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“Ainda vou arranjar uma televisão para te pendurar ao pescoço, tal é o vício que tens nisso.” |
Eu era adolescente a achava que a minha mãe exagerava. Caramba, não era caso para tanto. Talvez eu abusasse um pouco, mas não mais do que os meus amigos que, nas férias, passavam tardes inteiras a ver filmes atrás de filmes que alugavam no vídeoclube. Depois vieram as operadoras de canais por cabo. E o zapping. E os canais de assinatura. E as séries que se podem ver de uma ponta à outra. E o streaming. E as redes sociais. E a adição online. |
Mas, antes disso, muito antes disso, as mães discutiam connosco porque passávamos muito tempo em frente ao televisor. E, voltando ainda mais atrás, quando éramos crianças pedíamos para ver um pouco mais de desenhos animados (na televisão) antes de irmos para a cama. |
Mas agora é diferente. À hora em que esta newslsetter chegar ao seu e-mail (e está a ser enviada agora propositadamente), o seu filho poderá estar a pedir “só mais cinco minutos no tablet”. “Só mais um bocadinho no telemóvel.” |
Haverá quem diga que só os dispositivos mudaram, mas as preocupações dos pais são as mesmas. Afinal, nós também achamos que eles estão viciados nos pequenos ecrãs, tal como a minha mãe dizia, exasperada, que eu estava com a televisão. |
Só que as coisas estão mesmo diferentes. As televisões não se podiam colocar ao pescoço mas os telemóveis podem ir para o bolso ou para dentro da mochila e entram na escola. E o que se segue… bom, isso já sabemos. |
Um estudo da Universidade Católica Portuguesa para a Direção-Geral da Educação concluía, em 2024, que “considerando que a maioria dos alunos utiliza smartphones fora da escola e que a literatura existente é mais clara a apontar problemas quando o acesso é ilimitado, seria prudente recomendar que a integração de smartphones nas escolas tenha por base um quadro regulamentar.” |
O que fazer, então? Em casa e na escola? |
“Quando vimos alunos com 10 e 11 anos a ver pornografia e a partilhá-la em grupos WhatsApp percebemos que tínhamos um problema”, disse Adriana Guerreiro, diretora do Agrupamento de Escolas Gil Vicente, em Lisboa, onde, na sequência dessa “gota de água” que fez transbordar o copo, os telemóveis passaram a ser proibidos. Em setembro de 2023, depois de ouvidos os professores e os encarregados de educação, a direção tomou aquela medida, como demos conta nesta reportagem. Se resultou? “Nunca tinha visto tantos miúdos a jogar às cartas no bar, por exemplo”, diz a professora. |
Mas também há quem pense o contrário. Um grupo de investigadores europeus do projeto ASAP, que estuda a relação dos jovens com as plataformas digitais — nomeadamente a portuguesa Teresa Castro, professora da Universidade Lusófona — acredita que a proibição não é o melhor método, porque “isso só vai levar a um uso de forma não supervisionada e perde-se em inclusão“. |
E então? Em que ficamos? Na dúvida, o melhor é ler sobre o assunto. Deixo algumas pistas. |
A Ordem dos Psicólogos Portugueses disponibiliza no site um documento sobre ecrãs e tecnologias digitais “para pais, mães e cuidadores/as”. |
Há muitos livros sobre o tema, mas o mais recente em Portugal será apresentado esta quarta-feira, dia 4, na Livraria Buchholz, em Lisboa, e tem o título U.S.E.R. – Utilização Saudável e Equilibrada das Redes, Um manual de sobrevivência na Era Digital (Ed. Oficina do Livro). É da autoria das psicólogas Débora Carvalhosa, Leonor Nápoles e Rosário Carmona e Costa — que, em março de 2023, foi a primeira convidada da série de entrevistas Do Outro Lado – Histórias de quem trata a saúde mental, com o caso do rapaz que jogava online 17 a 22 horas por dia. |
Há três semanas foi lançado Ainda Vamos a Tempo! O que podemos fazer para resgatar os nossos filhos dos ecrãs (ed. Contraponto) assinado pela psicóloga Ivone Patrão, um dos nomes mais respeitados na comunidade académica em Portugal no que toca a dependência online (é também autora de Geração Cordão e Dependências Online, ambos da ed. Pactor) e autora deste artigo do Observador, em que convidava os pais a ver a série Adolescência com os filhos — essa mesmo, que há uns meses fez (re)acender o debate sobre o bullying, ciberbullying e o que os nossos filhos estão a fazer quando achamos que estão em segurança. |
No Mental, a secção do Observador totalmente dedicada à saúde mental, já falámos várias vezes do tema. Como nesta entrevista ao psicólogo João Nuno Faria, especialista com formação em adição aos videojogos, redes sociais e cyberbullying e autor desta crónica sobre o tempo a mais que os jovens passam na Internet. Ou nesta conversa sobre sono com Teresa Rebelo Pinto, na qual a psicóloga diz que o telemóvel não deve sequer entrar no quarto e que a cama deve ser usada apenas para intimidade e descanso. Ou neste explicador sobre redes sociais e as ameaças que podem representar para a nossa saúde mental. |
Entretanto, se não reparou neles entretanto, estes são os mais recentes artigos publicados no Mental: |