Crimes Sexuais

Este país não é para mulheres /premium

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Em 2018 parece que já nada é possível. Nesta semana aprendi que consentir sexualmente é entrar num quarto com um homem (mesmo numa suite com ampla zona social) ou dançar com ele numa discoteca.

Tinha dezasseis anos. Fui sair com amigos para os santos populares em Lisboa. Eu e um rapaz com que namoriscava mais dois casais de namorados amigos comuns. No fim da noite fomos parar a um apartamento vazio dos meus pais, no prédio onde então morava, usado durante anos a fio por mim e pelos meus amigos para festas e passagens de ano.

Chegados, cada casal foi para a sua divisão. Ele era seis anos mais velho que eu, bastante parecido com o James Dean, uns fabulosos olhos verdes, tinha sido paraquedista (a loucura). Eu já tinha estado sozinha com ele em zonas de casas de amigos em comum – afinal é normal que quando as pessoas se estão a envolver estejam sozinhas. Mas naquela noite tudo avançou mais. Até que lhe disse que não queria ter sexo com ele.

O que aconteceu a seguir? O que devia sempre suceder nestes casos: ele parou. Depois daquela noite terminou comigo, fiquei de coração partido (eu de dezasseis anos, ele sósia do James Dean e paraquedista), mas isso não interessa nada, porque naquele momento definidor ele fez o que devia e foi decente.

Não sei como teria reagido se afinal se tivesse revelado um violador e me tivesse forçado a continuar. Não sei se teria feito barulho e chamado pelos meus amigos, se pela surpresa, pelo medo e pela vergonha teria ficado calada e, como tantas vítimas de violação contam, esperado que passasse depressa.

Porém sei que se ele se tivesse portado como um rato em vez de um homem, por cá dir-se-ia que a culpa tinha sido minha. Que eu me pus a jeito. Que se estava sozinha com ele não tinha que me queixar do que acontecia a seguir. Que tinha dito ‘não’ para lhe espicaçar o desejo, porque as mulheres querem tudo mesmo quando dizem não.

Henrique Monteiro diria que eu não sou ‘santa’. Aparentemente há quem queira voltar àquele bom tempo em que a liberdade de movimento das mulheres era censurada publicamente, os romances admitidos à população feminina só os que levavam ao casamento, e se mantinham as mulheres na ordem através da ameaça de lhes destruir a reputação de castidade. Se uma mulher aceitava estar sozinha na companhia de um homem que não seu marido ou seu familiar, as almas puras tratavam de socialmente denunciar e censurar.

Voltámos a isto. O mesmo é dizer que as mulheres que percam as ideias de uma vida social e profissional normal, porque isso inevitavelmente gera muitas situações em que um homem está sozinho com uma mulher. Voltem para casa, minhas amigas, que já se lançou o repto de andar a dizer publicamente que mulheres são santas e quais não são.

Reproduzo, claro, o que se tem dito e escrito a propósito do caso Ronaldo. (Refiro que não me dá nenhuma satisfação esta acusação caia em cima de Ronaldo, que tem qualidades admiráveis.) Ignora-se que Ronaldo respondeu a um questionário (aparentemente real) dos seus advogados reconhecendo que a mulher com que se envolveu em Las Vegas disse ‘não’ várias vezes, que pagou pelo silêncio, que o acordo, segundo os advogados, foi difícil, que a mulher que o acusou, novamente segundo os advogados, se notava mais preocupada em confrontar Ronaldo com o que havia feito do que com o dinheiro. Inventa-se que ela era prostituta (algo que nem os detetives de Ronaldo descobriram). Tudo para se entregar o país à onda da mais degradante misoginia.

Não precisávamos de descer à loucura e ao ridículo. Como desceu uma pessoa na RTP, Maria do Céu Santo, médica (!) que declarou, ao minuto 40, uma mulher com decote e racha como uma assediadora de homens, que coitados até podem já não ter sexo há muito tempo (presume-se que seja obrigação das mulheres saberem desses pormenores da vida alheia). Temos, portanto, na televisão pública, pago com os nossos impostos, também esta misoginia mascarada de científica.

No meio de tudo isto fui lendo mulheres dando conta, nas redes sociais, dos vários momentos da vida em que estiveram sozinhas com homens que não conheciam muito bem donde não resultaram nem sexo nem violações. Numa destas histórias um grupo de raparigas terminou numa vivenda em Vilamoura com jogadores de futebol (incluindo um do FCP e outro do Marítimo) que tinha conhecido nessa noite; nada sucedeu de voluntário ou de forçado.

Ora esta liberdade social das mulheres está sob ataque. Em 2018 parece que já nada é possível. Nesta semana aprendi que consentir sexualmente – em vez de uma liberdade que nunca abandona um ser humano – é entrar num quarto com um homem (mesmo numa suite com ampla zona social) ou dançar com ele numa discoteca. Qualquer dia, como no islão, é sair de casa sem um homem da família ou não usar véu. O mais grave do palrar misógino é que colocam de facto em perigo as mulheres que, como é normal na vida, têm momentos de interação a sós com homens sem fins sexuais. Se afinal toda a gente afirma que é normal violar mulheres quando se está sozinho com elas, por que haverá um homem de se conter para não forçar ninguém?

Termino relatando uma cena que assisti há uns anos com Luís Figo. Estava num hotel em Madrid e a equipa do Real Madrid hospedava-se lá também. Uma vez qualquer todos os jogadores saíram para o autocarro do Real Madrid, e uma rapariga pôs-se à frente de Figo pedindo-lhe um autógrafo. Claramente a rapariga estava derretida, contendo-se para não lhe tocar. Luís Figo não sorriu, não meteu conversa, não pediu números de telefone, julgo que nem olhou para ela. Assinou e foi-se embora.

Perante este comportamento de Figo, presumo que o magote do ‘ela pôs-se a jeito’, com a sua cínica visão do mundo, esteja a ponderar que, afinal, foi Ronaldo que se ‘pôs a jeito’ da chantagem de que o dizem vítima. Ou o ‘pôr-se a jeito’ é só para usar contra mulheres?

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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