Visitando diferentes países, considerados didaturas, nos últimos anos, dei por mim a pensar se, em nome da liberdade, não estaremos afinal a viver sob novas formas de ditadura. E se a “liberdade” que tanto proclamamos é, nas suas versões modernas — digital, económica, moral ou securitária —, uma espécie de fé cega que substituiu os antigos deuses?
China: segurança em vez de voz
Recentemente percorri várias cidades chinesas — Macau, Hong Kong, Shenzhen, Guilin e Pequim. Falei com locais, viajei em comboios de alta velocidade a 350 km/h e embarquei em A321 Neo de aeroportos tão modernos que fariam inveja a qualquer capital europeia. Conversei com jovens investidores que fazem aplicações na bolsa em poucos toques no telemóvel.
A maioria não se sente livre politicamente, mas descreve-se como livre economicamente e segura. Não discutem política, mas vivem numa sociedade eficiente, ordenada e previsível. A ausência de liberdade política parece-lhes um preço aceitável pela segurança e prosperidade material. Talvez o Ocidente admire mal o que eles parecem compreender bem: que a liberdade, sem estabilidade, assusta.
Egito e EUA: a ordem e o caos
Recordei esta conversa quando, após a invasão do Capitólio nos Estados Unidos, o meu amigo egípcio Mohammed me disse que a democracia americana “funcionou”. Estranhei. “Mas como?”, perguntei.
Respondeu: “No meu país, quem invade o capitólio local fica no poder”.
O Egito viveu uma Primavera Árabe que terminou em ditadura militar, preferida, paradoxalmente, a um regime dominado pela Irmandade Muçulmana. Liberdade ou segurança? Os egípcios escolheram segurança. Talvez a lição seja que a liberdade exige uma maturidade coletiva que não nasce apenas de slogans.
Vidas entre fronteiras
Conheço também a Cynthia, católica libanesa, que vive e trabalha no Qatar com os filhos, enquanto o marido está nos Emirados. Ou o meu médico, sírio, que atende em Dubai e ajuda familiares que ficaram no seu país destruído. São pessoas que vivem longe da sua terra, constroem o futuro em países onde não podem voltar e viver em paz — e, ainda assim, descrevem-se como livres nos países que os adotaram.
A liberdade, para eles, não é discursiva: é poder viver, trabalhar, criar condições para a família. O direito a existir com dignidade substitui o direito a escolher.
As T-shirts e os símbolos
Numa conversa em Dubai com um jovem muçulmano, reparei na sua T-shirt estampada com o rosto de Marlon Brando em O Padrinho. Perguntei-lhe se sabia quem ele era. “Não. Mas uso porque é estético.”
Respondi-lhe: “Sabes que representa um gangster? Um assassino?”. Sorriu: “Ah, então ainda gosto mais.”
A liberdade estética tornou-se o novo campo de batalha. Usamos rostos de Che Guevara ou Vito Corleone como se fossem logótipos de rebeldia, sem compreender os contextos que os criaram. Quando tudo é símbolo, nada é realmente livre.
O desafio da segurança disfarçada de liberdade
Vivemos um tempo em que a liberdade é invocada para defender interesses contraditórios. Uns em nome da liberdade pedem menos Estado; outros, mais proteção. Uns rejeitam regras sanitárias ou climáticas; outros exigem censura para “proteger” minorias. Em nome da liberdade, aceitamos vigilância digital, algoritmos que conhecem os nossos hábitos melhor do que nós próprios, e governos que prometem segurança eterna.
No fim, a pergunta talvez seja: será que o preço da segurança se paga com notas de liberdade? E, inversamente, será que a liberdade total não conduz inevitavelmente à insegurança?
Talvez o grande desafio do nosso século não seja escolher entre liberdade e ditadura, mas perceber se a liberdade que temos é realmente nossa — ou apenas a versão autorizada de alguém.