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David Coburn chegou na terça-feira ao Parlamento Europeu e causou sensação. Na primeira reunião dos 751 eurodeputados eleitos a 25 de maio em toda a Europa, Coburn decidiu usar kilt. E não se ficou por aí. Uns minutos mais tarde, ele e os seus colegas do Partido da Independência do Reino Unido (UKIP) decidiram virar as costas à banda filarmónica de Estrasburgo que entoava o hino da União Europeia no centro do hemiciclo, mostrando assim o seu desprezo pelo projeto europeu.

Para Coburn, primeiro eurodeputado do UKIP eleito na Escócia, estar em Bruxelas e Estrasburgo é “ser o cancro na barriga da besta” e destruir a União Europeia por dentro. Durão Barroso é “um idiota”, Nigel Farage é “uma estrela” e a União Europeia é “uma treta”. Deseja quase tanto que o Reino Unido saia do projeto comunitário, como quer que a Escócia continue no Reino Unido.

Sobre Portugal, defende que volte ao escudo, que o Governo de Passos Coelho seja “preso” por causa da taxa de desemprego jovem no país e confessa apreciar a sardinha e o “bom” vinho portugueses. O Observador entrevistou-o em Estrasburgo.

Fazia parte do Partido Conservador até ao princípio do anos 90. Porque é que o deixou?
Por causa da política do partido em relação à União Europeia. Eu estava sempre contra a Europa e o Partido Conservador era o mais aproximado da minha ideologia, embora eu seja mais radical. Sinceramente, acho que o Partido Conservador está obcecado com a União Europeia e eu considero que a UE é um desastre, não é democrática e nunca foi votada pelos britânicos. Eu sou uma pessoa internacional, adoro França, Alemanha e Portugal. Eu quero que Portugal continue a ser Portugal e quero que continue a ter sardinhas e bom vinho. Passei muito tempo em criança em Cascais, eu adoro Portugal, mas quero que Portugal seja livre.

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E esse foi o motivo para ir para o UKIP?
Eu fui candidato do Partido Conservador e trabalhei para um adversário interno de John Major, que quis derrubar o primeiro-ministro. Correu mal e afastei-me do partido. Muitos anos depois encontrei-me com Nigel Farage para um almoço com três garrafas de vinho e saí de lá um homem mudado.

Como é que o conheceu?
Temos amigos em comum. Eu sou um empresário, tenho muitos negócios. Tenho um negócio de entidades e faço gestão de transportes marítimos em todo o mundo.

Pensa que o partido mudou desde que entrou?
Entrei há sete anos e a natureza do partido foi sempre esta. Somos mais profissionais agora, mas não queremos mudar a natureza do partido. O Nigel quer pessoas que ele conheça e não burocratas. Não há políticos profissionais no UKIP, eu não me considero um político profissional.

Então o que é que mudou para os britânicos darem a vitória ao UKIP nestas eleições?
O que aconteceu foi a economia e a classe política. Dissemos às pessoas que aquela classe política nunca teve trabalhos na vida, saiu da universidade e foi para a política e não sabe nada sobre a vida real. Os britânicos chegaram à mesma conclusão e preferem o UKIP porque nós dizemos coisas de senso comum. Nós somos contra o sistema. Eles fizeram com que as coisas fossem demasiado politicamente corretas na política e permitiram que os bancos comerciais se fundissem com a banca de investimento e assim arriscaram o dinheiro das pessoas. E esse problema vocês também têm em Portugal.

O crescimento do UKIP foi acompanhado também por uma maior visibilidade de Nigel Farage através do Parlamento Europeu…
Nigel Farage é o melhor orador dos nossos tempos.

Não têm medo que o partido seja só Nigel Farage e viva à sua conta?
A imprensa é que diz isso. Há muita gente envolvida no UKIP e agora estamos a dar a conhecer cada vez mais gente. Nós temos uma piada no partido: “Porque é que Nigel Farage está sempre na televisão? Porque é o único no UKIP que tem um fato”. Os media querem uma estrela e ele é uma estrela.

Não pensa que há uma contradição entre querer acabar com a União Europeia e ao mesmo tempo fazer parte do Parlamento Europeu? Como é que explica isto?
“Vende corda a um capitalista e ele vai enforcar-se”, não é? E nós aplicámos isso à UE. Demos-lhe a corda para se enforcarem e estamos a utilizar os seus próprios recursos para destruí-la. Nós somos o cancro na barriga da besta e vamos destruí-la por dentro. E não queremos só libertar o Reino Unido, queremos libertar toda a Europa incluindo Espanha e Portugal. Nós podemos ser todos amigos, podemos fazer todos comércio e negócios, até podemos ter todos um ministro da Europa e fazer um encontro mensal entre todos eles, mas não precisamos de um parlamento nem de presidentes. Isso é tudo treta.

