1. Por que são as eleições a uma quinta-feira?

  2. As eleições serão no dia 7 de maio. É tradicional que, no Reino Unido, as eleições sejam numa quinta-feira. E isto porque antigamente quinta-feira era dia de mercado no Reino Unido, pelo que fazer uma votação neste dia foi a maneira encontrada para garantir que mais gente pudesse participar nela. A última vez em que esta regra foi quebrada em 1931, ano em que as eleições foram numa terça-feira.

  3. Quais são as principais questões desta campanha?

  4. Há cinco temas essenciais a ser discutidos nesta campanha eleitoral: o estado da economia, com os dois principais partidos a apresentarem duas versões completamente diferentes sobre o país; a necessidade e dimensão dos cortes na despesa pública do país; o futuro do serviço nacional de saúde (NHS, na sigla em inglês); a presença do Reino Unido na União Europeia (UE), que será uma das bandeiras fraturantes do UKIP; e as políticas de imigração, o outro tema que Nigel Farage impôs à discussão eleitoral.

     

  5. Quais são os principais partidos?

  6. Como é habitual no panorama político britânico, os dois partidos melhores posicionados para vencer são o Partido Conservador e o Partido Trabalhista.

    Além destes, vão a votos os Liberais Democratas (até agora no governo graças a uma coligação com os Conservadores), o eurocético UKIP, o Partido Nacional Escocês (SNP, na sigla inglesa) e os Verdes.

    Além destes, também concorrem outros partidos habitualmente com resultados marginais, como o norte-irlandês Sinn Féin ou o galês Plaid Cymru.

  7. O que dizem as sondagens?

  8. O grande consenso em torno destas eleições britânicas é que elas vão ser bastante renhidas. Uma coisa é certa: nenhum partido vai chegar perto dos 326 lugares para conseguir uma maioria na Câmara dos Comuns.

    Na véspera das eleições, as sondagens apontavam para uma muito ligeira vantagem do Partido Conservador (274 lugares) sobre o Partido Trabalhista (271).

    Em termos percentuais, um cruzamento das principais sondagens dão 34% aos conservadores e 33% aos trabalhistas.

    Segundo os dados recolhidos pela BBC, a última vez que os Trabalhistas atingiram a marca dos 35% foi a 28 de setembro de 2014. Quanto aos Conservadores, esse número já não é atingido desde 11 de abril de 2012.

    Por isso, será inevitável que o próximo governo britânico seja o resultado de um acordo de coligação ou de incidência parlamentar.

    Os partidos mais cobiçados para um cenário de negociações serão o SNP e os Liberais Democratas. Os independentistas escoceses poderão fazer toda a diferença aos trabalhistas (juntos, teriam 324 deputados, apenas dois lugares abaixo de uma maioria). Já os Liberais Democratas (com 27 deputados nas sondagens) podem servir quer aos trabalhistas, quer aos conservadores, com quem formaram governo em 2010. Mas nunca ao ponto de formarem uma maioria com qualquer um dos dois principais partidos.

    Por isso, quem quer saia vencedor destas eleições terá de procurar um parceiro de coligação que lhe permita atingir uma maioria na Casa dos Comuns. Nesse caso, a solução terá de passar necessariamente por um destes de quatro partidos: o UKIP (com 13% nas sondagens mais recentes), Democratas Liberais (8%), os Verdes (5%) ou o Partido Nacional Escocês (PNE) com cerca de 3%.

    Há, porém, uma ressalva importante a fazer quando olhamos para estes números. Graças ao sistema eleitoral britânico, em que só o candidato mais votado em cada círculo eleitoral ganha lugar no parlamento, o número de assentos conquistados não tem proporção com os números nacionais. Vejamos o exemplo dos Verdes e do PNE.

    Enquanto as sondagens de votos globais colocam os Verdes (5%) à frente do PNE (3%), os primeiros só conseguirão, na melhor das hipóteses, vencer em três círculos eleitorais, conseguindo assim um igual número de deputados. Já os 3% do PNE ganham outra proporção tendo em conta que está previsto que os independentistas escoceses fiquem em primeiro lugar em 43 círculos eleitorais. Ou seja, terão 43 deputados em Londres – um número inédito, depois de terem conseguido apenas 6 nas eleições de 2010.

