Uma das vantagens de uma educação religiosa rígida (pelo menos, rígida para a maioria) é que, bem dada, torna-nos flexíveis. Dou um exemplo: para quem cresce numa Igreja que crê que o pior que nos pode acontecer é ir parar ao Inferno na eternidade (como cresci a crer e continuo crendo), é natural ter essa mensagem como algo que todos precisam ouvir. Ainda assim, acontece algo curioso: se, por um lado, essa mensagem religiosa em que cremos deve ser aceite por todos para o seu próprio bem, por outro, não temos como garanti-lo. A conversão, para ser válida, é voluntária. Logo, alguém com uma educação religiosa rígida cresce com um sentido de dever máximo e com uma rendição necessária à liberdade dos outros. A aparente intolerância com que se vive o dogma é uma tolerância total ao desprezo que os outros lhe podem dar.
Tenho décadas de convívio com esse paradoxo de rigidez e flexibilidade. Como pastor evangélico, digo “venham ouvir a mensagem da salvação!” e digo e digo, e, em grande parte, as pessoas não vêm, não vêm e não vêm. Pensando no crente que sou, fico mais firme de que o coração das pessoas é mesmo duro (porque digo para elas virem e elas não vêm), mas em termos do cidadão que tento ser, fico mais flexível à custa da escolha delas (porque digo para elas virem e elas não vêm). Por muito que queira arrastar as pessoas para a minha Igreja, rendo-me à minha incapacidade para tal. Não há nada como uma religião exigente para nos tornar elásticos.
Mas, retroactivamente, nasce outra ironia: acontece com frequência que quanto mais flexível é a crença, menos flexível o crente. Temos notado que, por vezes, a inclusividade das nossas crenças torna-nos implacáveis para quem não as observa? Uma das contradições interessantes de um tempo mais desconfiante do discurso religioso é que, fugindo dos seus antigos credos teóricos, não larga algumas das suas punições práticas: para quem tem dificuldade em acreditar no pecado, exigimos hoje muitos arrependimentos. Estamos muito mais livres para não crer, é certo, mas ainda demasiado dados a castigar.
Eu, que creio que a Igreja é o melhor local de todos para as pessoas, vou sendo treinado em ver as pessoas a escolherem todos os outros antes dela. Mas dou conta também que muitos dos locais que as pessoas escolhem em vez da Igreja, começam a comportar-se como se ela fossem. Há hoje lojas, restaurantes, empresas, discotecas, supermercados, estádios, entre alguns exemplos de locais que não a Igreja, a pregar. Sei disso porque o meu sensor que detecta pregações é, naturalmente e por conta da minha experiência, fortíssimo. Apesar de menos religiosos, estamos embrenhados num sistema moral muito mais omnipresente. Talvez ouçamos menos pregações na Igreja porque nos soterramos nelas fora dela.
Se Deus quiser, no próximo Domingo serei, uma vez mais, enrijecido na minha religião que distingue tudo em termos de salvação e perdição. Mas, se a Graça assim permitir, ao reconhecer-me perdido sem o Salvador que Cristo é, serei igualmente aliviado da pressão de tornar o outro naquilo que bem me parece. A educação religiosa rígida que recebi ensinou-me que é no meio do Paraíso, o local onde a bondade é a regra, que o Diabo surge.