Numa altura em que os EUA aumentam a pressão económica sobre Cuba, várias publicações que circulam nas redes sociais estão a partilhar um vídeo do que alegam ser uma manifestação contra o regime cubano em Havana. “CUBA: Deixe o mundo saber o que o povo cubano quer. A revolução INICIOU-SE! CUBA LIVRE!”, lê-se numa das publicações. Nas imagens, pode ver-se uma grande concentração de pessoas, que gritam palavras como “ditadores” e “comida”, em espanhol — a língua oficial de Cuba.
A política externa dos EUA tem sido marcada, nos últimos meses, pelo intensificar da pressão económica e militar sobre vários países, nomeadamente Venezuela e Cuba. Depois de Washington ter levado a cabo uma operação militar que terminou com a captura de Nicolás Maduro (agora presidente deposto da Venezuela), Donald Trump assinou, ainda em janeiro, uma ordem executiva para “abrir um processo” para impor “tarifas a bens de países que vendam ou forneçam petróleo a Cuba”, apertando o bloqueio económico que o país já impõe a Havana. Ao mesmo tempo, Washington assumiu o controlo do setor petrolífero venezuelano, privando o regime cubano, liderado por Miguel Díaz-Canel, do seu maior fornecedor de petróleo.
Também no final de janeiro, Trump disse que o regime de Cuba iria “cair muito em breve”.
As consequências do bloqueio petrolífero ao país já se estão a fazer sentir. Com as reservas de combustível a esvaírem-se, o regime adotou, já em meados de fevereiro, uma estratégia de racionamento energético, que impôs várias limitações à utilização de petróleo e que está a afetar sobretudo a indústria do turismo, que vinha entrando em declínio nos últimos anos. Cuba proibiu o reabastecimento de aviões no país, impôs restrições à venda de combustível, reduziu os serviços de autocarros e determinou o encerramento de diversos hotéis nas zonas mais turísticas, como Varadero.
Para além disso, os cortes de eletricidade — a que os cubanos se vêm habituando nos últimos anos — agravaram-se uma vez que parte da energia é produzida a partir de combustível. Os efeitos da escassez de combustível levaram já a ONU a alertar que as sanções impostas pelos EUA à ilha “afetam os mais vulneráveis, não são eficazes e não cumprem nem a Carta das Nações Unidas nem o Direito Internacional”. Uma porta-voz do Alto Comissariado dos Direitos Humanos da ONU disse mesmo que a organização está “extremamente preocupada com o agravamento da crise socioeconómica em Cuba, no contexto de um embargo financeiro e comercial que dura há décadas”.
No entanto, até ao momento ainda não há registo de qualquer aumento da tensão social no país nem de manifestações contra o regime.
A busca num motor de pesquisa com recurso a um frame do vídeo mostra que as imagens que estão a circular nas redes sociais são verdadeiras,mas não foram gravadas em 2026. Uma notícia do portal informativo Marti Notícias nota que o vídeo foi feito no ’11J’, uma onda de protestos contra o governo de Cuba que se registou a 11 de julho de 2021, quando milhares de pessoas saíram às ruas motivadas em protesto contra a crise económica e a escassez de alimentos e medicamento, numa altura em que o país era fortemente atingida pela pandemia de covid-19 e em que a indústria do turismo colapsara. As manifestações foram consideradas a maior mobilização popular desde a Revolução Cubana de 1959.
O vídeo foi gravado em frente a edifícios do centro histórico de Havana, em frente ao Capitólio.
Conclusão
Não é verdade que o vídeo que circula nas redes sociais mostre uma manifestação contra o regime cubano em 2026. Apesar de Cuba estar a ser fustigada pelo bloqueio petrolífero imposto pelos EUA, não há relatos de um aumento da tensão social. O vídeo em causa foi gravado em julho de 2021, quando uma onda de protestos assolou o país — à época, afetado por uma grave crise económica e escassez de bens essenciais.
Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:
ENGANADOR
No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:
PARCIALMENTE FALSO: as alegações dos conteúdos são uma mistura de factos precisos e imprecisos ou a principal alegação é enganadora ou está incompleta.
NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.