  9. Se nenhum partido vai ter maioria absoluta, que coligações é que podem sair destas eleições?

  10. Trabalhistas + SNP

    Ainda a campanha não tinha começado e Miliband já recusava um cenário de coligação com os independentistas escoceses. “Não haverá uma coligação dos Trabalhistas com o SNP. Não haverá ministros do SNP num governo liderado por mim.” Mais recentemente voltou a reiterar a sua afirmação, dizendo que “se o preço para ter um govenro trabalhista é um acordo ou uma coligação com o SNP, então não vai acontecer”, disse. Nicola Sturgeon, líder dos independentistas escoceses, comentou que levar esta decisão avante seria “o último prego no caixão” dos trabalhistas. E houve figuras de topo no seio do partido de Miliband que cedo se apressaram a tentar amenizar as palavras do líder. “Claro” que vai haver “diálogo”, disse uma delas ao “Daily Telegraph”.

    A recusa de Miliband é, mais do que uma promessa, um gesto de última hora para tentar contrariar o desastre trabalhista na Escócia (em 2010, conseguiram 41 deputados, sendo que em 2015 é pouco provável que consigam mais do que dois). Depois de conhecidos os resultados, é expectável que haja um acordo de incidência parlamentar entre os dois partidos.

    Trabalhistas + Liberais Democratas

    Com poucas opções realistas para formar uma coligação (o Partido Conservador não é opção, tampouco o é o UKIP, e os Verdes estão muito longe de terem força parlamentar), os Trabalhistas também se podem virar para os Liberais Democratas caso vençam as eleições de 7 de maio.

    Esta ideia já foi testada várias vezes pelo líder dos Liberais Democratas, Nick Clegg, e até agora tem recebido pouco consenso dentro do seu partido. Semelhante é a receção por parte dos Trabalhistas. No entanto, é possível que as contas pós-eleitorais levem a que esta opção seja uma possibilidade no caso de o número de deputados Liberais Democratas ser suficiente para fazer uma maioria com os Trabalhistas. As sondagens mais recentes indicam que esse cenário é pouco provável. Juntos, deverão ter 298 deputados — menos 28 daqueles que precisam para uma maioria.

    Conservadores + Liberais Democratas
    Caso os Conservadores vençam as eleições, o parceiro de coligação mais óbvio são os Liberais Democratas. Estão coligados desde 2011, num casamento que muitos previam que ia durar pouco. Vale a pena ler este A-Z que o The Guardian  fez para resumir a coligação que uniu Cameron e Clegg.

    Ainda assim, não é certo que estes dois partidos juntos consigam somar os 326 deputados necessários para uma maioria na Casa dos Comuns.

    No entanto, mesmo que a matemática os ajude, as coisas não vão ser como antes para os Liberais Democratas: se em 2010 conseguiram 23%, agora as sondagens só lhes dão 8%. Assim sendo, a margem de manobra para impor condições e fazer exigências aos Conservadores na hora de chegar a acordo vai ser pouca. Ainda assim, já deixaram o aviso: não farão parte de uma coligação em que o UKIP esteja incluído.

    Conservadores + UKIP

    É tanto uma coligação de último recurso quanto é improvável. Graças ao método eleitoral britânico, o UKIP não deverá ter mais de 3 deputados apesar de conseguir 13% dos votos a nível nacional. Dado estes números, os eurocéticos nunca serão suficientes para, juntos com os conservadores, formarem uma maioria.

    Até hoje, Cameron nunca disse nunca a uma coligação com o UKIP, preferindo adiar esta discussão para um cenário pós-eleitoral.

    O UKIP, por sua vez, fez uma exigência clara aos Conservadores caso estes queiram firmar acordo: terá de haver um referendo acerca da permanência do Reino Unido na UE já em 2015 – Cameron já prometeu uma consulta popular, mas apenas para 2017.

  11. O que é o SNP?

  12. O Observador preparou um especial em que lhe explica de forma mais detalhada o que é o SNP, a sua história e ideologia, tal como dá a conhecer a líder do partido, Nicola Sturgeon. Se tiver tempo, passe por aqui: O destino do Reino Unido nas mãos dos escoceses?

    O SNP (Scottish National Party, em português Partido Nacional Escocês) é um partido independentista de centro-esquerda que atua exclusivamente na Escócia.

