Tantos de nós têm de parar para contar de cada vez que lhe perguntam a idade dos pais. Que idade tem o teu?, que idade tem a tua?, pergunta o interlocutor, muitas vezes para comparar histórias e trocar cromos sobre o ponto de situação e idiossincrasias dos seus próprios velhotes, quando estamos embalados a contar alguma episódio deles, uma grande coisa antiga, uma pequena coisa presente. E, subitamente, travamos e passamos ao modo de cálculo, às vezes com a ajuda dos dedos: “ora bem, nasceu em 1949, nasceu em 1952, portanto, isso dá…”
Como é possível que não saibamos a idade daqueles que estarão sempre no restritíssimo núcleo das pessoas mais importantes da nossa vida? Se sabemos a idade dos nossos amigos, dos nossos filhos – até do nosso cão e do gato, irra. E ainda por cima, eles sabem sempre a nossa, eles que já têm a cabeça velha e cansada, que já tantas vezes não se lembram bem do nome ou do número de nada. “O meu Zé Alberto tem 27”, “A minha Natália está com 52”, dizem, com o mesmo acerto protector de quando o Zé Alberto e a Natália tinham 5 ou 11 anos.
Vamos diluindo o sentimento de culpa na percepção de que é problema generalizado, que muita gente não tem na ponta da língua a resposta a uma das perguntas mais fáceis que lhe podiam ser feitas, e que isso nada significa acerca da qualidade do nosso amor, nem sequer do debilitado estado da nossa memória, a transbordar de informação inútil sobre política, futebol e música indie. “Eu sei lá”, dizia um amigo há dias, “eles fazem anos todos os anos!”
E, de súbito, fez-se luz: nunca sabemos quantos anos têm os nossos pais porque, para nós, eles têm a mesma idade desde que nascemos. Uma idade indeterminável e distante, a idade que nunca teremos, nunca ultrapassaremos – que importa o que diga a matemática? É biologicamente impossível que, algum dia, eu venha a ser mais velho do que o meu pai. Os pais têm a idade dos pais, a idade de ser maior, a idade do que nos precede, do tempo anterior, a idade do mundo.
Sei, de fazer as contas, que conheci os meus pais ainda na casa dos 30 anos; depois, na dos 40; que saí de casa ainda não tinham eles 50; que os visitei, muitas vezes, nos 60; que, hoje, quando me visitam eles com um pouco mais de dificuldade a sair do carro ou subir as escadas, navegam a meio da oitava década das suas vidas. Mas esse é um pormenor circunstancial, momentâneo – anos, de facto, eles fazem todos os anos –; a idade que têm é que é a mesma desde o princípio. A serena e soberana idade do Cosmos que nos recebeu quando chegámos ao mundo, levando-nos já 20 ou 30 anos de avanço de imagens que só vimos pelos olhos deles, ouvimos pelas suas bocas, 20 ou 30 ou 40 anos de carreira na vida, de descobertas e experiência, nos amores e nas dores. A idade do que ensina, do que mostra, do que leva, do que embala, do que alimenta, do que protege, do que corrige, do que trata, do que cuida, do que gere, do que pondera, do que explica, do que esclarece, do que guia, do que veste, do que aquece, do que dá, também do que proíbe, do que zela, do que vela, do que guarda, do que garante, do que vai à frente, sempre à frente, para abrir caminho.
Que interessa quantos anos fazem este ano? Congratulamo-los pelos 76, mas parece que é a mesma coisa de disséssemos 57 ou 82. Não ficamos mais longe nem mais perto, não estão mais novos nem mais velhos, nem mais nem menos maduros. São, como sempre foram, absolutos. Inteiros. Os que me falaram de Salazar e do 25 de Abril, de Kennedy e de Sá Carneiro, do terramoto de 1980 e da telescola, das cartas trocadas na Família Cristã e da loucura dos Beatles, de quando Nixon e Pompidou foram aos Açores e Simone perdeu a voz, que ensinaram a escrever os pês e os tês e todas as outras letras, a ver um eclipse através de uma radiografia, a chorar e a não chorar, a respeitar e exigir respeito, a rezar e atar as botas.
A idade dum pai é um enigma matemático. Não é assunto para a aritmética; quando muito, para a álgebra. Mas, lá em casa, fomos todos sempre mais dados às letras, se agora, por comodidade, me quiser esquecer que não, que eles vieram dum tempo em que era mesmo preciso saber de tudo, antes do luxo da especialização, um tempo de se prepararem não para o que quisessem ser, mas para o que a vida fosse. Um mundo onde ecoam as vozes dos pais deles, meus avós, e dos pais dos pais dos pais deles também.
Um pai não faz bem anos. Vai à frente para continuarmos a saber o caminho. Parabéns, pai.