Enquanto seguia da fortaleza militar em Caracas, onde fora capturado pelos homens da Delta Force, para o USS Iwo Jima, Nicolás Maduro deve ter-se lembrado de José Raúl Mulino, presidente do Panamá. Porquê? Porque ainda há poucas semanas José Raúl Mulino lhe oferecera asilo, a ele e à sua família, no Panamá. Não era a primeira vez que o fazia. Logo em  2024, recém eleito presidente do Panamá, Mulino oferecera asilo a Maduro. Estava-se em Agosto de 2024. A Venezuela acabava de ter eleições. Com a principal candidata, María Corina Machado, impedida de concorrer, foi Edmundo González, um ex-diplomata, a representar a oposição ao chavismo. Nunca saberemos os números reais dessas eleições porque tanto a campanha como a contagem dos votos e tudo o que se relacionou com o acto eleitoral foram alvo de manipulação e objecto de violência por parte do governo de Maduro. Vários países da América Latina recusam reconhecer Maduro como vencedor. Como era mais que esperado, Maduro rejeitou a oferta. Estava-se em Agosto de 2024.

Em Dezembro de 2025, o presidente do Panamá havia de repetir a oferta. Fê-lo em Oslo num momento especial: durante a entrega do Nobel da Paz a Maria Corina Machado, que só ali chegara sã e salva graças a uma operação a que os norte-americanos não foram alheios. Nessa cerimónia, além do presidente do Panamá, estiveram também Daniel Noboa, presidente do Equador, e Javier Milei, da  Argentina. Mais uma vez Maduro recusou a oferta, E, sobretudo, ignorou a mensagem que lhe estava subjacente: o poder chavista tinha tornado a Venezuela num problema para os seus vizinhos. Fossem eles de esquerda ou de direita.

Só nos últimos dez anos, terão saído para o Brasil, Chile, Colômbia, Perú e Equador aproximadamente oito milhões de venezuelanos. A imigração venezuelana tornou-se assunto nas campanhas eleitorais dos países da  região, como aconteceu recentemente no Chile. Igualmente grave a incapacidade, quando não a cumplicidade, do poder chavista levou a uma presença crescente de grupos criminosos venezuelanos  como o Tren de Aragua ou o cartel dos Soles em países como a Colômbia, o Brasil, a Bolívia ou o Perú.  Algemado, vendado e com auriculares, impedido portanto de se mover, ver ou ouvir, segurando com dificuldade uma garrafa de água e enfiado num sóbrio fato de treino Nike  (terá sido prenda dos americanos ou a roupa que tinha à mão quando os americanos lhe entraram pelo quarto dentro?), Nicolás Maduro sentirá que acabou a cair às mãos de Trump mas a sua queda começou antes, começou quando tornou a Venezuela num foco de problemas para a região, sem ter conseguido apoios significativos fora dela, por mais que se empenhasse nisso.

Ainda horas antes de ser preso pelos americanos, Maduro recebia no palácio de Miraflores o enviado especial chinês, Qiu Xiaoqi. Assinaram 600 acordos bilaterais (uma fantasia numérica  que só confirma que nada daquilo era para ser levado a sério) e trocaram presentes. Qiu Xiaoqi ofereceu um vaso de porcelana a Maduro e este entregou um quadro à delegação chinesa. Em jeito de despedida, Maduro anunciou uma “união perfeita e duradoura” entre a China e a Venezuela e despediu-se do enviado de Pequim com a frase “sempre vitoriosos”. Horas depois a Delta Force entrava-lhe pelo quarto dentro e levava-o para os EUA.

Ignoro se entretanto o senhor Qiu Xiaoqi já estava a caminho da China ou doutro país (quiçá Cuba ou as Honduras) para assinar mais umas centenas de acordos mas tenho a certeza que as imagens dos aviões americanos sobrevoando Caracas no início deste ano de 2026 (tal como as dos bombardeiros B-2 no ataque às instalações nucleares iranianas em Junho de 2025) são um recado para o mundo, mas o real  destinatário está em Pequim, como o senhor Qiu Xiaoqi não terá deixado de notar.