    O partido foi fundado em 1934, mas teve de esperar até 2007 para vencer as suas primeiras eleições — neste caso, para o parlamento escocês, que foi fundado em 1999. Foi a primeira vez que conseguiram contrariar a predominância política dos trabalhistas naquele país, vencendo com apenas mais 0,7% dos votos. Quatro anos depois, a vantagem aumentou para 13,7%, com os nacionalistas a receberem 45,4% da preferência dos escoceses.

    Quanto a eleições legislativas no Reino Unido (logo, diferentes daquelas que dizem respeito ao parlamento escocês), os nacionalistas de centro-esquerda conseguiram 19,9% dos votos na Escócia, elegendo seis deputados. É, por isso, enorme a subida para aquilo que são os números previstos para estas eleições: qualquer coisa entre 48% e 54% dos votos. Chega a haver sondagens que apontam que o SNP vai vencer todos os lugares destinados à Escócia. Ao todo, 59.

  13. O que é o UKIP?

  14. UKIP é a sigla para United Kingdom Independent Party. Em português, Partido da Independência do Reino Unido. Eurocético, de direita e com uma veia populista bem demarcada, foi um dos responsáveis pelo terramoto das eleições para o Parlamento Europeu, a maio de 2014. Os britânicos quiseram que o partido liderado de Nigel Farage vencesse as eleições com 26,6% dos votos, enviando assim 24 deputados para Bruxelas. Um deles, David Coburn, definiu o UKIP numa entrevista ao Observador da seguinte maneira: “Nós somos o cancro na barriga da besta e vamos destruir a União Europeia por dentro”.

    Uma das promessas eleitorais do UKIP é a realização imediata de um referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE.

    As sondagens apontam-lhes 13% dos votos a nível nacional, mas apenas 3 deputados num universo de 650. Perante a quebra de resultados em relação às eleições europeias, surge uma pergunta: Será o fim do UKIP?

     

     

  15. O Reino Unido vai continuar na UE depois destas eleições?

  16. É a pergunta do milhão de libras esterlinas e ainda vai dar muito que falar. O Observador preparou um especial sobre este tema: Sair ou não sair da UE? Eis a questão.

    Vale a pena saber o que cada um dos quatro partidos mais bem colocados nas sondagens pensam sobre a permanência do Reino Unido na UE:

    – David Cameron deixou claro em entrevista no Channel 4 que os Conservadores prometem a realização de um referendo até 2017 em que será perguntado se os britânicos querem ou não ficar na UE. Até lá, Cameron pretende garantir que a comunidade europeia se “reforma”, uma vez que “não funciona propriamente”. Até agora, Cameron não declarou oficialmente que posição tomaria no caso de haver um referendo.

    – Os eurocéticos do UKIP, liderados por Nigel Farage, prometem um referendo já em 2015. Se por um lado é pouco provável que este partido vença as eleições, por outro é quase certo que o UKIP sairá das eleições em terceiro lugar. Nigel Farage já disse que rejeitava coligar-se com os Trabalhistas, mas deu indicações aos Conservadores se estes precisarem de um parceiro: só se houver um referendo já em 2015. A pergunta, escreve Farage, seria: “Quer viver numa democracia livre e independente?”.

    – Os Trabalhistas opõem-se à saída da UE e a realização de um referendo não consta no seu programa eleitoral. Para Miliband, a possibilidade de um referendo em 2017 “é a receita para dois anos de incerteza durante os quais os investimentos estrangeiros [no Reino Unido] vão desaparecer – dois anos de incerteza no qual as empresas não vão conseguir fazer planos para o futuro”.

    – Os Liberais Democratas são a favor da permanência na UE. Já a posição do partido de Nick Clegg em relação ao referendo não pode ser explicada de maneira tão simples. Embora demonstrem uma relutância inicial à realização de uma consulta popular, os Democratas Liberais também sabem que apenas uma cedência neste capítulo lhes pode garantir uma nova coligação com os Conservadores. De forma algo críptica, Clegg disse o seguinte numa entrevista: “Se as pessoas quiserem um referendo em qualquer circunstância, então não votem nos Liberais Democratas, claramente. Se não quiserem um referendo nunca, então não votem nos Liberais Democratas”.

  17. Os britânicos querem sair da UE?

  18. Segundo as sondagens, não. Mas o número de indecisos é grande.

    Uma sondagem do YouGov realizada entre 19 e 20 de abril indicou que 45% dos britânicos votariam a favor da permanência na UE caso houvesse um referendo. 35% disseram que votariam contra e 4% disseram que não iriam votar.

