1 Ponto prévio: André Ventura merece-me o mesmo grau de rejeição que Jerónimo Sousa e Catarina Martins. Se Ventura quer eliminar conquistas civilizacionais como a rejeição da prisão perpétua, cria um anátema xenófobo sobre toda uma comunidade (os ciganos) e propõe a castração de pedófilos (uma proposta repugnante), o PCP de Jerónimo continua a defender ditaduras sanguinárias como as da Coreia do Norte, Venezuela e Cuba e o Bloco de Esquerda tem um ódio visceral à propriedade privada e quer nacionalizar a banca e os setores estratégicos da economia para obter o mesmo resultado bem conhecido por venezuelanos, cubanos e norte-coreanos: ausência de liberdade e pobreza.

Acresce que o PCP defende há longos anos a saída de Portugal da União Europeia e do Euro, enquanto que o Bloco de Esquerda fica-se pela defesa do fim da moeda única. A óbvia, automática e fortíssima desvalorizaçao das poupanças dos portugueses que tais medidas disruptivas provocariam não é coisa que preocupe comunistas e bloquistas. Em nome da concretização de um ideal, o isolamento, a liberdade e a riqueza de uma comunidade é perfeitamente sacrificável — PCP e BE pensaram assim no passado, continuam a pensar assim no presente e pensarão sempre assim.

A minha conclusão é simples: as idiotices de Ventura são tão perigosas como as consequências da eventual aplicação de um programa de Governo do PCP e do Bloco de Esquerda.

2 Vem isto a propósito da tese da “cerca sanitária” em redor do Chega que a esquerda moderada do PS e a extrema-esquerda do PCP e do Bloco querem impor ao PSD e ao CDS nos Açores. Com uma alegada superioridade moral bem presente no seu discurso, António Costa acusou Rui Rio de ultrapassar “a linha vermelha da direita democrática” ao celebrar um acordo com a “extrema-direita xenófoba” (o Chega) para viabilizar um novo Governo nos Açores composto por PSD, CDS e PPM. Daí que Rio, dizia Costa, tivesse de se explicar ao país.

Confesso-vos que fiquei com pena que António Costa não se tenha lembrado da “linha vermelha” da “extrema-direita xenófoba” quando em julho foi a Budapeste negociar com Viktor Orbán. É que se Rio ultrapassou uma linha vermelha, então Costa saltou feliz e contente por cima da mesma linha sem qualquer problema de consciência para negociar com a principal cara da direita radical autoritária que professa abertamente o anti-semitismo para demonizar o filantropo judeu George Soros (só porque o empresário pensa de forma diferente da de Orbán), que considera o italiano Matteo Salvini como um “herói” pelas suas políticas anti-imigração, que considera os imigrantes “como bombas e ameaças biológicas”, que destruiu qualquer ideia de separação de poderes, controlando o poder judicial a seu gosto, e mandou fechar vários órgãos de comunicação social que ousaram escrutinar o seu Governo

O mais engraçado é que António Costa foi negociar com Orbán o apoio da Hungria para a obtenção de mais fundos europeus. Ou seja, como tinha o interesse político de conseguir apoio para ter mais euros de Bruxelas — a tal “orgia financeira” como Durão Barroso classificou os fundos da reconstrução europeia que aí vêm —, o tuga Costa, espertalhão, fechou os olhos à xenofobia e ao autoritarismo praticado pelo regime húngaro aos olhos de todos e, apesar de todas contradições, ainda apoiou uma ideia central de Orbán (e da Lei e Ordem na Polónia): não fazer depender a atribuição de fundos europeus do respeito pelas regras do Estado de Direito.

Nada mau para o habilidoso Costa. Que continua a insistir que é um “exagero” classificar a Hungria e a Polónia como “autocracias” quando estes dois países se arriscam a sanções por um risco claro de violação grave dos valores em que se baseia a União Europeia — e o primeiro-ministro húngaro governa por decreto por um período indefinido do Estado de Emergência e sem necessitar de ter a aprovação do Parlamento. Com sorte, Orbán ainda vai apoiar Costa para um cargo europeu.

