- O que é a depressão resistente ao tratamento?
- Como se define Depressão Resistente?
- A que sinais devem estar atentas as próprias pessoas e os familiares?
- Que riscos estão associados a uma depressão resistente?
- Existem diferentes graus de depressão resistente?
- Como é feito o Diagnóstico de Depressão Resistente?
- Como se identifica, na prática, que uma depressão se tornou resistente?
- É possível confundir resistência com uma resposta lenta?
- Porque é que um tratamento pode não resultar?
- Como se trata a depressão resistente e que mitos importa desconstruir?
- Em resumo
Explicador
- O que é a depressão resistente ao tratamento?
- Como se define Depressão Resistente?
- A que sinais devem estar atentas as próprias pessoas e os familiares?
- Que riscos estão associados a uma depressão resistente?
- Existem diferentes graus de depressão resistente?
- Como é feito o Diagnóstico de Depressão Resistente?
- Como se identifica, na prática, que uma depressão se tornou resistente?
- É possível confundir resistência com uma resposta lenta?
- Porque é que um tratamento pode não resultar?
- Como se trata a depressão resistente e que mitos importa desconstruir?
- Em resumo
Explicador
O que é a depressão resistente ao tratamento?
É uma forma particularmente desafiante de depressão, não tanto pelos sintomas que provoca, mas pela dificuldade em conseguir alívio com os tratamentos habitualmente utilizados. “A depressão resistente ao tratamento ocorre quando uma pessoa, apesar de tratada com antidepressivos em doses adequadas e durante um período de tempo apropriado, não apresenta melhorias suficientes que lhe permitam sentir-se funcional e recuperada”, explica o psiquiatra Ciro Oliveira.
Contudo, o especialista sublinha que esta resistência não significa que a doença seja diferente na sua expressão clínica: “No que respeita às manifestações clínicas, uma depressão resistente ao tratamento não é ‘diferente’ das outras depressões. O que a distingue é mesmo a ausência de resposta aos tratamentos habitualmente usados”. Essa ausência de resposta faz com que os episódios depressivos sejam mais prolongados e tenham um impacto cumulativo na vida da pessoa, reforçando o sofrimento, a incapacidade e a sensação de desânimo face ao futuro.
Estima-se que existam em Portugal cerca de 80 mil doentes com Depressão Resistente a Tratamento. A depressão é a principal causa de morte nos jovens adultos e o custo global desta doença ultrapassa os mil milhões de euros por ano, sobretudo por custos indiretos como absentismo, quebra de produtividade, desemprego ou saída precoce do mercado de trabalho.
Hoje é possível tratar esta doença, mitigar este impacto e alcançar ganhos para a saúde dos doentes, famílias e sociedade.
Como se define Depressão Resistente?
Não existe uma definição universalmente aceite, mas há critérios amplamente utilizados na prática clínica e na investigação. De forma relativamente consensual, fala-se em depressão resistente ao tratamento quando, no mesmo episódio depressivo, não se obtém uma resposta clínica significativa depois de tentados pelo menos dois tratamentos antidepressivos diferentes, administrados na dose adequada e durante um tempo apropriado, que por regra varia entre seis a oito semanas.
Ciro Oliveira ressalva que importa distinguir conceitos que muitas vezes são confundidos. “Resposta ao tratamento não é o mesmo que remissão, e remissão não é o mesmo que recuperação”, explica. Uma pessoa pode sentir alguma melhoria e continuar longe de recuperar o seu funcionamento habitual. A verdadeira recuperação implica voltar a trabalhar, a relacionar-se, a sentir prazer e a tomar decisões, algo que, na depressão resistente, muitas vezes não acontece.
A que sinais devem estar atentas as próprias pessoas e os familiares?
“Na depressão resistente ao tratamento é particularmente preocupante o risco de suicídio (ideias, planos, meios, impulsividade, consumo de álcool), que é fundamental avaliar”, insiste o psiquiatra, que recomenda uma avaliação regular e com um plano claro que inclua sinais de alerta, contactos, estratégias de segurança e acompanhamento mais próximo quando o risco aumenta. Estima-se que a depressão possa potenciar até 20 vezes o risco de suicídio.