    Há, porém, outro número que pode muito bem mudar esta tendência: 16% dos inquiridos disseram estar indecisos. Suficientes para fazerem toda a diferença.

  19. Como são escolhidos os deputados no Reino Unido?

  20. Estão em causa 650 assentos parlamentares que são atribuídos de uma maneira diferente daquela a que estamos habituados a ver noutros países. A bem ver, o método de eleição usado no Reino Unido é simples: o candidato que reunir mais votos num círculo eleitoral será o deputado escolhido para representar os eleitores desse território na Câmara dos Comuns. Todos aqueles que ficarem aquém do primeiro lugar ficarão pelo caminho.

    Por isso, além do caráter geral que as eleições têm, estas também vivem muito daquilo que cada candidato consegue fazer dentro do seu círculo eleitoral e junto dos seus eleitores. As questões locais ganham tanta ou mais importância do que os assuntos nacionais. Cada vez mais, os partidos têm esta questão em conta. Segundo El País, em 1979 “só 25% dos deputados tinham ligações preexistentes com o círculo eleitoral que representavam. Hoje, calcula-se que o número suba a 63% de candidatos”.

    Um caso paradigmático deste sistema é a Escócia e o SNP. Em termos relativos, os números são tão baixos que nem costumam aparecer nas sondagens de forma isolada, mas antes na categoria de “outros”, a quem a BBC dá 6%. Mas em termos absolutos, as sondagens apontam-lhes 53 deputados (outras ainda mais) num universo de 59 na Escócia.

    Dos 650 círculos eleitorais em causa, 533 são em Inglaterra, 59 na Escócia, 40 no País de Gales e 18 na Irlanda do Norte. De acordo com números de 2010, o mais populoso de todos é a Ilha de Wight, com 110 924 eleitores. O mais pequeno são as Hébridas Exteriores, um arquipélago escocês onde 21 837 pessoas estão aptas para votar.

  21. Qual é o partido mais apoiado pela imprensa britânica?

  22. O Partido Conservador, de David Cameron, foi o que conseguiu um maior número de apoios da imprensa britânica. Só o “The Guardian” é que apelou ao voto nos trabalhistas. Para conhecer a lista inteira, mais as justificações de cada jornal, passe por aqui: Que jornais apoiam quem nas eleições do Reino Unido?

  23. Quando foram os debates? E onde posso (re)vê-los?

  24. 26 de março

    O primeiro grande evento televisivo destas eleições foi dia 26 de março. Mais do que um debate, foi uma sessão de esclarecimento. Filmado num estúdio do Channel 4, o programa especial “The Battle for Number 10” colocou, um de cada vez, David Cameron e Ed Miliband perante uma audiência que lhe colocava perguntas. Os dois candidatos também foram entrevistados pelo jornalista veterano Jeremy Paxman. A sessão com o líder trabalhista foi particularmente aquecida. No final, Paxman perguntou a Miliband em tom de brincadeira: “Está bem, Ed?”. Pode ver ou recordar o programa aqui.

    2 de abril

    O primeiro debate oficial aconteceu cinco semanas antes do dia de eleições. Foi o mais amplo de todos os embates televisivos: estiveram presentes os líderes dos sete partidos que concorrem nestas eleições. Foi a única vez em que David Cameron esteve cara a cara com Ed Miliband.

    O debate foi morno e pouco aprofundado — o formato com sete candidatos em estúdio era então inédito, fator que ajudou a alguma confusão. No final, não houve consenso quanto ao vencedor do embate.

    https://www.youtube.com/watch?v=7Sv2AOQBd_s

    16 de abril

    Duas semanas depois do primeiro debate, a BBC pôs frente-a-frente os cinco líderes da oposição. David Cameron e Nick Cleggprimeiro ministro e vice primeiro-ministro cessantes, respetivamente, ficaram a assistir em casa.

    https://www.youtube.com/watch?v=ue3bkPGBKc0

    30 de abril

    Uma semana antes do derradeiro dia, David Cameron, Ed Miliband e Nick Clegg apareceram um de cada vez no “Question Time“, da BBC, para responderem às perguntas feitas pelo público em estúdio.

    https://www.youtube.com/watch?v=7q2E1SNspYs