Embora não haja comparação porque Portugal está no euro e o Reino Unido não…
Vocês deviam sair já e voltar para o escudo.

Como estava dizer, em 2012 e 2013, houve uma discussão sobre a possível saída do euro. O que é que acha que vai acontecer aos países caso o euro acabe e a própria União Europeia desmorone?
Eu penso que a partir do momento que um sai, o euro vai implodir e esse é o medo da União Europeia. Eu trabalhei na City de Londres [centro económico] e quando o euro foi criado nós rimo-nos e dissemos que era uma ideia louca. Não é uma moeda económica, é uma moeda política. Uma moeda só é possível com um único governo e toda a gente previu isto. Só me surpreendeu o tempo que demorou. É como o Titanic, quando começou a afundar, toda a gente procurou botes salva-vidas. A crise a nível mundial é culpa do euro.

Mas o que é que acha que aconteceria aos países caso saíssem do euro e se a UE acabasse?
Vai haver problemas sérios, mas eu acho que a Grécia deve ser o primeiro país a sair, ter a sua própria moeda e desvalorizá-la. Se olharmos para o que aconteceria se desvalorizássemos a moeda, Portugal ficaria cheio de ingleses com muito dinheiro para gastar em Portugal e no Algarve. Como é que está a taxa de desemprego jovem em Portugal? Nos 20%?

Um pouco mais que isso.
Acho isso criminoso e devia acontecer alguma coisa horrível ao vosso governo. Eles deviam ser presos por isso.

Um dos argumentos para a não saída do euro foi o aumento do custo das importações como a energia. Como é que se resolve isso?
Haveria problemas e austeridade, mas há luz ao fundo do túnel, com esta gente aqui [em Estrasburgo], não há qualquer luz ao fundo do túnel e estão cada vez mais endividados. Não me admirava que o desemprego na Europa causasse uma revolução.

O desemprego é uma questão muito ligada à emigração. Em Portugal, há muitas pessoas que emigram para o Reino Unido e o UKIP fez uma campanha baseada na oposição à imigração dos europeus. Querer impedir imigrantes dos países da Europa no Reino Unido assusta os portugueses e outros europeus. Como é que se justifica essa campanha?
Tem de se ver isto do ponto de vista britânico. É uma desgraça que o Reino Unido não esteja a conseguir formar mais médicos e enfermeiras, não devíamos estar a roubar os vossos. Nós temos muito desemprego também no Reino Unido e quando temos uma porta aberta para a imigração, os salários baixam. As pessoas com menos qualificações, de repente, têm esta gente toda para competir. O sistema de educação no Reino Unido foi destruído pelos socialistas e agora é só licenciaturas que não interessam a ninguém. Deviam ser os ingleses a formarem-se como médicos e enfermeiras. Aposto que se isto acontecesse em Portugal, pensariam o mesmo.

Mas não pensam no impacto que pode ter, se todos os imigrantes forem obrigados a deixar o Reino Unido?
O UKIP não quer expulsar as pessoas. Nós somos muito britânicos nisso.

Mas a vossa campanha foi muito forte neste ponto.
A nossa? Os conservadores é que fizeram campanha por isso. Nós queremos é deixar de depender do trabalho dos imigrantes. Nós queremos um sistema de pontos como a Austrália e termos apenas os imigrantes que precisamos. Nós não somos xenófobos, mas com as portas abertas o nosso sistema de saúde e de pensões não vai aguentar.

E se a Alemanha decidisse expulsar todos os ingleses que trabalham no seu território? Como é que o UKIP veria isso?
O que eu estou a falar é imigração em massa, não de pessoas com qualificações. Por exemplo, se a economia portuguesa está a colapsar e isso está a levar à emigração, quem deve fazer alguma coisa para mudar isso é o governo português, não é culpa nem dos portugueses, nem dos britânicos. A culpa é destes loucos [aponta para o hemiciclo] que criaram o euro e do governo português e de pessoas como [Durão] Barroso. Este homem é um maoísta, é um idiota. Está aqui sentado confortavelmente, a sugar os impostos dos europeus. Ele vai levar à revolução na Europa porque ele só diz lixo e as pessoas estão fartas dele. As revoluções também acontecem na Europa e está a ver-se, por exemplo, em Espanha o desagrado das pessoas para com a monarquia. Juan Carlos foi um herói, lutou contra o fascismo. Há governos na Europa que mudam como eu mudo de roupa interior e não nos vamos esquecer dos países que até há 20 anos eram comunistas – eles matavam pessoas. A Alemanha também foi comunista e Merkel veio da Alemanha Oriental e agora manda na Europa. Eu não quero que o meu país seja governado por comunistas.