Quando os sintomas se mantêm por mais de duas semanas e se agravam, Ciro Oliveira considera que é fundamental estar atento a sinais que podem indicar uma depressão significativa ou em agravamento, como:
- tristeza persistente ou sensação de vazio;
- perda de interesse ou prazer nas atividades habituais;
- alterações marcadas do sono e do apetite;
- cansaço extremo e dificuldade em cumprir rotinas;
- sentimentos intensos de culpa ou desesperança;
- pensamentos de morte ou de “querer desaparecer”.
Perante estes sinais, o primeiro passo deve ser procurar ajuda médica, nomeadamente junto do médico de família ou do psiquiatra, idealmente levando informação clara sobre os sintomas, a sua duração, tratamentos já realizados e hábitos de sono ou consumo de substâncias. Em situações de ideação suicida com intenção ou plano, deve-se contactar o SNS 24 ou aLinha Nacional de Prevenção do Suicídio e Apoio Psicológico, com o número 1411, e recorrer de imediato às urgências.
Que riscos estão associados a uma depressão resistente?
O maior risco é a depressão tornar-se crónica e progressivamente mais incapacitante. Isso traduz-se em maior absentismo laboral, diminuição do rendimento académico ou profissional, dificuldade em cuidar de si próprio e dos outros e maior impacto nas relações pessoais.
Há também um agravamento de outras doenças médicas, associado a sedentarismo, alterações do sono e da alimentação e menor adesão aos cuidados de saúde. De forma particularmente preocupante, existe um risco acrescido de suicídio e de comportamentos autoagressivos, sendo que 60% dos suicídios que se registam são em pessoas que tinham depressão ou sintomas depressivos. A desesperança e o isolamento tendem a ser maiores nestes doentes, explica o psiquiatra, defendendo avaliações regulares e estruturadas do risco.
Existem diferentes graus de depressão resistente?
Tal como noutras doenças, a gravidade da depressão depende da intensidade dos sintomas e do impacto que têm na vida da pessoa. No caso da depressão resistente, essa gravidade tende a aumentar com o número de tratamentos falhados, a duração do episódio depressivo e a presença de outras doenças médicas ou psiquiátricas.
“Quanto mais tratamentos adequados falham e quanto mais tempo a depressão dura, mais complexa tende a ser a situação clínica”, explica o especialista. Na prática, isso traduz-se numa maior necessidade de acompanhamento especializado e numa abordagem mais integrada e personalizada.
Como é feito o Diagnóstico de Depressão Resistente?
Apesar de ser um termo amplamente utilizado, a depressão resistente ao tratamento não é um diagnóstico autónomo. Não está descrita nos principais manuais internacionais de classificação das perturbações mentais usados na prática clínica e que orientam o diagnóstico das doenças mentais em todo o mundo.
Na prática clínica, a pessoa recebe o diagnóstico de perturbação depressiva major e, quando cumpre critérios de resistência, os profissionais referem-se ao quadro como “resistente ao tratamento”. Esta designação não é meramente académica: ajuda a sinalizar que os tratamentos convencionais não foram suficientes e que podem ser necessárias estratégias terapêuticas mais especializadas, diferenciadas e inovadoras.
Como se identifica, na prática, que uma depressão se tornou resistente?
Identificar uma depressão resistente exige um processo cuidadoso e estruturado. O primeiro passo é confirmar que o diagnóstico está correto. “É muito importante distinguir uma perturbação depressiva major de uma depressão no contexto de uma perturbação bipolar, porque a abordagem terapêutica, nomeadamente farmacológica, é distinta”, alerta o psiquiatra. Também é essencial excluir outras situações que podem mimetizar ou agravar sintomas depressivos, como perturbações de ansiedade, luto complicado ou consumo de substâncias como álcool ou drogas.
Neste processo, a avaliação psicológica tem um papel relevante, ajudando a identificar fatores emocionais, comportamentais e contextuais que podem estar a interferir na resposta ao tratamento. A psicoterapia pode ser particularmente importante para compreender padrões de pensamento, experiências de vida, stress crónico ou trauma que podem perpetuar os sintomas e que não são resolvidos apenas com medicação. Por isso, um diagnóstico rigoroso e uma avaliação adequada da evolução clínica beneficiam de uma abordagem integrada entre psiquiatria e psicologia.