Com a honrosa exceção de Rui Tavares, onde estava a generalidade da esquerda progressista quando Costa se deixou fotografar ao lado de Orbán com o Danúbio como pano de fundo? Os cronistas com adjetivos energéticos e coloridos sobre tudo e sobre nada, particularmente aqueles que gostam de fazer cara de mau na televisão contra a “extrema-direita xenófoba” do Chega, ficaram bem caladinhos. E nem o Público escreveu um editorial quando aquele foi o dia em que António Costa (e não Rui Rio) “normalizou” Orbán.

3 Não nos iludamos com o repto bem pensante de António Costa dirigido a Rui Rio. O objetivo é bem claro: promover uma espécie de ilegalização informal do Chega para perpeturar os socialistas no poder, fazendo com que o PS seja o centro do sistema político. Com o PSD e o CDS ‘proibidos’ de se aliarem a um partido que lhes rouba eleitorado e que já vale entre os 5% e os 7% nas sondagens que podem valer um grupo parlamentar até 10 deputados, o PS seria sempre o fiel da balança do poder. Ou se aliava aos camaradas do PCP e do Bloco ou se juntava aos pobres de espírito do PSD e ao CDS.

E, já agora, sejamos minimamente honestos, comparando o que é possível comparar. Se António Costa aceitou coligar-se com o PCP e o Bloco em nome de um denominador mínimo comum político (a alegada reposição dos salários dos trabalhadores), deixando claro que nunca o PS aceitaria as ideias dos comunistas e dos bloquistas sobre a União Europeia, o Euro e a NATO, porque razão o PSD e o CDS não têm o mesmo direito em relação ao Chega?

Se o PS nunca deixou que aquelas perigosas ideias entrassem no seu programa político, o PSD e o CDS farão exatamente o mesmo com as ideias do Chega que chocam com os valores da nossa democracia. Ou pensarão as esquerdas que os social-democratas ou democratas-cristãos lhes farão o favor de passarem a defender ideias xenófobas ou a castração de pedófilos?

4 O que esta narrativa da “cerca sanitária” também prova é o receio que as esquerdas têm de um verdadeiro pluralismo — um receio que é histórico, como o preâmbulo da Constituição faz questão de enfatizar com o seu “abrir caminho para uma sociedade socialista”. Como se o radicalismo do PCP e do Bloco de Esquerda não pudesse ter um antagonista direto e existisse um direito histórico a uma democracia desequilibrada em que a extrema-esquerda é dona da rua e tem a exclusividade do protesto.

Aliás, o fenómeno do Chega é uma resposta direta da direita ao radicalismo e ao extremismo do PCP e do Bloco de Esquerda. É uma resposta eleitoral ao PCP, visto que está a seduzir eleitores comunistas no Alentejo e na Grande Lisboa. E é uma resposta ideológica à política doutrinária do Bloco que mais tarde ou mais cedo vai começar a ter expressão no eleitorado mais jovem.

Lamento mas os cerca de 68 mil portugueses que votaram em André Ventura em 2019 (e que hoje deverão ter-se multiplicado por 5 ou 7) não são racistas nem xenófobos. São eleitores profundamente insatisfeitos que fazem do voto no Chega um protesto contra várias situações:

  • a estagnação económica em que estamos mergulhados há mais de 20 anos;
  • a forma com o Estado (em particular a Justiça) muitas vezes não funciona;
  • e o estado do PSD e do CDS.

Tudo estes fatores fazem com que André Ventura tenha, neste momento, relevância política. Quer as esquerdas gostem ou não gostem.

A solução para o Chega passar a ter menos relevância não passa pela imposição de cercas sanitárias políticas — passa, sim, pela única solução possível em democracia: menos votos do que todos os outros partidos.