A maior parte das vezes que passo pela Igreja do Santo Condestável encontro a porta fechada. Na semana passada estava aberta e entrei. Seria depois do meio-dia e estava praticamente vazia, com ar de que uma missa teria terminado há pouco. Estive apenas um instante, não mais de um minuto. Não era a primeira vez que entrava. O tecto é alto e branco, a luz muita e as representações com aquela mistura de modernismo e timidez que marcou o catolicismo europeu da segunda metade do Século XX. Pesquiso na internet e confirmo que a Igreja foi inaugurada em 1951, quando havia uma nova Lisboa a crescer além das suas costuras antigas.

Apesar de ser o proverbial protestante picuinhas, sempre pronto a apontar os excessos católicos do meu país, não resisto a entrar em todas as igrejas que posso. Fico com a ideia de que em Campo de Ourique os horários são menos dados a deambulações turísticas. O que não deixa de ser curioso, agora que bairros lisboetas como este parecem competir para ver qual é o mais atraente ao olhar estrangeiro. Dali segui para o mercado, do mercado para a Biblioteca do antigo Cinema Europa, e finalmente fui almoçar com o meu amigo Pedro aos Passarinhos. Foi uma bela volta.

Regressando à Igreja do Santo Condestável, reparei que no tecto havia uma macha de humidade que quase passava por arte sacra. Talvez o problema seja dos meus olhos iconoclastas. Levo uma grelha prévia tão crítica que qualquer acaso católico me sugere mais um excesso religioso. Não é justo, reconheço. Se olhar a questão de outra perspectiva, devia solidarizar-me pelo facto de até os templos católicos terem problemas de infiltrações. Afinal, não são apenas as comunidades evangélicas e outras minoritárias como elas que sofrem pelos excessos do Inverno. Em Portugal, nem o Papa escapa do pior da chuva.

Por falar em Papa, investi algum do meu tempo dos últimos dias entrando pelo documento “Mater Populi fidelis — Nota doutrinal sobre alguns títulos marianos referidos à cooperação de Maria na obra da Salvação”. Parei no ponto 45. Reconheçamos, e para exprimir isto do modo mais elegante que consigo, que a escrita do Vaticano tende a não ser a mais convidativa. Vou tentar abster-me de interpretar negativamente o facto, mas o certo é que o leitor que adentra em documentos assim tem mesmo de querer acabar. O mais fácil é desistir num texto que é torrencial na sua tecnicidade. Não resisto a confessar que Roma não facilita ser lida.

E essa é uma das curiosidades da vida de um pastor protestante num país católico. Ele lê o catolicismo com um empenho ausente da maioria católica. Esse gesto é revelador porque são os protestantes que exigem da sua fé uma relação fundamentada no texto. “Quem te manda pôres-te a ler essas coisas?”, já ouvi de bons amigos católicos. Fico com a ideia de que a fé deles faz-se com menos solavancos graças a essa poupança literária. Será que quando notas eclesiásticas destas são redigidas em Roma alguém lá está a pensar que haverá uns quantos protestantes que lerão cada vírgula com muita atenção? Talvez escrevam tão complicado para castigá-los.

O que direi do que já li e do que já li do que os outros já leram? Sugiro uma metáfora desengonçada com base na tal mancha de humidade no tecto da Igreja do Santo Condestável. Mantenho a impressão de que no ambiente católico tudo pode ser transubstanciado. O cachimbo de Magritte não é apenas um cachimbo, uma mancha pode virar sudário, uma prática evolui para doutrina, por aí fora. Ainda que o Papa Leão XIV tenha dito que não é boa ideia chamar Maria de co-redentora e eu tenha vontade de aplaudir, o que isso significa para os católicos é outra história e a regra de hoje pode transformar-se numa realidade muito diferente amanhã.

Um dia tive uma discussão vigorosa com o meu amigo João Miguel Tavares que me disse que os protestantes ficavam agarrados ao passado. O catolicismo admitia um progresso. Ele fez-me compreender isso mais nitidamente, é verdade. Pelo facto do católico equivaler mais a Igreja a Cristo, a Igreja pode ir ensinando como Cristo, oferecendo novas interpretações. Os protestantes, que separam mais a Igreja de Cristo, não praticam a mesma modalidade. Vivemos trancados nos textos, suspeitando da inteligência superior que o Século XXI possa alegar sobre os anteriores. Por um lado, tudo é mais estanque e, por outro, os criativos não se destacam tanto dos restantes.

Se tive olhos para a mancha de humidade da Igreja do Santo Condestável, vou mantê-los abertos para acabar a leitura do documento. Se se justificar, darei notícias.