Já muito se escreveu sobre a notícia da noite em Las Vegas, que envolve Cristiano Ronaldo e a norte-americana Kathryn Mayorga, na altura com 25 anos. O trabalho do Der Spiegel é uma investigação como infelizmente hoje temos poucas. Quem quer conhecer a verdade jornalística (a da justiça vai começar agora) pode e deve ler este texto em inglês ou este que é a tradução em português ou ainda esta sequência de um jornalista dessa publicação. Era por aí que todos devíamos começar, antes de emitir uma opinião. É uma investigação exemplar, difícil e corajosa, porque envolve uma pessoa com o poder que lhe dá o dinheiro, a popularidade e até o respeito pelo que conquistou a nível internacional com trabalho e persistência.

Depois do espanto que a reportagem naturalmente provocou, alguns de nós, em Portugal, enfrentou um violento choque. Não, não foi o choque da notícia. Foi o choque de descobrir que conhecíamos mal o país. Descobrimos que sobrevivem maneiras de pensar que julgávamos erradicadas. Já não valia a pena estar a debater e a tentar moderar os excessos desencadeados pelo movimento MeToo. O país estava afinal na pré-história, nem sequer na pré-história do feminismo.

A revelação daquela noite em Las Vegas mostrou-nos uma faceta desconhecida dos valores de alguns portugueses (eu, pelo menos, não conhecia). Estamos completamente enganados quando pensamos que vivemos num país em que a maioria – ou pelos menos aqueles que têm acesso aos jornais e às redes sociais – defende, com base em princípios, a igualdade entre homens e mulheres. Estamos completamente enganados se acreditamos que a maioria combate o abuso do poder de uma pessoa sobre outra pessoa, venha ele de quem vier, de onde vier e como vier. Estamos completamente enganados se consideramos que a maioria é contra a violação sexual, ponto final, sem considerandos.

Razão tem Nuno Garoupa, muitos anos a viver no estrangeiro, quando me disse numa entrevista ao jornal Eco (perdoem-me a primeira pessoa do singular) que o que mais o chocava em Portugal era a desigualdade de género. Na altura fiquei admirada com a avaliação machista que fez da sociedade portuguesa. Mais tarde Nuno Garoupa alertou-me para essa minha admiração quando partilhou a entrevista ao Expresso de Ricardo Reis, um outro economista também com uma longa carreira no estrangeiro.  Diz ali Ricardo Reis que, quando vem a Portugal, vê que as mulheres “têm de se defrontar com um enorme sexismo e com atitudes estranhas”. Como têm razão, como o caso de Ronaldo mostrou como nunca que viram o que quase ninguém via (eu, pelo menos).

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