O Reino Unido vai ter eleições daqui a um ano. Quais são as expetativas do UKIP?
Nestas eleições [europeias], massacrámos os conservadores e os trabalhistas, os liberais deixaram de existir – eles adoram isto, Bruxelas e Estrasburgo, e agora acabou-se para eles. O Partido Trabalhista já não representa os trabalhadores, representa os intelectuais de classe média que têm pena dos pobres. Eles nem sequer conhecem os pobres e sinceramente, o Ed Miliband [líder dos trabalhistas] nunca teve um trabalho na vida. Os trabalhadores vêem que estas pessoas são fraudes e querem um partido como o UKIP.

Acha que eles querem Nigel Farage?
Claro. Não devemos ser loucos em relação aos resultados das próximas eleições, mas temos hipóteses de ficar como líderes da oposição – e vamos exigir a realização do referendo de permanência na UE. Até podemos ganhar as eleições, quem sabe. Já ganhámos as eleições. Estamos numa situação revolucionária na Grã-Bretanha. Na Escócia, de onde eu venho, as pessoas estão fartas tanto do Partido Trabalhista como do SNP [Partido Nacionalista Escocês] – que pensam que são o William Lawson e vêm Braveheart a mais, são uns tolos.

O UKIP não governa, nem nunca governou. Se chegarem ao poder, pensa que vão mudar o tom da vossa mensagem?
Não.

Mas a mensagem é brutal.
Nós dizemos às pessoas a verdade, os outros partidos não. Eles só querem ficar no poder e não têm princípios. Eu não estou no UKIP para fazer dinheiro, eu tenho negócios. O nosso objectivo é endireitar o país. Por exemplo, nós éramos favoráveis ao flat tax [mesma base de impostos para toda a gente] e vimos que isso não era possível. O que queremos agora implementar é um sistema mais simples de impostos e deixar de fora as pessoas mais pobres. Não adianta tentar sacar dinheiro às pessoas que têm menos porque pára a economia e traz pouco dinheiro.

A sua eleição na Escócia surpreendeu muita gente. Porque é que pensa que foi eleito?
Isso é muito simples: as pessoas estão fartas.

Era isso que lhe diziam na campanha?
Sim. Sei que muitos conservadores e trabalhistas votaram em mim. Assim como muitos nacionalistas pois, apesar de quererem a independência da Escócia, eles não querem isto. A grande maioria dos meus eleitores foram pessoas que estavam fartas de mentira e roubo. Eles querem pessoas com senso comum e foi por isso que votaram no UKIP. Nós já tínhamos algum apoio na Escócia, mas consistia em pessoas mais velhas, que não estavam ligadas ao mundo moderno. Agora temos uma equipa mais jovem que fez um grande trabalho e eu próprio quis ter a certeza que falava às pessoas dos problemas reais e as pessoas gostam disso.

Defende que a Escócia se deve manter no Reino Unido. Como é que justificou essa posição aos escoceses?
Foi fácil. Sou um patriota escocês, o que significa que eu nunca poderia ser um escocês nacionalista. Eu acredito que os interesses da Escócia estão mais bem defendidos dentro da união centenária com a Inglaterra. Conquistámos o mundo juntos, derrotámos o fascismo, combatemos em duas grandes guerras, derrotámos o Kaiser e Napoleão. Trouxemos a democracia liberal ao mundo. O que é que há para não gostar nisto?

Qual é que pensa que será o resultado do referendo sobre a independência da Escócia?
Penso que ficará 60%-40% ou 70%-30% a favor da manutenção da Escócia no Reino Unido. Há quem fale muito de romantismo, de andarem aí aos saltos de quilt e tocarem gaita de foles até ficarem malucos, mas têm é muita lábia. As pessoas comuns na Escócia não pensam assim. Nós adoramos o romance, eu sou um romântico e até choro quando oiço a gaita de foles, mas não abro mão da realidade e da economia real.

Então como é que justifica este referendo proposto pelo SNP?
Eu penso que o SNP é um partido fascista e são racistas porque não gostam dos ingleses. Não têm nada a ver com a Escócia.

Terça-feira marcou a primeira sessão do plenário ao vir vestido com o quilt. O que é isso representou para si e qual é o significado disso?
Eu quis mostrar ao SNP que se pode ser patriótico e escocês sem odiar os ingleses ou querer abandonar o Reino Unido. E eu represento a maioria dos escoceses que também se se sente como eu e se o SNP pensa que pode vir com a sua ideologia marxista chamar-nos traidores, bem, eles podem meter essa ideia onde quiserem! A minha família lutou pela Escócia durante séculos. Eu não preciso de uma lição em história e patriotismo de quem não tem caráter escocês.

