maria se dizia virgem. Podes pôr de lado o tom de gozo porque a Maria era, efectivamente, virgem. Sou, como afirmas, um cavalheiro e, por isso, tirei sempre informações rigorosas das mulheres que conheci. Quando não eram virgens devolvia-as à procedência pelo mesmo correio. Era virgem e continuou a sê-lo depois de me conhecer. Nós, os cavalheiros, regulamo-nos por velhos códigos medievais nestas coisas que envolvem a virgindade das damas. Se conheceres alguma virgem, manda-ma na certeza de que a devolvo em estado de virgindade”. E, ainda, mais sério, sobre o oportunismo de que Vera Lagoa o acusava: “Refiro-me ao facto, que tenho por ascoroso, de me teres chamado ‘oportunista’. É coisa – e tu bem o sabes – que nunca fui nem serei. Nunca, antes do 25 de Abril, ou depois do 25 de Abril, fiz fosse o que fosse para ganhar um privilégio ou satisfazer um interesse. Nunca tive um subsídio, uma bolsa, um emprego estadual, uma viagem paga, uma missão ao estrangeiro, uma incumbência ‘cultural’ ou fosse o que fosse – repito – que te desse o direito de me difamar. (…) Cheguei com as mãos limpas ao 25 de Abril e morrerei com elas limpas”.

A Cambada resistiu a Vera Lagoa?

No prefácio do livro “A Cambada”, que reuniu crónicas escritas no Diabo e no Sol, Vizcaíno Casas escreve que Vera Lagoa é um exemplo autêntico de vocação jornalística e de fervor patriótico: “Ela sente o dever, o honrosíssimo dever de denunciar corrupções, de atacar desvios, de recordar combinações e de defender recordações hoje tão injusta e vilmente menosprezadas”. E O Diabo, com ela, tornou-se um jornal de causas: de Camarate e da morte de Sá Carneiro e Amaro da Costa ao caso Angoche, do assassinato do soldado à porta do RALIS no 11 de Março (as crónicas de Vera Lagoa à mãe do soldado foram na altura muito celebradas) ao caso das FP-25 de Abril, O Diabo não largou nenhuma.

Vera Lagoa disparou em todas as direcções, com especial dedicação às “‘augustas pessoas’ desta nova pseudo-aristocracia” representada pelos novos senhores que lhe pareciam parecidos com os novos ricos do volfrâmio: “Aqui não será apenas o dinheiro, mas o Poder, a sede, a voracidade do Poder que os torna não só ridículos mas timoratos e covardes”. Acusou, além de todos os já referidos, nomes como os de (alguns seus amigos) Carlos do Carmo, Baptista Bastos, Francisco Sousa Tavares, Paulo de Carvalho, Ramalho Eanes, Mário Soares, Freitas do Amaral, Diniz de Almeida, Fabião, Otelo, Costa Gomes, Rosa Coutinho, Vasco Gonçalves, Vasco Lourenço, mas também elogiou alguns destes nomes, como Soares ou Eanes – aquando da primeira eleição deste último, escreveu até um texto muito apaixonado, elogiando a coragem e as virtudes morais e éticas do general. Nunca se assumiu como mulher de direita, embora a direita a tivesse adorado como ninguém. Mas Vera deixou isto claro: “Ouçam bem, amigos recentes, amigos antigos que continuam a sê-lo e amigos que perdi: não sou de direita, por formação. Mas – e isto queria que todos soubessem – se esquerda é aquilo em que vivemos, então, declaro que não sou de esquerda. Se esquerda é aquela infâmia que vota outra infâmia na fantochada em que se tornou a Assembleia da República, eu nunca mais serei de esquerda”.

Apelou a Soares para que este fizesse algo contra o PCP. Acabou por ser a fascista de serviço, apesar do que escrevia: "O fascismo é nosso inimigo? Evidentemente. Não pretendemos, não desejamos e não devemos consentir que volte a instalar-se no nosso País? Evidentemente. Temos que nos unir para enfrentar os seus perigos? Evidentemente. Mas Mário [Soares], o perigo não é só esse!"

