A guerra aberta entre a administração Trump e a Universidade de Harvard, que se prolonga há meses e que já levou ao anúncio de grandes cortes no financiamento da instituição, também já começou a gerar notícias falsas. Desta vez, corre nas redes sociais o rumor de que Harvard recebeu do governo norte-americano, a 5 de maio, uma carta cujos erros gramaticais, de sintaxe e por aí fora corrigiu a caneta vermelha, enviando-a de volta para a Casa Branca.
A administração Trump tem apertado cada vez mais o cerco em redor da prestigiada universidade: depois de ter acusado Harvard de permitir atos de “antissemitismo” no seu campus, devido aos protestos dos estudantes pró-Palestina, o governo começou a interferir de outras formas e a questionar a universidade sobre o currículo que ensina aos alunos ou os critérios para a contratação de professores, anunciando várias investigações às práticas de Harvard e cortes de financiamento.
Em maio, o governo proibiu Harvard de permitir matrículas de estudantes internacionais, ditando que milhares de alunos devem agora ser transferidos para outras universidades ou deixar o país. O departamento de Segurança Interna acusou a universidade de criar um ambiente de insegurança no seu campus por permitir a entrada de “agitadores anti-americanos e pró-terroristas”. Em resposta, Harvard anunciou mesmo que vai processar a administração Trump.
No meio desta guerra entre a universidade e o governo, surgiu uma carta assinada pela responsável pelo departamento de Educação dos EUA, Linda McMahon, publicada nas contas oficiais da própria nas redes sociais, em que McMahon acusa Harvard de “violar sistematicamente leis federais”, de não explicar como entram no país e na universidade os seus alunos estrangeiros, e de “fazer do sistema de ensino superior do país uma brincadeira”. Prossegue, acusando Harvard de ter convidado Bill de Blasio e Lori Lightfoot, ex-autarcas de Nova Iorque e Chicago, para palestras sobre liderança, o que para MacMahon equivale a “contratar o capitão do Titanic para ensinar navegação aos futuros capitães do mar”. Conclusão: Harvard deixará de ser uma instituição “financiada com fundos públicos” e passará a receber apenas “financiamento privado”, escreve, neste texto datado de 5 de maio.
Nas redes sociais, começou então a circular a imagem dessa mesma carta, mas com muitas correções feitas a caneta vermelha (tanto à gramática como ao conteúdo), com os responsáveis pelas partilhas a garantir que a universidade teria assim reenviado a carta, mas corrigida, à administração norte-americana.
Ora acontece que isto não é verdade, até porque é possível encontrar o utilizador da rede social X que alterou a imagem, para efeitos de sátira, e que começou por partilhar a carta — muito criticada pelos erros gramaticais e de sintaxe que inclui, um pouco por todas as redes sociais — ironizando: “A nossa secretária da ‘Educação'”. Foi o próprio que se encarregou de fazer as correções, como assumiu também no X, corrigindo várias pessoas que partilharam a imagem como se tivesse vindo de Harvard.
our secretary of "education" https://t.co/ds5cwk0uHl pic.twitter.com/4MR4DEydUZ
— daniel (michelle steel hate account) (@danielluo_pi) May 6, 2025
Este utilizador, que se identifica como “Daniel” e já revelou ser um estudante da também prestigiada MIT (Massachusetts Institute of Technology), foi brincando nas publicações seguintes naquela rede social, que continuam a estar online, dizendo que a “parte mais triste” de a publicação se ter tornado viral é que tinha enchido as correções de “piadas para economistas” que já não terão a atenção e “apreciação” devida.
Conclusão
A universidade de Harvard não devolveu uma carta escrita pela responsável do Governo Trump pela Educação, corrigindo vários erros que constavam do documento. Na verdade, um utilizador da rede social X, que assumiu desde o primeiro momento que se tratava de sátira, fez as correções e publicou-as na rede social para defender que a carta, que anunciava o corte do financiamento público a Harvard, estava mal escrita.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ERRADO
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.