E não foi também uma mensagem para a União Europeia? 

Eu recuso prestar atenção a esta coisa sem sentido [apontando novamente para o plenário]. Eles tentam mudar a História. Este Parlamento Europeu é a criação dos perdedores da II Guerra Mundial.

Pretende fazer algum tipo de trabalho no Parlamento Europeu?
Sim, claro. Vou ser muito ativo e até já comecei. Fui eu que gritei “bancarrota” quando Durão Barroso estava só a dizer porcarias. Eu tenho uma voz muito potente, não preciso de microfone.

Mas está disposto, por exemplo, a falar com pessoas de outras regiões europeias numa situação similar à Escócia? Como a Catalunha em Espanha.
A Escócia não é uma região, a Escócia é um reino. Não tem nada a ver. Há séculos que a Catalunha não é independente. Se me perguntarem, acho que eles fica melhor lá. Eu penso que o Estado-nação europeu funciona muito bem.

Ficou contente com a inclusão do Movimento Cinco Estrelas de Beppe Grillo no seu grupo político?
Sim, ele é fabuloso e muito interessante. Ontem à noite tivemos uma festa e foi muito divertido. Era só italianos e escoceses a dançar de um lado para o outro, a contar anedotas em várias línguas…

Então gosta dessa convivência com outras nacionalidades?
Claro que sim. Esta ideia de que o UKIP é uma cambada de xenófobos não tem nada a ver com a realidade. A mulher de Nigel Farage é alemã. Nós não somos racistas. Eu sou homossexual e sou membro do partido e fui eleito. Na lista por Londres, cerca de 20% dos nossos candidatos eram homossexuais ou bissexuais. Nós fomos o primeiro partido a ter uma eurodeputada transsexual. Nós temos a mente aberta, nós acreditamos em beber, em fumar, em diversão. Não vamos é aceitar que os socialistas nos digam o que é que devemos comer ao pequeno almoço. O Partido Trabalhista é que é de direita. Eles é que dizem para ter cuidado com o colesterol, que devemos fazer jogging, que não devemos fumar. Nós dizemos: “Queres beber? À vontade, todos vamos encontrar o nosso caminho para o Inferno”.

É contra o casamento entre duas pessoas do mesmo sexo. Porquê?
Porque é ridículo. E foi tudo cozinhado aqui [apontando novamente para o plenário]. Eu chamo-lhes os fascistas da igualdade. Para eles, temos todos de ser iguais. O casamento vai contra as pessoas que têm fé. Porque é que havemos de nos meter nisso? Eu concordo completamente com as uniões de facto para pessoas do mesmo sexo, lutei por isso a minha vida toda. Toda a gente gostava disso e estava satisfeita. Até este sítio ter a ideia dos casamentos. Cameron avançou porque sabia que se não avançasse, a União Europeia ia ser culpada de mais uma coisa louca. Ele não tinha qualquer mandato para lhe passar a chamar casamento. Forçou a alteração e é nojento. É contra as crenças das pessoas, é contra os direitos das pessoas. Não deve haver casamentos nas igrejas e não me parece que vá haver casamentos em mesquitas. Isto leva a uma regressão nos direitos dos homossexuais porque vimos o que aconteceu em França quando quiseram aprovar o casamento e a adoção. Paris tem sido rumo de muitos homossexuais ingleses porque eles são tolerantes e agora estes nazis da igualdade conseguiram ter quase um milhão de pessoas nas ruas contra os homossexuais. Para muitos, o casamento é um sacramento e eu sou cristão, vou à missa de vez quando, mas respeito o ponto de vista das outras pessoas. Se eu quero que as pessoas respeitem a minha homossexualidade, eu tenho de respeitar a sua fé.

Como é que avalia o desempenho de David Cameron no último Conselho Europeu? Não estou a falar do problema com Juncker…
O problema da bebida? Nós não temos nenhum problema que ele beba. Aliás, é a melhor caraterística que ele tem. Gostava de o convidar para um copo.

Estava a falar sobre a questão de ele ser ou não candidato e a oposição de Cameron. Como é que avalia o comportamento dele durante o último Conselho Europeu?
Eu acho que Cameron é um idiota político. Ele é o melhor membro do nosso partido. Excepto Nigel, fez mais pelo nosso partido que qualquer outra pessoa. Era impossível termos um primeiro-ministro pior. É revoltante, mas ótimo para o UKIP.