Depois, é necessário garantir que o tratamento foi realmente adequado. Isso implica confirmar se as doses dos antidepressivos eram corretas, se a duração foi suficiente, se a medicação foi tomada com regularidade e se não existiam interações medicamentosas. “Tomar a medicação de forma irregular pode ser equivalente a não tratar”, sublinha Ciro Oliveira.
Há ainda fatores que podem estar a contribuir para manter a depressão, mesmo quando o tratamento é adequado, como insónia grave, dor crónica, doença física não controlada, situações de stress contínuo ou contextos de violência. Por fim, a avaliação da resposta deve ir além da perceção subjetiva de “sentir-se um pouco melhor”. O critério essencial é a recuperação da funcionalidade no dia a dia.
É possível confundir resistência com uma resposta lenta?
Sim, e essa distinção é importante. Nem todas as pessoas respondem aos antidepressivos da mesma forma ou com a mesma rapidez. Algumas melhoram de forma mais lenta e progressiva, sem que isso signifique que o tratamento esteja a falhar.
A diferença está na ausência de melhorias clinicamente relevantes. “Na depressão resistente ao tratamento, mesmo com medicação adequada e tomada durante tempo suficiente, não se observam melhorias significativas”, esclarece o psiquiatra. Ou seja, não se trata de esperar mais tempo, mas de reconhecer que a estratégia usada não está a produzir os efeitos desejados e partir para novas soluções.
Porque é que um tratamento pode não resultar?
As razões são diversas e frequentemente combinadas. Existem fatores biológicos individuais que podem influenciar a resposta aos medicamentos, como diferenças na sua metabolização. Mas há também muitos fatores potencialmente corrigíveis.
Um diagnóstico incompleto ou incorreto pode comprometer todo o plano terapêutico. Doses insuficientes, interrupções precoces devido a efeitos secundários ou a presença de comorbilidades, como ansiedade marcada, perturbação de stress pós-traumático, perturbações de personalidade, dor crónica, apneia do sono ou alterações da tiroide, também podem interferir. O consumo de álcool ou drogas, mesmo que ocasional, é outro fator frequentemente subestimado. E, como sublinha o especialista, “um antidepressivo não resolve sozinho problemas estruturais de vida nem ambientes destrutivos”.
Como se trata a depressão resistente e que mitos importa desconstruir?
O tratamento da depressão resistente exige uma abordagem personalizada e faseada. “A chave é personalizar: nem toda a gente precisa dos mesmos tratamentos e muitos doentes melhoram quando se acerta na combinação”, afirma Ciro Oliveira. O ideal é começar-se por rever o diagnóstico e os fatores que mantêm a doença, otimizar a medicação e integrar psicoterapia, que é frequentemente essencial para reduzir recaídas e lidar com padrões de pensamento, trauma e contexto de vida.
Quando estas estratégias não são suficientes, existem abordagens com indicação específica para a depressão resistente, eficazes e baseadas em evidência científica, ainda que subsistam alguns mitos e estigmas que importa desconstruir.
Mesmo nos casos de depressão resistente ao tratamento (tanto em quadros mais prolongados como nos mais recentes) existem hoje abordagens terapêuticas inovadoras, eficazes e baseadas em evidência científica, que representam uma importante fonte de esperança. Estas opções têm permitido a muitas pessoas recuperar funcionalidade e retomar uma vida ativa. Há, por isso, um sentido de urgência partilhado por profissionais de saúde, familiares e cuidadores em garantir que estes doentes não permanecem em sofrimento prolongado. Tratar adequadamente a depressão resistente é devolver qualidade de vida às pessoas, com ganhos claros para os próprios, para as famílias e para a sociedade.
“É importante desconstruir ideias erradas”, reforça o psiquiatra. “A depressão é uma doença, não é uma escolha”, insiste, reiterando que os antidepressivos não mudam a personalidade e que, pelo contrário, ajudam a recuperar a pessoa que a depressão “apagou”. Resistente não significa que não há solução, significa, sim, que são necessárias estratégias diferentes e pedir ajuda – tal como acontece noutras doenças, como a hipertensão ou a diabetes – é um “sinal de inteligência” e o primeiro passo para recomeçar.
Em resumo
1 – Se sentir sintomas descritos acima – procure ajuda de um Psiquiatra. Use as linhas SNS24 e linha 1411 de prevenção de suicídio.
2 – Há esperança – com novos tratamentos, com a combinação adequada – vale a pena lutar por si e pelos seus familiares.