1 A idade dos homens

Pouco depois de Héracles e Teseu terem tornado o mundo mais seguro, os gregos envolveram-se na guerra mais sangrenta de que havia memória. A culpa, mais uma vez, foi atribuída aos deuses, que colocaram o troiano Páris no meio de uma disputa entre egos femininos. Talvez regressemos a essa história mais tarde: afinal, tudo o que é verdadeiramente importante parece ter começado com um pomo, seja ele o da discórdia ou o do conhecimento. Mas fiquemos, por agora, na guerra de Troia.

Este conflito tem sido apontado como o início do fim do poder do Olimpo. Como se, a partir daí, os deuses tivessem desistido de interferir no mundo dos homens. Como se, horrorizados perante a devastação e o massacre com que os Aqueus destruíram a cidade e a impiedade que revelaram ao desrespeitar templos e locais sagrados, os deuses se tivessem começado a afastar da criação – cada vez mais desejosa de agir livremente. Este distanciamento tornar-se-á claro nos anos que se seguiram à guerra, mas a reação imediata dos deuses foi de castigo, provocando sobre os gregos, que até há pouco tinham sido seus protegidos, violentas tempestades na viagem de regresso a casa. E nenhum dos gregos será posto mais à prova do que Odisseu, ou Ulisses, à sua maneira também uma espécie de herói.

A fama de Ulisses precede-o. Descendente de Hermes e neto de Autólico, é conhecido pela sua inteligência e pela astúcia dos seus ardis – o maior de todos, o cavalo de madeira com que enganou os troianos e que levou à destruição da cidade. A odisseia – a viagem de regresso a casa de Ulisses – durou precisamente o mesmo tempo do que a guerra: dez anos, durante os quais a sua inteligência e a sua astúcia foram sendo postas à prova uma e outra vez, quase sempre com a ajuda dos deuses.

2 A viagem

A viagem de regresso de Ulisses a Ítaca é talvez a mais popular história de viagens, embora, como nota José Pedro Serra, constitua um tipo especial de viagem: trata-se aqui do regresso a casa, o que o diferencia de um outro tipo de viagem que dá igualmente forma ao pensamento ocidental pois o Êxodo seria, antes, a demanda por uma casa. (Deixaremos para mais tarde de que modo estas duas viagens refletem conceções diferentes do tempo em cada uma destas tradições.)

Ao longo dos dez anos de viagem, Ulisses enfrenta várias provações, que começam com a forte tempestade com que os deuses castigam os gregos e a ameaça de naufrágio, mas que prosseguem com Cícones, Lotófagos, ciclopes e Lestrígones. Quando Ulisses chega à ilha de Circe, a flotilha está reduzida a um único barco e depois das aventuras seguintes, entre a visita ao Hades, o perigo de Cila e Caríbdis e o castigo por tocarem no gado de Hélio, o nosso herói acaba por enfrentar sozinho os últimos desafios, em especial Calipso, até chegar finalmente a Ítaca.

Quase todas as aventuras de Ulisses entraram no imaginário coletivo, mas é possível que a mais popular de todas seja aquela em que a imaginação mais trabalhou nos séculos seguintes. Afinal, quando Homero fala do perigo representado pelas sereias não está a remeter para a imagem que tradicionalmente associamos a esses seres dotados de enorme beleza, corpo de mulher e peixe pela metade – imagem que só ganhará forma no período medieval.

Herbert James Draper, Ulysses and the Sirens (1909)

Na Odisseia, as sereias correspondem a um par de mulheres-pássaros, que encantam os navegadores com palavras mágicas e os conduzem à morte. É este o poder do “canto das sereias”: ouvindo-as, os homens não resistem ao seu apelo e perdem-se. Como avisou Circe:

“as Sereias o enfeitiçam com seu límpido canto,
sentadas num prado, e à sua volta estão amontoadas
ossadas de homens decompostos e suas peles marcescentes.”

Mas o que cantavam exatamente as sereias? Prometeriam prazeres carnais? Bens materiais? A imortalidade? Nas palavras de Homero:

“Vem até nós, famoso Odisseu, glória maior dos Aqueus!
Retém a nau, para que nos possas ouvir! Pois nunca
por nós passou nenhum homem na sua escura nau
que não ouvisse primeiro o doce canto das nossas bocas;
depois de se deleitar, prossegue caminho, mais sabedor.
Pois nós sabemos todas as coisas que na ampla Troia
Argivos e Troianos sofreram pela vontade dos deuses;
e sabemos todas as coisas que acontecerão na terra fértil.” (itálico meu)

Afinal, quem consegue resistir a tentação de saber tudo?

3 A lição de Ulisses

Não seria descabido pensar que o canto das sereias tem uma natureza personalizada. Que talvez com outra pessoa, outras tentações, mais apreciadas pelo homem que delas se aproximasse, seriam prometidas. Mas o que os últimos séculos nos mostraram é que o ser humano é especialmente sensível à questão do conhecimento: queremos saber o que se passa no mundo, no nosso país, na nossa cidade, na nossa rua. E, acima de tudo, queremos saber o que acontece com as pessoas que conhecemos. A ansiedade provocada pelo medo de não saber, de ficar de fora da novidade, até já tem nome: FOMO, ou seja, Fear of missing out (em inglês, claro).

Seria uma fragilidade resultante da nossa natureza: queremos estar dentro do que acontece e não ficar de fora e, por isso, somos facilmente mobilizados pelo medo de não saber, sob a permanente ansiedade de ficar para trás – mesmo que esse desejo acabe por se refletir na nossa desgraça. E não é esta a vida em que o mundo digital nos encalhou? Também o canto da tecnologia nos promete controlo, domínio e conhecimento sobre o mundo, mas é uma promessa falsa que se transforma em pesadelo. E vemos como o mundo se degrada, rapidamente, entre telemóveis, redes sociais e inteligência artificial.

Não é possível (infelizmente?) fazer de conta que esse mundo não está aí, mas Ulisses ensina-nos que não temos de nos submeter de forma humilhante e degradante ao seu canto. Afinal, sabemos que elas são desenhadas para provocar dependência; sabemos que são feitas para estimular as nossas piores emoções; sabemos como os seus criadores aprenderam a competir pela nossa atenção e reconhecem que o seu principal adversário é o tempo em que estamos a dormir (o único em que não estamos “ligados”); sabemos como as crianças têm maiores dificuldades de aprendizagem, os adolescentes menor contacto social e os jovens menos relações físicas; sabemos como os mais velhos aprofundam a sua solidão nas sereias do século XXI; sabemos como o toque de um telemóvel nos mobiliza, fazendo-nos salivar como os cães de Pavlov; e sabemos como usar inteligência artificial cria a ilusão de que sabemos alguma coisa, quando, na verdade, embrutecemos a cada momento.

Mas não estamos condenados a isto. Nos últimos anos, a bibliografia sobre o assunto tem-se multiplicado com regras claras que podemos adotar para nos amarrarmos ao mastro, tendo a coragem, a força e a inteligência de nos dominar, em vez de sermos dominados. E isso significa recuperar aquela disciplina que nos torna livres, em vez de escravos.