Chamam-se Ana e Mia Zelu, são irmãs e têm perfis de Instagram com mais de 100 mil seguidores. São jovens, bonitas, só usam roupas com o melhor corte. Têm a pele imaculada, o sorriso sempre iluminado. Nunca param muito tempo no mesmo lugar. Mergulhos em praias paradisíacas, torneios de ténis, sunsets esplendorosos, viagens de sonho, carros vistosos, é só escolher. Não há nenhum ser humano que consiga chegar-lhes aos calcanhares, não lhes falta nada. A vida corre-lhes bem ou, pelo menos, é o que parece. Mas, na verdade, a vida não lhes pode correr bem, porque Ana e Mia Zelu não vivem. E não se trata do paradoxo entre viver e existir. Ana e Mia não vivem nem existem, porque são criações da Inteligência Artificial, como noticiado pelo Observador.
Há várias perguntas que surgem. Se Ana e Mia não são reais, quem as criou? Quem criou os seus perfis de Instagram, quem publica constantemente as suas fotografias? Não saberei responder com precisão, mas aparentemente é a tecnologia a reproduzir-se a si própria. E quem são os milhares de pessoas que as seguem, que comentam e admiram as suas vidas? E porque é que quereríamos seguir a vida alguém que não existe? Porque é que quereríamos comparar-nos com pessoas que, na verdade, são bonecos? Ana e Mia não têm defeitos humanos, porque não o são.
O mundo está pejado de influencers, tornou-se uma forma de estar na vida, uma forma de viver, uma forma de ganhar dinheiro. Afinal, ser influencer já é profissão. Salvo raras excepções, os influencers têm sempre vidas melhores do que as “nossas”. É impossível acompanhar o nível de perfeição da vida de um influencer. A nossa casa até pode ser razoável, mas a deles é sempre melhor. As viagens que fazemos até podem ser satisfatórias, mas as deles são sempre mirabolantes. Os nossos cônjuges podem parecer quase perfeitos, mas os deles fazem-lhes serenatas montados num cavalo branco, nas praias privadas da Comporta, ou das Maldivas (vamos sonhar alto). Ser influencer é viver constantemente na silly season, é fazer apologia de uma vida que não tem de ser apenas melhor do que todas as outras, mas que também tem de ser partilhada com o mundo, porque toda a gente sabe que só existe aquilo que se mostra.
Ana e Mia são bonecas e nem imagino o quão frustrante deve ser para as jovens raparigas e rapazes que têm agora os seus 11, 12, 13 anos começarem a jornada da adolescência num tempo em que é impossível encontrar uma identidade real. Afinal, os próprios adultos andam às moscas, a tentar perceber como é que vão atingir o nível de sucesso do “boneco” do Instagram que aos 35 anos já atingiu todas as metas que o ser humano não vai alcançar nem aos 60.
As exigências à nova geração serão tremendas e muitas pessoas das gerações mais velhas ainda não entenderam que o mundo em que os jovens estão a iniciar-se já não é o mesmo. O mundo por detrás do ecrã criou exigências impossíveis de concretizar, pode parecer que há cada vez mais abertura para sermos quem quisermos, mas a verdade é que há um peso para conseguir o impossível, e a tendência crescente que observo nos jovens é a de se sentirem inadequados por não conseguirem atingir o inatingível.
Ninguém nos obriga a ter redes sociais, é certo. Ninguém nos obriga a consumir estes “bonecos” que vendem experiências premium da perfeição, constantemente em upgrade de si próprios. Mas será que ainda temos escolha? Hoje, a rede social é um negócio, é uma forma de arranjar emprego, talvez até comece a ser bastante difícil sobreviver se nos quisermos manter anónimos nas redes sociais.
Cada vez mais temos de publicitar o nosso trabalho porque o trabalho já não vale pelo trabalho, vale pela forma como o vendemos. A aparência sempre teve muita importância, mas nunca tínhamos chegado a este ponto. A tal forma que está a ganhar ao conteúdo, e de que tanto se tem falado nos últimos tempos, em breve viverá por si só. O conteúdo já pouco existe, e os influencers não deveriam ser chamados de “criadores de conteúdos”, mas sim de “criadores de formas”. É tarde demais para sair desta fórmula?