Parece uma discussão estéril, esta, acerca do posicionamento de Vera Lagoa. Era uma mulher democrata, patriota, preocupada com a corrupção, o compadrio, a utilização dos dinheiros públicos, a honorabilidade dos homens que ocupavam os cargos públicos. Era, e isso é indiscutível, uma democrata com tudo o que isso implicava: era antifascista e anticomunista, tinha estado contra Salazar como esteve depois contra o PREC, sofreu a censura salazarista como sofrera atentados bombistas manobrados pela revolução. “É lá possível esquecer as maquinações do Cunhal, e dos seus lacaios, o Pato, o Carlos de Brito, o Vital Moreira, o Vítor Louro (de Sá)? E da cambada subalterna e solícita do PC, do Luso Soares, do João de Freitas Branco, do Miguel Rodrigues, do Urbano Tavares Rodrigues, do Artur Ramos, do Castrim, do Teixeira Ribeiro, do Rogério Paulo, do Sttau Monteiro que já desmascarei nos ‘Revolucionários que eu conheci’?”, escrevia Vera Lagoa, apelando a Mário Soares para que este fizesse alguma coisa definitiva contra a escalada do PCP. Acabou por ser a fascista de serviço, apesar do que escrevia: “O fascismo é nosso inimigo? Evidentemente. Não pretendemos, não desejamos e não devemos consentir que volte a instalar-se no nosso País? Evidentemente. Temos que nos unir para enfrentar os seus perigos? Evidentemente. Mas Mário [Soares], o perigo não é só esse!”

Nos anos quentes do PREC, Vera Lagoa apontou também numa direcção que pode ser muito útil discutir nos dias de hoje: “O PC quer (sempre quis) o PS no Governo. É cómodo para os comunistas não terem que assumir as responsabilidades do poder formal (embora tenham as vantagens) deixando aos líderes socialistas – mais preocupados com os interesses pessoais e de grupo – a possibilidade de encharcarem a máquina do Estado (e não só) com os seus amigos e família, clientes e adeptos, sinceros ou oportunistas. Ao PC basta-lhe dispor de um número suficiente de militantes nos lugares de manobra para poder dominar, efectivamente, desde o essencial dos grandes meios de comunicação (TV, RDP, e alguns jornais) aos Ministérios e serviços indispensáveis à sua estratégia, já que, no campo sindical, o controlo da Inter é completo. Com a solidariedade do PC à esquerda e tendo à direita um CDS amorfo – as cúpulas do CDS, quero eu dizer – amarrado às ‘responsabilidades da governação’, Soares pode, assim, permitir-se o descaramento das ameaças, o impudor das afirmações que fez na Assembleia com a certeza de que a maioria desta, assim conseguida, irá aprovar os seus planos ditatoriais, totalitários e fascistas”.

É verdade que todas as figuras que Vera Lagoa retratou como “a cambada” lhe sobreviveram, muitas ocuparam lugares de destaque no Estado, outras foram condecoradas, quase todas são figuras incontestadas pela opinião portuguesa. O país serenou, a democracia de tipo ocidental instalou-se. Ainda que a custo, Portugal abandonou o caminho da sovietização e aderiu às comunidades europeias e aquele estilo “de rajada” da jornalista foi deixando de ser apreciado. Mas talvez Vera Lagoa tivesse razão quando, já no calor dos primeiros anos do novo regime, chamava à atenção para a manutenção, com novos actores, de um regime de compadrio, de nepotismo, de corrupção, de tráfico de influências, de favores, de instalados, enfim, alertava para o nascimento de uma nova geração de inimputáveis, financiados e protegidos pelo Estado sustentado pelos portugueses. E talvez tivesse até razão no estilo apaixonado, destemido e indignado que utilizava, e que muito se perdeu em troca de um cinismo militante e de uma maior promiscuidade com os poderes.

Vera Lagoa, provocadora reformada em 1992, morreu no dia 19 de Agosto de 1996, há 24 anos. Não vale a pena discutir se faz ou não falta ao país em 2020. Afinal, não há grande discussão sobre a falta que faz quem já não pode cá estar, mas antes pela falta que faz quem, cá estando, se abstém de agir pelos mesmos princípios. O que parece indiscutível é que o País tem a obrigação de não deixar morrer a sua memória. Este ensaio não pretende outra coisa.

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