A natureza humana é o que é e expressa-se nas ocasiões. A coisinha mais bonita e o feito mais horrendo são concretizados pelas pessoas em configurações contextuais que os possibilitam, e em certos casos até promovem, mas necessariamente porque algumas características do arranjo inerente ao ser humano (nas suas dimensões biológica, psicológica, social e ontológica) assim induziram, inculcaram ou determinaram.
Quanto a isto, o Parlamento é um lugar como os outros. Apenas com mais alcance na exposição pública. E tipicamente mais impactante para o país com o que faz. Os indivíduos que lá estão também não são exóticos, tendo como referência o mundo de fora. A Assembleia da República tem uma arquitetura espacial e outra regimental, sob as quais se dá a atuação. E é, de modo análogo, ao abrigo da estrutura física e das regras (tácitas e expressas) que a vida social normal se desencadeia. Além disso, a dita casa da democracia tem grupos e ideias em confronto, o que corresponde a mais uma característica da realidade que lhe é exterior. No que tange aos nossos representantes políticos, eles não são seres iluminados. São da mesma espécie que nós. Pensam, sentem e agem como a sociedade civil (mesmo que alguns a conheçam pouco). E é dessa forma que são o retrato, reprodutor, da gente, por muito que pareça haver e haja um desfasamento simbólico significativo entre ambos.
No dia seguinte ao da queda do Governo, ouvi Pacheco Pereira dizer na CNN que não é suposto os parlamentos serem sítios “higiénicos”, no sentido de que não é possível que existam de outra maneira. Permito-me dizer que dar isso como certo e garantido pode ser um ponto de partida para não nos ralarmos demasiado com os circos que neles se realizam. Afinal, estão apenas a funcionar. Estão a ser o que são. Ao remeter-se o foco para o debate da moção de confiança, é razoável afirmar que os meandros e as exibições no seu âmbito constituíram um espetáculo de excentricidade especial. As lutas e as pressões, nomeadamente entre o Governo e os partidos que o apoiam e o PS, assentaram no uso de figuras regimentais como a moção de confiança e a comissão parlamentar de inquérito, bem como no usufruto das potencialidades de jogatina e performance imanentes à discussão em plenário, além daquela nos media. E tudo teve em vista uma possibilidade constitucional: a realização de novas eleições legislativas. Este caso tratou-se, em síntese, de aproveitar os recursos e as regras do sistema — como na teoria da estruturação de Giddens —, numa “ocasião” que fez os “ladrões”, sendo um palco para a sua demonstração, os quais decerto já traziam dentro de si elementos condutores de tal façanha. Ao mesmo tempo que a tipificação da estrutura institucional não torna o comportamento dos parlamentares tão previsível quanto seria de esperar, dada a criatividade dos protagonistas, considerar a predisposição humana obsta à surpresa do espetador ante a exteriorização do mais imprevisível.
Com isto, mesmo que note a banalização da feitura do disparate — que se naturaliza — nas realidades da vida e da política, não viso ilibar os intervenientes das suas ações menos dignas. Note-se que a estas, que podem tocar a todos, são mais propensos alguns do que outros. Dá-se que o ambiente se torna tão infetado que os bons não compensam os maus, até porque se enfraquecem em função dos mentecaptos com que lidam. De Paradoxo sôbre o actor (Ed. Inquérito, 1941, p. 24), uma obra em que Denis Diderot sustenta a sua visão sobre a representação, retiro uma ideia segundo a qual “raramente o forte elevará o fraco até à sua altura; mas, por reflexão, descerá até à pequenez dêle”. Eis a “influência pérfida de um comparsa medíocre sôbre um actor excelente. Êste tem uma concepção cheia de grandeza, mas ver-se-á obrigado a renunciar ao seu modêlo ideal para se pôr ao nível do pobre diabo com quem contracena” [mantida a ortografia original].