Regularmente, aparecem as sondagens da Eurosondagem, publicadas no Expresso e na SIC. Sendo a Eurosondagem, juntamente com a Aximage, a única empresa do ramo que faz estudos de opinião fora dos períodos eleitorais, os seus resultados tornam-se as “sondagens”. Nos últimos anos, a Universidade Católica, a Intercampos e a Marktest limitaram-se a publicar sondagens durante as semanas que antecederam as eleições legislativas de 2011 e de 2015.

Estamos assim perante um mercado que na maior parte do tempo é dominado por um monopólio, ou no máximo um duopólio. Por exemplo, no Reino Unido, há entre 6 a 10 empresas a publicarem sondagens com regularidade. Eis, um mercado que funciona. Em Portugal, um país cheio pessoas sempre preparadas para atacar os abusos da economia de mercado, ninguém se choca com este monopólio.

A resposta para a falta de indignação talvez se encontre no hábito da Eurosondagem colocar o PS invariavelmente à frente das intenções de voto. Assim, os mais vocais contra as “injustiças” dos “mercados”, as esquerdas, não se preocupam com esta situação de monopólio. Não acredito que o PS não esteja actualmente à frente do PSD nas intenções de votos. Estará seguramente, mas duvido que a diferença seja tão grande. Ou pelo menos, a história recente da Eurosondagem não me dá qualquer confiança na empresa.

Vejamos o desempenho da Eurosondagem nos períodos eleitorais de 2011 e de 2015. Em Junho de 2011, o resultado das eleições legislativas foi o seguinte: o PSD alcançou 38,65% dos votos e o PS 28,06%. Ou seja, quase 10% de diferença a favor dos sociais democratas. No final de Maio, cerca de duas semanas antes das eleições, a Eurosondagem colocava o PSD à frente do PS pela diferença de 1,7%, 1,6% e 1,3%. Em Junho as sondagens da mesma empresa reconheceram o crescimento da diferença entre o PSD e o PS. Mas mesmo assim na última sondagem antes das eleições a diferença, segundo a Eurosondagem, era de 4,5%. Errou por mais de metade.

Em 2015, a coligação entre o PSD e o CDS (Portugal à Frente) recebeu 38,50% dos votos, contra 32,31% do PS. Ora, a Eurosondagem colocava o PS à frente por três pontos em Junho, com dois pontos em Julho, e em Agosto e no início de Setembro com um ponto de avanço. Na última sondagem publicada pela Eurosondagem, no dia 25 de Setembro, nove dias antes das eleições, o PS ainda estava ligeiramente à frente da coligação PSD-CDS com a diferença de 0,5%. Na mesma altura, a Intercampos colocava a coligação das direitas à frente entre cinco e seis pontos, e a Universidade Católica dava entre seis e sete pontos de avanço à PaF. Curiosamente a Aximage também errou consideravelmente na sua última sondagem antes das eleições de 2015, colocando o PS com menos 0,5% de votos.

Pelos dados de 2011 e de 2015, a Eurosondagem não só erra sistematicamente, como os seus erros favorecem sempre o mesmo partido, o PS, e prejudicam invariavelmente os partidos de direita. Como é possível que ainda se leve a sério as sondagens da Eurosondagem? O Expresso e a SIC não se preocupam com os erros da empresa com quem colaboram? Será que em Portugal a sucessão de erros não afecta a credibilidade de uma empresa? Nada disto espanta ou admira os portugueses?

Os erros sistemáticos de uma empresa de sondagens e sempre a favor do mesmo partido deturpam a democracia. Qualquer pessoa envolvida na política sabe que as sondagens servem propósitos políticos. Mobilizam o eleitorado dos partidos que estão na frente e desmobilizam aqueles com sondagens fracas. A Lisboa política sabe que a Eurosondagem favorece sistematicamente o PS mas o Expresso e a SIC continuam a trabalhar com a empresa e a publicar os resultados. Tudo isto diz muito sobre o modo como se faz política em Portugal e sobre o desrespeito com que as elites políticas tratam os portugueses.