Crimes Sexuais

Ronaldo acima do bem e do mal /premium

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O que é detestável no #MeToo é exactamente o mesmo vício que é detestável na rejeição liminar das acusações de abusos sexuais que ídolos nacionais são alvo: a indiferença pelos factos e pela verdade.

José Peseiro, treinador do Sporting, afirmou acerca da acusação de violação que paira sobre Cristiano Ronaldo que “sempre que temos hipótese de martelar alguém no nosso país, aproveitamos”, associando a cobertura do caso em Portugal à inveja de quem tem sucesso lá fora. Sobre o mesmo assunto, o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa veio garantir que não muda “de ideias quanto ao papel desportivo e nacional que alguém que hoje está envolvido na justiça teve na vida do nosso país”. Por fim, o primeiro-ministro António Costa relembrou que Cristiano Ronaldo “muito tem honrado e prestigiado Portugal”. Estas reacções cometem um mesmo erro grave que mancha quem as pronunciou e as instituições que representam: respondem a uma acusação de violação com o reconhecimento profissional e social do atleta, misturando os assuntos e visando ilibar indirectamente Cristiano Ronaldo – como quem diz “uma pessoa assim não pode ser culpada”. Mas pode.

Não sou mais do que os outros – também eu tenho admiração pelo percurso profissional de Ronaldo, e também eu não sei se Ronaldo é culpado ou inocente da acusação de violação. O que sei é que o seu profissionalismo, as suas vitórias desportivas, os seus prémios individuais e o seu inestimável contributo para o prestígio nacional são completamente irrelevantes no processo de averiguação da veracidade das acusações a Ronaldo – não o tornam mais culpado nem mais inocente. E é particularmente difícil de aceitar que quem representa o Estado português opte por esquecer esta evidência face à popularidade do acusado. Até porque reconhecer essa evidência seria serviço público num país como Portugal que, goste-se ou não de o admitir, ainda é um país estruturalmente machista e primário nos assuntos sexuais e de respeito pelas mulheres.

Se tem dúvidas, ligue a televisão ou consulte as redes sociais de Cristiano Ronaldo, onde milhares deixaram mensagens de apoio ao bom estilo do “ela estava a pedi-las”. Sim, há uma fé popular na inocência de Cristiano Ronaldo que se explica pela idolatria, rejeitando sequer a hipótese de culpa e um olhar aos factos. Mas também há uma grande parte do debate que se faz meramente através do preconceito, sem qualquer respeito pela mulher queixosa, a quem à partida tantos suspenderam os direitos – a começar pelo mais básico de dizer ‘não’. Se este é um triste estado geral, pior fica quando as mais altas figuras do desporto e do Estado contribuem para este diluir de responsabilidades.

Um ano depois, os intensos debates provocados pelo movimento #MeToo nos EUA chegaram a Portugal, por via da sua maior estrela internacional. É bem a tempo de sublinhar que estes movimentos têm um lado positivo (a denúncia de abusos) e um lado negro e perigoso – a tendência para que este tipo de acusações de abuso sexual seja julgado em tribunais populares, onde se estabelece a culpa ou a inocência dos visados em função do seu estatuto social (o que aliás permite a instrumentalização destas acusações). Para cair em desgraça social não pode bastar uma acusação, da mesma forma que uma acusação não deve ser desprezada para salvaguardar o prestígio do visado. Ou seja, o que é detestável na fúria persecutória do #MeToo é exactamente o mesmo vício que é detestável na rejeição liminar das acusações de abusos sexuais que ídolos nacionais são alvo: a indiferença pelos factos e pela verdade. É essa indiferença que tem de ser combatida, reforçando a legitimidade da Justiça e do Estado de Direito. E são declarações como as de Marcelo Rebelo de Sousa que prejudicam esse combate.

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