Provavelmente sou eu que sou demasiado romântico.

Mas a verdade é que me custa que a direita esteja numa espécie de leilão ao sabor dos soundbites de um político talentoso que diz o que muitos pensam sem pensar muito no que diz. Ou da proclamada onda liberal que se vai fazendo, anacronicamente, num contexto onde todos dispensam o purismo do mercado e anseiam pelo assistencialismo do Estado.

Mas, dizia eu, que deve ser meu o excesso de romantismo por sentir que a velha direita, a fazer fé na maioria das sondagens, definha nas opções dos eleitores em benefício destas novas e, provavelmente, efémeras realidades.

Se Rui Rio continua por cumprir sem, no entanto, se poder considerar, nem ao partido que lidera, uma espécie em vias de extinção, já Francisco Rodrigues dos Santos e o CDS estão quase marginalmente próximos daquilo a que se chama o erro estatístico.

E é estranho, porque seria natural que a direita se reorganizasse, em tempo de uma geringonça desavinda e de um Governo desgastado pela pandemia, à volta dos seus valores mais seguros.

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Quando Francisco Rodrigues dos Santos foi eleito, achei que isso podia traduzir uma prova de vida para o futuro. Pelo sobressalto geracional, pela frescura que parecia emanar do líder eleito, capaz de convocar para a política uma nova geração, distante ou desinteressada da coisa pública. Mas todo este tempo volvido e sem desaires eleitorais sensíveis, a falta de articulação com um grupo parlamentar mal resolvido e a incapacidade para lidar com situações duras como a revolta dos “restauradores” ou para imprimir uma comunicação assertiva que polarizasse uma direita desamparada, projetou o Chicão dos pequeninos para uma espécie de Chiquinho dos mais crescidos que não chega a ganhar o respeito conquistador dos eleitores.

E por isso o oportunismo ou, mais justamente, o sentido de oportunidade de Adolfo Mesquita Nunes, no artigo devastador que publica neste jornal. Com a mesma juventude, Mesquita Nunes consegue, no entanto, transmitir uma outra maturidade e a esperança de poder lidar com a oportunidade de uma esquerda decaída e com o oportunismo de uma direita mal preparada. Adolfo Mesquita Nunes é uma escolha prometedora do partido, principalmente para ganhar espaço ao centro, captar as novas gerações mais urbanas e disputar o terreno que a Iniciativa Liberal tem ganho de forma mais consistente do que o Chega e, por isso, também menos volátil.

Filipe Lobo de Ávila, ao contrário, representa, pelo menos aparentemente, o pior que a política tem, abandonando um barco que, apesar das divergências, se comprometeu a apoiar. Mas foi o rastilho que se adivinhava para a generalização de uma consciência que, diga-se em defesa de Rodrigues dos Santos, andou sonolenta e desaparecida no que às putativas lideranças do partido diz respeito.

E é neste contexto que surge Nuno Melo, definitivamente o mais consistente ou, melhor ainda, o mais abrangente, se ele mesmo acreditasse nisso.

São já muitos os momentos em que Nuno Melo parece hesitar. O que contrasta com o político instintivo, sanguíneo e combativo que nos habituámos a respeitar. Ele, que ironicamente domina o tempo por ser o único capaz de fazer a ponte com a memória do CDS. Ele, que pela robustez e vivacidade pode ser o melhor preparado para raptar o espaço popular de André Ventura.

Ele, que, no entanto, parece não querer a única hora que devia ser a dele.

Porque esta pode e deve ser a hora do CDS. Fora do centrão de interesses tão degastado pelos sucessivos anos de governação e por uma corrupção que parece escalar ainda mais. Com uma resposta clara e moderna ao nível das ideias – longe dos dúbios socialismos ou dos seus heterónimos, curiosamente reclamados do PSD ao Bloco de Esquerda. Antes com a bandeira da doutrina social da Igreja, que respeitando muito a iniciativa e o mercado não o deusificam por conhecerem o papel corrector e equilibrador que o Estado tem de assumir, sempre em favor dos menos protegidos.

Esta pode ser a hora de Nuno Melo mas é, seguramente, a última ou a grande hora do CDS.

Fica-me o meu incorrigível romantismo de gostar das coisas que estão comigo há mais tempo e a contrita preocupação de que Nuno Melo deixe fugir o tempo e a hora ou corra o risco de, como diz a canção, “chegar cedo algum dia e ser já tarde demais”!